Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault
Sobre a doutrina cristã
quando encontrei a coisa de que era sinal, o que aprendi não pelo significado dela, mas pela visão direta.
Portanto, é mais pelo conhecimento da coisa que se aprende o sinal do que se aprende a coisa após ter o
sinal. … Nesse sinal [caput, cabeça] há duas coisas: o som e o significado; ora, o som não foi
certamente percebido enquanto sinal de uma coisa, mas como simples sonoridade no ouvido; o
significado, por sua vez, foi apreendido pela visão da coisa significada. Como o apontar do dedo não
pode significar senão aquilo para o que o dedo está apontando e o dedo não está apontando para o sinal,
mas para aquela parte do corpo que se chama cabeça [caput], com esse gesto não posso conhecer a
coisa, que já conhecia, nem o sinal para o que o dedo estava apontando. …
Se eu no momento em que as vejo por acaso fosse avisado pelas palavras “Eis as coifas” [Ecce
sarabellae], então aprenderia algo que não sabia, não através das palavras proferidas, mas pela visão da
própria coisa, pela qual conheci e gravei também o valor do nome.
Cap. XI: Não aprendemos através das palavras que repercutem exteriormente, mas da verdade que ensina interiormente
AGOSTINHO: Até este ponto chega, pois, o valor das palavras, isso porque desejo atribuir-lhes muito valor
dizendo que tão somente nos incitam a buscar as coisas, sem porém mostrá-las para nosso conhecimento.
… Com palavras não aprendemos senão palavras, propriamente o som e o ruído das palavras, porque se
o que não é sinal também não pode ser palavra, não sei tampouco como pode ser palavra aquilo que ouço
proferido como palavra antes de lhe conhecer o significado. Só após o conhecimento das coisas se
alcança o conhecimento completo das palavras; mas, ao contrário, ouvindo apenas as palavras, não
aprendemos sequer elas próprias. … No que se refere a tudo que compreendemos, não o fazemos por
meio da voz de quem fala, que apenas soa exteriormente, mas da verdade que em nosso interior preside à
própria mente, levados talvez pelas palavras a consultá-la. Cristo é aquele que é consultado e que ensina
verdadeiramente, e Cristo habita, como dissemos, o homem interior.
Cap. XII: Cristo é a verdade que ensina em nosso interior
AGOSTINHO: Quando se trata daquilo que percebemos por nossa mente, isto é, por meio do intelecto e da
razão, nos referimos ainda a coisas que temos presentes na luz interior da verdade que ilumina o homem
interior, mas mesmo nesse caso quem nos ouve conhece o que dizemos por meio de sua própria visão, e
não através das palavras que proferimos, desde que ele também possa ver por si a mesma coisa através
de olhos interiores e simples. Portanto, nem mesmo a este que vê coisas verdadeiras ensino algo ao
dizer-lhe a verdade, porque aprende não através de minhas palavras, mas das próprias coisas que Deus a
ele revela interiormente. ”
SOBRE A DOUTRINA CRISTÃ
A natureza do signo e o problema da interpretação
Esse texto, iniciado em 397 e concluído por volta de 427, é um dos mais importantes e influentes de Santo Agostinho, inclusive por sua
defesa da aproximação entre a filosofia grega e o cristianismo. Na passagem que se segue, temos uma definição da noção de signo
(signum, aqui traduzido por “sinal”) possivelmente inspirada no estoicismo grego. Retomando a definição inicial no Capítulo I, Santo
Agostinho caracteriza o signo como tudo aquilo que serve para indicar outra coisa; assim, algo é um signo não por sua natureza
intrínseca, mas por sua função. Os sinais naturais não dependem do ser humano, por exemplo a fumaça produzida naturalmente pelo
fogo, mas a fumaça é sinal quando a interpretamos como indicando a presença do fogo.