Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 8 de 58

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Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Retórica

Assim como há pensamentos (noemata) na alma que não são nem verdadeiros, nem falsos, enquanto

outros são necessariamente verdadeiros ou falsos, o mesmo ocorre com os sons. A falsidade e a verdade

têm a ver com a separação e a combinação. Um nome (onoma) e um verbo (rhema) por si próprios são

como pensamentos, por exemplo “homem” ou “branco”, que não são separados, nem combinados, pois

 

não são nem verdadeiros, nem falsos. ”

 

TRATADO DA INTERPRETAÇÃO

A convencionalidade do significado

 

Aristóteles assume o convencionalismo que para Platão no Crátilo parecia inevitável como explicação da relação entre palavra e

realidade, mas inconveniente porque a palavra não contribuiria para o conhecimento da coisa. Contudo, Aristóteles tem uma solução

para isso: como vimos, as palavras se relacionam com as coisas não diretamente, mas através de uma entidade mental (o conceito, em

terminologia posterior).

A verdade e a falsidade são propriedades da sentença (logos) em sua relação com o real (tese que remonta ao Sofista de Platão,

ver capítulo sobre Platão). Mas nem toda sentença é verdadeira ou falsa, apenas as declarativas, que pretendem descrever o real.

Para Aristóteles, a linguagem consiste em nomes (em grego, onomata) que se articulam com verbos (rhemata, ou seja, predicados)

para formar sentenças (logoi) que quando são declarativas descrevem o real e podem ser verdadeiras ou falsas em relação ao real que

descrevem. A ciência natural, p.ex., que Aristóteles examina no tratado dos Segundos analíticos, consiste de sentenças desse tipo, isto

é, que descrevem o real. Mas, na passagem abaixo, Aristóteles nos adverte que nem todo uso da linguagem é desse tipo e que nem toda

sentença é declarativa. Dá como exemplo orações, ou seja, preces, que não têm um objetivo descritivo da realidade.

Veremos trechos dos tratados de Retórica e de Poética a que Aristóteles remete na passagem abaixo para entender melhor esses

outros aspectos da linguagem que ele destaca.

 

“[2.16a19] Um nome (onoma) é um som proferido dotado de significado por convenção (kata

synthéken), do qual nenhuma parte tomada isoladamente tem significado.

 

[16a26] Digo por convenção porque nenhum nome é nome por natureza (physei), mas apenas quando se

tornou um símbolo (sýmbolon). Mesmo sons inarticulados (de animais, por exemplo) podem revelar algo,

mas não são nomes.

 

[3.16b6] Um verbo (rhema) significa, além disso, o tempo (krónon), sendo que nenhuma de suas partes

tem significado isoladamente e significa sempre algo dito sobre outra coisa.

 

[4.16b26] Uma sentença (logos) é um som proferido dotado de significado (semantiké) da qual uma parte

pode ser dotada de significado em separado, como uma expressão (phásis), e não como uma afirmação

(apophasis) ou negação (kataphasis).

 

[4.16b33] Toda sentença é dotada de significado por convenção, e não como um instrumento por

natureza, porém nem toda sentença é declarativa (lógos apophantikós), mas apenas aquelas que são

verdadeiras ou falsas. Não há verdade ou falsidade em todas as sentenças, uma oração é uma sentença,

mas não é nem verdadeira nem falsa. Deixemos de lado esses casos, que dizem respeito à retórica e à

 

poesia. Aqui temos como objeto de investigação apenas as sentenças declarativas (apophantikós).”

 

RETÓRICA

A função comunicacional da linguagem [XXI, 7, 1457c] A metáfora é a transposição do nome de uma coisa para outra, transposição do gênero