Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault
Questões e temas para discussão
diz na quarta proposição: linguam illam interpretari ex dictionario, o que um homem um pouco versado
em línguas pode fazer acerca de todas as línguas comuns. E estou certo de que se dermos a M. Hardy um
bom dicionário de chinês, ou de qualquer outra língua, e um livro escrito nessa língua ele conseguirá
extrair o significado das palavras. O que impede que qualquer um faça isso é a dificuldade da gramática.
E suponho que esse é o segredo de nosso homem. Mas trata-se de algo bastante interessante, pois elabora
uma linguagem em que há apenas uma maneira de conjugar, de declinar e de construir as palavras, na qual
não há nem verbos defectivos nem irregulares, que resultam da corrupção do uso.
…
A invenção dessa língua depende da verdadeira filosofia, porque é impossível, de outra forma,
determinar todos os pensamentos dos homens e colocá-los em ordem, tampouco distingui-los de sorte que
se tornem claros e simples, o que é a meu ver o maior segredo que poderíamos ter para adquirir a boa
ciência. E se alguém puder explicar adequadamente quais são as ideias simples que se encontram na
imaginação dos homens, por meio das quais se compõe tudo aquilo que pensam e se isso puder ser
apreendido por todo mundo, esperaria então uma língua universal bem fácil de ser aprendida,
pronunciada e escrita, e o que é o principal, que ajudasse na possibilidade de julgar, representando o
mais distintamente todas as coisas, de modo que seria quase impossível nos enganarmos – enquanto, ao
contrário, as palavras que temos são de significação confusa, e com as quais o espírito dos homens está
acostumado há muito tempo, fazendo com que não entenda quase nada perfeitamente. Ora, considero que
essa língua seja possível e que podemos encontrar a ciência de que ela depende, por meio da qual os
camponeses poderiam julgar a verdade sobre as coisas melhor que os filósofos o fazem hoje. Mas não
espere jamais vê-la em uso: isso pressupõe grandes mudanças na ordem das coisas, e seria necessário
que o mundo inteiro fosse como um paraíso terrestre, o que só se pode propor num mundo de ficção.”
QUESTÕES E TEMAS PARA DISCUSSÃO
1. Por que Descartes deu pouca importância à linguagem em sua obra filosófica?
2. Por que, segundo Descartes, a linguagem é uma fonte de erros?
3. Qual a diferença, segundo Descartes, entre o uso da linguagem pelos seres humanos e os
“sons” que os animais emitem?
4. Por que o projeto de uma “linguagem universal” não pode ser bem-sucedido, segundo
Descartes?
LEITURAS SUGERIDAS
Chomsky, Noam. Linguística cartesiana, Petrópolis, Vozes, 1972.
Cottingham, John. Descartes, São Paulo, Unesp, 1999.
____. Dicionário Descartes, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995.
Rodis-Lewis, Géneviève. Descartes: uma biografia, Rio de Janeiro, Record, 1996.