Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault
Ockham
Guilherme de Ockham (c.1285-1349), cuja obra se encontra já no contexto de crise da escolástica, foi um dos mais originais pensadores da Idade Média. Nascido em Ockham, pequena cidade próxima de Londres, ingressou na ordem dos franciscanos e estudou na Universidade de Oxford. Sua obra de lógica e de epistemologia influenciou o pensamento moderno, e seus escritos sobre política prenunciam discussões que ocorrerão no Renascimento e no início da Modernidade, inclusive no contexto da Reforma Protestante. De um ponto de vista político, Ockham foi um defensor da separação, ou independência, entre o poder temporal dos soberanos e o poder espiritual da Igreja e do papa, contribuindo assim para o desenvolvimento de um pensamento laico. Seu conceitualismo semântico e sua epistemologia que valoriza a experimentação e o conhecimento empírico foram também influentes na Modernidade.
Ockham pode ser considerado um nominalista quanto à questão dos universais, porque não aceita a existência real, ou autônoma, de
entidades abstratas. Para ele, termos gerais como “cavalo” não se referem a nenhuma entidade, mas são um modo de designar ou cavalos individuais quando acompanhado de um pronome como “este”, ou o conjunto de todos os cavalos. Influenciado por Aristóteles, sua ontologia, ou seja, sua teoria sobre o que existe, consiste de objetos singulares, sendo que gêneros e espécies não existem por si mesmos. É nesse sentido que deve ser entendida a “navalha de Ockham”, um princípio metodológico segundo o qual entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem, isto é, não se deve multiplicar as entidades além do necessário. Supor a existência de entidades correspondentes aos nomes gerais não resolve o problema da referência desses termos, ao contrário: cria um novo problema ontológico quanto à explicação sobre a natureza dessas entidades, nosso modo de acesso a elas etc.
Por outro lado, de um ponto de vista semântico, Ockham não é estritamente um nominalista, já que sua teoria do significado afirma que os
significados das palavras são conceitos, entidades mentais associadas a elas. Pode-se entender essa concepção de Ockham como um desenvolvimento da formulação do Tratado da Interpretação (I, 1) que examinamos no capítulo sobre Aristóteles, em que este associa as palavras com as “pathemata psychai” (afecções da alma). A teoria de Ockham pode ser considerada assim, a rigor, conceitualista, já que supõe a existência de uma lingua mentis, ou seja, de uma linguagem mental. A relação do termo, seja de natureza linguística ou mental, se dá com um objeto singular no mundo. Termos escritos ou falados têm uma relação convencional (“instituída”, segundo a terminologia da época) com objetos no mundo, e termos mentais têm uma relação natural com esses objetos. A relação entre palavras e objetos no mundo é intermediada pela relação mais fundamental entre o termo mental correspondente e aquilo que ele significa.
SUMMA TOTIUS LOGICAE
Concepção nominalista sobre a natureza do signo
A Summa totius logicae, composta provavelmente por volta de 1324, foi publicada postumamente em 1488, tornando-se então muito
influente. Teve como ponto de partida a logica antiqua, baseada no comentário e interpretação do Organon de Aristóteles, mas
contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da assim chamada logica modernorum , levando em conta as inovações iniciadas
pelos comentadores de Aristóteles do século XIII, inclusive importantes formulações no campo da lógica modal. No texto que se segue
(Parte I, 1) temos uma discussão sobre a natureza do signo e sua relação com a mente. A tese da intermediação da mente entre as
palavras e o real como explicação do significado é um desenvolvimento da concepção de Aristóteles no Tratado da interpretação e
será a base do mentalismo em teoria semântica que encontramos no pensamento moderno tanto em Locke, na vertente empirista,
quanto na escola de Port-Royal, na vertente racionalista.
“Todos os autores que tratam de lógica pretendem mostrar que os argumentos são compostos por
proposições e as proposições, por termos. Logo, o termo nada mais é que a parte elementar da
proposição. Com efeito, para definir o termo, Aristóteles, no tratado dos Primeiros analíticos (I,1,
24b16-18), diz: “Denomino termo aquilo em que a proposição se decompõe como o predicado e aquilo
de que é predicado de tal forma que o ser ou o não-ser lhe são atribuídos ou lhe são separados.”
Mas, ainda que todo termo seja, ou possa ser, parte de uma proposição, nem todo termo é da mesma
natureza. Por isso para conhecer bem o termo é preciso fazer algumas distinções.