Vitória
Parte 2
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Parte 2
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I
Como já sabemos, Heyst fora hospedar-se no hotel de Schomberg, em completa ignorância do quanto a sua pessoa era odiosa a esta notabilidade. Quando chegou fazia já algum tempo que a orquestra Zangiacomo estava instalada ali.
O negócio que o arrancara à sua reclusão naquele canto perdido dos mares orientais era um negócio de dinheiro e estava nas mãos dos Tesman. Resolveu-o rapidamente e ficou sem nada que fazer enquanto esperava Davidson, que devia levá-lo de regresso à sua ilha deserta — pois para lá tencionava Heyst voltar. O homem a quem costumávamos referir-nos como “o Heyst Encantado” estava preso de fundo desencanto. Não com as ilhas, todavia. O Arquipélago exerce uma fascinação duradoura. Não é fácil romper o sortilégio da vida ilhoa. Heyst sentia-se desencantado com a vida em geral. O seu temperamento desdenhoso, induzido a agir, sofria com o insucesso por uma forma sutil, desconhecida dos que estão afeitos a esgrimir-se com as realidades dos empreendimentos humanos. Era como a dor confrangedora de uma apostasia inútil, uma espécie de vergonha em face de sua própria natureza traída. Considerava-se responsável pela morte de Morrison — sentimento algo absurdo, pois ninguém podia prever os horrores daquele inverno úmido e frio que aguardava o pobre homem na sua pátria.
O caráter de Heyst não comportava a melancolia, mas o trato social repugnava naquele momento à sua disposição de animo. Passava os serões sentado, sozinho, na varanda do hotel. As lamentações dos instrumentos de corda evolavam-se do pavilhão, cujas proximidades eram decoradas com lanternas japonesas de papel, penduradas entre diversas árvores grandes. Fragmentos de música, mais ou menos queixosa, chegavam-lhe ao ouvido. Perseguiam-no até no seu quarto, que abria para uma varanda superior. A intrusão desses sons destacados e ásperos tornava-se, com o tempo, indizivelmente fastidiosa. Como quase todos os sonhadores, a quem é dado por vezes ouvir a música das esferas, Heyst, o vagabundo do Arquipélago, tinha o gosto do silêncio e durante anos pudera satisfazer essa predileção. As ilhas são muito silenciosas. Vemos todas estendidas, envoltas na sua roupagem escura de folhas, em meio à grande quietude do azul sombreado de prata, onde mar e céu se encontram num anel de mágico silêncio. Uma espécie de torpor sorridente paira sobre elas. A própria voz dos nativos é doce e abafada, como se receassem romper algum encanto protetor.
Talvez fosse este mesmo o encanto que subjugara Heyst de início. Para ele, contudo, se quebrara. Já não era um encantado, embora continuasse cativo das ilhas. Não tencionava deixá-las jamais. Para onde iria depois de tantos anos? Não tinha em todo o mundo uma única pessoa sua. Só recentemente se apercebera deste fato, que aliás lhe interessava de perto: é sempre o insucesso que faz um homem voltar-se para si mesmo e avaliar os seus recursos. E, conquanto tivesse resolvido retirar-se do mundo fazendo-se ermitão, o sentimento de solidão que lhe viera na hora da renúncia calava nele com absurda intensidade. Magoava-o. Nada é mais doloroso que o choque dessas contradições violentas que nos laceram o coração e o espírito.
Enquanto isso, Schomberg observava Heyst com o canto do olho. Mantinha diante do alvo inconsciente da sua inimizade uma atitude distante, à tenente da reserva. Cutucava alguns fregueses e pedia que reparassem nos ares que se dava "esse sueco".
— Francamente, não sei por que ele veio para o meu hotel. Não é lugar que lhe convenha. Prouvera a Deus que fosse alardear superioridade em outra parte. Por exemplo, eu organizei esta série de concertos para os cavalheiros, com o fim de animar um pouco os nossos serões. Pois julgam que ele se digna entrar no salão e ouvir um ou dois números? Que esperança! Há muito que o conheço. Fica ali sentado no canto mais escuro da piazza, até a hora de ir para a cama — meditando alguma nova ladroeira, sem dúvida. Pelo sim, pelo não, eu seria capaz de lhe pedir que fosse procurar hospedagem noutra parte, Mas é que ninguém gosta de tratar assim um branco nos trópicos, Não sei quanto tempo ele pretende ficar, mas seria capaz de apostar uma bagatela em como nunca se resolverá a pagar Os cinquenta centavos da entrada para ouvir um pouco de boa música.
Ninguém aceitou a aposta. Se aceitassem, o hoteleiro teria perdido. Uma noite Heyst foi arrastado ao desespero por aqueles trechos de melodia, ásperos, arranhados, estrídulos, que o perseguiam até no leito duro, com um mosquiteiro diáfano e um colchão mais fino que uma panqueca. Desceu para o meio das árvores. A luz suave das lanternas japonesas destacava nesgas claras, aqui e ali, nos largos troncos rugosos, sob o negror da basta folhagem. Outras lanternas, em forma de acordeão cilíndrico, pendentes em fila de um cordel bambo, decoravam a entrada daquilo que Schomberg chamava grandiloquentemente "o meu salão de concertos". No seu desespero Heyst subiu três degraus, abriu uma cortina de calicó e entrou.
A confusão no interior do pequeno barracão, construído sobre estacas com madeira importada, era simplesmente atordoante: uma confusão musical, uivando, resmungando, choramingando, soluçando, arranhando, guinchando uma espécie de melodia viva, enquanto o piano de cauda, tocado por uma mulher ossuda e rubicunda, de narinas coléricas, fazia chover notas duras como rajada no meio da tempestade das rabecas.
O pequeno tablado estava cheio de vestidos de musseline branca com faixas vermelhas a tiracolo e providos de braços nus que subiam e desciam ritmicamente, sem descanso. Zangiacomo regia a orquestra. Trajava uma jaqueta branca de oficial, colete preto de cerimônia e calça branca. Os cabelos compridos e desgrenhados, as grandes barbas, eram de um negro arroxeado. O homem tinha um aspecto medonho. O calor era terrível. Cerca de trinta pessoas bebiam nas mesinhas circulares. Heyst, completamente alquebrado pelo barulho, jogou-se numa cadeira. No movimento rápido da música, no clamor multíssono das cordas, na oscilação dos braços nus, nos vestidos decotados, nas fisionomias grosseiras e no olhar pétreo das executantes sentia-se um subentendido brutal — qualquer coisa cruel, sensual e repulsiva.
— Isso é um horror! — murmurou Heyst a si mesmo.
Mas há uma fascinação diabólica em todo ruído sistemático. Ele não fugiu logo, como seria de esperar. Deixou-se ficar, pasmado de si mesmo, pois nada podia ser mais repugnante ao seu gosto, mais doloroso aos seus sentidos e, por assim dizer, mais avesso ao seu gênio, do que essa rude exibição de vigor. A orquestra de Zangiacomo não tocava música: não fazia mais que assassinar o silêncio com uma energia feroz e vulgar. Tinha-se a impressão de assistir a um ato de violência; e tão forte era essa impressão que causava assombro ver aquela gente calmamente sentada nas suas cadeiras, a beber, e sem dar mostras de consternação, cólera ou temor, Heyst desviou os olhos desse espetáculo de calos a indiferença.
Terminada a peça musical, tão grande foi o seu alívio que ele sentiu uma ligeira vertigem, como se um abismo de silêncio se lhe escancarasse aos pés. Quando tornou a erguer os olhos, a audiência mostrava nos rostos um interesse, uma perversa animação, e as mulheres desciam aos pares do tablado para o corpo do “salão de concertos”. Espalharam-se por ele todo. O homem do nariz adunco e da barba roxo e negra desapareceu não se sabia onde. Era este o intervalo durante o qual, segundo estipulara o astuto Schomberg, as componentes da orquestra deviam sentar-se com o público — isto é, com aqueles membros do público que se sentissem inclinados a fraternizar generosamente com as artes, simbolizando essa fraternidade e essa generosidade com ofertas de bebidas.
O expediente pareceu a Heyst altamente incorreto. A inconveniência do engenhoso plano de Schomberg era, contudo, muito atenuada pelo fato de já não serem moças a maioria das mulheres, e de que nenhuma delas jamais tinha sido bela. Suas faces, mais ou menos fanadas, estavam levemente pintadas de rouge; mas afora isto, que bem podia ser simples questão de hábito profissional, não pareciam interessar-se muito pelo bom êxito do plano. Sendo evidentemente fraco no público o desejo de fraternizar com a arte, algumas executantes sentaram-se indiferentes em volta das mesas desocupadas, ao passo que outras continuavam perambulando no corredor central, de braço dado e assaz satisfeitas, sem dúvida, por poderem estirar as pernas enquanto descansavam os braços. Suas faixas encarnadas davam um toque de alegria artificial à atmosfera fumarenta do salão. Heyst sentiu uma súbita compaixão dessas criaturas exploradas, indefesas, sem encanto nem graça, e cujo destino de triste servidão punha algo de patético nas suas fisionomias tristes e grosseiras.
Heyst tinha, por temperamento, a simpatia fácil. Era-lhe doloroso vê-las passar e repassar rente à sua mesinha. Ia levantar-se para sair quando notou que dois dos vestidos brancos haviam ficado na plataforma. Um deles recobria o corpo ossudo da mulher das narinas zangadas. Era ela nada menos que a sra. Zangiacomo. Tinha se levantado do piano e, de costas para o salão, punha em ordem as partituras da segunda parte do concerto, com movimentos bruscos e impacientes dos seus feios cotovelos. Tendo terminado virou-se, avistou o outro vestido de musseline imóvel numa cadeira da segunda fila e adiantou-se para ele entre as estantes de música, com senhoris e agressivas passadas. No regaço daquele vestido descansavam, abertas e vazias, duas mãozinhas não muito alvas, presas a dois braços bem torneados. Outra particularidade observada por Heyst foi o penteado: duas grossas tranças castanhas enroladas em volta de uma cabeça cujo feitio era bem bonito.
— Uma donzela, por Júpiter! — exclamou ele mentalmente.
Era evidentemente uma donzela. Revelava-o o contorno das espáduas, o busto magro atravessado em diagonal pela faixa carmesim, o rodado da saia em forma de sino, que escondia a cadeira onde ela ficara sentada, um pouco afastada do centro do salão. Os pés, calçados de sapatinhos brancos de salto baixo, estavam graciosamente cruzados.
A moça captara a atenção de Heyst, que experimentava uma sensação nova. O motivo disto era nunca ter sido a sua faculdade de observação atraída até esse dia por um ser feminino, de maneira tão conspícua e exclusiva. Considerava-a ansiosamente, como homem nenhum olha para outro homem. Esquecia, positivamente, o lugar onde estava. Perdera o contato com o ambiente. A mulheraça, ao adiantar-se, ocultou a moça um instante à sua vista. Curvou-se sobre a juvenil figura ao passar-lhe muito próxima, como para lhe dizer uma palavra ao ouvido. Seus lábios moveram-se, com efeito. Mas que palavra seria aquela, para fazer a moça saltar em pé tão vivamente? Heyst, no seu lugar, teve um tremor por simpatia. Correu rapidamente a vista em derredor. Ninguém estava olhando para o tablado, e quando os seus olhos tomaram a fixar-se ali a moça, com a enorme mulher nos calcanhares, vinha descendo os degraus da plataforma. Deteve-se ao pé da escadinha, deu um passo titubeante e imobilizou-se de novo, enquanto a outra — a dueña, a tarasca, o mulherão achamboado que tocava piano — passava por ela com modos bruscos e, avançando truculentamente pelo corredor central, no meio das mesas, foi reunir-se a Zangiacomo lá fora. Durante essa extraordinária saída, feita como se tudo que estava no salão fosse cisco sob os seus pés, os seus olhos desdenhosos cruzaram-se com o olhar alçado de Heyst, que desviou instantaneamente a vista na direção da moça. Esta não se movera. Seus braços pendiam molemente, suas pálpebras estavam baixadas.
Heyst largou o charuto fumado pelo meio e comprimiu os lábios. Levantou-se então, levado por um impulso semelhante ao que anos atrás o fizera atravessar a rua arenosa da abominável cidadezinha de Déli, em Timor, para falar a Morrison, naquele tempo pouco menos de um estranho para ele, um homem em dificuldades, presa de inexprimível tormento, acabrunhado, solitário.
Era o mesmo impulso. Ele, porém, não o reconheceu. Naquele momento não pensava em Morrison. Pela primeira vez desde o abandono final das jazidas de Samburan, pode-se dizer, esquecera totalmente o falecido Morrison. É verdade que, de certo modo, havia também esquecido o lugar onde estava.
E assim, sem ter nenhuma consciência do que fazia, Heyst caminhou para a moça.
Diversas mulheres já haviam encontrado ancoragem aqui e acolá, pelas mesas ocupadas. Falavam com os homens apoiadas nos cotovelos, dando com os seus vestidos brancos (ressalva feita das faixas vermelhas) a impressão humorística de uma assembleia de noivas quarentonas, de voz rouca e maneiras fáceis. O burburinho das palestras em voz baixa, bastante animadas, enchia o salão de concertos de Schomberg. Ninguém notou a ação de Heyst, pois, a dizer verdade, não era ele ali o único homem que estava de pé. Permaneceu algum tempo diante da moça antes que ela reparasse na sua presença. Fitava o chão, muito quieta, descorada, os olhos parados, sem voz, sem movimento. Só ergueu a vista quando Heyst lhe falou no seu tom polido.
— Queira desculpar-me — disse ele em inglês, — mas me parece que aquela horrível mulher lhe fez alguma coisa. Beliscou-a, não foi? Tenho certeza de que a beliscou ainda há pouco, quando parou diante da sua cadeira.
A moça recebeu estas palavras com os olhos arredondados imóveis da estupefação profunda. Heyst, cheio de vexame, desconfiou que ela não o houvesse compreendido. Era impossível determinar a nacionalidade dessas mulheres, salvo que as havia ali de todos os países. Mas o que ainda mais assombrava a moça era a proximidade do homem, aquela fronte ampla e calva, aquelas faces tostadas, aqueles longos bigodes horizontais de pelos bronzeados, a expressão bondosa dos olhos azuis que fitavam os seus. Heyst viu o assombro petrificado ceder o passo, nos olhos dela, a um susto momentâneo, a que sucedeu por sua vez uma expressão resignada.
— Tenho certeza de que ela a beliscou com a maior crueldade — murmurou, já um pouco encalistrado com o que fizera.
Foi-lhe um grande alívio ouvi-la dizer:
— Não seria a primeira vez. E supondo que seja verdade... que é que o senhor vai fazer?
— Não sei — tornou ele com um ligeiro acento brincalhão que desde algum tempo não se lhe notava na voz, e que pareceu impressionar agradavelmente a moça. Lamento dizer que não sei. Mas poderei fazer alguma coisa? Que deseja a senhora que eu faça? Ordene, por favor.
De novo se estampou na face dela um assombro imenso, pois agora notava como ele era diferente dos outros homens que ali se achavam: tão diferente deles quanto ela o era das demais executantes da orquestra feminina.
— Ordenar? — murmurou perplexa, volvidos alguns instantes. — Quem é o senhor? — perguntou em voz um pouco maia alta.
— Estou passando alguns dias neste hotel. Acabo de entrar aqui por acaso. Esta afronta...
— Não procure intervir — atalhou ela com tanta gravidade que Heyst perguntou, no seu tom levemente gracejador:
— Deseja que eu me retire?
— Eu não disse tal coisa — respondeu a moça. — Ela me beliscou porque me demorei a descer para o salão.
— Não lhe posso exprimir a minha indignação. Mas já que desceu — disse Heyst, com o desembaraço de um homem de sociedade a conversar com uma dama numa sala, — não seria melhor que nos sentássemos?
Ela obedeceu ao seu gesto de convite, e ambos se sentaram nas cadeiras mais próximas. Fitaram-se por cima da mesinha circular, com uma expressão de surpresa franca. O acanhamento veio tão devagar que só ao cabo de muitos minutos desviaram os olhos. Logo tornaram e encontrar-se, temporariamente, para Se repelirem de novo, por assim dizer. Por fim se fixaram um no outro. Já então, porém, cerca de quinze minutos após se haverem sentado os dois, terminara o “intervalo”.
Isto quanto aos olhos. A conversação fora perfeitamente trivial, pois, naturalmente, nada tinham que se dizer. A fisionomia da moça despertara o interesse de Heyst. Sua expressão não era simples nem muito legível. Tão pouco era refinada (o que não seria mesmo de esperar) mas as feições tinham mais delicadeza que as de qualquer semblante feminino que até então lhe fora dado observar de tão perto. Havia nelas qualquer coisa de inexprimivelmente audacioso e de infinitamente desventurado — porque tanto .o temperamento como a existência da moça se refletiam no seu rosto. Mas a voz!... Heyst ficara seduzido pela sua maravilhosa modulação. Era uma voz feita para enunciar as coisas mais sutis, uma voz capaz de fazer suportável a garrulice vã e até do tomar fascinantes as mais grosseiras falas. Heyst bebia-lhe o encanto, como quem escuta o som de um instrumento sem prestar atenção à música.
— A senhora canta tão bem como toca? — perguntou do inopino.
— Nunca abri a boca para cantar na minha vida — respondeu ela, evidentemente surpresa com o descabido da pergunta, pois não estavam falando em música. Via-se que a moça não tinha consciência da sua voz. — Que me lembre, desde guria nunca tive muito motivo para cantos — acrescentou.
Esta frase deselegante, pela mera vibração e cálida nobreza do timbre, foi direito ao coração de Heyst. O seu espírito, lúcido, observador, viu-a mergulhar ali com uma espécie de vaga ansiedade ante o hóspede absurdo, até que ela pousou no fundo, no mais entranhado desvão onde jazem os nossos anseios secretos.
— É inglesa, sem dúvida?
— Que lhe parece? — respondeu ela com o mais encantador dos acentos. E depois, como se achasse que lhe tocava a vez de formular também uma pergunta: — Por que é que o senhor não para de sorrir enquanto fala?
Isto era suficiente para fazer qualquer pessoa ficar séria. Mas tão evidente era a boa fé da moça que Heyst recobrou logo o sorriso.
— É o meu malfadado jeito — disse, com aquela sua graça delicada e cortês. — Isso a contraria muito?
Ela respondeu com muita seriedade:
— Não. Apenas reparei. Tenho encontrado pouca gente assim agradável, nesta vida.
— O fato é que essa mulher do piano é infinitamente mais desagradável que todos os canibais com quem tenho tratado.
— Bem o creio! — tornou ela, estremecendo. — Como foi que o senhor veio a tratar com canibais?
— Seria uma história muito comprida — volveu Heyst com um leve sorriso. Os sorrisos de Heyst eram um tanto melancólicos e não casavam bem com o seu grande bigode, sob o qual a sua simples expressão brincalhona se aninhava tão confortavelmente quanto um pássaro na moita natal. — Demasiado comprida. Como foi que a senhora veio parar no meio desta gente?
— Má sorte — respondeu ela concisamente.
— Sem dúvida, sem dúvida — concordou Heyst com ligeiros meneios de cabeça. E, ainda indignado com o beliscão que adivinhara sem precisamente o ver: — Diga-me: a senhora não tem algum modo de se defender?
Ela já se havia levantado. As executantes da orquestra voltavam devagar aos seus lugares. Algumas já estavam sentadas, ociosas, o olhar imóvel, diante das suas estantes. Heyst levantou-se também.
— Não posso com eles — disse a moça.
Esta breve frase era tirada do repositório comum da experiência humana. Pela virtude da voz que a pronunciava, todavia, foi como que uma revelação emocionante para Heyst. Este tinha os sentimentos confusos, mas o cérebro continuava lúcido.
— Isso é lamentável. Mas afinal, não é propriamente de maus tratos que esta moça se queixa — refletiu depois que ela se afastou.