Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault
Apresentação
A filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento de nosso pensamento por meio da linguagem.
Wittgenstein, Investigações filosóficas, §109
Talvez a linguagem seja uma dessas coisas, como diz Wittgenstein (Investigações filosóficas, §89), que por nos serem mais familiares são as mais difíceis de entender. Por isso mesmo, desde o início da filosofia, na Grécia Antiga, a linguagem tem sido um de seus temas centrais.
Todos nós usamos a linguagem, sabemos usá-la, aprendemos a linguagem espontaneamente. Mesmo
os analfabetos ou aqueles que têm pouca cultura ou escolaridade falam, se comunicam, são capazes de
usar a linguagem em seu dia a dia sem maiores dificuldades. E, contudo, se perguntarmos a qualquer
pessoa (inclusive aos filósofos, aos linguistas e aos teóricos da linguagem em geral) o que é a linguagem,
veremos que não há uma resposta simples. Essa capacidade quase espontânea, ou pode-se dizer natural,
de usar a linguagem é o ponto de partida da tese de alguns filósofos e linguistas segundo a qual a
linguagem é inata ao ser humano, ou seja, seus elementos essenciais, que se desenvolvem posteriormente,
estão presentes em nossa própria natureza. Trata-se do que o psicólogo e teórico da linguagem
canadense, hoje professor em Harvard, Steve Pinker chamou de “o instinto da linguagem” (em seu famoso
livro The Language Instinct, de 1994). Encontramos essa posição representada contemporaneamente
também pelo linguista norte-americano Noam Chomsky, que discutiremos adiante, sem dúvida um dos
maiores teóricos da linguagem de nossos dias.
Há dois grandes conjuntos de problemas em torno dos quais se desenvolve a discussão filosófica e
teórica em geral sobre a linguagem. O primeiro diz respeito à relação entre a linguagem e a mente, ou o
pensamento. A linguagem é sempre uma expressão de um pensamento, previamente constituído e que se
manifesta, se explicita linguisticamente? Será, por sua vez, a linguagem uma forma de compreender o
pensamento, de ter acesso a ele? Steve Pinker, que mencionamos acima, deu a seu livro mais recente,
publicado em 2007, The Stuff of Thought (que podemos traduzir como “A substância do pensamento”), o
subtítulo de “language as a window into human nature”, ou seja, “a linguagem como uma janela para a
natureza humana”, porque segundo ele só os seres humanos têm linguagem. Nesse tipo de concepção,
examina-se sobretudo o sujeito linguístico, ou seja, aquele cujo pensamento se expressa pela linguagem.
O segundo conjunto de problemas consiste em considerar a linguagem enquanto usada na
comunicação. A linguagem é sempre utilizada para se fazer algo, em um sentido amplo, para nos
comunicarmos com outros indivíduos que também compreendem e usam a linguagem. O foco desse tipo
de investigação não está tanto no sujeito linguístico, naquele que pensa e usa a linguagem para expressar
seus pensamentos, mas na prática da linguagem como comunicação, isto é, na interação entre os seus
usuários. A linguagem é assim, segundo o filósofo alemão contemporâneo Jürgen Habermas,
intersubjetiva, ou seja, usada como forma de interação humana; Habermas tem um livro importante sobre
esse tema intitulado Teoria da ação comunicativa, publicado em 1981.
Grande parte dos filósofos e teóricos da linguagem que examinaremos a seguir desenvolveu seu
pensamento em torno dessas questões. A pergunta de Platão no Crátilo sobre a contribuição do
significado das palavras para o conhecimento das coisas que denominam marcou profundamente a
tradição. Como Platão responde negativamente à pergunta, uma vez que a palavra, enquanto signo
linguístico, é convencional, o estudo da linguagem não teve na tradição antiga uma importância central
para a filosofia. Aristóteles, por sua vez, na passagem do Tratado da interpretação que comentaremos mais adiante, apresenta a relação entre palavra e coisa como intermediada por uma entidade mental (as
“afecções da alma”), como uma forma de superação da arbitrariedade ou convencionalidade do signo
apontada por Platão. Embora os signos sejam arbitrários, as afecções da alma a que remetem não o são,
uma vez que derivam do conhecimento das coisas. O significado do signo passa a ser, assim, seu
conteúdo mental. A tradição filosófica, quando tratou de questões de significado, procurou elaborar essa
solução aristotélica, desenvolvendo teorias sobre a natureza dessas afecções mentais, o que deu origem
às noções de conceito, ideia, representação mental e outras. Locke e a escola de Port-Royal representam
alguns dos mais importantes tratamentos teóricos dessa questão.
Mas foi sobretudo no período contemporâneo que a filosofia da linguagem adquiriu uma importância
central, com a assim chamada “virada linguística”, ou linguistic turn, uma expressão usada pela primeira
vez no início do século XX pelo filósofo do Círculo de Viena Gustav Bergmann. A expressão foi
retomada por Richard Rorty, que a consagrou, em uma coletânea intitulada precisamente The Linguistic
Turn, de 1967.
No pensamento contemporâneo, com a “virada linguística” de que Rorty trata, temos uma crítica à
tradição mentalista, por esta pressupor a noção de mente como um espaço interior e privado. Algumas
das principais teorias desenvolvidas nesse contexto buscam uma forma de tratamento da linguagem
enquanto estrutura lógica ou sistema de signos com regras internas, independentes do sujeito linguístico,
tal como encontramos, por exemplo, embora em perspectivas muito diferentes, tanto em Frege quanto em
Saussure. Por outro lado, a visão da linguagem como cultural, e portanto determinada histórica e
socialmente, começa também a se desenvolver nesse período como alternativa ao mentalismo e ao
subjetivismo. Assim, o historicismo de Humboldt será marcante em pensadores como Edward Sapir e
Benjamin Lee Whorf, os autores da assim chamada hipótese Sapir-Whorf, segundo a qual a linguagem é
indissociável da cultura do povo que a usa.
Temos em seguida uma “virada pragmática” dentro da “virada linguística”, e filósofos como
Wittgenstein em suas Investigações filosóficas e Austin com os atos de fala valorizam sobretudo a
linguagem enquanto ação e enquanto constituidora do significado da experiência humana, sem privilegiar
o conhecimento como forma por excelência de relação com o real, tal como encontramos em Platão.
Em uma obra de título provocador, “Por que a linguagem importa para a filosofia?”, o filósofo
inglês Ian Hacking nos mostra que não há uma, mas várias respostas a essa questão. Algumas das
principais serão examinadas nos capítulos que se seguem.
D.M.