Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault
Locke
John Locke (1632-1704) foi um dos principais representantes do empirismo entre os filósofos de língua inglesa, destacando-se tanto por sua contribuição à epistemologia, principalmente em seu Ensaio sobre o entendimento humano (1690), quanto por seu projeto de liberalismo político, sobretudo em seus Segundo tratado do governo (1690) e Carta sobre a tolerância (1689). O Ensaio apresenta o resultado do trabalho de Locke junto aos cientistas da Royal Society, a grande instituição inglesa fundada em 1660 e que reunia pesquisadores e pensadores de várias áreas do conhecimento, dos estudos sobre linguagem à química.
Locke foi o primeiro filósofo no período moderno a divergir explicitamente da tendência de considerar a linguagem fundamentalmente
como fonte de erros – que encontramos, por exemplo, em Descartes (ver no capítulo sobre Descartes a passagem dos Princípios da filosofia VIII, art.74) –, dando uma importância central ao que ele denominou semiótica: o estudo dos signos e de seu significado. Com isso, inaugurou o que podemos considerar uma filosofia da linguagem, ainda que em uma perspectiva mentalista. Esse mentalismo tem sua origem, em última análise, na solução aristotélica para o convencionalismo, ao relacionar as palavras com as “afecções da alma” (ver capítulo sobre Aristóteles).
Ainda que Locke concordasse em grande parte com seus contemporâneos quanto ao argumento sobre o “abuso das palavras” (ver
abaixo), por outro lado é significativo que, no Ensaio sobre o entendimento humano – sua obra mais importante do ponto de vista da teoria do conhecimento, de grande influência no desenvolvimento do pensamento moderno –, ele dedique todo o Livro III, intitulado “Sobre as palavras ou a linguagem em geral”, ao problema do significado. Podemos realmente nos perguntar por que ele julgou necessário, após uma crítica às ideias inatas de Descartes (Livro I) e a apresentação de sua própria teoria das ideias (Livro II), devotar o Livro III à linguagem e não ao conhecimento (Livro IV), se a linguagem não era considerada como tendo nenhum papel relevante no processo de conhecimento e na formulação das teorias científicas. A posição de Locke acerca da linguagem – entendida como palavra, ou seja, signo linguístico – é na verdade bastante ambivalente. Ele considera que a linguagem é indispensável para a comunicação, isto é, para veicular nossos pensamentos a nossos interlocutores, e portanto é indispensável para a vida em comunidade, inclusive para a comunidade científica. Ao mesmo tempo, considera a linguagem sujeita ao “abuso” exatamente no sentido examinado em relação a Descartes, sendo por esse motivo pouco confiável.
O argumento da imprecisão e da variação do significado é utilizado explicitamente por Locke: “Embora os nomes ‘glória’ e ‘gratidão’
sejam os mesmos na boca de todos os homens, em todo um país, contudo a ideia complexa coletiva, que está no pensamento de cada um, ou que cada um intenciona por estes nomes, é aparentemente muito diferente em homens usando a mesma língua” (Ensaio, III, x, 22).
É esse argumento que leva à consideração das palavras como sofrendo um “abuso”:
Esse inconveniente do mau uso das palavras os homens sofrem em suas próprias meditações privadas; porém, muito mais manifestas são as desordens que ocorrem em consequência disso na conversação, no discurso e na argumentação com outros. Pois, a linguagem sendo o veículo por excelência por meio do qual os homens transmitem suas descobertas, raciocínios e conhecimento uns para os outros, aquele que faz mau uso da linguagem, embora não corrompa as fontes de conhecimento, que são as coisas elas próprias, obstrui ou impede os canais pelos quais esse conhecimento é distribuído para uso público e vantagem da humanidade. (Ensaio, III, xi, 15)
Essa passagem revela, contudo, a diferença radical entre a posição de Locke e a dos filósofos examinados anteriormente. Embora
admitindo a imperfeição das palavras e o inconveniente e as desordens que isso causa, Locke assinala que a linguagem é o “veículo por excelência” (the great conduit) da comunicação, sendo de vital importância para a discussão do conhecimento e para sua difusão, o que vem a constituir uma “vantagem para a humanidade”. Temos, na verdade, o reconhecimento da necessidade da comunicação para a ciência, ou seja, para a discussão entre a comunidade científica e a disseminação de suas teorias e descobertas. Ao mesmo tempo, Locke constata a imperfeição dos canais (pipes) utilizados para isso. É interessante e significativo, a esse respeito, que ele use a metáfora dos encanamentos e dutos (pipes, conduit) pelos quais deve circular o conhecimento, mas que se encontram obstruídos pelo “abuso”. Ressalte-se também que essa dificuldade não afeta as fontes do conhecimento, as coisas elas próprias, já que se encontra não nelas, mas em nosso modo de representá-las por meio dos signos.
Essa posição leva, contudo, a um impasse, na medida em que a linguagem é vista quase como um “mal necessário”. É em relação a esse
ponto que encontramos a contribuição inovadora de Locke. Se as palavras sofrem um “abuso” e se isto causa um grande inconveniente e desordem, como vimos na passagem acima, é necessário, segundo ele, encontrar um “remédio” para o abuso. Isso corresponde ao reconhecimento da importância da linguagem, pois, como não podemos prescindir dela, é preciso superar suas deficiências. Porém, se a posição de Locke é inovadora por essa valorização da comunicação, o “remédio” que ele oferece não difere muito das posições adotadas anteriormente por Descartes e pela escola de Port-Royal, por exemplo: buscar reconstruir o processo pelo qual essa representação se constitui. Locke formula assim um método de análise pelo qual a filosofia, em uma perspectiva epistemológica, deve retraçar esse processo, examinando-o com base na relação entre palavras e ideias, segundo sua tese semântica básica de que “as palavras são signos de ideias assim como as ideias são signos das coisas”, que estabelece uma relação entre semântica e epistemologia. A superação dos erros e abusos se dá através da reconstrução, por análise, dessa relação.
Para que a linguagem seja adequada ao conhecimento que deve comunicar e difundir, seu vínculo com este conhecimento deve ser explicitado, revelando-se a relação entre as palavras e as ideias. São as ideias que dão conteúdo cognitivo às palavras, que são signos convencionais das coisas. As ideias representam as coisas porque se originam, em última instância, da experiência, da percepção sensível das coisas, dos processos de generalização, abstração e reflexão. Portanto, as palavras nos remetem às coisas por intermédio das ideias. É essa mediação que é recuperada pela análise semântica realizada por Locke, permitindo corrigir os abusos, equívocos e imprecisões que decorrem do uso comum, em que esse vínculo entre ideias e palavras nem sempre é levado em conta.