Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 13 de 58

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Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Sobre a doutrina cristã

quando encontrei a coisa de que era sinal, o que aprendi não pelo significado dela, mas pela visão direta.

Portanto, é mais pelo conhecimento da coisa que se aprende o sinal do que se aprende a coisa após ter o

sinal. … Nesse sinal [caput, cabeça] há duas coisas: o som e o significado; ora, o som não foi

certamente percebido enquanto sinal de uma coisa, mas como simples sonoridade no ouvido; o

significado, por sua vez, foi apreendido pela visão da coisa significada. Como o apontar do dedo não

pode significar senão aquilo para o que o dedo está apontando e o dedo não está apontando para o sinal,

mas para aquela parte do corpo que se chama cabeça [caput], com esse gesto não posso conhecer a

coisa, que já conhecia, nem o sinal para o que o dedo estava apontando. …

Se eu no momento em que as vejo por acaso fosse avisado pelas palavras “Eis as coifas” [Ecce

sarabellae], então aprenderia algo que não sabia, não através das palavras proferidas, mas pela visão da

própria coisa, pela qual conheci e gravei também o valor do nome.

 

Cap. XI: Não aprendemos através das palavras que repercutem exteriormente, mas da verdade que ensina interiormente

 

AGOSTINHO: Até este ponto chega, pois, o valor das palavras, isso porque desejo atribuir-lhes muito valor

dizendo que tão somente nos incitam a buscar as coisas, sem porém mostrá-las para nosso conhecimento.

… Com palavras não aprendemos senão palavras, propriamente o som e o ruído das palavras, porque se

o que não é sinal também não pode ser palavra, não sei tampouco como pode ser palavra aquilo que ouço

proferido como palavra antes de lhe conhecer o significado. Só após o conhecimento das coisas se

alcança o conhecimento completo das palavras; mas, ao contrário, ouvindo apenas as palavras, não

aprendemos sequer elas próprias. … No que se refere a tudo que compreendemos, não o fazemos por

meio da voz de quem fala, que apenas soa exteriormente, mas da verdade que em nosso interior preside à

própria mente, levados talvez pelas palavras a consultá-la. Cristo é aquele que é consultado e que ensina

verdadeiramente, e Cristo habita, como dissemos, o homem interior.

 

Cap. XII: Cristo é a verdade que ensina em nosso interior

 

AGOSTINHO: Quando se trata daquilo que percebemos por nossa mente, isto é, por meio do intelecto e da

razão, nos referimos ainda a coisas que temos presentes na luz interior da verdade que ilumina o homem

interior, mas mesmo nesse caso quem nos ouve conhece o que dizemos por meio de sua própria visão, e

não através das palavras que proferimos, desde que ele também possa ver por si a mesma coisa através

de olhos interiores e simples. Portanto, nem mesmo a este que vê coisas verdadeiras ensino algo ao

dizer-lhe a verdade, porque aprende não através de minhas palavras, mas das próprias coisas que Deus a

 

ele revela interiormente. ”

 

SOBRE A DOUTRINA CRISTÃ

A natureza do signo e o problema da interpretação

 

Esse texto, iniciado em 397 e concluído por volta de 427, é um dos mais importantes e influentes de Santo Agostinho, inclusive por sua

defesa da aproximação entre a filosofia grega e o cristianismo. Na passagem que se segue, temos uma definição da noção de signo

(signum, aqui traduzido por “sinal”) possivelmente inspirada no estoicismo grego. Retomando a definição inicial no Capítulo I, Santo

Agostinho caracteriza o signo como tudo aquilo que serve para indicar outra coisa; assim, algo é um signo não por sua natureza

intrínseca, mas por sua função. Os sinais naturais não dependem do ser humano, por exemplo a fumaça produzida naturalmente pelo

fogo, mas a fumaça é sinal quando a interpretamos como indicando a presença do fogo.