Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault
Retórica
Assim como há pensamentos (noemata) na alma que não são nem verdadeiros, nem falsos, enquanto
outros são necessariamente verdadeiros ou falsos, o mesmo ocorre com os sons. A falsidade e a verdade
têm a ver com a separação e a combinação. Um nome (onoma) e um verbo (rhema) por si próprios são
como pensamentos, por exemplo “homem” ou “branco”, que não são separados, nem combinados, pois
não são nem verdadeiros, nem falsos. ”
TRATADO DA INTERPRETAÇÃO
A convencionalidade do significado
Aristóteles assume o convencionalismo que para Platão no Crátilo parecia inevitável como explicação da relação entre palavra e
realidade, mas inconveniente porque a palavra não contribuiria para o conhecimento da coisa. Contudo, Aristóteles tem uma solução
para isso: como vimos, as palavras se relacionam com as coisas não diretamente, mas através de uma entidade mental (o conceito, em
terminologia posterior).
A verdade e a falsidade são propriedades da sentença (logos) em sua relação com o real (tese que remonta ao Sofista de Platão,
ver capítulo sobre Platão). Mas nem toda sentença é verdadeira ou falsa, apenas as declarativas, que pretendem descrever o real.
Para Aristóteles, a linguagem consiste em nomes (em grego, onomata) que se articulam com verbos (rhemata, ou seja, predicados)
para formar sentenças (logoi) que quando são declarativas descrevem o real e podem ser verdadeiras ou falsas em relação ao real que
descrevem. A ciência natural, p.ex., que Aristóteles examina no tratado dos Segundos analíticos, consiste de sentenças desse tipo, isto
é, que descrevem o real. Mas, na passagem abaixo, Aristóteles nos adverte que nem todo uso da linguagem é desse tipo e que nem toda
sentença é declarativa. Dá como exemplo orações, ou seja, preces, que não têm um objetivo descritivo da realidade.
Veremos trechos dos tratados de Retórica e de Poética a que Aristóteles remete na passagem abaixo para entender melhor esses
outros aspectos da linguagem que ele destaca.
“[2.16a19] Um nome (onoma) é um som proferido dotado de significado por convenção (kata
synthéken), do qual nenhuma parte tomada isoladamente tem significado.
[16a26] Digo por convenção porque nenhum nome é nome por natureza (physei), mas apenas quando se
tornou um símbolo (sýmbolon). Mesmo sons inarticulados (de animais, por exemplo) podem revelar algo,
mas não são nomes.
[3.16b6] Um verbo (rhema) significa, além disso, o tempo (krónon), sendo que nenhuma de suas partes
tem significado isoladamente e significa sempre algo dito sobre outra coisa.
[4.16b26] Uma sentença (logos) é um som proferido dotado de significado (semantiké) da qual uma parte
pode ser dotada de significado em separado, como uma expressão (phásis), e não como uma afirmação
(apophasis) ou negação (kataphasis).
[4.16b33] Toda sentença é dotada de significado por convenção, e não como um instrumento por
natureza, porém nem toda sentença é declarativa (lógos apophantikós), mas apenas aquelas que são
verdadeiras ou falsas. Não há verdade ou falsidade em todas as sentenças, uma oração é uma sentença,
mas não é nem verdadeira nem falsa. Deixemos de lado esses casos, que dizem respeito à retórica e à
poesia. Aqui temos como objeto de investigação apenas as sentenças declarativas (apophantikós).”
RETÓRICA
A função comunicacional da linguagem [XXI, 7, 1457c] A metáfora é a transposição do nome de uma coisa para outra, transposição do gênero