Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault
Questões e temas para discussão
Segundo Boécio, em seu comentário ao Tratado da interpretação, há três tipos de oração (oratio), a
saber, escritas, faladas e concebidas, sendo que as últimas existem apenas no intelecto. Do mesmo modo,
há três tipos de termo, escrito, falado e concebido. O termo escrito é parte de uma proposição traçada em
algo físico, sendo vista ou podendo ser vista pelos olhos. O termo falado é parte de uma proposição
proferida oralmente e podendo ser apreendida pelos ouvidos. O termo concebido é uma intenção ou uma
afecção da alma significando ou cossignificando algo por natureza, podendo ser parte da proposição
mental e podendo por meio dela supor. Esses termos concebidos e as proposições por eles compostas
são as palavras mentais de que Santo Agostinho fala no Livro XV do Tratado sobre a trindade e que não
pertencem a nenhuma língua porque estão apenas na mente e não podem ser proferidas exteriormente,
ainda que os sons vocais (voces) proferidos externamente sejam subordinados a eles.
Digo que os sons vocais são signos subordinados aos conceitos ou intenções da alma não no sentido de
compreendermos a palavra “signo” como se esses sons significassem de maneira própria e primeira os
conceitos na alma, mas porque essas palavras são criadas por imposição para significar as coisas elas
próprias – que são significadas pelos conceitos na mente, de modo que primeiro o conceito significa uma
coisa de modo natural e em seguida o som vocal significa a mesma coisa, de tal forma que, uma vez que
um som vocal foi instituído [convencionado] para significar uma coisa significada por um conceito, se
esse conceito mudasse de significado, o som vocal, por isso mesmo também mudaria se não houvesse
outra instituição [convenção]. Por isso diz o Filósofo [Aristóteles] que os sons vocais são marcas de
“afecções da alma” (Tratado da interpretação, I, 1, 16a 3-4). Boécio entende a mesma coisa quando diz
que os sons vocais significam conceitos. E, de modo geral, todos os autores, quando dizem que os sons
vocais significam afecções da alma ou são marcas destas, querem com isso dizer que os sons vocais são
signos que significam de modo segundo o que as afecções da alma significam em primeiro lugar.
…
O signo se compreende de duas formas. Primeiro, como tudo aquilo que uma vez apreendido nos faz
conhecer outra coisa, embora não conduza a mente ao primeiro conhecimento da coisa, mas a um
conhecimento atual que se segue ao habitual. Desse modo o som vocal significa algo naturalmente, como
um efeito qualquer significa ao menos a sua causa, ou ainda como um círculo diante de uma taverna
significa vinho. Mas não falo aqui de signo em um sentido tão geral. Em segundo lugar, compreende-se o
signo como aquilo que traz algo ao conhecimento e é capaz por natureza de supor isto que traz ao
conhecimento ou de se associar ao primeiro tipo de signos em uma proposição, como é o caso dos
sincategoremáticos,1 dos verbos e de partes da oração que não têm uma significação determinada, ou
ainda como um composto desses signos, como a oração. E, nesse sentido, a palavra “signo” não é um
signo natural de nada. ”
QUESTÕES E TEMAS PARA DISCUSSÃO
1. Como se pode entender a noção de significado segundo Ockham?
2. O que é a linguagem mental para Ockham?
3. Relacione a discussão do significado em Ockham com a de Aristóteles no Tratado da
interpretação I,1 (ver capítulo sobre Aristóteles).
4. Em que sentido Ockham pode ser considerado um nominalista?
5. Qual a relação entre sons vocais, palavras escritas e conceitos?