Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 7 de 58

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Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Aristóteles

 

Em sua discussão sobre a linguagem, Aristóteles (384-322 a.C.) parte do impasse, ou aporia, que abordamos em nossa análise do Crátilo de Platão (ver capítulo anterior). Vimos que a hipótese naturalista, que garantiria uma contribuição do significado da palavra ao conhecimento da coisa, não se sustenta. Por outro lado, o conhecimento não poderia depender de signos linguísticos considerados como meramente convencionais. A solução aristotélica consiste em propor que a análise do significado dos signos deve se realizar através da relação entre a mente, isto é, o pensamento, e a realidade. A relação entre as palavras, enquanto signos linguísticos, e a realidade depende da mediação da mente. Essa é basicamente a tese de Aristóteles no Tratado da interpretação, e será desenvolvida ao longo da tradição, por exemplo em Santo Agostinho, no diálogo De magistro (Sobre o mestre), chegando até a Modernidade, como veremos mais adiante, em pensadores como Descartes, os mestres de Port-Royal e Locke (ver os respectivos capítulos).

Aristóteles é o ponto de partida das duas grandes linhas de desenvolvimento da discussão filosófica sobre a linguagem: 1) a relação entre

linguagem e pensamento e 2) a função comunicacional da linguagem. No primeiro caso, ao caracterizar os conceitos como signos mentais das coisas e as palavras como signos dos conceitos, Aristóteles aponta para o caminho da relação entre linguagem e mente que boa parte da tradição seguirá, procurando definir melhor a natureza do conceito e de sua relação com coisas e com palavras.

No segundo caso, mostra a importância de se ir além da função descritiva da linguagem, em que esta procura representar a realidade,

considerando a função da linguagem na comunicação e mostrando que de certa forma ambas se articulam. De acordo com essa concepção, usamos signos para expressar nossos pensamentos e para falar do real (“aquilo de que se fala”, na citação da Retórica adiante) para alguém.

 

TRATADO DA INTERPRETAÇÃO

A proposição, a linguagem e o pensamento, verdadeiro e falso

 

Conhecido também pelo título latino De interpretatione, esse pequeno tratado aristotélico é parte do Organon, o conjunto de tratados

sobre lógica e metodologia. Aqui Aristóteles discute a questão do significado das palavras, da natureza e estrutura da proposição, e

ainda do verdadeiro e do falso como resultado da relação entre a proposição e o real. Essa obra foi uma das mais influentes de

Aristóteles em toda a tradição, tendo sobrevivido à perda de suas obras no Ocidente latino ao final da Antiguidade e estando disponível

durante toda a Idade Média, mesmo antes da introdução de seus textos na Europa cristã, através das versões árabes, por volta do

século XII. Houve, por esse motivo, um grande número de comentários a esse tratado, destacando-se o de São Tomás de Aquino (In

libros ‘Peri hermeneias’ expositio, 1269-1272).

O conceito (em Aristóteles literalmente as “afecções da alma”) é o intermediário entre as palavras e as coisas, e enquanto entidade

mental possibilita o acesso à realidade, possuindo assim conteúdo cognitivo. O signo linguístico, para que seja dotado de significado, deve

estar sempre associado a um conceito. Sendo o signo convencional, sua relação com a realidade depende dessa associação com o

conceito – que não é convencional, e sim resulta da apreensão da realidade por nossa mente. A entidade mental seria assim um sinal

natural produzido pelo modo como a realidade natural afeta nossa mente. O conhecimento é da ordem do conceito e não da linguagem.

Conceitos são representações mentais, de natureza subjetiva, interior, de uma realidade externa, objetiva. O conhecimento que se

constitui pelo pensamento antecede a linguagem e é autônomo em relação a ela. A linguagem expressa, portanto, um pensamento que se

constitui de maneira prévia e autônoma em relação à sua expressão linguística. Como se vê na primeira das passagens abaixo (1. 16a 3-

8), Aristóteles supõe uma natureza humana universal (as afecções da alma, enquanto entidades mentais, são as mesmas para todos). A

representação linguística, o significado dos signos, depende da representação mental, dos signos com que os conceitos estão

relacionados, embora os signos (palavras) possam eles próprios variar culturalmente, como já assinalara Platão (no problema da

variação linguística discutido no Crátilo).

 

“[1.16a 3-8] As palavras faladas são símbolos das afecções da alma (pathemata psychai) e as palavras

escritas, símbolos das palavras faladas. Assim como a escrita não é a mesma para todos os homens, as

palavras faladas não são as mesmas; mas as afecções da alma, das quais as palavras faladas são

diretamente sinais (semeia), são as mesmas para todos, e as coisas de que as afecções da alma são

semelhanças são as mesmas.