Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 34 de 58

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Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Sobre o sentido e a referência

Frege rompe assim com a lógica tradicional que via a proposição ou juízo como resultado da cópula (união) entre conceitos com sentidos

previamente determinados, que constituíam o sujeito e o predicado. Encontramos também nos seus Escritos póstumos (publicados na Alemanha em 1969): “Não parto dos conceitos, unindo-os então para formar um pensamento ou juízo; chego às partes de um pensamento analisando esse pensamento.” A análise é vista então como um recurso lógico que decompõe a unidade originária do juízo, para examinar a contribuição das partes que o compõem à determinação de seu significado. Mas, precisamente, a proposição se decompõe apenas por análise, como resultado do exame lógico, constituindo-se por natureza como uma unidade formal.

 

SOBRE O SENTIDO E A REFERÊNCIA

Teoria do significado: sentido, referência e verdade

 

Nesse artigo de 1896 encontramos uma das principais contribuições de Frege à filosofia da linguagem em um sentido amplo e não mais

restrito às questões estritamente lógicas. Podemos considerar que, de acordo com essa concepção, uma teoria do significado deveria

tratar de três grandes questões: 1) a questão do sentido: aquilo que compreendemos; 2) a questão da referência: aquilo de que se fala; e

3) a questão da verdade: se aquilo que se fala é verdadeiro ou falso, em relação ao real. Podemos estabelecer inicialmente as seguintes

distinções:

• A referência (Bedeutung) de um signo é o seu referente, aquilo a que se refere.

• O sentido (Sinn) de um signo é o seu modo de apresentação. Por exemplo, “o vencedor de Iena” e “o vencido de Waterloo” têm

diferentes sentidos, mas o mesmo referente (Napoleão Bonaparte).

• Diferentes tipos de signo envolvem diferentes tipos de referência:

– a referência de um nome próprio é o objeto designado

– a referência de uma expressão predicativa é o conceito

– a referência de uma sentença é o valor de verdade (a sentença é um tipo especial de nome próprio)

 

“A igualdade1 desafia a reflexão dando origem a questões que não são muito fáceis de responder. É ela

uma relação? Uma relação entre objetos ou entre nomes ou sinais de objetos? Em minha Begriffsschrift2

assumi a última alternativa. As razões que parecem apoiar esta concepção são as seguintes: a = a e a = b

são, evidentemente, sentenças de valor cognitivo diferentes; a = a sustenta-se a priori e, segundo Kant,

deve ser denominada analítica, enquanto que sentenças da forma a = b contêm, frequentemente, extensões

muito valiosas de nosso conhecimento, e nem sempre podem ser estabelecidas a priori. A descoberta de

que o sol nascente não é novo cada manhã, mas é sempre o mesmo, foi uma das descobertas astronômicas

mais ricas em consequências. Mesmo atualmente, o reconhecimento de um pequeno planeta ou de um

cometa nem sempre é evidente por si. Assim, se quiséssemos considerar a igualdade como uma relação

entre aquilo a que os nomes “a” e “b” se referem, pareceria que a = b não poderia diferir de a = a, desde

que a = b seja verdadeira. Deste modo, expressaríamos a relação de uma coisa consigo mesma, relação

que toda coisa tem consigo mesma, mas que nunca se dá entre duas coisas distintas. Por outro lado,

parece que por a = b quer se dizer que os sinais ou os nomes “a” e “b” referem-se à mesma coisa, e neste

caso a discussão versaria sobre estes sinais; uma relação entre eles seria asserida. Mas esta relação se

manteria entre os nomes ou sinais apenas na medida em que denominassem ou designassem alguma coisa.

Ela seria mediada pela conexão de cada um dos dois sinais com a mesma coisa designada. Esta conexão,

porém, é arbitrária. Ninguém pode ser impedido de empregar qualquer evento ou objeto arbitrariamente

produzidos como um sinal para qualquer coisa. Com isto, a sentença a = b não mais se referiria a uma

coisa, mas apenas à maneira pela qual a designamos; não expressaríamos por seu intermédio,

propriamente, nenhum conhecimento. Mas é justamente isto o que queremos em muitos casos. Se

[admitimos que] o sinal “a” [se distingue do sinal “b”] apenas enquanto objeto (aqui, por sua

configuração), não enquanto sinal – isto é, não pela maneira como designa alguma coisa –, então o valor

cognitivo de a = a tornar-se-ia essencialmente igual ao de a = b, desde que a = b seja verdadeira. Uma diferença só poderá aparecer se à diferença entre os sinais corresponde uma diferença no modo de

apresentação daquilo que é designado. Sejam a, b, c as linhas que ligam os vértices de um triângulo com

os pontos médios dos lados opostos. O ponto de interseção de a e b é, pois, o mesmo que o ponto de

interseção de b e c. Temos, assim, diferentes designações para o mesmo ponto, e estes nomes (“ponto de

interseção de a e b” e “ponto de interseção de b e c”) indicam, simultaneamente, o modo de apresentação

e, em consequência, a sentença contém um conhecimento real.

É, pois, plausível pensar que exista, unido a um sinal (nome, combinação de palavras, letra), além

daquilo por ele designado, que pode ser chamado de sua referência, ainda o que eu gostaria de chamar de

o sentido do sinal, onde está contido o modo de apresentação do objeto. Consequentemente, segundo

nosso exemplo, a referência das expressões “o ponto de interseção de a e b” e “o ponto de interseção de

b e c” seria a mesma, mas não os seus sentidos. A referência de “estrela da tarde” e “estrela da manhã”

seria a mesma, mas não o sentido.

Neste contexto fica claro que por “sinal” e por “nome” entendi qualquer designação que represente um

nome próprio, cuja referência seja um objeto determinado (esta palavra tomada na acepção mais ampla),

mas não um conceito ou uma relação, que serão discutidos em outro artigo. A designação de um objeto

singular pode também consistir em várias palavras ou outros sinais. Para sermos breves, chamaremos

cada uma destas designações de nome próprio.

O sentido de um nome próprio é entendido por todos que estejam suficientemente familiarizados com a

linguagem ou com a totalidade de designações a que ele pertence;3 isto, porém, elucida a referência, caso

ele tenha uma, mas de uma maneira sempre parcial. Para um conhecimento total da referência, exigir-se-

ia que fôssemos capazes de dizer, imediatamente, se um dado sentido pertence ou não a essa referência.

Isto, porém, nunca conseguiremos.

A conexão regular entre o sinal, seu sentido e sua referência é de tal modo que ao sinal corresponde

um sentido determinado e ao sentido, por sua vez, corresponde uma referência determinada, enquanto que

a uma referência (a um objeto) não deve pertencer apenas um único sinal. O mesmo sentido tem

expressões diferentes em diferentes linguagens, ou até na mesma linguagem. É verdade que exceções a

esta regra ocorrem. Certamente deveria corresponder, a cada expressão, que pertença a uma totalidade

perfeita de sinais, um sentido determinado; mas, frequentemente, as linguagens naturais não satisfazem a

esta exigência e deve-se ficar satisfeito se a mesma palavra tiver sempre o mesmo sentido num mesmo

contexto. Talvez possa ser assegurado que uma expressão gramaticalmente bem construída, e que

desempenhe o papel de um nome próprio, sempre tenha um sentido. Mas com isto não se quer dizer que

ao sentido corresponda sempre uma referência. As palavras “o corpo celeste mais distante da Terra” têm

um sentido, mas é muito duvidoso que também tenham uma referência. A expressão “a série que converge

menos rapidamente” tem um sentido, mas provadamente não tem referência, já que para cada série

convergente dada, uma outra série que converge menos rapidamente pode sempre ser encontrada.

Portanto, entender-se um sentido nunca assegura sua referência.

Se as palavras são usadas de modo corrente, o que se pretende falar é de sua referência. Também pode

acontecer, entretanto, que se deseje falar sobre as próprias palavras ou sobre o seu sentido. O primeiro

caso se dá, por exemplo, quando as palavras de outrem são citadas em discurso direto. As palavras de

quem cita referem-se, imediatamente, às palavras de quem é citado, e somente estas últimas têm sua

referência usual. Temos, assim, sinais de sinais. Neste caso, ao se escrever, encerram-se as palavras

entre aspas. Em consequência, uma palavra que se encontre entre aspas não deve ser tomada como tendo

sua referência usual.

Quando se quer falar do sentido de uma expressão “A”, pode-se fazê-lo simplesmente através da

locução “o sentido da expressão ‘A’”. No discurso indireto, fala-se, digamos, do sentido das palavras de

outrem. Fica, pois, claro que também neste discurso as palavras não têm suas referências costumeiras, mas referem-se ao que habitualmente é seu sentido. De modo mais sucinto, diremos que no discurso

indireto as palavras são usadas indiretamente, ou têm sua referência indireta. Em consequência,

distinguimos a referência costumeira de uma palavra de sua referência indireta, e o seu sentido

costumeiro de seu sentido indireto. A referência indireta de uma palavra é, pois, seu sentido costumeiro.

Tais exceções devem sempre ser lembradas, se se deseja compreender corretamente, para cada caso

particular, o modo de conexão entre sinal, sentido e referência.

A referência e o sentido de um sinal devem ser distinguidos da representação associada a este sinal. Se

a referência de um sinal é um objeto sensorialmente perceptível, minha representação é uma imagem

interna, emersa das lembranças de impressões sensíveis passadas e das atividades, internas e externas,

que realizei.4 Esta imagem interna está frequentemente saturada de emoções; a claridade de suas diversas

partes varia e oscila. Até num mesmo homem, nem sempre a mesma representação está associada ao

mesmo sentido. A representação é subjetiva: a representação de um homem não é a mesma de outro.

Disto resulta uma variedade de diferenças nas representações associadas ao mesmo sentido. Um pintor,

um cavaleiro e um zoólogo provavelmente associarão representações muito diferentes ao nome

Bucephalus. A representação, por tal razão, difere essencialmente do sentido de um sinal, o qual pode ser

a propriedade comum de muitos, e portanto não é uma parte ou modo da mente individual; pois

dificilmente se poderá negar que a humanidade possui um tesouro comum de pensamentos, que é

transmitido de uma geração para outra.5

Se, por um lado, não existe nenhuma objeção em se falar do sentido sem maiores esclarecimentos, no

que tange à representação deve-se, para ser preciso, vinculá-la a quem e a que época pertence. Poder-se-

ia talvez objetar: assim como, a uma mesma palavra, alguém pode associar esta ou aquela representação,

igualmente alguém pode associar-lhe este ou aquele sentido. Mas a diferença aqui reside no modo de

associação. Isto não impede que vários indivíduos apreendam o mesmo sentido; mas eles não podem ter a

mesma representação. Si duo idem faciunt, non est idem. Quando dois homens representam a mesma

coisa, ainda assim cada um tem sua própria representação. De fato, às vezes é possível estabelecer

diferenças entre as representações, ou mesmo as sensações de homens diferentes; mas uma comparação

precisa não é possível, porque não podemos ter ambas as representações juntas na mesma consciência.

A referência de um nome próprio é o próprio objeto que por seu intermédio designamos; a

representação que dele temos é inteiramente subjetiva; entre uma e outra está o sentido que, na verdade,

não é tão subjetivo quanto a representação, mas que também não é o próprio objeto. A comparação

seguinte poderá, talvez, esclarecer estas relações. Alguém observa a Lua através de um telescópio.

Comparo a própria Lua à referência; ela é o objeto da observação, proporcionado pela imagem real

projetada pela lente no interior do telescópio, e pela imagem retiniana do observador. A primeira,

comparo-a ao sentido, a segunda, à representação ou intuição. A imagem no telescópio é, na verdade,

unilateral; ela depende do ponto de vista da observação; não obstante, ela é objetiva, na medida em que

pode servir a vários observadores. Ela poderia ser disposta de tal forma que vários observadores

poderiam utilizá-la simultaneamente. Mas cada um teria sua própria imagem retiniana. Devido à

diversidade da configuração dos olhos, mesmo uma congruência geométrica entre estas imagens

dificilmente poderia ser obtida, e uma coincidência real seria impossível. Esta comparação poderia,

talvez, ser desenvolvida ainda mais, admitindo-se que a imagem retiniana de A pudesse tornar-se visível

para B; ou, ainda, que A pudesse ver sua própria imagem retiniana num espelho. Desta forma

poderíamos, talvez, mostrar como uma representação pode, ela mesma, ser tomada por objeto, mas não

obstante ela não é, para o observador, o que ela é diretamente para seu sujeito. Mas prosseguir neste

 

caminho nos levaria longe demais. ”