Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 19 de 58

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Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Questões e temas para discussão

diz na quarta proposição: linguam illam interpretari ex dictionario, o que um homem um pouco versado

em línguas pode fazer acerca de todas as línguas comuns. E estou certo de que se dermos a M. Hardy um

bom dicionário de chinês, ou de qualquer outra língua, e um livro escrito nessa língua ele conseguirá

extrair o significado das palavras. O que impede que qualquer um faça isso é a dificuldade da gramática.

E suponho que esse é o segredo de nosso homem. Mas trata-se de algo bastante interessante, pois elabora

uma linguagem em que há apenas uma maneira de conjugar, de declinar e de construir as palavras, na qual

não há nem verbos defectivos nem irregulares, que resultam da corrupção do uso.

…

A invenção dessa língua depende da verdadeira filosofia, porque é impossível, de outra forma,

determinar todos os pensamentos dos homens e colocá-los em ordem, tampouco distingui-los de sorte que

se tornem claros e simples, o que é a meu ver o maior segredo que poderíamos ter para adquirir a boa

ciência. E se alguém puder explicar adequadamente quais são as ideias simples que se encontram na

imaginação dos homens, por meio das quais se compõe tudo aquilo que pensam e se isso puder ser

apreendido por todo mundo, esperaria então uma língua universal bem fácil de ser aprendida,

pronunciada e escrita, e o que é o principal, que ajudasse na possibilidade de julgar, representando o

mais distintamente todas as coisas, de modo que seria quase impossível nos enganarmos – enquanto, ao

contrário, as palavras que temos são de significação confusa, e com as quais o espírito dos homens está

acostumado há muito tempo, fazendo com que não entenda quase nada perfeitamente. Ora, considero que

essa língua seja possível e que podemos encontrar a ciência de que ela depende, por meio da qual os

camponeses poderiam julgar a verdade sobre as coisas melhor que os filósofos o fazem hoje. Mas não

espere jamais vê-la em uso: isso pressupõe grandes mudanças na ordem das coisas, e seria necessário

 

que o mundo inteiro fosse como um paraíso terrestre, o que só se pode propor num mundo de ficção.”

 

QUESTÕES E TEMAS PARA DISCUSSÃO

 

1. Por que Descartes deu pouca importância à linguagem em sua obra filosófica?

2. Por que, segundo Descartes, a linguagem é uma fonte de erros?

3. Qual a diferença, segundo Descartes, entre o uso da linguagem pelos seres humanos e os

“sons” que os animais emitem?

4. Por que o projeto de uma “linguagem universal” não pode ser bem-sucedido, segundo

Descartes?

 

LEITURAS SUGERIDAS

 

Chomsky, Noam. Linguística cartesiana, Petrópolis, Vozes, 1972.

Cottingham, John. Descartes, São Paulo, Unesp, 1999.

____. Dicionário Descartes, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995.

Rodis-Lewis, Géneviève. Descartes: uma biografia, Rio de Janeiro, Record, 1996.