Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault
Peirce
O filósofo norte-americano Charles Sanders Peirce (1839-1914) foi o fundador do pragmatismo – embora tenha posteriormente rompido com essa corrente filosófica devido aos rumos que ela tomou com outros filósofos, como seu contemporâneo William James, passando a usar o termo “pragmaticismo”. Peirce estudou química em Harvard e escreveu principalmente sobre lógica, matemática e filosofia da ciência. Lecionou na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, Estados Unidos, de 1879 a 1884. Sua obra é muito ampla e diversificada, embora pouco sistemática, tendo sido publicada em vários periódicos filosóficos e científicos. Grande parte de seus manuscritos, cobrindo desde uma crítica a Descartes até propostas metodológicas bastante originais e distinções sobre vários tipos de signos, permanece ainda inédita. Seus Collected Papers começaram a ser publicados na década de 1930.
O pragmatismo de Peirce foi formulado inicialmente em um de seus primeiros ensaios de 1878, intitulado “Como tornar nossas ideias
claras”. Nesse texto ele define o pragmatismo essencialmente como uma metodologia crítica para a interpretação e solução de problemas filosóficos e científicos, e não propriamente como uma teoria da ciência. Peirce critica as formulações muito amplas e vagas da metafísica tradicional e propõe uma investigação conceitual baseada na análise do significado dos conceitos. Nesse sentido, foi um precursor da análise conceitual desenvolvida pela filosofia analítica na Inglaterra no início do século XX por Bertrand Russell, George Edward Moore e Ludwig Wittgenstein (ver os capítulos sobre Russell e Wittgenstein). Peirce é, então, mais um dos pensadores que nesse período dá à linguagem – para ele, aos estudos dos signos – um papel central para a filosofia.
A concepção de ciência de Peirce é falibilista, ou seja, uma teoria científica é um conjunto de proposições hipotéticas e não de asserções,
sendo que sua validade só pode ser de fato considerada com base em seus resultados. Nosso conhecimento científico é falível e aproximativo, mas isso não significa que Peirce seja um cético ou não acredite na possibilidade do conhecimento: ao contrário, o pragmatismo falibilista oferece um critério de validade de proposições que pretendem expressar conhecimento.
O QUE É UM SIGNO?
Concepção pragmática de signo
Esse texto de 1894 contém algumas das ideias centrais de Peirce sobre a noção de signo (sign), formulando uma proposta de distinção
entre vários tipos de signo que consiste em uma das grandes contribuições à semiótica; a teoria geral dos signos, desenvolvida depois
por alguns de seus discípulos. Encontramos aqui o ponto de partida da distinção entre ícone, índice e símbolo, que se tornou muito
influente e que com frequência se dá mais pela função desses signos do que por sua natureza. Peirce procura mostrar as diferentes
características e funções do signo, o modo como operam em relação aos objetos e como são empregados por seus usuários, sempre em
um contexto determinado. Essas distinções são formuladas sobretudo a partir das relações entre o signo e aquilo de que é signo, e entre
o signo, o falante e o ouvinte que usam os signos para determinados fins.
“Há três tipos de interesse que podemos ter em uma coisa. Em primeiro lugar, podemos ter um interesse
primário na coisa ela própria. Em segundo lugar, podemos ter um interesse na coisa devido à sua reação
com outras coisas. E, em terceiro lugar, podemos ter um interesse mediatório na coisa, na medida em que
traz à mente uma ideia sobre a coisa. Ao fazer isso, vem a ser um signo [sign] ou representação.
Há três tipos de signos. Em primeiro lugar, há semelhanças [likenesses], ou ícones, que servem para
transmitir ideias das coisas que representam simplesmente por imitação. Em segundo lugar, há indicações
[indications], ou índices, que mostram algo sobre as coisas, através de uma relação física com elas. É o
que ocorre com uma placa que aponta para a estrada a ser seguida, ou um pronome relativo que é
colocado bem em seguida ao nome da coisa que se tem a intenção de denotar, ou uma exclamação
vocativa, “Ei, você aí!”, que age sobre os nervos da pessoa a que se dirige e força sua atenção. Em
terceiro lugar há símbolos, ou signos genéricos, que se associam aos seus significados pelo uso. Isso
inclui a maior parte das palavras, frases, discursos, livros e bibliotecas.
Vamos examinar mais de perto os vários usos desses três tipos de signos.
SEMELHANÇAS. Fotografias, especialmente instantâneas, são muito instrutivas, porque sabemos que sob
certos aspectos são exatamente iguais aos objetos que representam. Mas esse parecer-se é devido às
fotografias terem sido produzidas em tais circunstâncias em que foram fisicamente forçadas a
corresponder à natureza ponto a ponto. Nesse sentido, então, pertencem ao segundo tipo de signos,
aqueles que resultam de uma conexão física. Trata-se de um caso diferente se eu suponho que as zebras
tendem a ser obstinadas, e sob aspectos gerais são animais desagradáveis, porque se parecem em geral
com burros e burros são teimosos. Aqui burros servem precisamente como uma provável semelhança da
zebra. É verdade que supomos que a semelhança tem uma causa física na hereditariedade; mas essa
afinidade hereditária é ela própria apenas resultado de uma inferência a partir da semelhança entre os
dois animais, e não temos (como no caso da fotografia) nenhum conhecimento independente das
circunstâncias da produção das duas espécies. Outro exemplo de semelhança é o desenho que um artista
faz de uma estátua, de uma composição pictórica, de uma elevação arquitetônica ou peça de decoração,
que ao contemplarmos podemos afirmar se será belo ou satisfatório o que ele propõe. A pergunta
formulada é então respondida quase que com certeza, porque está relacionada a como o artista ele
próprio será afetado. …
Também na intercomunicação semelhanças são indispensáveis. Imaginem dois homens que não tenham
nenhuma língua em comum, em uma situação isolada do resto dos homens. Precisam se comunicar, mas
como podem fazêlo? Por meio de sons imitativos, de gestos imitativos e de imagens. Esses são três tipos
diferentes de semelhanças. É verdade que usarão também outros signos, apontarão com o dedo e assim
por diante. Mas, ao final das contas, as semelhanças serão os únicos meios de descrever as qualidades
das coisas e das ações que têm em mente. A linguagem rudimentar, quando os homens começaram
primeiramente a falar uns com os outros, deve ter consistido em grande parte de palavras imitativas ou de
nomes convencionais que relacionaram a imagens. A língua egípcia é excessivamente rude. Trata-se,
tanto quanto se sabe, da primeira a ser escrita, e a escrita é toda ela pictórica. Algumas dessas imagens
vieram a representar sons – letras e sílabas. Mas outras representam diretamente ideias. Não são
substantivos, não são verbos, são apenas ideias pictóricas.
INDICAÇÕES OU ÍNDICES. Mas as imagens nelas mesmas – puras semelhanças – jamais podem fornecer a
menor informação. Por exemplo, a figura [ao lado] sugere uma roda. Mas deixa o espectador incerto se é
uma cópia de algo realmente existente ou uma mera fantasia.
O mesmo é verdadeiro em relação à linguagem geral e a todos os símbolos. Nenhuma combinação de
palavras (excluindo nomes próprios e na ausência de gestos e outros indicadores concomitantes da fala)
pode jamais fornecer a menor informação. Isso pode parecer paradoxal, mas o breve diálogo imaginário que se segue nos mostrará como é verdadeiro.
Dois homens, A e B, se encontram em uma estrada do interior, quando então se dá a seguinte conversa:
B. O dono daquela casa é o homem mais rico da região.
A. Que casa?
B. Ora, você não está vendo uma casa à sua direita a cerca de sete quilômetros de distância em uma
colina?
A. Sim, acho que consigo vê-la.
B. Muito bem, é aquela casa.
Desse modo, A obteve uma informação. Mas se ele caminha até um vilarejo distante e diz “o dono
daquela casa é o homem mais rico da região”, essa observação não vai se referir a nada, a menos que ele
explique a seu interlocutor como proceder a partir de onde ele se encontra para chegar até a região e a
casa em questão. Sem isso, ele não estará indicando do que está falando. Para identificar um objeto,
geralmente declaramos qual seu lugar em um determinado momento; e em todo caso deve-se mostrar
como uma experiência disso pode ser conectada com a experiência prévia do ouvinte. Portanto, nenhum
lugar pode ser descrito, exceto relativamente a algum lugar conhecido; e a unidade de distância usada
deve ser definida por referência a uma barra ou outro objeto que as pessoas possam utilizar direta ou
indiretamente para medir. É verdade que um mapa é muito útil para designar um lugar, e um mapa é uma
espécie de imagem. Mas, a menos que o mapa tenha uma marca de uma localidade conhecida, uma escala
e os pontos cardeais, servirá tanto para mostrar o lugar quanto o mapa das Viagens de Gulliver serve
para localizar a terra de Brobdingnag. É verdade que, se uma nova ilha for encontrada, por exemplo, no
oceano Ártico, sua localização pode ser indicada aproximadamente em um mapa que não teria letras,
meridianos ou paralelos, pois os contornos familiares da Islândia, Nova Zembla, Groenlândia etc.
serviriam para indicar a posição. Nesse caso, devemos recorrer a nosso conhecimento de que não há
nenhum outro lugar na face da Terra cujo mapa tenha o mesmo contorno que o da costa do Ártico. Essa
experiência do mundo em que vivemos faz com que o mapa seja mais que um mero ícone – confere-lhe as
características adicionais de um índice. Assim, é verdade que um mesmo signo pode ser ao mesmo tempo
uma semelhança e uma indicação. Contudo, o funcionamento desses tipos de signos é completamente
diferente. Pode-se objetar que semelhanças tanto quanto índices se fundamentam na experiência, que
portanto uma imagem de vermelho é sem sentido para uma pessoa que não enxerga cores, assim como a
da paixão erótica o é para uma criança. Mas essas são objeções que realmente ajudam a distinção; pois
não se trata da experiência, mas da capacidade de se ter a experiência, que é um requisito da
semelhança, e esse requisito não é necessário para a interpretação da semelhança, mas para que esteja
presente aos sentidos. Muito diferente disso são os casos de uma pessoa experiente e de outra
inexperiente que se encontram com o mesmo indivíduo e notam as mesmas peculiaridades, que para o
experiente indicam toda uma história e para o inexperiente não revelam nada.
SÍMBOLOS. A palavra “símbolo” tem tantos significados que seria um maltrato à língua acrescentar-lhe um
novo. Não creio que o significado que lhe quero atribuir – o de um signo convencional, ou que depende
de um hábito (adquirido ou inato) – seja um significado novo, mas sim uma volta ao significado original.
Etimologicamente, deveria significar uma coisa lançada junto, assim como embolon é uma coisa lançada
em outra, um raio, e parabolon uma coisa lançada ao lado, uma segurança colateral, e hypobolon, uma
coisa lançada embaixo, um presente pré-nupcial. Geralmente se diz que na palavra “símbolo” o lançar
junto deve ser entendido no sentido de uma conjectura, um significado que se busca em vão na literatura.
Mas os gregos usavam “lançar junto” (symballein) muito frequentemente para significar fazer um contrato ou convenção. Aristóteles diz que um substantivo é um “símbolo”, isto é, um signo convencional. Em
grego, uma fogueira de acampamento é um “símbolo”, isto é, um sinal sobre o qual concordamos; um
estandarte ou flâmula é um “símbolo”, uma palavra de ordem é um “símbolo”, uma plaqueta de
identificação é um “símbolo”, um credo religioso é um “símbolo” porque pode servir como uma
identificação ou um lema, uma entrada de teatro é chamada de “símbolo”, qualquer tíquete ou cheque
dando a alguém o direito de receber algo é um “símbolo”. Além do mais, qualquer expressão de
sentimento chamava-se um “símbolo”. Tais eram os principais significados da palavra em sua língua
original. O leitor avaliará se isso basta para justificar minha afirmação de que não estou seriamente
distorcendo a palavra ao utilizá-la como pretendo.
Qualquer palavra comum, como “dar”, “pássaro”, “casamento”, é exemplo de um símbolo. É aplicável
a qualquer coisa que se possa encontrar que realiza a ideia conectada à palavra . Em si mesma não
identifica essas coisas. Não nos mostra um pássaro nem concretiza diante de nossos olhos um ato de dar
nem um casamento, mas supõe que somos capazes de imaginar essas coisas e que associamos a palavra a
elas.
Uma progressão regular de um, dois, três pode ser observada nas três ordens de signos: semelhança,
índice, símbolo. A semelhança não tem nenhuma conexão dinâmica com o objeto que representa,
simplesmente ocorre que suas qualidades assemelham-se às do objeto e despertam sensações análogas na
mente daqueles para quem são semelhanças. Mas, na verdade, não tem conexão com elas. O índice tem
uma relação física com seu objeto, formam um par orgânico. Mas a mente que interpreta nada tem a ver
com essa relação, exceto quando se dá conta dela, uma vez estabelecida. O símbolo está conectado a seu
objeto em virtude da ideia na mente que usa símbolos, sem a qual tal conexão não existiria. …
Um símbolo, como vimos, não pode indicar nenhuma coisa em particular, mas denota um tipo de coisa.
Não apenas isso, mas é ele próprio um tipo e não uma coisa singular. Alguém pode escrever a palavra
“estrela”, mas isso não faz dele o criador da palavra, nem tampouco ao apagá-la isso faz de quem a
apaga seu destruidor. A palavra vive na mente daqueles que a utilizam. Mesmo se estiverem todos
dormindo, existe em sua memória. Portanto, podemos admitir, se houver razão para isso, que termos
gerais são apenas palavras, sem com isso dizer, como Ockham supôs, que seriam realmente indivíduos.
Símbolos crescem. Ganham sua existência desenvolvendo-se a partir de outros signos, particularmente
de semelhanças ou de signos mistos combinando a natureza das semelhanças e dos símbolos. Pensamos
apenas por meio de signos. Esses signos mentais são sempre de natureza mista, e sua parte que consiste
em símbolos é chamada de conceitos. Se alguém produz um símbolo novo, isso se dá através de
pensamentos que envolvem conceitos. Portanto, é apenas a partir de símbolos que um novo símbolo pode
surgir. Omne symbolum de symbolo.1 Um símbolo, uma vez existindo, difunde-se pelos povos. Através
do uso e da experiência, seu significado cresce. Palavras como “força”, “lei”, “riqueza”, “casamento”
têm para nós significados muito distintos do que tinham para nossos bárbaros ancestrais. …
Em todo raciocínio, temos que empregar uma mistura de semelhanças, indicações e símbolos. Não
podemos dispensar nenhum deles. O todo complexo pode denominar-se símbolo, pois seu caráter
simbólico e vivo é o que prevalece. Uma metáfora não deve ser desprezada: embora um homem possa ser
considerado como composto de tecidos vivos, partes de suas unhas, dentes, cabelo e ossos, que são tão
necessárias para ele, cessaram de passar pelo processo metabólico que constitui a vida, e há líquidos em
seu corpo que não estão vivos. Ora, podemos relacionar os índices que usamos em nosso raciocínio às
partes mais sólidas do corpo, e as semelhanças ao sangue: um nos firma em relação à realidade, o outro,
com suas mudanças rápidas, traz nutrientes para o corpo de pensamentos.”