Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 50 de 58

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Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Heidegger

 

Martin Heidegger (1889-1976) nasceu na Alemanha e foi um dos filósofos mais originais e influentes do século XX. Procurou, a partir de uma crítica radical à tradição da metafísica ocidental (que segundo sua interpretação se origina em Platão), dar um novo rumo, um novo sentido à filosofia, que fosse também a busca de algo mais originário, mais fundamental, a retomada da ontologia, a superação do “esquecimento do Ser”, que teria ocorrido nesta tradição.

Sua principal obra, que permaneceu inacabada, Ser e tempo (Sein und Zeit, cf. 1927), foi publicada quando Heidegger era professor na

Universidade de Marburg. Dessa mesma época são o livro Kant e o problema da metafísica (1929), em que critica o neokantismo, e os textos “O que é a metafísica” (1929) e “Sobre a essência da verdade” (1930). Nesses escritos Heidegger desenvolve sua crítica à tradição e formula sua nova perspectiva filosófica.

A análise erudita e original que Heidegger propõe da Alegoria da Caverna de Platão (República, VII) é ilustrativa disso. Ele localiza nesse

texto uma alteração profunda no sentido do conceito grego de verdade (alétheia), alteração que marcará o desenvolvimento da tradição metafísica ocidental. Alétheia teria originariamente, na tradição poética e mítica grega e chegando aos pré-socráticos, o sentido de manifestação, de desvelamento do Ser. Etimologicamente, é uma palavra formada pelo alpha privativo grego, que designa a negação, servindo de prefixo ao termo lethe, véu, encobrimento. Alétheia significa, assim, literalmente “desvelamento”, “descobrimento”, “retirada do véu”. “Verdade” tem, portanto, um sentido primordialmente ontológico, significando o mostrar-se do Ser. Quando, no texto da Alegoria da Caverna, Platão descreve o processo de libertação do prisioneiro, mostra como este, ao se libertar, sente-se desorientado pela visão direta do fogo na caverna, e depois da luz no mundo externo, que o ofuscam. É necessário, diz Platão, que o prisioneiro adapte a sua visão a essa nova realidade, para que possa ver corretamente (orthótes). Essa noção de “visão correta” inaugura, segundo Heidegger, a tradição metafísico-epistemológica. A verdade passa a ser agora definida como adequação do olhar ao objeto, como correspondência entre o modo de ver e a natureza da coisa, encontrada, por exemplo, na fórmula aristotélico-escolástica segundo a qual a verdade é a adequação do intelecto com a coisa. Isto levou à perda do sentido originário de manifestação/revelação do ser. A verdade torna-se assim uma relação sujeito-objeto, base de toda concepção tradicional de epistemologia – central no pensamento moderno, mas originando-se, segundo essa interpretação, já na teoria platônica do conhecimento.

Contra essa tendência dominante, Heidegger visa trazer à luz o Ser, pesquisar o sentido do Ser, enquanto desvelamento, manifestação. É

necessária, assim, uma análise ontológica e hermenêutica (interpretativa, de compreensão de sentido) que revele “o ente que nós somos”, o ser-aí, o Dasein. Para Heidegger, o homem é o único ente que busca o Ser. Em sua terminologia, Dasein deve substituir “sujeito”, ou “eu”, devido ao sentido que esses termos adquiriram na filosofia da consciência e da subjetividade do período moderno.

Também a questão do Tempo tem um lugar central na análise de Heidegger. A temporalidade é a estrutura mais fundamental do Ser. O

ser-aí (Dasein) existe como antecipação, como previsão de seus projetos, e caracteriza-se assim como possibilidade, como ser-possível, voltado para o futuro. Porém, o ser-aí existe como um Ser já lançado, já se encontra no mundo, portanto está também voltado para o passado e depende de sua memória. Além disso, o ser-aí existe como presença, existe no presente, cujo modo de apreensão é a intuição. Esses são os elementos constitutivos do ser-aí, enquanto temporalidade. Segundo Heidegger, “a essência (Wesen) do ser-aí reside em sua existência” (Ser e tempo, §9).

Já no §34 encontramos o início da reflexão de Heidegger sobre a linguagem, através da distinção que formula entre discurso (Rede) e

linguagem (Sprache), embora essa não seja ainda uma questão central em seu pensamento. Nos textos, da década de 1950, reunidos em A caminho da linguagem (1959), sua reflexão mais elaborada sobre a linguagem, temos a visão segundo a qual a linguagem deve ser vista fora da relação com a subjetividade, uma vez que não é o ser humano, mas a linguagem, que fala: “ Die Sprache spricht” (“A linguagem fala”), é como ele expressa essa visão.

A recuperação do sentido originário de Ser e da verdade como manifestação da essência se dá através de uma retomada, de uma releitura,

de alguns filósofos pré-socráticos, notadamente Heráclito e Parmênides, e da interpretação da obra de poetas alemães do período do romantismo (século XIX, principalmente), como Hölderlin, Novalis, Rilke, bem como de poetas contemporâneos como Paul Celan e Stefan George. Para Heidegger, a linguagem dos poetas, livre da influência metafísica e epistemológica, encontra-se mais próxima do Ser, é capaz de expressar o sentido do Ser de forma mais autêntica – “Ser significa, no fundo, para os gregos, presença (Anwesenheit)” (Introdução à metafísica, 1935).

É preciso, assim, buscar essa linguagem que manifesta o Ser. No texto “A essência da linguagem” (1957-58), Heidegger desenvolve essa

temática, e na “Carta sobre o humanismo” (1947) encontra-se sua famosa afirmação de que “a linguagem é a morada (casa) do Ser”.

 

CARTA SOBRE O HUMANISMO

A linguagem e o Ser