Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault
Princípios da filosofia
Não se devem confundir as palavras com os movimentos naturais, que dão testemunho das paixões e
podem ser imitados pelas máquinas tanto quanto pelos animais; nem se deve pensar, como os antigos, que
os animais falam, apesar de não entendermos sua linguagem, pois, se isso fosse verdade, uma vez que têm
tantos órgãos equivalentes aos nossos, poderiam fazer-se compreender por nós, assim como por seus
semelhantes.”
PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA
Linguagem e pensamento, a linguagem como fonte de erro
A questão das origens e motivos dos erros e de como evitá-los foi uma das preocupações centrais dos filósofos do início da
Modernidade, como Descartes e Bacon. Isso deveu-se à descoberta dos “erros dos antigos”, por exemplo a concepção de que a Terra
era o centro do Universo. A descoberta desses erros faz com que a ciência antiga desmorone e, ao mesmo tempo, levanta um problema
sobre como garantir que a ciência moderna não estaria ela própria também sujeita a erro. Segundo essa visão, uma das fontes principais
de erro é a linguagem, porque é veículo de preconceitos do passado e de concepções não examinadas que assimilamos por hábito, e
também porque nossa familiaridade com as palavras faz com que deixemos de examiná-las e de levar em conta os pensamentos que
devem expressar.
“PARTE VIII: ANÁLISE DAS DIFERENTES CAUSAS DO ERRO; ART. 74
Quarta: unimos nossos pensamentos a palavras que não correspondem precisamente às coisas
Enfim, unimos todos os nossos conceitos a palavras para os expressarmos oralmente, e os relacionamos a
elas na memória. Por nos recordarmos com mais facilidade das palavras que das coisas, seria difícil
termos um conceito de algo separadamente das palavras com que se relacionam; por esse motivo os
homens prestam mais atenção às palavras que às coisas; em consequência, frequentemente dão seu aval a
termos que não compreendem e sequer se preocupam muito em compreender, seja porque acreditam já tê-
los ouvido, seja porque lhes parece que aqueles que os ensinaram sabiam o que significavam e os teriam
aprendido pelo mesmo processo. ”
CARTA DE DESCARTES A MERSENNE, AMSTERDAM, 20 DE NOVEMBRO DE 1629
O projeto de uma linguagem artificial
O projeto de elaboração de uma “língua universal” artificial para a ciência foi uma ambição de muitos pensadores do século XVII
(embora, na verdade, fosse encontrável já na tradição medieval, no catalão Ramon Llul (1232-1315), por exemplo). Descartes refere-se
aqui ao projeto, hoje perdido, de um inglês chamado Hardy, de que tomara conhecimento através de seu amigo, o padre Marin
Mersenne, e formula suas objeções a esse tipo de pretensão pelo modo como idealiza a linguagem. Embora considere que há algumas
vantagens, sobretudo quanto à simplicidade de uma linguagem desse tipo e, em consequência, quanto à sua facilidade de ser aprendida,
para ele esse projeto não poderia contribuir para o desenvolvimento da ciência porque, ao contrário, pressuporia ele próprio uma ciência
já desenvolvida e acabada da qual seria a expressão, pois se não fosse assim não teríamos o critério de adequação e correção dessa
linguagem artificial em relação ao conhecimento que pretendia expressar.
“Reverendo Padre,
Essa proposição de uma nova língua parece mais admirável de modo geral do que eu a considero ao
examiná-la mais de perto, uma vez que há duas coisas a se aprender em todas as línguas: o significado das palavras e a gramática. Quanto à significação das palavras, não promete nada em particular, já que