Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 54 de 58

Páginas do PDF

Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Questões e temas para discussão

formulação, são ditos, permanecem ditos e estão ainda por dizer. Nós os conhecemos em nosso sistema

de cultura: são os textos religiosos ou jurídicos, são também esses textos curiosos, quando se considera o

seu estatuto, e que chamamos de “literários”; em certa medida textos científicos.

…

Creio que existe outro princípio de rarefação de um discurso que é, até certo ponto, complementar ao

primeiro. Trata-se do autor. O autor, não entendido, é claro, como o indivíduo falante que pronunciou ou

escreveu um texto, mas o autor como princípio de agrupamento do discurso, como unidade e origem de

suas significações, como foco de sua coerência. Esse princípio não voga em toda parte nem de modo

constante: existem, ao nosso redor, muitos discursos que circulam, sem receber seu sentido ou sua

eficácia de um autor ao qual seriam atribuídos: conversas cotidianas, logo apagadas; decretos ou

contratos que precisam de signatários mas não de autor, receitas técnicas transmitidas no anonimato. Mas

nos domínios em que a atribuição a um autor é de regra – literatura, filosofia, ciência – vê-se bem que ela

não desempenha sempre o mesmo papel; na ordem do discurso científico, a atribuição a um autor era, na

Idade Média, indispensável, pois era um indicador de verdade. Uma proposição era considerada como

recebendo de seu autor seu valor científico. Desde o século XVII, esta função não cessou de se

enfraquecer, no discurso científico: o autor só funciona para dar um nome a um teorema, um efeito, um

exemplo, uma síndrome. Em contrapartida, na ordem do discurso literário, e a partir da mesma época, a

função do autor não cessou de se reforçar: todas as narrativas, todos os poemas, todos os dramas ou

comédias que se deixava circular na Idade Média no anonimato ao menos relativo, eis que, agora, se lhes

pergunta (e exigem que respondam) de onde vêm, quem os escreveu; pede-se que o autor preste contas da

unidade de texto posta sob seu nome; pede-se-lhe que revele, ou ao menos sustente, o sentido oculto que

os atravessa; pede-se-lhe que os articule com sua vida pessoal e suas experiên-cias vividas, com a

história real que os viu nascer. O autor é aquele que dá à inquietante linguagem da ficção suas unidades,

seus nós de coerência, sua inserção no real.

…

Creio que existe um terceiro grupo de procedimentos que permitem o controle dos discursos. Desta

vez, não se trata de dominar os poderes que eles têm, nem de conjurar os acasos de sua aparição; trata-se

de determinar as condições de seu funcionamento, de impor aos indivíduos que os pronunciam certo

número de regras e assim de não permitir que todo mundo tenha acesso a eles. Rarefação, desta vez, dos

sujeitos que falam; ninguém entrará na ordem do discurso se não satisfizer certas exigências ou se não for,

de início, qualificado para fazê-lo. Mais precisamente: nem todas as regiões do discurso são igualmente

abertas e penetráveis; algumas são altamente proibidas (diferenciadas e diferenciantes), enquanto outras

parecem quase abertas a todos os ventos e postas, sem restrição prévia, à disposição de cada sujeito que

 

fala. ”

 

QUESTÕES E TEMAS PARA DISCUSSÃO

 

1. Qual a importância da linguagem entendida como “discurso” para Foucault?

2. Qual a proposta de Foucault de uma “análise das formações discursivas”?

3. Qual a relação entre discurso e poder segundo Foucault?

4. Como Foucault vê a questão do autor em relação ao discurso?