Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 21 de 58

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Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Gramática geral e razoada

Enfim, há um grande equívoco nesta palavra, “arbitrário”, quando se diz que o significado das

palavras é arbitrário. Pois é verdade que se trata de uma coisa puramente arbitrária unir uma determinada

ideia a um determinado som e não a outro; mas as ideias não são coisas arbitrárias e que dependem de

nossa fantasia, ao menos as que são claras e distintas. E para mostrar isso de forma evidente seria

ridículo imaginar que feitos muito reais pudessem depender de coisas puramente arbitrárias. Ora, quando

um homem concluiu por seu raciocínio que um eixo de ferro que passa pelas duas mós do moinho pode

girar sem fazer girar a de cima, sendo redondo e passando por um buraco redondo, mas que não poderia

girar sem fazer girar a de baixo, sendo quadrado e passando pelo buraco quadrado desta mó de baixo, o

efeito que pretendeu seguiu-se disto infalivelmente. E, em consequência, seu raciocínio não consistiu em

um ajuntamento de nomes que teria dependido inteiramente da fantasia dos homens, mas sim em um juízo

sólido e efetivo sobre a natureza das coisas, pela consideração das ideias que tinha no espírito, as quais

aprouve aos homens marcar por meio de determinados nomes.

Vemos bem, assim, o que entendemos pela palavra “ideia”; resta apenas dizer uma palavra sobre sua

 

origem. ”

 

GRAMÁTICA GERAL E RAZOADA

Linguagem e pensamento

 

A Escola de Port-Royal produziu também uma gramática de grande importância na época por sua contribuição teórica, a Grammaire

générale et raisonné (1660), desta vez uma colaboração entre Antoine Arnauld e Claude Lancelot.

Nas passagens que se seguem, vemos que a concepção que será desenvolvida de um ponto de vista da lógica no tratado de 1662 que

acabamos de ler já se encontra presente na gramática. Com efeito, a tese da relação entre a linguagem e o pensamento e da linguagem

como representativa da racionalidade humana parece ser diretamente inspirada na Parte V do Discurso do método de Descartes (ver

capítulo sobre Descartes).

 

“A gramática é a arte de falar

 

Falar é explicar seus pensamentos por meio de signos que os homens inventaram para isso. Considerou-

se que os signos mais convenientes eram os sons e as vozes.

Como, porém, esses sons são evanescentes, foram inventados outros signos para fazê-los mais

duráveis e visíveis, que consistem nos caracteres da escrita, que os gregos denominaram grammata,

donde o termo “gramática”.

Assim, pode-se considerar duas coisas a propósito desses signos. A primeira: o que são segundo sua

própria natureza, isto é, enquanto sons e caracteres. A segunda: sua significação, isto é, o modo pelo qual

os homens se servem deles para expressar seu pensamento.

 

SEGUNDA PARTE

ONDE SE TRATA DOS PRINCÍPIOS E M OTIVOS EM QUE SE BASEIAM AS DIVERSAS FORM AS DE SIGNIFICAÇÃO DAS PALAVRAS

 

Capítulo 1: Que o conhecimento do que se passa em nosso espírito é necessário para compreender os fundamentos da gramática; e é disso que depende a diversidade das palavras que compõem o discurso

 

Até aqui consideramos na palavra o que ela tem de material e é comum ao menos em relação aos sons

aos homens e aos papagaios.

Resta-nos examinar o que ela tem de espiritual, que a torna uma das maiores vantagens que o homem tem sobre todos os outros animais e é uma das grandes provas da razão: o uso que delas fazemos para