Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault
Chomsky
O linguista norte-americano Noam Chomsky (1928- ), professor no Massachusetts Institute of Technology (MIT), é um dos teóricos da linguagem mais importantes no contexto contemporâneo, tendo sido o criador da teoria conhecida como gramática gerativa transformacional.
Essa teoria, que passa por diferentes versões – a gramática gerativa, a gramática sintagmática e a gramática transformacional –,
encontra-se formulada em sua obra Syntactic Structures de 1957 e desenvolvida em Aspects of a Theory of Syntax (1965). Chomsky volta-se contra o behaviorismo, representado por exemplo por B.F. Skinner, em grande parte dominante na época, considerando insuficiente a explicação do desenvolvimento da linguagem a partir de respostas a estímulos. Para Chomsky, essa visão não dá conta de uma das características do modo como a linguagem se desenvolve no ser humano: a criatividade, isto é, a capacidade humana de produzir ou gerar novas sentenças a partir de uma base finita de conhecimentos.
Encontramos na proposta de Chomsky duas distinções fundamentais: entre estrutura superficial (surface structure) e estrutura profunda
(deep structure) e entre competência (competence) e desempenho (performance). A estrutura superficial corresponde à gramática de uma língua empírica, enquanto a estrutura profunda consiste na base da gramática, em sua estrutura universal, comum a todas as línguas. A tarefa da gramática transformacional consiste em mapear as regras de transformação que permitem a passagem da estrutura profunda para a superficial, embora o próprio Chomsky considere que esse trabalho ainda se encontra em aberto.
Além disso, a grande complexidade das regras gramaticais indica, segundo ele, que o behaviorismo é insuficiente para explicá-la. A
capacidade de operar com essas regras, ou seja, a competência, deve ser considerada inata, isto é, pertencente à própria natureza de nossa mente. O desempenho, por sua vez, é o uso que um falante faz concretamente de sua língua, e que não esgota a competência.
Chomsky vê na concepção de mente de Descartes, que foi um dos principais defensores do inatismo na Modernidade (ver capítulo sobre
Descartes), e nos seguidores desse filósofo no século XVII, inclusive a Escola de Port-Royal (ver capítulo correspondente), um dos pontos de partida de suas teorias, e considera esses pensadores seus precursores, tendo inclusive publicado uma obra intitulada Cartesian Linguistics (1966).
LINGUAGEM E PENSAMENTO
A importância da mente
Publicada em 1968, Language and Mind é uma versão mais elaborada de três conferências feitas pelo autor na Universidade da
Califórnia em Berkeley em 1967. A primeira é de caráter histórico e examina a contribuição de pensadores do início da Modernidade.
Na segunda, Chomsky discute a linguística contemporânea do ponto de vista da relação entre linguagem e pensamento e na terceira
aponta algumas questões para o desenvolvimento futuro dessa discussão.
“É importante compreender quais as propriedades da linguagem que mais impressionavam Descartes e
seus adeptos. A discussão daquilo que tenho chamado “o aspecto criador do uso da linguagem” gira em
torno de três importantes observações. A primeira é que o uso normal da linguagem é inovador, no
sentido de que muito daquilo que dizemos no curso do uso normal da linguagem é inteiramente novo, não
é a repetição de nada que tenhamos ouvido antes nem mesmo semelhante quanto à forma – em qualquer
sentido útil dos termos “semelhante” e “forma” – a sentenças ou discursos que ouvimos no passado. Isto é
um truísmo, mas um truísmo importante, sendo muitas vezes passado por alto e não infrequentemente
negado no período comportamentista da linguística a que antes me referi, quando era quase
universalmente proclamado que o conhecimento da linguagem que uma pessoa tinha é representável como
um conjunto armazenado de formas apreendidas pela constante repetição e pelo treinamento detalhado,
sendo a inovação no máximo uma questão de “analogia”. No entanto, é seguramente um fato que o número
de proposições na língua nativa de uma pessoa que esta imediatamente compreenderá sem qualquer sentimento de dificuldade ou estranheza é astronômico; e que o número de formas subjacentes ao nosso
uso normal da linguagem, correspondendo a proposições dotadas de sentido e facilmente compreensíveis
em nossa língua, é muitas ordens de grandeza maior do que o número de segundos que há numa vida
humana. É neste sentido que o uso normal da linguagem é inovador.
Contudo, na concepção cartesiana mesmo o comportamento animal é potencialmente infinito em suas
variedades, no sentido especial em que se pode dizer, com evidente idealização, que as indicações de um
velocímetro são potencialmente infinitas em variedade. Isto é, se o comportamento animal é controlado
por estímulos externos ou estados internos (incluindo estes últimos os que foram estabelecidos por
condicionamento), então, como os estímulos variam numa amplitude indefinida, assim também varia o
comportamento do animal. Porém o uso normal da linguagem não é somente inovador e potencialmente
infinito em extensão, mas é também livre do controle de estímulos perceptíveis, quer externos, quer
internos. Por causa dessa ausência de controle pelos estímulos é que a linguagem pode servir como
instrumento do pensamento e da autoexpressão, como acontece não somente com os indivíduos
excepcionalmente dotados e talentosos, mas também, de fato, com qualquer ser humano normal.
…
Ainda mais, é errôneo pensar no uso humano da linguagem como caracteristicamente informativo, de
fato ou de intenção. A linguagem humana pode ser usada para informar ou desorientar, para clarificar os
pensamentos de uma pessoa ou para exibir sua habilidade, ou simplesmente por brincadeira. Se falo sem
nenhum interesse em modificar o comportamento ou os pensamentos do interlocutor, não estou usando
menos a linguagem do que se dissesse exatamente as mesmas coisas com esta intenção. Se esperarmos
entender a linguagem humana e as faculdades psicológicas sobre as quais repousa, devemos em primeiro
lugar perguntar o que ela é, não como, ou para que fins, é usada. Quando perguntamos o que a linguagem
humana é, não encontramos nenhuma semelhança notável com os sistemas de comunicação animal. Não há
nada de útil para ser dito a respeito do comportamento ou do pensamento no nível de abstração em que a
comunicação animal e a humana coincidem. Os exemplos de comunicação animal que até agora foram
examinados participam de muitas das propriedades dos sistemas de gestos humanos, e seria razoável
explorar a possibilidade de conexão direta neste caso. Mas a linguagem humana, parece, é baseada em
princípios inteiramente diferentes. Isto, penso eu, é um ponto importante, em geral passado por alto por
aqueles que apreciam a linguagem humana como fenômeno natural, biológico; em particular, parece um
tanto sem sentido, por essas razões, especular sobre a evolução da linguagem humana a partir de sistemas
mais simples, talvez tão absurdo como seria especular sobre a “evolução” dos átomos partindo das
nuvens de partículas elementares.
Tanto quanto sabemos, a posse da linguagem humana está ligada a um tipo específico de organização
mental, não simplesmente a um grau superior de inteligência. Não parece ter substância a opinião
segundo a qual a linguagem humana é simplesmente um caso mais complexo de algo que pode ser achado
em qualquer outra parte do mundo animal. Isto suscita um problema para o biologista, pois, se é
verdadeiro, é um exemplo de verdadeira “emergência” o aparecimento de um fenômeno qualitativamente
diferente em uma fase específica da complexidade da organização. O reconhecimento desse fato, embora
formulado em termos inteiramente diferentes, é o que motivou grande parte do estudo clássico da
linguagem por aqueles cuja preocupação primordial era a natureza do pensamento. E parece-me hoje não
existir melhor ou mais promissora maneira de explorar as faculdades essenciais e distintivas da
inteligência humana do que a pesquisa detalhada da estrutura deste bem humano de caráter único.
Portanto, é razoável supor que, se podem ser construídas gramáticas generativas empiricamente
adequadas e determinados os princípios universais que governam sua estrutura e organização, isto será
uma importante contribuição para a psicologia humana, por meios que abordarei detalhadamente adiante.
…
A crença de que a linguística antropológica demoliu as suposições da gramática universal parece-me de todo falsa em dois importantes aspectos. Primeiro, interpreta erroneamente as concepções da