Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault
Tractatus logico-philosophicus
Ora, se o que torna as proposições significativas é sua relação com fatos possíveis e sua possibilidade de serem imagens de fatos, então
não faz sentido, na concepção do Tractatus, nenhum tipo de metalinguagem. A imagem é imagem de um fato. A forma comum à imagem e ao fato, o que permite a representação, não é ela própria um fato, isto é, não pode ser representada na linguagem. Falar da forma do mundo e da gramática (lógica) da linguagem é sem sentido. As proposições da metalinguagem não seriam imagens de fatos, mas pretenderiam falar sobre a própria linguagem, o que não faz sentido, já que sua estrutura não representa fatos, mas apenas se mostra em sua relação com o real. Temos então um impasse, uma vez que forçosamente as proposições que compõem o próprio Tractatus enfrentariam essa dificuldade.
Quando Wittgenstein retoma seu trabalho filosófico mais de dez anos após ter concluído o Tractatus, é a partir desse problema que
desenvolve sua filosofia.
As Investigações filosóficas
Iniciadas em 1936-37 e concluídas, se é que se pode dizer isto, em 1945, mas publicadas apenas postumamente, as Investigações filosóficas têm, de certo modo, um caráter dialógico. Wittgenstein escreve primeiramente para si, como em um monólogo, mas também para um leitor potencial cujas reações antecipa, para um interlocutor imaginário, que somos nós, seus leitores, com quem discute e a quem quer provocar. E ainda para um leitor crítico a quem quer responder – talvez a sombra de Russell, que parece pairar em algumas passagens. E escreve ainda para seus discípulos e seguidores em potencial, para quem quer mostrar outro tipo de filosofia, outro modo de ver as coisas (por exemplo §§1, 66). Parece nos propor uma alternativa, não necessariamente uma crítica à tradição, ou uma rejeição desta. Pensamos de forma habitual – por que não olhar para o que realmente fazemos, para o que está diante de nós e por isso mesmo, de tão familiar, não reconhecemos mais?
É principalmente quanto à concepção de linguagem que encontramos a ruptura mais explícita entre as Investigações e o Tractatus. As
Investigações apresentam uma concepção pragmática de linguagem. Pode-se mesmo dizer que nelas a linguagem, entendida como tendo uma estrutura básica, uma forma lógica, desaparece, dissolve-se, fragmenta-se, dando lugar aos jogos de linguagem (§7) – múltiplos, multifacetados, irredutíveis uns aos outros, que se definem como “um todo, consistindo de linguagem e das atividades a que ela está ligada”. No §23 Wittgenstein ilustra bem isso. Temos nessa passagem inicialmente o questionamento da identificação tradicional da linguagem e do significado com tipos de sentenças a partir de sua forma linguística. Se adotamos, contudo, a noção de jogo de linguagem, o significado não é estabelecido pela forma da sentença e pelo sentido e referência de seus componentes, mas pelo uso ou função das expressões linguísticas nos diferentes contextos em que as empregamos e pelos efeitos e consequências que produzem em seus usos específicos. O mesmo tipo de sentença poderá ter, portanto, significados diferentes, em diferentes contextos; daí a célebre fórmula “O significado de uma palavra é seu uso na linguagem” (§43).
O significado é assim indeterminado, só podendo ser compreendido através da consideração do jogo de linguagem, o que envolve mais do
que a simples análise da sentença enquanto tal. Os jogos de linguagem se caracterizam por sua multiplicidade, por sua pluralidade. Novos jogos surgem, outros desaparecem: a linguagem é dinâmica e só pode ser entendida a partir das formas de vida, das atividades de que é parte. O uso da linguagem é uma prática social concreta. Por isso é importante imaginar os casos possíveis, examinar os contextos, considerar os exemplos dados – deliberadamente diversificados, colocados todos no mesmo plano. Não há nenhum privilégio do calcular sobre o cantar cantigas de roda. É importante notar, na conclusão desse parágrafo, o contraste entre essa nova proposta de como ver a linguagem e a maneira como os lógicos a veem tradicionalmente, do ponto de vista de sua estrutura formal apenas, incluindo-se aí o próprio autor do Tractatus (§23).
Não se encontra mais agora a ideia de um isomorfismo entre a linguagem e o real – uma das teses centrais do Tractatus, como vimos
anteriormente. A linguagem não se define mais por sua relação com a realidade, nem a verdade é mais entendida como correspondência entre linguagem e realidade.
A tarefa da filosofia é um processo de clarificação do sentido de nossa experiência através do exame do uso da linguagem, do
estabelecimento das regras que tornam esse uso possível, do contexto em que ele se dá. “Queremos compreender algo que já está aberto diante de nossos olhos. Pois isso é o que, em certo sentido, parecemos não compreender” (§89).
A investigação filosófica é, portanto, gramatical, no sentido que Wittgenstein dá a “gramática” – o conjunto de regras de uso que explica o
significado do termo nos diferentes jogos de linguagem de que participa. O esclarecimento é produzido assim por uma Übersicht, isto é, uma “visão geral” ou “visão perspícua” (§122) do uso: estabelecendo-se as diferentes formas de uso, levando-se em conta os elementos do contexto, determinando-se relações etc. Porém nenhuma análise, nenhuma investigação desse tipo tem por objetivo estabelecer ou definir o significado de um termo de forma definitiva. Os resultados da análise são sempre provisórios e parciais.
Os jogos são jogados de acordo com regras que podem ser mais ou menos explícitas, mais ou menos formais. Do mesmo modo, os jogos
de linguagem possuem regras que definem o que é ou não válido, segundo as quais os objetivos podem ser alcançados. São regras pragmáticas (§§54, 82-88, 567), de uso, constitutivas dos jogos, que tornam possíveis os atos que os jogadores realizam. Analisar o significado das palavras consiste em situá-las nos jogos em que são empregadas, perguntarmos o que os participantes dos jogos fazem com essas palavras – isto é, em mapearmos as regras segundo as quais realizam lances válidos nesses jogos.
TRACTATUS LOGICO-PHILOSOPHICUS
A natureza da proposição
Concluída em 1918 e publicada em 1921, essa obra deve ser entendida a partir do contexto filosófico das obras de Gottlob Frege e de
Bertrand Russell. Pretende examinar como se dá a relação entre um complexo articulado que é a linguagem e outro complexo
articulado que é o real, através da determinação das categorias (lógicas) mais gerais da linguagem e das categorias (ontológicas) mais
gerais da realidade. Em especial, é necessário para isto se determinar a forma lógica da linguagem.