Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 45 de 58

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Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Chomsky

 

O linguista norte-americano Noam Chomsky (1928- ), professor no Massachusetts Institute of Technology (MIT), é um dos teóricos da linguagem mais importantes no contexto contemporâneo, tendo sido o criador da teoria conhecida como gramática gerativa transformacional.

Essa teoria, que passa por diferentes versões – a gramática gerativa, a gramática sintagmática e a gramática transformacional –,

encontra-se formulada em sua obra Syntactic Structures de 1957 e desenvolvida em Aspects of a Theory of Syntax (1965). Chomsky volta-se contra o behaviorismo, representado por exemplo por B.F. Skinner, em grande parte dominante na época, considerando insuficiente a explicação do desenvolvimento da linguagem a partir de respostas a estímulos. Para Chomsky, essa visão não dá conta de uma das características do modo como a linguagem se desenvolve no ser humano: a criatividade, isto é, a capacidade humana de produzir ou gerar novas sentenças a partir de uma base finita de conhecimentos.

Encontramos na proposta de Chomsky duas distinções fundamentais: entre estrutura superficial (surface structure) e estrutura profunda

(deep structure) e entre competência (competence) e desempenho (performance). A estrutura superficial corresponde à gramática de uma língua empírica, enquanto a estrutura profunda consiste na base da gramática, em sua estrutura universal, comum a todas as línguas. A tarefa da gramática transformacional consiste em mapear as regras de transformação que permitem a passagem da estrutura profunda para a superficial, embora o próprio Chomsky considere que esse trabalho ainda se encontra em aberto.

Além disso, a grande complexidade das regras gramaticais indica, segundo ele, que o behaviorismo é insuficiente para explicá-la. A

capacidade de operar com essas regras, ou seja, a competência, deve ser considerada inata, isto é, pertencente à própria natureza de nossa mente. O desempenho, por sua vez, é o uso que um falante faz concretamente de sua língua, e que não esgota a competência.

Chomsky vê na concepção de mente de Descartes, que foi um dos principais defensores do inatismo na Modernidade (ver capítulo sobre

Descartes), e nos seguidores desse filósofo no século XVII, inclusive a Escola de Port-Royal (ver capítulo correspondente), um dos pontos de partida de suas teorias, e considera esses pensadores seus precursores, tendo inclusive publicado uma obra intitulada Cartesian Linguistics (1966).

 

LINGUAGEM E PENSAMENTO

A importância da mente

 

Publicada em 1968, Language and Mind é uma versão mais elaborada de três conferências feitas pelo autor na Universidade da

Califórnia em Berkeley em 1967. A primeira é de caráter histórico e examina a contribuição de pensadores do início da Modernidade.

Na segunda, Chomsky discute a linguística contemporânea do ponto de vista da relação entre linguagem e pensamento e na terceira

aponta algumas questões para o desenvolvimento futuro dessa discussão.

 

“É importante compreender quais as propriedades da linguagem que mais impressionavam Descartes e

seus adeptos. A discussão daquilo que tenho chamado “o aspecto criador do uso da linguagem” gira em

torno de três importantes observações. A primeira é que o uso normal da linguagem é inovador, no

sentido de que muito daquilo que dizemos no curso do uso normal da linguagem é inteiramente novo, não

é a repetição de nada que tenhamos ouvido antes nem mesmo semelhante quanto à forma – em qualquer

sentido útil dos termos “semelhante” e “forma” – a sentenças ou discursos que ouvimos no passado. Isto é

um truísmo, mas um truísmo importante, sendo muitas vezes passado por alto e não infrequentemente

negado no período comportamentista da linguística a que antes me referi, quando era quase

universalmente proclamado que o conhecimento da linguagem que uma pessoa tinha é representável como

um conjunto armazenado de formas apreendidas pela constante repetição e pelo treinamento detalhado,

sendo a inovação no máximo uma questão de “analogia”. No entanto, é seguramente um fato que o número

de proposições na língua nativa de uma pessoa que esta imediatamente compreenderá sem qualquer sentimento de dificuldade ou estranheza é astronômico; e que o número de formas subjacentes ao nosso

uso normal da linguagem, correspondendo a proposições dotadas de sentido e facilmente compreensíveis

em nossa língua, é muitas ordens de grandeza maior do que o número de segundos que há numa vida

humana. É neste sentido que o uso normal da linguagem é inovador.

Contudo, na concepção cartesiana mesmo o comportamento animal é potencialmente infinito em suas

variedades, no sentido especial em que se pode dizer, com evidente idealização, que as indicações de um

velocímetro são potencialmente infinitas em variedade. Isto é, se o comportamento animal é controlado

por estímulos externos ou estados internos (incluindo estes últimos os que foram estabelecidos por

condicionamento), então, como os estímulos variam numa amplitude indefinida, assim também varia o

comportamento do animal. Porém o uso normal da linguagem não é somente inovador e potencialmente

infinito em extensão, mas é também livre do controle de estímulos perceptíveis, quer externos, quer

internos. Por causa dessa ausência de controle pelos estímulos é que a linguagem pode servir como

instrumento do pensamento e da autoexpressão, como acontece não somente com os indivíduos

excepcionalmente dotados e talentosos, mas também, de fato, com qualquer ser humano normal.

…

Ainda mais, é errôneo pensar no uso humano da linguagem como caracteristicamente informativo, de

fato ou de intenção. A linguagem humana pode ser usada para informar ou desorientar, para clarificar os

pensamentos de uma pessoa ou para exibir sua habilidade, ou simplesmente por brincadeira. Se falo sem

nenhum interesse em modificar o comportamento ou os pensamentos do interlocutor, não estou usando

menos a linguagem do que se dissesse exatamente as mesmas coisas com esta intenção. Se esperarmos

entender a linguagem humana e as faculdades psicológicas sobre as quais repousa, devemos em primeiro

lugar perguntar o que ela é, não como, ou para que fins, é usada. Quando perguntamos o que a linguagem

humana é, não encontramos nenhuma semelhança notável com os sistemas de comunicação animal. Não há

nada de útil para ser dito a respeito do comportamento ou do pensamento no nível de abstração em que a

comunicação animal e a humana coincidem. Os exemplos de comunicação animal que até agora foram

examinados participam de muitas das propriedades dos sistemas de gestos humanos, e seria razoável

explorar a possibilidade de conexão direta neste caso. Mas a linguagem humana, parece, é baseada em

princípios inteiramente diferentes. Isto, penso eu, é um ponto importante, em geral passado por alto por

aqueles que apreciam a linguagem humana como fenômeno natural, biológico; em particular, parece um

tanto sem sentido, por essas razões, especular sobre a evolução da linguagem humana a partir de sistemas

mais simples, talvez tão absurdo como seria especular sobre a “evolução” dos átomos partindo das

nuvens de partículas elementares.

Tanto quanto sabemos, a posse da linguagem humana está ligada a um tipo específico de organização

mental, não simplesmente a um grau superior de inteligência. Não parece ter substância a opinião

segundo a qual a linguagem humana é simplesmente um caso mais complexo de algo que pode ser achado

em qualquer outra parte do mundo animal. Isto suscita um problema para o biologista, pois, se é

verdadeiro, é um exemplo de verdadeira “emergência” o aparecimento de um fenômeno qualitativamente

diferente em uma fase específica da complexidade da organização. O reconhecimento desse fato, embora

formulado em termos inteiramente diferentes, é o que motivou grande parte do estudo clássico da

linguagem por aqueles cuja preocupação primordial era a natureza do pensamento. E parece-me hoje não

existir melhor ou mais promissora maneira de explorar as faculdades essenciais e distintivas da

inteligência humana do que a pesquisa detalhada da estrutura deste bem humano de caráter único.

Portanto, é razoável supor que, se podem ser construídas gramáticas generativas empiricamente

adequadas e determinados os princípios universais que governam sua estrutura e organização, isto será

uma importante contribuição para a psicologia humana, por meios que abordarei detalhadamente adiante.

…

A crença de que a linguística antropológica demoliu as suposições da gramática universal parece-me de todo falsa em dois importantes aspectos. Primeiro, interpreta erroneamente as concepções da