Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 40 de 58

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Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Questões e temas para discussão

simplesmente “Olhem!”, esperamos que esta única palavra faça com que quem esteja por perto a veja

também. Se você recebe um visitante importuno, pode expulsá-lo à força, ou dizer “Saia!”. Uma vez que

a segunda opção envolve menos esforço muscular, é preferível, se for igualmente eficaz.

Segue-se que, quando você, na vida adulta, usa uma palavra, você o faz, em geral, não apenas porque o

que a palavra “denota” está presente aos sentidos ou à imaginação, mas porque você quer que seu ouvinte

faça algo com ela. Esse não é o caso de uma criança aprendendo a falar, nem é sempre o caso nos anos

posteriores, porque o uso de palavras em ocasiões interessantes torna-se um hábito automático. Se você

visse de repente um amigo, ao qual tinha dado falsamente como morto, provavelmente proferiria seu

nome mesmo que nem ele ou outro qualquer pudesse ouvi-lo. Mas tais situações são excepcionais.

No significado de uma sentença, há três elementos psicológicos: as causas ambientais para proferi-la,

os efeitos de ouvi-la e (como parte das causas de proferimento) os efeitos que o locutor espera que ela

cause no ouvinte.

Em geral, podemos dizer que a fala consiste, com algumas exceções, de sons feitos por pessoas com a

intenção de causar ações desejadas por outras pessoas. Contudo, suas faculdades indicativas e assertivas

permanecem fundamentais, já que é devido a elas que, quando ouvimos um discurso, ele pode induzir-nos

a agir de um modo apropriado a algum aspecto do ambiente percebido pelo locutor, mas não pelo

ouvinte, ou que o locutor lembra de percepções passadas. Ao acompanhar à noite um visitante até a porta

de sua casa, você pode dizer “aqui há dois degraus”, o que o induz a agir como se ele visse os degraus.

Contudo, isso implica certo grau de benevolência para com seu visitante. O propósito do discurso não é

sempre, de modo algum, enunciar um fato; é também possível falar-se com a intenção de enganar. “A

linguagem nos foi dada para habilitar-nos a ocultar nossos pensamentos.” Portanto, quando pensamos na

linguagem como meio de enunciar os fatos, estamos tacitamente admitindo certos desejos do locutor. É

interessante que a linguagem possa enunciar fatos; e é também interessante que possa enunciar falsidades.

Quando enuncia uma dessas coisas, o faz com a intenção de causar alguma ação no ouvinte; se este é um

escravo, uma criança ou um cão, o resultado será alcançado mais simplesmente usando-se o imperativo.

Contudo, há uma diferença entre a eficiência de uma mentira e a da verdade: a mentira só produz o

resultado desejado na medida em que a verdade é esperada. Na realidade, ninguém aprenderia a falar se

a verdade não fosse regra: se, quando seu filho vê um cão, você diz “gato”, “cavalo” ou “crocodilo”, à

toa, não poderá enganá-lo dizendo “cão” quando não for um cão. Mentir é, portanto, uma atividade

 

derivativa, que pressupõe falar a verdade como regra habitual. ”

 

QUESTÕES E TEMAS PARA DISCUSSÃO

 

1. Qual a importância da noção de denotação para a teoria do significado de Russell?

2. Qual a relação entre a teoria das descrições e o método de análise proposto por Russell?

3. Como Russell caracteriza as palavras no texto reproduzido neste capítulo?

4. Como se pode entender, segundo esse texto, a noção de palavra-objeto?

5. Qual a importância da verdade para o uso da linguagem?

 

LEITURAS SUGERIDAS

Ayer, Alfred J. As ideias de Bertrand Russell, São Paulo, Cultrix, 1974.

Marcondes, Danilo. Filosofia analítica, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004.

Russell, Bertrand. Significado e verdade, Rio de Janeiro, Zahar, 1978.