Vitória
Capítulo III
Á moça mostrara-se a Ricardo sob um aspecto tão imprevisto que lhe tolhia o uso da faculdade crítica. O seu sorriso lhe parecia prenhe de promessas. Não a imaginara assim. Quem, julgando pelo que se dizia, teria esperado uma garota como esta? Era uma pequena do outro mundo, dizia ele de si para si, com uma familiaridade a que não faltava certo vislumbre de respeito. Não fora feita para o bico de sujeitos da laia daquele pacato fazedor de grogues. Ricardo ardia de indignação. A coragem, a força física da mulher, demonstradas à sua custa, forçavam-lhe a simpatia. Sentia-se atraído para ela pelas provas do seu valor, que o enchia de pasmo. Que mulher! Tinha uma alma forte, e a sua bem pensada inclinação para abandonar o companheiro mostrava que ela não era hipócrita.
— O teu cavalheiro é bom na pontaria? — perguntou ele olhando novamente para o chão, a simular indiferença.
Lena quase não compreendeu a frase, cuja forma sugeria entretanto alguma espécie de habilidade pessoal. Não havia perigo em murmurar uma afirmativa:
— Sim.
— O meu também... pra lá de bom — murmurou Ricardo. E, mim ímpeto de confidência: — Eu não sou tão bom, mas em todo caso carrego aqui uma arma de respeito!
Deu uma palmada na perna. Lena estava já imunizada contra os temores. Toda rígida, incapaz de mover os próprios olhos, sentia uma horrível tensão mental que. era como uma fuga da memória. Ricardo tratou de influenciá-la a seu modo.
— E o meu cavalheiro não é homem para me largar de mão. Ele não é estrangeiro, ao passo que tu, com o teu barão, não sabes o que te espera... ou antes, como és mulher, sabes perfeitamente. Seria muito melhor não esperares que ele te desse o fora. Passa para nós e receberás a tua parte — a tua parte na bolada. Tu já sabias dela.
A moça pressentiu que, se desse a entender por uma palavra ou um sinal que não havia nada de semelhante na ilha, Heyst não teria meia hora de vida. Mas todo o poder de ligar palavras desaparecera na tensão do seu espírito. Era-lhe até, demasiado difícil recordar-se delas, exceto a palavra “sim”, a palavra salvadora! Murmurou-a sem que uma só linha do seu rosto se movesse. Para Ricardo, o som débil e lacônico exprimia um consentimento tranquilo e reservado, mais valioso naquela admirável mulher, tão senhora de si, do que mil palavras na boca de qualquer outra. Achou, exultante, que descobrira uma mulher num milhão... em dez milhões! O seu murmúrio assumiu um tom de franca premência.
— Ótimo! Agora só falta descobrir onde ele guarda a bolada. Mas anda depressa! Não poderei aguentar muito tempo ainda este negócio de andar de rastos para não assustar o teu moço. Que diabo, a gente não é réptil nem nada!
Ela olhava fito, sem ver coisa alguma, como uma pessoa que de noite fica sentada a olhar o vazio e a escutar sons funestos, encantamentos malignos. E dentro da cabeça continuava a sentir aquela tensão do cérebro que procura captar alguma coisa, uma ideia salvadora que parecia roçar por ela, e que entanto não conseguia apanhar. De repente, aprisionou-a: tinha de fazer com que aquele homem saísse dali! Nesse momento a voz de Heyst fez-se ouvir lá fora, não muito perto mas clara:
— Você estava me procurando, Wang?
Foi para ela como um relâmpago que, iluminando a escuridão que a cercava por todos os lados, lhe mostrasse aos pés um terrível precipício. Endireitou o corpo com um movimento convulsivo, mas não teve força para se levantar. Ricardo, pelo contrário, pôs-se imediatamente em pé, silencioso como um gato. Seus olhos fulvos lampejavam, deslizando de um lado para outro, mas também ele parecia incapaz de fazer outro movimento. Apenas os seus bigodes se mexiam perceptivelmente, como as antenas de um inseto.
Os dois ouviram, mais fraca, a resposta de Wang: Ya tuan, e novamente a voz de Heyst:
— Está bem! Pode trazer o café. Mem Putih ainda está no quarto?
Nenhuma resposta audível de Wang.
Cruzaram-se os olhares de Ricardo e da moça, absolutamente inexpressivos, pois todas as faculdades de ambos estavam absorvidas em escutar o ruído dos passos de Heyst, qualquer ruído a anunciar que a retirada de Ricardo fora cortada. Tanto um como a outra compreenderam que Wang devia ter dado volta à casa, dirigindo-se para os fundos, e tornando impossível a Ricardo o escapulir-se por ali antes que Heyst entrasse pela frente.
Uma sombra anuviou o semblante do dedicado secretário. Todo o plano estava arruinado! Era uma sombra de cólera, e também de receio. Talvez houvesse escapado pela porta dos fundos se os dois não ouvissem Heyst que subia os degraus da varanda. Subia devagar, muito devagar, como um homem desalentado ou fatigado — ou simplesmente pensativo. Ricardo viu-lhe em espírito o rosto, o bigode marcial, a alta fronte, as feições impassíveis e os olhos serenos e meditativos. Demônio, estava encurralado! A final de contas, talvez o patrão tivesse razão. Convinha evitar um mulheres. Por bobear com esta havia deitado a perder, ao que parecia, todo o negócio. Apanhado como estava, seria melhor matar de uma vez, já que, de qualquer forma, ser visto era ser desmascarado. Era, porém, demasiado justo para se sentir encolerizado com ela.
Heyst tinha parado na varanda, no próprio limiar da porta.
— Se eu não for ligeiro, serei morto a tiro como um cachorro — murmurou Ricardo à moça, em voz excitada.
Curvou-se para puxar a faca, pronto a arrojar-se através da cortina, tão rápido e mortal para Heyst como um raio inesperado. Deteve-o o contato, mais que a força, da mão da moça que o segurava pelo ombro. Rodopiou nos calcanhares, agachado, virando para cima os olhos amarelos que luziam. Ah! Ter-se-ia ela voltado contra ele?
Teria cravado a faca no côncavo da sua garganta nua se não lhe visse a outra mão que apontava para a janela. Era uma abertura alongada, e ficava muito alto, quase logo abaixo do teto, com um único postigo que girava sobre gonzos.
Enquanto ele continuava a olhar para a janela, Lena afastou-se sem fazer ruído, apanhou a cadeira tombada e encostou-a à parede. Voltou então os olhos para ele. Mas Ricardo não precisava que lhe fizessem sinal. Deu duas longas passadas nas pontas dos pés e colocou-se ao lado dela.
— Ande depressa! — murmurou Lena em voz estrangulada.
Ele tomou-lhe a destra e apertou-a como toda a força da sua gratidão muda, como um homem que estreita a mão de um camarada quando não há tempo a perder com palavras. Trepou então na cadeira. Era demasiado baixo para poder içar-se até a janela sem roçar com os pés na parede, fazendo ruído. Hesitou um instante. De ouvido alerta, ela firmou o assento da cadeira com os belos braços nus enquanto ele, ligeiro e destro, se encarapitava no espaldar. As madeixas castanhas de Lena cobriam-lhe o rosto.
Passos ressoaram na peça contígua e a voz de Heyst, não muito alta, chamou-a pelo nome.
— Lena!
— Sim, um minuto! — respondeu ela, com uma intonação especial que sabia ser de molde a impedir Heyst de entrar logo.
Quando ergueu os olhos Ricardo tinha desaparecido, atirando-se ao chão lá fora com tanta agilidade que ela não ouvira o menor som. Aprumou o corpo então, aturdida, cheia de terror, como quem acorda de um sono causado por narcótico, com as pálpebras pesadas, os olhos baixos e sem ver nada, no abandono das suas forças, a imaginação como que morta e incapaz de manter desperto o seu medo.
Heyst pusera-se a caminhar à-toa no outro quarto. O som dos seus passos reanimou o espírito exausto de Lena.
Começou logo a pensar, a ouvir, a enxergar, e o que enxergou (ou melhor, reconheceu, pois os seus olhos tinham estado todo esse tempo postos no objeto) foi a chinela de palha de Ricardo, perdida na luta, e que ficara no assoalho perto da banheira. Mal teve tempo de dar um passo o pousar o pé sobre o objeto quando a cortina se abriu e Heyst apareceu no umbral da porta.
O perigo que o ameaçava fez nascer no peito dela um calor, vindo do encantamento dos sentidos apaziguados, que experimentara com ele, e que era como a condição de uma pessoa enfeitiçada. Sentiu qualquer coisa agitar-se no seu íntimo, algo profundo como uma nova espécie de vida.
O quarto estava imerso em semiescuridão, pois Ricardo fechara o postigo ao saltar a janela. Heyst espreitou da porta.
— Como, ainda não se penteou? — disse ele.
— Não, vou fazer isso agora. Não demoro — respondeu Lena em voz firme. E ficou imóvel, sentindo sob a sola do pé o contato do chinelo de Ricardo.
Heyst retirou-se, deixando cair a cortina. Imediatamente ela se abaixou para apanhar o chinelo. Depois girou nos calcanhares como doida, procurando com os olhos um esconderijo. Não havia nenhum no quarto, onde escassa era a mobília. A cômoda, a mala de couro, um ou dois vestidos dela pendurados de cabides — a todos esses lugares poderia o acaso guiar a mão de Heyst em qualquer momento. A janela entrecerrada atraiu-lhe o olhar desatinado. Correu para ela e, pondo-se na ponta dos pés, conseguiu alcançar o postigo com a ponta dos dedos. Abriu com um empurrão, voltou para o meio do quarto, virou-se, balançou o braço regulando a força do arremesso para que a chinela não tomasse muito impulso, batendo de encontro ao beiral baixo. Era um cálculo delicado para os músculos daquele braço torneado, ainda trêmulos da luta mortal com um homem, para aquele cérebro trabalhado pela ansiedade, e para os nervos extenuados que lhe punham uma nuvem escura diante dos olhos. Por fim soltou o chinelo, e este passou pela abertura desaparecendo-lhe da vista. Ficou a escutar. Não o ouviu bater em parte alguma: sumira-se simplesmente, como se tivesse asas para voar. Nenhum som! Livrara-se do perigoso objeto.
Ela ficou como petrificada, com os valentes braços colados ao corpo. Um ligeiro assobio fez-se ouvir lá fora. O deslembrado Ricardo, percebendo a perda, tinha ficado por ali, inquieto, e o aparecimento do chinelo que surgiu voando por baixo do beiral restituiu-lhe a serenidade. Zeloso pela tranquilidade da moça, arriscara aquele assobio.
De súbito o corpo de Lena pendeu para a frente, cambaleando. Salvou-se de cair cingindo com os braços um dos altos suportes do mosquiteiro. Esteve muito tempo agarrada a ele, com a testa encostada à madeira. Uma das bandas do sarong desprendido escorregara-lhe para a anca. As longas tranças castanhas pendiam em farripas finas, como que molhadas, quase negras contra a alvura do seu corpo. O flanco descoberto e imóvel, úmido com o suor da angústia e da fadiga, tinha reflexos frios de mármore polido à luz ardente e difusa que descia da janela, apagado reflexo da fogueira furiosa e devoradora que era o sol lá fora, no afã de incendiar a terra, reduzi-la a cinzas.