Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 18 de 58

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Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Princípios da filosofia

Não se devem confundir as palavras com os movimentos naturais, que dão testemunho das paixões e

podem ser imitados pelas máquinas tanto quanto pelos animais; nem se deve pensar, como os antigos, que

os animais falam, apesar de não entendermos sua linguagem, pois, se isso fosse verdade, uma vez que têm

tantos órgãos equivalentes aos nossos, poderiam fazer-se compreender por nós, assim como por seus

 

semelhantes.”

 

PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA

Linguagem e pensamento, a linguagem como fonte de erro

 

A questão das origens e motivos dos erros e de como evitá-los foi uma das preocupações centrais dos filósofos do início da

Modernidade, como Descartes e Bacon. Isso deveu-se à descoberta dos “erros dos antigos”, por exemplo a concepção de que a Terra

era o centro do Universo. A descoberta desses erros faz com que a ciência antiga desmorone e, ao mesmo tempo, levanta um problema

sobre como garantir que a ciência moderna não estaria ela própria também sujeita a erro. Segundo essa visão, uma das fontes principais

de erro é a linguagem, porque é veículo de preconceitos do passado e de concepções não examinadas que assimilamos por hábito, e

também porque nossa familiaridade com as palavras faz com que deixemos de examiná-las e de levar em conta os pensamentos que

devem expressar.

 

“PARTE VIII: ANÁLISE DAS DIFERENTES CAUSAS DO ERRO; ART. 74

 

Quarta: unimos nossos pensamentos a palavras que não correspondem precisamente às coisas

 

Enfim, unimos todos os nossos conceitos a palavras para os expressarmos oralmente, e os relacionamos a

elas na memória. Por nos recordarmos com mais facilidade das palavras que das coisas, seria difícil

termos um conceito de algo separadamente das palavras com que se relacionam; por esse motivo os

homens prestam mais atenção às palavras que às coisas; em consequência, frequentemente dão seu aval a

termos que não compreendem e sequer se preocupam muito em compreender, seja porque acreditam já tê-

los ouvido, seja porque lhes parece que aqueles que os ensinaram sabiam o que significavam e os teriam

 

aprendido pelo mesmo processo. ”

 

CARTA DE DESCARTES A MERSENNE, AMSTERDAM, 20 DE NOVEMBRO DE 1629

O projeto de uma linguagem artificial

 

O projeto de elaboração de uma “língua universal” artificial para a ciência foi uma ambição de muitos pensadores do século XVII

(embora, na verdade, fosse encontrável já na tradição medieval, no catalão Ramon Llul (1232-1315), por exemplo). Descartes refere-se

aqui ao projeto, hoje perdido, de um inglês chamado Hardy, de que tomara conhecimento através de seu amigo, o padre Marin

Mersenne, e formula suas objeções a esse tipo de pretensão pelo modo como idealiza a linguagem. Embora considere que há algumas

vantagens, sobretudo quanto à simplicidade de uma linguagem desse tipo e, em consequência, quanto à sua facilidade de ser aprendida,

para ele esse projeto não poderia contribuir para o desenvolvimento da ciência porque, ao contrário, pressuporia ele próprio uma ciência

já desenvolvida e acabada da qual seria a expressão, pois se não fosse assim não teríamos o critério de adequação e correção dessa

linguagem artificial em relação ao conhecimento que pretendia expressar.

 

“Reverendo Padre,

Essa proposição de uma nova língua parece mais admirável de modo geral do que eu a considero ao

examiná-la mais de perto, uma vez que há duas coisas a se aprender em todas as línguas: o significado das palavras e a gramática. Quanto à significação das palavras, não promete nada em particular, já que