Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault
Russell
Bertrand Russell (1872-1970) foi um dos filósofos mais prolíficos do pensamento contemporâneo. Sua obra teve várias fases, desde uma importante contribuição à lógica e à filosofia da matemática, passando pela filosofia da linguagem e a questão da ciência, até seus escritos políticos, pedagógicos e sua militância pelo pacifismo, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial. Nascido no País de Gales, Russell pertencia à aristocracia inglesa, foi professor na Universidade de Cambridge e ganhou em 1950 o Prêmio Nobel de Literatura. Uma de suas mais importantes e influentes contribuições à filosofia da linguagem e à semântica consistiu na teoria das descrições, que formulou em seu artigo “Da denotação” (“On Denoting”, 1905) e que veio a ser considerada um dos paradigmas de análise na tradição da filosofia analítica.
A teoria das descrições parte da concepção de que a forma gramatical das sentenças não representa sua forma lógica, a qual deve ser
revelada ou explicitada submetendo-se as sentenças a uma análise lógica. Descrições definidas são expressões que, apesar de se assemelharem a nomes próprios, designando indivíduos, não são realmente nomes próprios. Através do método de análise, sentenças que contêm descrições definidas podem ser reduzidas a sentenças em que essas descrições não mais ocorrem. Porém, por que seria necessário supor a eliminação das descrições definidas? O problema surge quando consideramos expressões que não possuem uma referência ou denotação. As sentenças que contêm essas expressões aparentemente violam o princípio lógico do terceiro excluído, que estabelece que uma sentença só pode ser verdadeira ou falsa, não havendo uma terceira possibilidade. Ora, essas sentenças, por não se referirem a nenhum objeto existente, não seriam nem verdadeiras, nem falsas. O exemplo clássico é a análise a que Russell submete a sentença S “O atual rei da França é careca”. Uma vez que não existe um rei da França, a sentença não pode ser considerada verdadeira. Porém, tampouco é falsa, pois não podemos dizer que o atual rei da França não é careca. Também não podemos considerá-la sem sentido, uma vez que pode perfeitamente ser compreendida. A análise lógica virá então para resolver esse impasse e o problema ontológico da existência de entidades correspondentes às descrições definidas. Se submetermos essa sentença à análise, temos como conclusão que na verdade S engloba três outras sentenças, a saber:
S1) Existe um objeto x tal que x tem a propriedade P (ser o atual rei da França).
S2) Não existe um objeto y≠x tal que y tem a propriedade P.
S3) x tem a propriedade Q (ser careca).
A eliminação da expressão descritiva se dá ao se traduzir a sentença na qual ela ocorre em uma
sentença declarativa existencial (S1), em que algo tem a propriedade contida na descrição. Ora, vemos
assim imediatamente onde se encontra o problema. A sentença S1 é falsa, consequentemente S3 também o
será, já que S3 supõe S1.
Uma das consequências do método de análise encontrado na teoria das descrições é que apenas objetos existentes podem ter
propriedades. A existência não é, por sua vez, um predicado, uma propriedade, mas um operador lógico. Portanto, os predicados supõem a existência de um objeto do qual possam ser predicados. Só posso afirmar uma qualidade de algo que existe, e a existência não é ela própria uma qualidade, mas um pressuposto para que algo tenha qualidades.
O método de análise resolve, assim, o problema da aparente transgressão do princípio do terceiro excluído. Todas as três sentenças em
que S se decompõe têm valores de verdade determinados. Portanto, através da análise lógica da linguagem podem-se encontrar os elementos que constituem as situações expressas na linguagem. A função da análise lógica da linguagem é determinar os componentes últimos que constituem um fato na realidade. Logo, ela supõe um isomorfismo entre a lógica e a realidade, a sentença e o fato, através da correspondência entre os elementos de um e de outro. Esse é o seu pressuposto ontológico básico.
A concepção de análise formulada por Russell é, portanto, a de um método de decomposição da sentença através do qual os elementos
que a compõem são identificados, estabelecendo-se a relação desses com os elementos correspondentes em um fato no real, descrito pela sentença. A análise revela, assim, a verdadeira forma lógica da sentença, indicando como suas partes se articulam (no caso das sentenças S1, S2 e S3) para formar o todo (a sentença S). Isso significa que o método de análise é também um procedimento de tradução de uma linguagem menos perfeita (a linguagem comum) – em que a forma gramatical oculta a forma lógica (a estrutura comum à sentença e ao fato) – para a linguagem lógica, que exibe a forma lógica de modo direto e explícito, dissipando possíveis dúvidas e mal-entendidos. Esse método supõe a existência de uma linguagem lógica em que a relação com a realidade possa ser expressa de maneira mais clara e correta, evitando equívocos e confusões. Inclui-se também no projeto fundacionalista, na medida em que a análise lógica fornece critérios para a justificação da determinação da relação verdadeira, correta, entre a linguagem e a realidade – contribuindo, assim, para a fundamentação da ciência e para a eliminação de problemas típicos da metafísica especulativa, como a existência do não ser ou do nada.
Com efeito, Russell mantém essa concepção do papel da análise mesmo em obras posteriores. Por exemplo, em Nosso conhecimento do
mundo externo (Our Knowledge of the External World, 1914), diz: “Todo problema filosófico, quando submetido à análise e justificação necessárias, revela-se ou não ser realmente um problema filosófico, ou ser, no sentido em que usamos a palavra, lógico.”