Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault
Significado e verdade
O que é uma palavra?
Nesse texto, o primeiro capítulo de sua obra Significado e verdade (An Inquiry into Meaning and Truth), publicada em 1940 e
resultado de uma revisão do texto das conferências William James por ele feitas na Universidade de Harvard naquele mesmo ano,
Russell introduz algumas distinções entre as várias acepções segundo as quais uma palavra é dotada de significado, retomando sua
concepção de denotação. Examina também os aspectos contextuais do significado e do uso de uma palavra pelo falante em relação a
seu ouvinte, valorizando assim uma concepção pragmática da análise do significado.
“As palavras faladas, ouvidas ou escritas diferem de outras classes de movimentos corporais, sons, ou
figuras, por terem “significado”. Muitas palavras só têm significado num contexto verbal apropriado –
certas palavras, como “do que”, “ou”, “contudo”, não podem aparecer sozinhas. Não podemos começar a
explicação de significado com tais palavras, já que pressupõem outras palavras. Porém, há palavras –
incluindo todas aquelas que uma criança aprende primeiro – que podem ser usadas isoladamente: nomes
próprios, nomes-classe de espécies familiares de animais, nomes de cores, e assim por diante. São as
que denomino “palavras-objeto”, e compõem a “linguagem-objeto”, sobre a qual muito terei a dizer num
capítulo posterior. Essas palavras têm várias peculiaridades. Primeira: seu significado é aprendido (ou
pode ser aprendido) por confronto com os objetos que são o que elas significam, ou instâncias do que
significam. Segunda: não pressupõem outras palavras. Terceira: cada uma, por si mesma, pode expressar
uma proposição completa: você pode exclamar “Fogo!”, mas seria sem sentido exclamar “Do quê!”.
Obviamente, é com tais palavras que qualquer explicação de “significado” deve começar; pois
“significado”, como “verdade” e “falsidade”, tem uma hierarquia de significados, correspondente à
hierarquia de linguagens.
As palavras são usadas de muitas formas: na narrativa, na petição, no comando, na ficção imaginativa,
e assim por diante, Porém, o uso mais elementar das palavras-objeto é o uso demonstrativo, tal como a
exclamação “raposa” quando uma raposa é visível. Quase igualmente primitivo é o vocativo: o uso de
um nome próprio para indicar desejo de presença da pessoa nomeada; mas isso não é totalmente
primitivo, visto que o significado de uma palavra-objeto deve ser aprendido na presença do objeto.
(Excluo as palavras aprendidas através de definições verbais, já que pressupõem uma linguagem já
existente.)
É óbvio que conhecer uma linguagem consiste em usar as palavras apropriadamente, e agir
convenientemente quando ouvidas. Não é necessário ser capaz de dizer o que uma palavra significa da
mesma forma que um jogador de críquete não precisa conhecer a teoria matemática do impacto e dos
projéteis. Realmente, no caso de muitas palavras-objeto, deve ser estritamente impossível dizer o que
significam, exceto por uma tautologia, pois é com elas que a linguagem começa. Só podemos explicar
(digamos) a palavra “vermelho” mostrando alguma coisa vermelha. Uma criança entende a palavra
ouvida “vermelho” quando tiver sido estabelecida uma associação entre a palavra ouvida e a cor
vermelha; ela terá dominado a palavra falada “vermelho” quando, caso observe algo vermelho, seja
capaz de dizer “vermelho” e tenha um impulso para fazê-lo.
A aprendizagem original das palavras-objeto é uma coisa; o uso da fala, quando o instrumento tiver
sido dominado, é outra. Na vida adulta, toda fala, como dizer um nome, está, ainda que menos
obviamente, em intenção, no imperativo. Quando parece ser um mero enunciado, deve ser prefaciado
pelas palavras “sabe que”. Sabemos muitas coisas, e asseveramos apenas algumas; as que asseveramos são as que desejamos que nossos ouvintes saibam. Quando vemos uma estrela cadente e dizemos