Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 51 de 58

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Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Questões e temas para discussão

Escrita em 1947 (publicada em 1949) em resposta ao filósofo francês Jean Beaufret, nessa obra Heidegger procura dar um novo

sentido a “humanismo”, afastando-se da concepção tradicional, sobretudo existencialista. Deve-se levar em conta que Jean-Paul Sartre

havia apresentado uma conferência em 1945, intitulada “O existencialismo é um humanismo” (publicada no ano seguinte), e que o

próprio Beaufret havia escrito textos sobre o humanismo. A questão de Beaufret é como se pode dar um novo sentido ao humanismo.

Heidegger toma como ponto de partida o sentido de “homem” suposto em “humanismo” e explora suas relações com o cristianismo, o

marxismo e o existencialismo. Afirma então que o homem é o “pastor do Ser”, e que sua relação com o Ser se dá sobretudo através da

linguagem, entendida como “morada (casa) do Ser”, como seu “abrigo”. A linguagem não é assim apenas um instrumento, algo de que

dispomos para nos comunicar, mas o homem pertence à linguagem.

 

“Estamos ainda longe de pensar, com suficiente radicalidade, a essência do agir. Conhecemos o agir apenas como o produzir de um efeito. A sua realidade efetiva segundo a utilidade que oferece. Mas a essência do agir é o consumar. Consumar significa desdobrar alguma coisa até a plenitude de sua essência; levá-la à plenitude, producere. Por isso, apenas pode ser consumado, em sentido próprio, aquilo que já é. O que todavia “é”, antes de tudo, é o Ser. O pensar consuma a relação do Ser com a essência do homem. O pensar não produz nem efetua esta relação. Ele apenas a oferece ao Ser, como aquilo que a ele próprio foi confiado pelo Ser. Esta oferta consiste no fato de, no pensar, o Ser ter acesso à linguagem. A linguagem é a casa do Ser. Nesta habitação do Ser mora o homem. Os pensadores e os poetas são os guardas desta habitação. A guarda que exercem é o ato de consumar a manifestação do Ser, na medida em que a levam à linguagem e nela a conservam. Não é por ele irradiar um efeito, ou por ser aplicado, que o pensar se transforma em ação. O pensar age enquanto exerce como pensar. Este agir é provavelmente o mais singelo e, ao mesmo tempo, o mais elevado, porque interessa à relação do Ser com o homem. Toda a eficácia, porém, funda-se no Ser e espraia-se sobre o ente. O pensar, pelo contrário, deixa-se requisitar pelo Ser para dizer a verdade do Ser. O pensar consuma este deixar. Pensar é l’engagement par l’Être. Ignoro se do ponto de vista linguístico é possível dizer ambas as coisas (“ par” e “pour”), numa só expressão, a saber: penser, c’est l’engagement de l’Être. Aqui, a palavra para o genitivo “de l’…” visa expressar que o genitivo é, ao mesmo tempo, genitivus subjectivus e objectivus. Mas nisto não se deve esquecer que “sujeito e objeto” são expressões inadequadas da Metafísica que se apoderou, muito cedo, da interpretação da linguagem, na forma da “Lógica” e da “Gramática” ocidentais. Mesmo hoje, mal somos capazes de pressentir o que se esconde neste processo. A libertação da linguagem dos grilhões da Gramática e a abertura de um espaço essencial mais original estão reservadas como tarefa para o pensar e o poetizar. O pensar não é apenas l’engagement dans d’action em favor e através do ente, no sentido do efetivamente real da situação presente. O pensar é l’engagement através e em favor da verdade do Ser. A sua história nunca é completa, ela sempre está na iminência de vir a ser. A história do Ser sustenta e determina cada condition et situation humaine.

…

Supondo que em si nos seja dado questionar tão simploriamente: como se comporta, então, o Ser em relação à ex-sistência? O Ser é a

relação, na medida em que retém, junto a si, a ex-sistência na sua essência existencial, isto é, ex-stática, e a recolhe junto a si, como o lugar da verdade do Ser, no seio do ente. Pelo fato de o homem como ex-sistente vir a postar-se nesta relação que é a forma como o próprio Ser se destina, enquanto o homem o sustenta ex-staticamente, isto é, assume com cuidado, ele desconhece primeiro o mais próximo e atém-se ao que vem depois deste. Ele pensa até que isto é o mais próximo. Contudo, mais próximo que o próximo e, ao mesmo tempo, mais remoto que o mais longínquo para o pensamento corrente, é esta proximidade a verdade do Ser.

O esquecimento da verdade do Ser, em favor da agressão do ente impensado na sua essência, é o sentido da “decaída” nomeada em Ser

e tempo. A palavra não se refere a uma queda do homem, entendida do ponto de vista da “filosofia moral” e ao mesmo tempo secularizado, mas nomeia uma relação essencial do homem com o Ser, no seio do Ser referenciado à essência do homem. Portanto, as expressões preparatórias “autenticidade” e “inautenticidade”, usadas como prelúdio, não significam uma distinção moral-existencial, nem “antropológica”, mas a relação “ex-stática” do ser humano com a verdade do Ser que é a primeira a ter que ser pensada porque até agora oculta para a Filosofia. Mas esta relação é como é não em razão da ex-sistência, mas a essência da ex-sistência é existencial-ex-staticamente a partir da

 

essência da verdade do Ser.”

 

QUESTÕES E TEMAS PARA DISCUSSÃO

 

1. Em que medida a concepção de Heidegger de linguagem pode ser situada em sua crítica da

tradição filosófica?

2. Qual é, para Heidegger, a relação entre linguagem e natureza humana, segundo a Carta sobre o

humanismo?

3. Comente a frase de Heidegger “A linguagem é a morada do Ser”.

4. Como se pode entender, para Heidegger, a expressão “trazer a linguagem” na Carta sobre o

humanismo?