Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault
Wittgenstein
Ludwig Wittgenstein (1889-1951), um dos filósofos mais marcantes do pensamento contemporâneo, nasceu em Viena, mas desenvolveu grande parte de sua vida acadêmica na Inglaterra, tendo sido professor do Trinity College da Universidade de Cambridge.
Por sua natureza fragmentária, assistemática, provisória, por suas idas e vindas, constantemente retomado e refeito, seu pensamento exige
que o leitor nele se engaje, pense junto com o filósofo, compartilhe suas perplexidades, aceite seus desafios, discuta suas conclusões, sendo assim indissociável do próprio estilo em que foi elaborado, que se apresenta como um filosofar em processo.
No prefácio ao Tractatus, diz Wittgenstein: “Este livro talvez seja entendido apenas por quem já tenha alguma vez pensado por si próprio o
que nele vem expresso – ou, pelo menos, algo semelhante. … Teria alcançado seu fim se desse prazer a alguém que o lesse e entendesse.” E, 27 anos mais tarde, no prefácio às Investigações filosóficas, ele escreve: “Com meu escrito não pretendo poupar aos outros o pensar. E sim, se for possível, incitar alguém aos próprios pensamentos.”
Tradicionalmente seu pensamento se divide em duas fases: a primeira é representada pelo Tractatus, a segunda, radicalmente diferente,
tem como obra principal as Investigações filosóficas. Como há uma diferença fundamental na concepção de linguagem entre esses dois livros, optei por uma apresentação de cada um em separado.
No intervalo entre eles há uma fase que se convencionou chamar de “intermediária”, representada por obras publicadas postumamente
como as Observações filosóficas (1929-30), a Gramática filosófica (1932-34), o Livro azul (1933-34) e o Livro marrom (1934-35). Essa, no entanto, é uma questão controversa. Alguns de seus intérpretes veem de fato uma ruptura radical entre a filosofia do Tractatus e a das Investigações, outros consideram que há uma continuidade entre ambas, ou pelo menos importantes pontos em comum entre elas.
O Tractatus logico-philosophicus
Um dos pontos de partida do Tractatus é a ideia, também encontrada em Gottlob Frege e em Bertrand Russell, de que a forma gramatical e a forma lógica da linguagem não coincidem. Grande parte dos problemas filosóficos tradicionais – como o da possibilidade do falso, da existência do não ser etc. – se originaria assim de uma má compreensão da linguagem pelo desconhecimento de sua forma lógica autêntica e da maneira pela qual se relaciona com o real. Consequentemente, não podemos dar qualquer resposta a questões desse tipo, mas apenas mostrar seu caráter de contrassenso. A maioria das proposições e questões dos filósofos surge de nosso fracasso em compreender a lógica de nossa linguagem. A tarefa da filosofia é, portanto, realizar uma análise da linguagem que revele sua verdadeira forma e a relação desta com os fatos. “Toda a filosofia é uma crítica da linguagem … . Foi Russell que nos prestou o serviço de mostrar que a forma lógica aparente da proposição não é necessariamente sua forma real” (4.0031).
Seu objetivo consiste na elucidação lógica dos pensamentos. A filosofia não é um corpo de doutrina, mas uma atividade. A filosofia não
resulta em “proposições filosóficas”, mas sim na elucidação de proposições. “Sem a filosofia os pensamentos são, por assim dizer, nebulosos e indistintos; sua tarefa é torná-los claros e bem delimitados” (4.112).
Esta questão poderá ficar mais clara se tomarmos o que podemos considerar a teoria pictórica do significado (2.1-2.225). Uma das
suposições básicas dessa obra é precisamente a ideia de um isomorfismo entre a linguagem e o real, ou seja, em última análise, a concepção de que a forma lógica da linguagem corresponde ao modo como a realidade se estrutura (2.17, 2.18). É assim que a linguagem representa o real, na medida em que a proposição é uma imagem (picture, Bild) de um fato. A relação de representação entre a imagem e o fato depende de três características fundamentais:
1) Os elementos da imagem representam elementos daquilo que é retratado (2.13).
2) A forma (disposição, relação) desses elementos na imagem mostra a disposição dos elementos no
que é retratado (2.14, 2.15, 2.151, 2.1514).
3) A cada elemento na imagem corresponde um elemento no que é retratado (2.13, 2.161).
Supostamente a ideia da teoria pictórica teria sido derivada de um diagrama ou mapa visto por
Wittgenstein em um jornal, representando um acidente de trânsito em que certas figuras representavam os
objetos (veículos, pessoas etc.) e a disposição das figuras representava o fato ocorrido (a direção dos
veículos, a colisão etc.). Daí Wittgenstein teria tirado a tese de que as proposições também são
complexos compostos de elementos que retratam outros complexos (os fatos) compostos de objetos no
real. É nesse sentido que podemos dizer que uma proposição é uma imagem ou modelo, já que tem a
forma comum com o fato possível que representa.