Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 53 de 58

Páginas do PDF

Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Foucault

 

Michel Foucault (1926-1984) foi um dos mais originais pensadores franceses do século XX, com uma obra de grande impacto na filosofia, na história, na psicologia e nas ciências sociais. Influenciado inicialmente pelo estruturalismo francês e a fenomenologia, foi também profundamente marcado, como ele mesmo indica, por Nietzsche, Freud e Marx.

Sua primeira obra importante foi História da loucura (1961), que revoluciona a interpretação tradicional sobre a constituição do saber

psiquiátrico e sobre o conceito de loucura e o papel do louco na sociedade desde o início da Modernidade. Com A arqueologia do saber (1969), Foucault começa a se afastar do estruturalismo que ainda o influenciara em O nascimento da clínica (1963), em que retomava as pesquisas de 1961. O método arqueológico que Foucault formula tem como ponto de partida a necessidade de uma reinterpretação da história, revelando os pressupostos e elementos subjacentes aos saberes de um determinado período histórico e relativizando esses saberes. Esse método tem como um de seus pontos fundamentais a análise do discurso, ou melhor, das formações discursivas.

Já a investigação da história da loucura revela que, conforme Foucault afirma em A arqueologia do saber, “a unidade dos discursos

sobre a loucura não estaria fundada na existência do objeto ‘loucura’, ou na constituição de um único horizonte de objetividade; seria o jogo

das regras que tornam possível, durante um período dado, o aparecimento dos objetos” (Capítulo III, II).

Em sua discussão sobre linguagem nesse livro, Foucault leva em conta várias teorias contemporâneas, inclusive a noção de performativo

de Austin (Capítulo III, A, 1), para formular a sua própria noção de discurso. Segundo Foucault, “na análise proposta, as diversas modalidades de enunciação, em lugar de remeter à síntese ou à função unificante de um sujeito, manifestam sua dispersão. … Renunciaremos, pois, a ver no discurso um fenômeno de expressão a tradução verbal de uma síntese operada alhures; aí buscaremos antes um campo de regularidade

para diversas posições de subjetividade” (Capítulo II, IV).

Foucault foi um crítico da Modernidade, questionando seus pressupostos racionalistas, seu modelo de ciência, sua concepção de

subjetividade, e formulando uma crítica extremamente original ao nascimento das ciências humanas em seu As palavras e as coisas: Uma arqueologia das ciências humanas (1966), em que examina inclusive o surgimento e desenvolvimento das ciências da linguagem nos séculos XVII e XVIII (ver principalmente os capítulos IV e VIII). Sua análise volta-se posteriormente para as epistemes como formações discursivas, sendo que o método arqueológico dá lugar às genealogias, inspiradas na Genealogia da moral de Nietzsche, que buscam dar conta das mudanças, rupturas, transições entre as diferentes formações discursivas em diferentes períodos.

 

A ORDEM DO DISCURSO

Linguagem e poder

 

Esse texto foi inicialmente apresentado como aula inaugural no Collège de France em 2 de dezembro de 1970, sendo publicado em 1971.

Retoma e desenvolve a noção de discurso encontrada em A arqueologia do saber, sintetizando os pontos centrais dessa obra e

analisando sobretudo a questão de como o poder circula, se transforma, se dissemina através do discurso. Mas o poder não significa

apenas proibição e interdito, circunscrevendo o discurso: ele também constitui, produz possibilidades de discurso.

 

“Eis a hipótese que gostaria de apresentar esta noite, para fixar o lugar – ou talvez o teatro muito

provisório – do trabalho que faço: suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo

tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm

por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e

temível materialidade.

Em uma sociedade como a nossa, conhecemos, é certo, procedimentos de exclusão. O mais evidente, o

mais familiar também, é a interdição. Sabe-se bem que não se tem o direito de dizer tudo, que não se

pode falar de tudo em qualquer circunstância, que qualquer um, enfim, não pode falar de qualquer coisa.

Tabu do objeto, ritual da circunstância, direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala: temos aí o

jogo de três tipos de interdições que se cruzam, se reforçam ou se compensam, formando uma grade complexa que não cessa de se modificar. Notaria apenas que, em nossos dias, as regiões onde a grade é

mais cerrada, onde os buracos negros se multiplicam, são as regiões da sexualidade e as da política:

como se o discurso, longe de ser esse elemento transparente ou neutro no qual a sexualidade se desarma e

a política se pacifica, fosse um dos lugares onde elas exercem, de modo privilegiado, alguns de seus

mais temíveis poderes. Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que

o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder. Nisto não há nada de

espantoso, visto que o discurso – como a psicanálise nos mostrou – não é simplesmente aquilo que

manifesta (ou oculta) o desejo; é, também, aquilo que é o objeto do desejo; e visto que – isto a história

não cessa de nos ensinar – o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de

dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar.

…

Dos três grandes sistemas de exclusão que atingem o discurso, a palavra proibida, a segregação da

loucura e a vontade de verdade, foi do terceiro que falei mais longamente. É que, há séculos, os

primeiros não cessaram de orientar-se em sua direção; é que, cada vez mais, o terceiro procura retomá-

los, por sua própria conta, para, ao mesmo tempo, modificá-los e fundamentá-los; é que, se os dois

primeiros não cessam de se tornar mais frágeis, mais incertos na medida em que são agora atravessados

pela vontade de verdade, esta, em contrapartida, não cessa de se reforçar, de se tornar mais profunda e

mais incontornável.

E, contudo, é dela sem dúvida que menos se fala. Como se para nós a vontade de verdade e suas

peripécias fossem mascaradas pela própria verdade em seu desenrolar necessário. E a razão disso é,

talvez, esta: é que se o discurso verdadeiro não é mais, com efeito, desde os gregos, aquele que responde

ao desejo ou aquele que exerce o poder, na vontade de verdade, na vontade de dizer esse discurso

verdadeiro, o que está em jogo senão o desejo e o poder? O discurso verdadeiro, que a necessidade de

sua forma liberta do desejo e libera do poder, não pode reconhecer a vontade de verdade que o

atravessa; e a vontade de verdade, essa que se impõe a nós há bastante tempo, é tal que a verdade que ela

quer não pode deixar de mascará-la.

Assim, só aparece aos nossos olhos uma verdade que seria riqueza, fecundidade, força doce e

insidiosamente universal. E ignoramos, em contrapartida, a vontade de verdade, como prodigiosa

maquinaria destinada a excluir todos aqueles que, ponto por ponto, em nossa história, procuraram

contornar essa vontade de verdade e recolocá-la em questão contra a verdade, lá justamente onde a

verdade assume a tarefa de justificar a interdição e definir a loucura; todos aqueles, de Nietzsche a

Artaud e a Bataille, devem agora nos servir de sinais, altivos sem dúvida, para o trabalho de todo dia.

 

Existem, evidentemente, muitos outros procedimentos de controle e de delimitação do discurso. Aqueles

de que falei até agora se exercem de certo modo do exterior; funcionam como sistemas de exclusão;

concernem, sem dúvida, à parte do discurso que põe em jogo o poder e o desejo.

Pode-se, creio eu, isolar outro grupo de procedimentos. Procedimentos internos, visto que são os

discursos eles mesmos que exercem seu próprio controle; procedimentos que funcionam, sobretudo, a

título de princípios de classificação, de ordenação, de distribuição, como se se tratasse, desta vez, de

submeter outra dimensão do discurso: a do acontecimento e do acaso.

Em primeiro lugar, o comentário. Suponho, mas sem ter muita certeza, que não há sociedade onde não

existam narrativas maiores que se contam, se repetem e se fazem variar; fórmulas, textos, conjuntos

ritualizados de discursos que se narram, conforme circunstâncias bem determinadas; coisas ditas uma vez

e que se conservam, porque nelas se imagina haver algo como um segredo ou uma riqueza. Em suma,

pode-se supor que há, muito regularmente nas sociedades, uma espécie de desnivelamento entre os

discursos: os discursos que “se dizem” no correr dos dias e das trocas, e que passam com o ato mesmo

que os pronunciou; e os discursos que estão na origem de certo número de atos novos de fala que os retomam, os transformam ou falam deles, ou seja, os discursos que, indefinidamente, para além de sua