Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault
Fedro
Crítica à retórica
O Górgias é o principal diálogo de Platão sobre a retórica, questionando o papel dos sofistas como mestres desta arte e acusando-os de
serem praticantes de uma mera téchne, ou seja, de uma habilidade prática, sem nenhum compromisso moral, servindo apenas para
persuadir e não para ensinar e levar ao verdadeiro conhecimento. Seu alvo principal é Górgias, um dos mais famosos sofistas de seu
tempo e grande mestre de retórica e de oratória. Os sofistas consideravam a linguagem um instrumento fundamental do discurso
político, ou seja, do modo como as decisões eram tomadas nas assembleias, no contexto da democracia ateniense. A crítica de Sócrates
aos sofistas nesse diálogo consiste em mostrar que com habilidade pode-se persuadir qualquer pessoa de qualquer coisa, mesmo de algo
que não seja verdadeiro ou não seja do interesse dela. A filosofia, ao contrário, se caracteriza pelo compromisso com a verdade.
“[453a] GÓRGIAS: [Por oratória] quero dizer a habilidade de convencer por meio do discurso um júri
num tribunal, membros de um conselho, votantes em uma assembleia e qualquer outra reunião de
cidadãos. Pelo exercício dessa habilidade você terá o médico ou o treinador em suas mãos e o homem de
negócios ganhará dinheiro não em proveito próprio, mas para outro, para você que de fato tem essa
habilidade de falar e de convencer as massas.
[454d-455a] SÓCRATES: Que forma de convencer sobre o certo e o errado é produzida pela oratória nos
tribunais e em outros lugares, aquela que produz conhecimento ou aquela que produz apenas crenças sem
conhecimento?
GÓRGIAS: A que produz crenças, obviamente.
SÓCRATES: Parece então que o convencer que a oratória produz sobre o certo e o errado é do tipo que
resulta da crença, não o que resulta do ensinar.
GÓRGIAS: Sim.
SÓCRATES: E o orador não ensina ao júri e outras comissões sobre o certo e o errado, apenas os persuade,
dificilmente poderia ensinar a tantas pessoas em tão pouco tempo algo de tal importância. ”
FEDRO
A origem da escrita
Nesse diálogo há uma passagem (274b-277d) em que Platão apresenta o mito de Theut, que narra a invenção da escrita por esse deus
egípcio. Theut (ou Thot) apresenta sua invenção ao supremo deus Amon, como algo que auxiliaria a memória dos homens e os tornaria
sábios. A resposta de Amon representa a posição platônica: ao contrário, diz ele, aquele que se fiar na escrita perderá a memória,
passando a depender de um signo externo e não de sua própria capacidade de lembrar, e não se tornará mais sábio, mas receberá
informações sem a instrução adequada, parecendo sábio quando na verdade será bem ignorante. E, finalmente, Sócrates conclui no
diálogo, a palavra escrita parece conter o entendimento das coisas, porém quando interrogada simplesmente nos devolve a pergunta.
Além disso, uma vez que algo é escrito, passa a circular entre aqueles que o entendem, mas também entre os que não o entendem. Uma
coisa escrita não pode distinguir entre os bons e maus leitores; a palavra escrita é, assim, incapaz de defender-se contra o seu mau uso
e necessita, portanto, de que o autor venha em seu socorro.
Platão opõe aqui a linguagem escrita e a linguagem falada, o diálogo, para ele a forma por excelência de realização da filosofia
enquanto discussão, debate, por meio do qual se pode argumentar e contra-argumentar.
Em A farmácia de Platão, o filósofo francês contemporâneo Jacques Derrida comenta esse mito, que serve de ponto de partida
para sua discussão sobre a linguagem e sobre a questão da leitura de textos (no caso de Platão), levando a uma releitura e reelaboração
de suas questões. Derrida explora o uso da palavra pharmakon (“remédio”) no texto, quando Thot diz que a palavra escrita é um
remédio para a memória, enquanto Amon (ou Thamus) inverte a questão dizendo que a palavra escrita poderia ser um veneno (para os
gregos pharmakon pode ser remédio ou veneno, no fundo dependendo essencialmente da dosagem) que faria com que os homens se
fiassem demais na escrita e perdessem o verdadeiro conhecimento.
Sócrates conclui dizendo o que é necessário para um discurso verdadeiro, na medida em que isso seria possível.