Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 39 de 58

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Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Significado e verdade

O que é uma palavra?

 

Nesse texto, o primeiro capítulo de sua obra Significado e verdade (An Inquiry into Meaning and Truth), publicada em 1940 e

resultado de uma revisão do texto das conferências William James por ele feitas na Universidade de Harvard naquele mesmo ano,

Russell introduz algumas distinções entre as várias acepções segundo as quais uma palavra é dotada de significado, retomando sua

concepção de denotação. Examina também os aspectos contextuais do significado e do uso de uma palavra pelo falante em relação a

seu ouvinte, valorizando assim uma concepção pragmática da análise do significado.

 

“As palavras faladas, ouvidas ou escritas diferem de outras classes de movimentos corporais, sons, ou

figuras, por terem “significado”. Muitas palavras só têm significado num contexto verbal apropriado –

certas palavras, como “do que”, “ou”, “contudo”, não podem aparecer sozinhas. Não podemos começar a

explicação de significado com tais palavras, já que pressupõem outras palavras. Porém, há palavras –

incluindo todas aquelas que uma criança aprende primeiro – que podem ser usadas isoladamente: nomes

próprios, nomes-classe de espécies familiares de animais, nomes de cores, e assim por diante. São as

que denomino “palavras-objeto”, e compõem a “linguagem-objeto”, sobre a qual muito terei a dizer num

capítulo posterior. Essas palavras têm várias peculiaridades. Primeira: seu significado é aprendido (ou

pode ser aprendido) por confronto com os objetos que são o que elas significam, ou instâncias do que

significam. Segunda: não pressupõem outras palavras. Terceira: cada uma, por si mesma, pode expressar

uma proposição completa: você pode exclamar “Fogo!”, mas seria sem sentido exclamar “Do quê!”.

Obviamente, é com tais palavras que qualquer explicação de “significado” deve começar; pois

“significado”, como “verdade” e “falsidade”, tem uma hierarquia de significados, correspondente à

hierarquia de linguagens.

As palavras são usadas de muitas formas: na narrativa, na petição, no comando, na ficção imaginativa,

e assim por diante, Porém, o uso mais elementar das palavras-objeto é o uso demonstrativo, tal como a

exclamação “raposa” quando uma raposa é visível. Quase igualmente primitivo é o vocativo: o uso de

um nome próprio para indicar desejo de presença da pessoa nomeada; mas isso não é totalmente

primitivo, visto que o significado de uma palavra-objeto deve ser aprendido na presença do objeto.

(Excluo as palavras aprendidas através de definições verbais, já que pressupõem uma linguagem já

existente.)

É óbvio que conhecer uma linguagem consiste em usar as palavras apropriadamente, e agir

convenientemente quando ouvidas. Não é necessário ser capaz de dizer o que uma palavra significa da

mesma forma que um jogador de críquete não precisa conhecer a teoria matemática do impacto e dos

projéteis. Realmente, no caso de muitas palavras-objeto, deve ser estritamente impossível dizer o que

significam, exceto por uma tautologia, pois é com elas que a linguagem começa. Só podemos explicar

(digamos) a palavra “vermelho” mostrando alguma coisa vermelha. Uma criança entende a palavra

ouvida “vermelho” quando tiver sido estabelecida uma associação entre a palavra ouvida e a cor

vermelha; ela terá dominado a palavra falada “vermelho” quando, caso observe algo vermelho, seja

capaz de dizer “vermelho” e tenha um impulso para fazê-lo.

A aprendizagem original das palavras-objeto é uma coisa; o uso da fala, quando o instrumento tiver

sido dominado, é outra. Na vida adulta, toda fala, como dizer um nome, está, ainda que menos

obviamente, em intenção, no imperativo. Quando parece ser um mero enunciado, deve ser prefaciado

pelas palavras “sabe que”. Sabemos muitas coisas, e asseveramos apenas algumas; as que asseveramos são as que desejamos que nossos ouvintes saibam. Quando vemos uma estrela cadente e dizemos