Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 8 de 40

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Vitória

Capítulo VII

Bastante tempo depois (não nos encontrávamos muito amiúde) perguntei a Davidson como se havia arranjado para devolver o chalé, e soube que ele desempenhara a sua missão por uma forma simples, sem encontrar dificuldades. Na primeira ocasião que tocou em Semarang enrolou o xale num pacote de papel pardo, que fez o menor possível, e levou-o à terra. Após tratar dos seus negócios na cidade subiu a um carrinho com o pacote e dirigiu-se para o hotel. Baseando-se na experiência anterior, escolheu a hora exata em que Schomberg dormia a sesta. Encontrou o hotel vazio como na primeira ocasião. .Entrou na sala de bilhar e sentou-se a uma mesa do fundo, próxima à espécie de tablado onde a seu tempo viria instalar-se a sra. Schomberg, e rompeu a quietude sonolenta da casa batendo vigorosamente numa campainha. Atendeu logo um dos chineses. Davidson pediu uma bebida e ficou imóvel, à espera.

— Se necessário fosse, teria pedido vinte bebidas uma depois da outra — disse-me Davidson (que era muito abstêmio) —mas não havia de levar aquele pacote de volta. Também não podia deixá-lo num canto sem avisar a mulher. Podia ser ainda pior para ela do que se não lhe tivesse restituído a coisa.

Esperou pois, tocando várias vezes a campainha e engolindo sem vontade duas ou três aguardentes geladas. Daí a pouco, conforme calculara, apareceu a sra. Schomberg: vestido de seda, pescoço alongado, cachos, olhar medroso e sorriso idiota, tudo completo. Provavelmente aquele madraço lhe mandara ver quem era o sedento que acordava os ecos da casa, a essa hora votada ao descanso. Mesura, inclinação de cabeça... Ela acomodou-se no seu assento atrás do balcão elevado, com um ar tão desamparado, tão inane, que se não fosse o pacote, dizia Davidson, teria julgado que tudo que se passara entre eles fora um sonho. Pediu mais alguma coisa para afastar da sala o chinês, apanhou o pacote, que repousava numa cadeira ao seu lado, e murmurando: “Isto lhe pertence” introduziu-o rapidamente num nicho do balcão, aos pés da hoteleira. Pronto! O resto era com ela. E não fora sem tempo. Nem bem voltara Davidson à sua cadeira quando Schomberg apareceu, a bocejar afetadamente. Lançava olhares desconfiados e coléricos em torno de si. A Invencível placidez de expressão prestou inestimável serviço a Davidson nessa ocasião. O outro, claro, não tinha o menor motivo para suspeitar um entendimento entre sua mulher e o freguês.

Quanto à sra. Schomberg, estava impassível como um ídolo. Davidson pasmou. Acreditava agora que a mulher vinha simulando havia anos. Nem sequer pestanejava. Era fantástico! Aquele íntimo assim revelado quase o aterrava. Não cabia em si de assombro por conhecer a verdadeira sra. Schomberg melhor que qualquer outro nas ilhas, inclusive o próprio Schomberg. Era um portento de dissimulação. Não admirava que Heyst tivesse raptado a moça sob as barbas de dois homens, tendo-a por assistente!

O maior prodígio, contudo, era andar Heyst às voltas com mulheres. Sua vida fora, durante anos, um livro aberto para nós, Não podia ser mais alheia a contatos femininos. Salvo as bebidas que, como qualquer outro, pagava de quando em quando aos conhecidos, o observador de fatos não parecia ter relação alguma com os negócios e paixões terrenas. Era como uma pluma a flutuar levemente na atmosfera prosaica que nós respirávamos. Por tal motivo, esse espectador atraia a atenção Sempre que entrava em contato com as coisas. Primeiro fora a misteriosa parceria com Morrison; depois, a grande sensação da Companhia de Carvão da Zona Tropical, onde, na verdade, estiveram envolvidos interesses de vária sorte: um genuíno empreendimento comercial. E agora este rapto, este discordante fenômeno de autoafirmação, o maior portento de todos, e não menos divertido que maravilhoso.

Davidson confessou-me que o zunzum ia diminuindo. O caso já estaria esquecido se aquele asno de Schomberg não continuasse a ranger os dentes em público. Era mesmo irritante que Davidson não nos pudesse dar uma ideia da moça. Ignorava se era bonita ou não. Demorara-se a tarde inteira no hotel de Schomberg, principalmente no propósito de descobrir alguma coisa a respeito dela. Mas a história já ia ficando corriqueira. Os grupos da varanda tinham casos mais recentes para comentar, e Davidson evitava as Indagações diretas. Ficou placidamente sentado, satisfeito com passar despercebido, e esperando alguma alusão casual. Não me admiraria se o digno homem estivesse cochilando. É difícil dar uma ideia adequada da sua placidez.

Em dado momento Schomberg, que vagueava por ali, veio fazer companhia ao grupo instalado em redor da mesa contígua à do capitão.

— Um homem como esse sueco, cavalheiros, é um perigo público — começou ele, — Há anos que o conheço. Não vou referir-me à sua espionagem... ele mesmo costumava dizer que andava à procura de fatos incomuns, e o que é isso senão espionagem? Espionava a vida de toda a gente. Tomou conta do Capitão Morrison, espremeu-o bem, como nós esprememos uma laranja, e afinal enxotou-o para a Europa sabendo que ele morreria lá. Todos sabem que o Capitão Morrison era fraco do peito. Primeiro saqueado e depois assassinado! Eu não uso panos quentes para dizer as coisas... ah, não! Depois ele veio com aquela vigarice da Companhia de Carvão. Todos os senhores conhecem a história. E agora, com os bolsos recheados de dinheiro alheio, rapta uma moça branca, pertencente a uma orquestra que toca no meu salão, para os meus clientes, e vai viver como um príncipe naquela ilha, onde ninguém pode agarrá-lo. Que garota idiota... Isso é nojento... puf!

Cuspiu. Sufocava de raiva — pois não resta dúvida que tinha visões. Levantou-se de um salto e afastou-se, talvez para fugir delas. Entrou na sala onde se achava sua mulher. O aspecto desta não podia trazer grande lenitivo ao seu tormento.

Davidson não se julgou na obrigação de defender Heyst. O seu método era travar conversação com um e outro, naturalmente, mostrando-se pouco ao par da história, com o fim de averiguar alguma coisa sobre a moça. Teria ela atrativos excepcionais? Seria bonita? Muito bonita não podia ser, pois não chamara muita atenção. Era moça: nisto todos concordavam. O caixeiro inglês dos Tesman lembrava-se de lhe ter notado a palidez do rosto. Era um homem morigerado e correto. Não seria capaz de se misturar com tal casta de gente. A maioria das mulheres eram espécimes bastante deteriorados. Schomberg as alojara naquilo que ele chamava o “Pavilhão”, situado nos terrenos do hotel, onde elas mourejavam cerzindo e lavando os seus vestidos brancos, e onde podiam ser vistas a estendê-los entre as árvores para secar, como um bando de lavadeiras. Até no tablado tinham uma aparência de lavadeiras quarentonas. Mas a moça tomara um quarto no prédio principal, onde também estavam o diretor, o homem das barbas pretas, e uma mulher velhusca e casmurra, a pianista da orquestra, que diziam esposa do sujeito.

O resultado da investigação não era muito satisfatório. Davidson demorou-se no hotel, ficou mesmo para jantar na mesa comum, sem conseguir mais nada. Estava resignado.

— Imagino — chiava placidamente — que ainda hei de vê-la um dia.

Tencionava passar pelo canal de Samburan em todas as viagens, como antes.

— Sim — respondi. — Não duvido. — Um dia Heyst lhe fará sinal novamente. O que eu pergunto é para que será.

Davidson não me respondeu. Tinha lá as suas ideias a esse respeito, e o seu silêncio calava muita coisa. Não falamos mais na pequena de Heyst. Antes de nos separarmos ele observou:

— E engraçado. Desconfio que haja jogo de noite no hotel de Schomberg, às escondidas. Reparei nuns indivíduos que se dirigiam em grupos de dois e três para aquele salão onde antes davam os concertos. As janelas devem ser muito bem fechadas, porque não vi a menor luz. Mas não posso crer que aqueles velhacos vão lá só para ficar sentados no escuro, pensando nos seus pecados.

É singular. Parece incrível que Schomberg arrisque uma coisa dessas — respondi.