Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault
Górgias
O Sofista, cujo subtítulo é “Sobre o ser”, é um dos mais importantes diálogos de Platão, tratando da questão da distinção entre o
verdadeiro e o falso e discutindo a polêmica tese de Protágoras segundo a qual todo discurso (logos) é verdadeiro. Enquanto no Crátilo
a questão tratada é a da correção dos nomes, na passagem do Sofista que examinaremos (260a-264a), um diálogo entre um
“estrangeiro de Eleia” e o matemático Teeteto, Platão discute a proposição (logos) como resultando de uma combinação de palavras
que são o nome (funcionam como sujeitos) e o verbo (rhema, funcionando como predicados) (262a). Platão usa nessa passagem o
termo logos tanto para discurso quanto para proposição, afirmando que a proposição é a forma mais curta de discurso (262c). No
entanto, observa que uma lista de palavras não é ainda linguagem, não constitui um logos: “Nomes proferidos apenas de princípio ao fim
não vêm a formar uma proposição, assim como verbos proferidos sem serem acompanhados de algum nome.” (262a)
A combinação entre nome e verbo é tornada possível por um princípio que Platão denomina symploké (entrelaçamento) e que
podemos considerar uma primeira versão de um princípio sintático. Uma proposição é verdadeira quando a combinação que expressa
corresponde ao que ocorre no real e falsa quando essa combinação não se dá (263a-b).
“[262d] ESTRANGEIRO: Vou proferir diante de ti uma proposição, unindo o sujeito a uma ação por meio
de um nome e de um verbo, e me dirás do que trata essa proposição.
TEETETO: Assim farei, se puder.
ESTRANGEIRO: “Teeteto está sentado” é uma longa proposição?
TEETETO: Não, ao contrário, é bastante breve.
ESTRANGEIRO: Cabe a ti dizer sobre quem e do que fala.
TEETETO: Obviamente, sobre mim.
ESTRANGEIRO: E a seguinte?
TEETETO: Qual?
ESTRANGEIRO: “Teeteto, com quem estou conversando, voa.”
TEETETO: Também aqui a única resposta possível é a mesma, sobre mim.
ESTRANGEIRO: Mas cada uma dessas proposições deve ter uma característica.
TEETETO: Sim.
ESTRANGEIRO: E que qualidade devemos atribuir a cada uma dessas proposições?
TEETETO: Pode-se dizer que uma é verdadeira e outra, falsa.
ESTRANGEIRO: A verdadeira diz a seu respeito o que é.
TEETETO: Certo!
ESTRANGEIRO: E a falsa diz algo diferente do que é.
TEETETO: Sim.
ESTRANGEIRO: Portanto, diz aquilo que não é.
TEETETO: Sim, é o que diz.
ESTRANGEIRO: E diz a seu respeito coisas que não se aplicam, que não são como no real, pois como
dissemos a respeito de qualquer coisa há muitas formas de as coisas serem e não serem. ”
GÓRGIAS