Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Danilo Marcondes · Capítulo 20 de 58

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Textos Básicos de Linguagem: De Platão a Foucault

Port-Royal

 

 

Defensora de um catolicismo rigorista e contando entre seus simpatizantes o filósofo Blaise Pascal, a escola de pensadores com sede na abadia cisterciense de Port-Royal des Champs, nas proximidades de Paris, foi um centro de grande influência na França do século XVII, fechado pouco mais tarde por questões religiosas.

Mais conhecida como a Lógica de Port-Royal, a obra intitulada Lógica ou A arte de pensar [Logique, ou L’Art de penser], publicada

anonimamente em 1662, foi escrita por Antoine Arnauld e Pierre Nicole, ambos membros dessa escola, sendo utilizada para o ensino da lógica até o século XIX. A clareza do texto e seu caráter didático – visto ter sido escrito como manual para a instrução do jovem duque de Chevreuse – certamente explicam esse sucesso.

Pode-se considerar que, sob vários aspectos, a Lógica de Port-Royal contém a “filosofia da linguagem” de Descartes, uma vez que este

escreveu muito pouco sobre linguagem e praticamente nada sobre lógica, mas influenciou fortemente os pensadores de Port-Royal, sobretudo Arnauld, que antes havia escrito um conjunto de objeções às Meditações. A lógica de Port-Royal é, assim, psicológica, ou seja, uma lógica que pretende representar o funcionamento do pensamento humano – as operações do intelecto no processo de conhecimento, a maneira pela qual as ideias (termo empregado no sentido cartesiano) representam a realidade e como, por sua vez, as palavras expressam as ideias –, afastando-se com isso do formalismo lógico.

Segundo a semântica de Port-Royal, o significado das palavras são as ideias associadas a elas. Isso permitiria superar a arbitrariedade do

signo linguístico convencional por meio da relação deste com as ideias, que, estas sim, seriam representações adequadas da realidade.

 

LÓGICA OU A ARTE DE PENSAR

A convencionalidade do signo: palavras e ideias

 

Nos textos aqui selecionados, do início dessa obra, Arnauld e Nicole discutem a dupla função da linguagem, ou seja, representar a

realidade e tornar possível a comunicação humana. O significado das palavras consiste, como fica claro na passagem que

examinaremos, na sua relação com as ideias que lhes correspondem, e que, por sua vez, representam a realidade. Podemos estabelecer

uma relação entre essa passagem e a preocupação expressa por Descartes (ver o capítulo sobre esse filósofo) nos Princípios da

filosofia (VIII, art.74) de sempre se considerar as palavras em relação às ideias, para se evitar o erro.

Vemos também como, na mesma linha da tradição, os mestres de Port-Royal consideram o processo pelo qual associamos palavras

a ideias como o caminho para superação do convencionalismo linguístico, pois, se as palavras são “arbitrárias”, as ideias associadas a

elas, ou seja, seus significados, não o são. A convenção, por si só, seria insuficiente para tornar o signo inteligível. O texto dá alguns

exemplos disso, inclusive em relação à palavra “Deus”.

Na comparação entre os árabes e os franceses, o argumento da variação linguística também é empregado como levando à

superação do plano das palavras – caso contrário, não poderíamos dizer que falam das mesmas coisas.

 

“A lógica é a arte pela qual o homem conduz bem a sua razão no conhecimento das coisas, tanto para se

autoinstruir quanto para instruir os outros.

Essa arte consiste em reflexões que os homens têm feito sobre as quatro principais operações do

espírito humano: conceber, julgar, raciocinar e ordenar.

Denominamos conceber a simples visão que temos das coisas que se apresentam a nosso espírito,

como quando nos representamos um sol, uma terra, uma árvore, um círculo, um quadrado, o pensamento,

o ser, sem formar acerca disso nenhum juízo expressamente. E a forma pela qual nos representamos essas

coisas se denomina ideia.

Denominamos julgar a ação de nosso espírito pela qual, unindo diversas ideias, afirma acerca de uma

que é outra, ou nega acerca de uma que seja outra, como quando tendo a ideia de Terra e de redondo,

afirmo acerca da Terra que ela é redonda, ou nego que seja redonda.

Denominamos raciocinar a ação de nosso espírito pela qual este forma um juízo a partir de vários

outros; como quando, tendo julgado que a verdadeira virtude deve relacionar-se a Deus, e que a virtude

dos pagãos não se relacionava a Ele, conclui-se que a virtude dos pagãos não era uma verdadeira

virtude.

Denominamos aqui ordenar a ação de nosso espírito pela qual, tendo sobre um mesmo assunto, como o

corpo humano, diversas ideias, diversos juízos e diversos raciocínios, ele os dispõe da maneira mais

adequada para nos dar a conhecer esse assunto. Trata-se do que denominamos também método.

Tudo isto é feito naturalmente, e alguma vezes melhor por aqueles que não aprenderam nenhuma regra

da lógica do que por aqueles que as aprenderam.

Portanto, essa arte não consiste em encontrar a maneira de realizar tais operações, pois a natureza já

nos forneceu isto ao nos dar a razão; mas consiste em realizar reflexões sobre o que a natureza nos faz

realizar – o que nos serve para três coisas.

A primeira consiste em estarmos seguros de que nos utilizamos bem de nossa razão, porque a

consideração da regra nos faz dar a isso uma atenção nova.

A segunda consiste em descobrir e explicar mais facilmente o erro ou o defeito que se pode encontrar

nas operações de nosso espírito. Pois ocorre frequentemente que descobrimos apenas pela luz natural que

um raciocínio é falso mas não descobrimos, entretanto, a razão pela qual é falso, como aqueles que não

entendem de pintura podem ficar chocados com os defeitos de um quadro sem contudo saber explicar

qual o defeito que os choca.

A terceira consiste em nos fazer conhecer melhor a natureza de nosso espírito por meio das reflexões

que realizamos sobre suas ações. O que é em si o mais excelente quando se examina apenas a

especulação, do que o conhecimento de todas as coisas corpóreas que são infinitamente inferiores às

espirituais.

Se as reflexões que fazemos sobre nossos pensamentos dissessem respeito apenas a nós mesmos,

bastaria considerá-las em si próprias, sem as revestir de nenhuma palavra, nem de nenhum outro signo;

mas, uma vez que não podemos fazer compreender nossos pensamentos uns aos outros sem acompanhá-

los de signos exteriores, e mesmo porque este costume é tão forte que quando pensamos solitariamente as

coisas não se apresentam a nosso espírito senão por meio das palavras com as quais nos acostumamos a

revesti-las quando falamos aos outros, é necessário na lógica considerar as ideias juntamente com as

palavras, e as palavras juntamente com as ideias.

 

PRIMEIRA PARTE

CONTENDO AS REFLEXÕES SOBRE AS IDEIAS, OU

SOBRE A PRIM EIRA AÇÃO DE NOSSO ESPÍRITO, QUE DENOM INAM OS CONCEBER

 

Como não podemos ter nenhum conhecimento daquilo que está fora de nós senão pelo intermédio das

ideias que se encontram em nós, as reflexões que podemos fazer sobre nossas ideias são, talvez, o que há

de mais importante na lógica, uma vez que são o fundamento de tudo mais.

Podemos reduzir essas reflexões a cinco mais importantes, segundo as cinco maneiras pelas quais

consideramos as ideias.

A 1a Segundo sua natureza e sua origem.

A 2a Segundo as principais diferenças entre os objetos que elas representam.

A 3a Segundo sua simplicidade ou composição; quando trataremos das abstrações ou precisões do

espírito.

A 4a Segundo sua extensão ou restrição, quer dizer, segundo sua universalidade, particularidade,

singularidade.

A 5a Segundo sua clareza e obscuridade, ou distinção e confusão.

Capítulo I: Sobre as ideias segundo sua natureza e sua origem

 

A palavra “ideia” é uma dessas que são tão claras que não podemos explicá-las por meio doutras, uma

vez que não há nenhuma outra que seja mais clara, nem mais simples.

Mas tudo que podemos fazer para impedir que nos enganemos acerca disso é assinalar o falso

entendimento que podemos atribuir a esta palavra, ao restringi-la apenas a este modo de conceber as

coisas, que se faz pela aplicação de nosso espírito às imagens que são pintadas em nosso cérebro e que

denominamos imaginação.

Pois, como observava frequentemente Santo Agostinho, o homem após o pecado se acostumou de tal

forma a considerar apenas as coisas corpóreas, cujas imagens penetram em nosso cérebro por meio dos

sentidos, que a maioria crê poder conceber uma coisa apenas quando pode imaginá-la, isto é, representá-

la por meio de uma imagem corpórea, como se houvesse em nós essa única maneira de pensar e conceber.

Como se não pudéssemos refletir sobre aquilo que se passa em nosso espírito, como se não

reconhecêssemos que concebemos um número muito grande de coisas sem nenhuma dessas imagens, e

como se não percebêssemos a diferença que há entre a imaginação e a pura intelecção. Pois, por

exemplo, uma vez que imagino um triângulo, não o concebo apenas como uma figura delimitada por três

linhas retas; além disso, considero essas três linhas como presentes pela força e aplicação interior de

meu espírito, e é isto propriamente que denominamos imaginar. Pois se desejo pensar em uma figura de

mil ângulos, concebo bem na verdade que se trata de uma figura composta de mil lados, tão facilmente

quanto concebo que um triângulo é uma figura composta de três lados apenas; mas não posso imaginar os

mil lados dessa figura, nem por assim dizer vê-los com os olhos de meu espírito.

É verdade, contudo, que o costume que temos de nos servir de nossa imaginação assim que pensamos

nas coisas corpóreas faz frequentemente com que, ao conceber uma figura de mil lados, nós nos

representemos confusamente uma figura qualquer; mas é evidente que essa figura que nos representamos

agora pela imaginação não é uma figura de mil ângulos, uma vez que em nada difere daquilo que me

representaria se pensasse em uma figura de dez mil ângulos, e não serve de modo algum para se

descobrir as propriedades que fazem a diferença entre uma figura de mil ângulos e qualquer outro

polígono.

Não posso, portanto, propriamente imaginar uma figura de mil ângulos, uma vez que a imagem que

veria pintada em minha imaginação representaria todas as outras figuras de um grande número de ângulos

tanto quanto esta de mil ângulos; no entanto, posso concebê-la de modo bem claro e distinto, já que posso

demonstrar todas as suas propriedades, como por exemplo que todos os seus ângulos em conjunto são

iguais a 1.996 ângulos retos; e, por conseguinte, uma coisa é imaginar e outra coisa é conceber.

Isto fica ainda mais claro ao considerarmos várias coisas que concebemos muito claramente embora

não sejam do tipo de coisas que podemos imaginar. O que concebemos mais claramente que nosso

pensamento, quando pensamos? E, apesar disso, é impossível imaginar um pensamento ou pintar uma

imagem disso em nosso cérebro. O sim e o não não podem, assim, corresponder a nenhuma imagem,

aquele que julga que a Terra é redonda e aquele que julga que ela não é redonda têm ambos as mesmas

coisas pintadas em seu cérebro, a saber a Terra e o fato de que é redonda, mas um acrescenta a isso a

afirmação que é uma ação de seu espírito, a qual ele concebe sem nenhuma imagem corpórea, e o outro

uma ação contrária que é a negação, à qual uma imagem pode corresponder menos ainda.

Portanto, quando falamos das ideias, não denominamos por meio desta palavra as imagens que são

pintadas pela fantasia, mas sim tudo aquilo que se encontra em nosso espírito, quando podemos dizer

verdadeiramente que concebemos algo, qualquer que seja o modo pelo qual a concebemos.

Donde se segue que só podemos exprimir algo por meio de nossas palavras quando ouvimos o que

dizemos, se tivermos com certeza em nós a ideia daquilo que significamos pelas palavras, seja essa ideia

clara e distinta ou confusa e obscura, como explicaremos adiante. Pois haveria uma contradição se eu dissesse que sei o que digo quando profiro uma palavra e, no entanto, não concebesse nada ao proferi-la

além de seu próprio som.

É isto que nos faz ver a falsidade de duas opiniões muito perigosas defendidas pelos filósofos

contemporâneos.

A primeira consiste em dizer que não temos nenhuma ideia de Deus. Pois, se não temos nenhuma ideia

disto, ao proferir a palavra “Deus” nós conceberíamos apenas estas quatro letras, d, e, u, s; e um francês

não teria em seu espírito, ao ouvir a palavra “Deus”, nada diferente do que teria se, ignorando a língua

hebraica, entrasse em uma sinagoga e ouvisse proferido Adonai ou Eloha.

E, quando homens como Calígula e Domiciano se autodenominaram Deus, não teriam cometido

nenhuma impiedade, não havendo nestas letras ou nesta sílaba, Deus, nada que não pudesse ser atribuído

a um homem, uma vez que não as associamos a nenhuma ideia. Donde se segue que tampouco podemos

acusar um holandês de impiedade por se chamar Ludovicus Deus. No que consistiria, portanto, a

impiedade desses príncipes, senão em que, ao atribuírem à palavra “Deus” uma parte ao menos da ideia

correspondente, a de uma natureza excelente e adorável, estariam se apropriando do nome juntamente

com a ideia?

Mas, se não tivéssemos a ideia de Deus, sobre o que poderíamos fundamentar tudo que dizemos de

Deus – que só existe um, que é eterno, todopoderoso, sumamente bom, sumamente sábio –, uma vez que

nada disto está contido no som “deus”, mas tão somente na ideia que temos de Deus e que associamos a

esse som?

E é apenas por esse motivo que recusamos a denominação “Deus” a todas as falsas divindades: não

porque esta palavra não lhes pudesse ser atribuída se fosse tomada materialmente, pois que lhes foi

atribuída pelos pagãos, mas sim porque a ideia do ser soberano, que temos em nós e que o uso associou à

palavra “deus”, convém apenas ao único Deus verdadeiro.

A segunda dessas falsas opiniões consiste no que foi dito por um inglês, afirmando que o raciocínio

não pode ser outra coisa senão um ajuntamento de nomes encadeados por esta palavra “é”. Donde se

seguiria que, pela razão, não concluímos absolutamente nada acerca da natureza das coisas, mas apenas

acerca de sua denominação; quer dizer, que simplesmente vemos se ajuntamos bem ou mal os nomes das

coisas segundo as convenções que fizemos em nossa fantasia quanto a seus significados.

Ao que este autor acrescentou: se é assim que ocorre, como parece possível, o raciocínio dependerá

das palavras, as palavras da imaginação e a imaginação dependerá, talvez, como creio, do movimento

dos órgãos do corpo; e assim nossa alma (mens) não será nada além de um movimento em algumas partes

do corpo orgânico.

É necessário crer que estas palavras contêm apenas uma objeção distante dos sentimentos daquele que

a propõe, mas, como se tomadas afirmativamente conduziriam à ruína da imortalidade da alma, é

importante mostrar sua falsidade, o que não será difícil. Pois todas as convenções de que fala esse

filósofo consistem apenas no acordo feito entre os homens de modo a tomar certos sons como signos das

ideias que temos no espírito. De sorte que, se além dos nomes não tivéssemos em nós mesmos as ideias

das coisas, essa convenção teria sido impossível, como é impossível por meio de uma convenção fazer

um cego entender o que querem dizer as palavras “vermelho”, “verde”, “azul”, já que, não tendo as

ideias, não pode juntá-las a nenhum som.

Além disso, as diversas nações terem atribuído diferentes nomes às coisas, mesmo às mais claras e

mais simples, como aquelas que são objetos da geometria, isto indica que não teriam os mesmos

raciocínios acerca das mesmas verdades se o raciocínio fosse apenas um ajuntamento de nomes por meio

da palavra “é”.

E, como parece, considerando-se essas diferentes palavras, que os árabes, por exemplo, não

concordaram com os franceses em atribuir os mesmos significados aos sons não poderiam tampouco

concordar em seus juízos e raciocínios, se seus raciocínios dependessem dessa convenção.