Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 17 de 58

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Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Descartes

LEITURAS SUGERIDAS

 

 

Ghisalberti, Alessandro. Guilherme de Ockham, Porto Alegre, EDIPUCRS, 1997.

De Boni, Luiz Alberto. Lógica e linguagem na Idade Média, Porto Alegre, EDIPUCRS, 1995.

DESCARTES

 

René Descartes (1596-1650), nascido em La Haye, na Bretanha, pode ser considerado um dos fundadores da filosofia moderna, sobretudo devido a sua defesa da ciência moderna, inaugurada por Copérnico e desenvolvida por pensadores como Kepler e Galileu. Sua crítica à tradição filosófica, principalmente à escolástica medieval, e a ênfase de sua filosofia na subjetividade e na consciência marcaram profundamente o pensamento moderno.

A filosofia de Descartes tem como questão central a fundamentação do novo método científico que possa servir de base à ciência

moderna, sendo que sua obra é quase toda dedicada a questões epistemológicas, ou seja, a questões de teoria do conhecimento científico. Descartes pouco escreveu sobre outras áreas da filosofia como lógica, ética, estética ou filosofia política. Para ele, a solução de todas as questões da filosofia e da ciência dependiam, em primeiro lugar, de se resolver o problema do conhecimento e da fundamentação do novo método científico, para que se pudesse desenvolver então, a partir disso, um novo sistema filosófico e científico, bem fundamentado.

Mesmo sem ter dedicado nenhum texto especificamente à questão da linguagem, Descartes influenciou em sua época o desenvolvimento

de uma “lógica do pensamento”, tal como encontrada na escola de Port-Royal (ver o respectivo capítulo), e contemporaneamente sua discussão sobre a relação entre linguagem e mente influenciou as teorias de Noam Chomsky, autor de uma obra intitulada precisamente Linguística cartesiana (Cartesian Linguistics), publicada em 1966.

Para Descartes, a mente – ou o espírito, segundo sua terminologia – é capaz de conhecer o real por meio das ideias, que representam as

coisas, e é com base nesse conhecimento que a ciência se constrói. A linguagem é apenas a expressão do pensamento, e mesmo assim uma expressão imperfeita, sem nenhum papel portanto na formação do conhecimento – motivo pelo qual Descartes rejeita inclusive a proposta de uma linguagem universal para a ciência.

Os textos aqui selecionados contêm os principais aspectos da concepção cartesiana de linguagem, relacionando-a à natureza humana,

discutindo o projeto frequente em sua época de criação de uma linguagem artificial para a ciência e procurando evitar que o hábito de se usar as palavras de modo acrítico e sem considerar as ideias correspondentes se revele fonte de erros.

 

DISCURSO DO MÉTODO

A linguagem como sinal da razão

 

Nesse texto (Parte V), Descartes mostra que há uma diferença radical entre a natureza humana e a dos animais, pois mesmo quando

estes proferem sons, que podem se assemelhar a palavras, tais sons não são expressão do pensamento, ou seja, da razão, mas meros

proferimentos sonoros, e não podem ser considerados linguagem. Portanto, a linguagem é indício da racionalidade humana, expressão do

pensamento no ser humano; uma prova disso é a capacidade humana de articular esses sons, formando um discurso, isto é, recorrendo a

um elemento sintático, indo além de meros proferimentos sonoros. Essa questão é retomada em sua carta ao marquês de Newcastle de

23 de novembro de 1646.

 

“É admirável que não haja homens tão embrutecidos e tão estúpidos, nem mesmo excetuando os insanos,

que não sejam capazes de organizar conjuntamente diversas palavras e desta forma compor um discurso

por meio do qual expressam seus pensamentos; e, ao contrário, não há animal, por mais perfeito e bem

formado, que possa fazer algo semelhante. Não porque lhes faltem os órgãos adequados, pois as pegas e

os papagaios podem proferir palavras tanto quanto nós, mas apesar disso não podem falar como nós

falamos, isto é, manifestando que pensam o que dizem. Por outro lado, os homens que nasceram surdos ou

mudos e são desprovidos dos órgãos que servem aos outros para falar, tanto ou até mais do que os

animais, têm o costume de inventar eles próprios signos por meio dos quais se fazem entender por

aqueles que tenham se disposto a aprender sua língua. Mas isso não demonstra apenas que os animais

possuem menos razão que os homens, mas que não a possuem absolutamente. Vemos que é necessário

muito pouco para saber falar.