Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 3 de 58

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Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Sofista

O naturalismo tem dificuldade em explicar a relação natural palavra–coisa, já que as línguas faladas contradizem isso e a procura

pela língua ideal não é bem-sucedida. O convencionalismo, por sua vez, tem dificuldade em explicar a origem das convenções: como

poderíamos estabelecer convenções anteriormente à linguagem se precisamos dela para isso?

Grande parte dessas questões acompanhará a discussão sobre a linguagem na tradição que foi fortemente influenciada por Platão,

praticamente até o período moderno. Encontramos em toda tradição temas como: a busca da linguagem ideal, aliás presente também na

tradição judaica, como vimos no mito de Babel; o problema da origem das convenções e de como teriam sido estabelecidas em primeiro

lugar, num momento anterior à linguagem, já que esta é convencional; e a tentativa pela análise das etimologias de chegar a um

significado primordial, que ocupa boa parte do diálogo (397c-421e).

O Crátilo é um diálogo aporético, isto é, termina em um impasse, já que as duas alternativas que examina revelam-se insatisfatórias.

Contudo, sua influência foi muito grande em toda a tradição filosófica e, mais ainda, nos estudos da linguagem em geral. A tradição

herdou em grande parte a posição platônica acerca da linguagem formulada nesse diálogo, ou seja, o dilema entre uma concepção

naturalista, que seria relevante para o conhecimento mas que não se sustenta, e o convencionalismo, que, embora mais plausível e mais

próximo da experiência concreta da linguagem, não traz contribuição ao conhecimento. O dilema resulta da pergunta inicial sobre a

contribuição da linguagem para o conhecimento, que, contudo, jamais foi questionada pela tradição.

Não houve portanto, nesse contexto, propriamente uma filosofia da linguagem, porque a investigação da linguagem, aqui entendida

como o conjunto de signos (palavras) pertencentes a uma língua determinada, acabou por não ser considerada filosoficamente relevante.

O conhecimento não poderia depender da linguagem, isto é, de signos linguísticos considerados como meramente convencionais. Com

isso, a filosofia da linguagem, ou seja, a reflexão filosófica sistemática sobre a linguagem, não foi vista como parte central do trabalho do

filósofo. Além disso, Platão, nesse diálogo, praticamente restringe-se à “correção dos nomes”, isto é, à relação entre palavras (nomes) e

a realidade correspondente, ao que denominamos hoje problema da referência e que é apenas uma parte da filosofia da linguagem. Não

chega a haver, por exemplo, um desenvolvimento da discussão sobre a sintaxe, ou melhor, sobre os aspectos lógicos da linguagem.

Dado o impasse, a solução para Platão consiste em ir além dos nomes. A definição de um nome através de seu significado

simplesmente nos remeterá a outros nomes, o assim chamado círculo linguístico, “palavra puxa palavra” (394b-c). A linguagem pode

apenas expressar um conhecimento prévio e independentemente adquirido (438a-b). Na conclusão do diálogo, Platão aponta, nas

palavras de Sócrates, para a necessidade de se procurar a verdade para além das palavras.

 

“[384c-d] HERMÓGENES: Por minha parte, Sócrates, já conversei várias vezes a esse respeito tanto com

ele [Crátilo] quanto com outras pessoas, sem que chegassem a convencer-me de que a correção dos

nomes se baseia em outra coisa que não a convenção e o acordo (syntheke kai homologia). Para mim,

seja qual for o nome que se dê a uma determinada coisa, esse é o seu nome certo.

 

[433e] SÓCRATES: Ou adotas de preferência o modo de ver de Hermógenes e de outros que afirmam não

passarem os nomes de convenção, que só representam alguma coisa para os que convencionaram formá-

los depois de terem o conhecimento dessa coisa, baseados precisamente na convenção, a correta

formação dos nomes. Assim sendo, é de todo indiferente manter a convenção, tal como foi estabelecida,

ou admitir outra inteiramente oposta, para dar o nome de grande ao que denominamos pequeno e o de

pequeno ao que denominamos grande.

 

[435a-b] SÓCRATES: Mas ainda mesmo que o costume (ethos) não seja convenção (syntheke), não é certo

dizer que a representação se firma na semelhança. É no costume, pois este, como já vimos, consegue

representar tanto por meio do semelhante como do dissemelhante … Forçoso nos será concluir que a

convenção e o costume contribuem igualmente para exprimir o que temos no pensamento quando falamos.

 

[438d-e] SÓCRATES: Nessa luta entre os nomes, em que uns se apresentam como semelhantes à verdade e

outros afirmam a mesma coisa de si próprios, que critérios adotaremos e a quem devemos recorrer? Não,

evidentemente, a outros nomes que não esses, pois não existem outros. É óbvio que teremos que procurar

fora dos nomes alguma coisa que nos faça ver sem os nomes qual das duas classes é a verdadeira, o que

 

ela demonstrará indicando-nos a verdade das coisas. ”

 

SOFISTA

A natureza da proposição, o verdadeiro e o falso