Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 24 de 58

Páginas do PDF

Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Ensaio sobre o entendimento humano

Estamos ainda muito distantes dos desenvolvimentos posteriores na filosofia e na ciência da linguagem que se iniciam no século XIX e já

nos afastamos das posições anteriores, do final da Idade Média, como as filosofias nominalistas e as gramáticas especulativas; mas, por outro lado, a posição de Locke parece ser a primeira a romper com a visão puramente negativa de linguagem na tradição epistemológica moderna e a procurar apresentar um “remédio para o abuso”.

 

ENSAIO SOBRE O ENTENDIMENTO HUMANO

Tese da “dupla conformidade”

 

Segundo a teoria da representação de Locke, as ideias representam as coisas e as palavras representam as ideias, portanto há uma

dupla conformidade (double conformity) das ideias em relação às coisas e das palavras em relação às ideias.

 

“[II, 32,8] E portanto os homens são levados a pressupor que as ideias abstratas que têm em suas mentes

são de tal tipo que correspondem às coisas que existem independentes delas e às quais se referem, e são

também as mesmas em relação aos nomes que atribuímos a elas, por meio do uso e pela adequação da

linguagem a que pertencem. Pois, sem essa “dupla conformidade” de suas ideias, eles consideram que

não poderiam pensar adequadamente sobre as coisas elas próprias nem se comunicar de modo inteligível

 

uns com os outros. ”

 

ENSAIO SOBRE O ENTENDIMENTO HUMANO

Sobre as palavras: a semântica ideacional de Locke

 

A semântica de Locke é explicitada nessa passagem, sendo a linguagem uma característica humana por excelência, tal como em

Descartes. Essa semântica é mentalista, no sentido de que o significado das palavras, seu conteúdo semântico, se estabelece por sua

relação com as ideias na mente.

 

“[III, 1, 1] O homem capaz de formar sons articulados: Deus, tendo criado o homem como um ser

sociável, criou-o não apenas com uma disposição e uma necessidade de relacionar-se com outros

indivíduos de sua espécie, mas o fez dotado de linguagem, como o grande instrumento e elo comum da

sociedade. O homem tem portanto, por natureza, seus órgãos modelados de modo a serem capazes de

articular sons, que denominamos “palavras”. Mas isso não seria o suficiente para produzir linguagem,

porque os papagaios e vários outros pássaros podem ser ensinados a articular sons suficientemente

distintos, sem que de modo algum tenham a capacidade da linguagem.

 

[III, 1, 2] Usar esses sons como signos (signs) das ideias: além de articular sons, portanto, era

necessário que o homem fosse capaz de usá-los como signos de concepções internas [internal

conceptions]; e fazer com que fossem [make them stand] marcas de ideias em sua própria mente de

modo que fossem conhecidas pelos outros e desse modo os pensamentos das mentes dos homens fossem

 

transmitidos de uns para os outros. ”