Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 4 de 58

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Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Górgias

O Sofista, cujo subtítulo é “Sobre o ser”, é um dos mais importantes diálogos de Platão, tratando da questão da distinção entre o

verdadeiro e o falso e discutindo a polêmica tese de Protágoras segundo a qual todo discurso (logos) é verdadeiro. Enquanto no Crátilo

a questão tratada é a da correção dos nomes, na passagem do Sofista que examinaremos (260a-264a), um diálogo entre um

“estrangeiro de Eleia” e o matemático Teeteto, Platão discute a proposição (logos) como resultando de uma combinação de palavras

que são o nome (funcionam como sujeitos) e o verbo (rhema, funcionando como predicados) (262a). Platão usa nessa passagem o

termo logos tanto para discurso quanto para proposição, afirmando que a proposição é a forma mais curta de discurso (262c). No

entanto, observa que uma lista de palavras não é ainda linguagem, não constitui um logos: “Nomes proferidos apenas de princípio ao fim

não vêm a formar uma proposição, assim como verbos proferidos sem serem acompanhados de algum nome.” (262a)

A combinação entre nome e verbo é tornada possível por um princípio que Platão denomina symploké (entrelaçamento) e que

podemos considerar uma primeira versão de um princípio sintático. Uma proposição é verdadeira quando a combinação que expressa

corresponde ao que ocorre no real e falsa quando essa combinação não se dá (263a-b).

 

“[262d] ESTRANGEIRO: Vou proferir diante de ti uma proposição, unindo o sujeito a uma ação por meio

de um nome e de um verbo, e me dirás do que trata essa proposição.

 

TEETETO: Assim farei, se puder.

 

ESTRANGEIRO: “Teeteto está sentado” é uma longa proposição?

 

TEETETO: Não, ao contrário, é bastante breve.

 

ESTRANGEIRO: Cabe a ti dizer sobre quem e do que fala.

 

TEETETO: Obviamente, sobre mim.

 

ESTRANGEIRO: E a seguinte?

 

TEETETO: Qual?

 

ESTRANGEIRO: “Teeteto, com quem estou conversando, voa.”

 

TEETETO: Também aqui a única resposta possível é a mesma, sobre mim.

 

ESTRANGEIRO: Mas cada uma dessas proposições deve ter uma característica.

 

TEETETO: Sim.

 

ESTRANGEIRO: E que qualidade devemos atribuir a cada uma dessas proposições?

 

TEETETO: Pode-se dizer que uma é verdadeira e outra, falsa.

 

ESTRANGEIRO: A verdadeira diz a seu respeito o que é.

 

TEETETO: Certo!

 

ESTRANGEIRO: E a falsa diz algo diferente do que é.

 

TEETETO: Sim.

 

ESTRANGEIRO: Portanto, diz aquilo que não é.

 

TEETETO: Sim, é o que diz.

 

ESTRANGEIRO: E diz a seu respeito coisas que não se aplicam, que não são como no real, pois como

 

dissemos a respeito de qualquer coisa há muitas formas de as coisas serem e não serem. ”

 

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