Vitória
Capítulo VI
Nada mais falamos sobre Heyst nessa ocasião, e não tornei a ver Davidson pelo espaço de três meses. Quando nos encontramos novamente, foi esta quase a primeira coisa que o capitão me disse:
— Falei com ele.
Sem me dar tempo para exclamar, Davidson asseverou-me que não tomara liberdades, que não fora intruso. Tinham-no chamado. De outra forma, não lhe viria sequer a lembrança de insinuar-se na intimidade de Heyst.
— Estou certo disso — lhe garanti, ocultando o divertimento que me causava a sua extraordinária delicadeza. Era o homem mais respeitador que já fez circular entre os trópicos um pequeno cargueiro. Mas o seu sentimento de humanidade, igualmente forte e igualmente louvável, fazia-o passar diante do pier de Samburan (à distância média de uma milha) exatamente todos os vinte e três dias. Davidson era delicado, humano e pontual.
— Heyst o chamou? — indaguei interessado.
— Sim, Heyst o chamara por ocasião de uma dessas passagens regulares. Davidson, no seu incansável humanitarismo, perscrutava a praia com o óculo?
— Avistei um homem de branco. Só podia ser Heyst. Tinha amarrado numa vara de bambu uma espécie de bandeira branca, enorme, e abanava com ela da ponta do velho pier.
Davidson não quis atracar — por medo de ser indiscreto suponho. Mas aproximou-se da praia, mandou parar as máquinas e arreou um escaler. Desceu ele mesmo no bote, conduzido, naturalmente, pelos seus marinheiros malaios.
Vendo vir o escaler na sua direção, Heyst abaixou o sinal, e quando chegou Davidson estava de joelhos, ocupado em desamarrar a bandeira da haste.
— Tinha havido algum contratempo? — perguntei, pois Davidson fizera uma pausa, e a sua narrativa me despertara a curiosidade. Devem lembrar-se de que Heyst não nos dera a impressão, no Arquipélago, de ser um homem amigo de fazer sinais.
— Foi essa a pergunta que me escapou — disse Davidson, — antes de encostar o bote aos pilares. Não me pude conter.
Heyst levantou-se e começou a dobrar cuidadosamente o pano, que pareceu a Davidson ter as dimensões de um lençol.
— Não, tudo vai bem — gritou o sueco. Seus dentes uivos lampejaram amavelmente sob a longa barra horizontal dos bigodes acobreados.
Ignoro se foi a delicadeza ou a obesidade que impediu Davidson de trepar ao pier. Pôs-se de pé no escaler. Sobranceiro a ele, Heyst inclinava o tronco sorrindo com urbanidade, agradecendo e pedindo desculpas da liberdade, como sempre fazia. Davidson esperava notar-lhe alguma mudança, mas era o mesmo homem. Nada, em suas maneiras, revelava o momentoso fato de ter consigo naquela selva uma moça, uma violinista de orquestra que ele trouxera diretamente do tablado de concertos para a sua ilha deserta. Não se mostrava envergonhado, arrogante nem confuso. O seu tom, ao falar com Davidson, seria um tudo-nada confidencial, Suas palavras foram enigmáticas.
— Resolvi fazer-lhes estes sinais — disse ele, — porque achei que podia ser da máxima importância manter as aparências. Não para mim, claro. Não me importa o que os outros digam, e naturalmente ninguém me pode causar dano. Acredito que eu tenha feito algum mal, visto como me deixei arrastar à ação. O que fiz pareceu-me na ocasião bastante inocente, mas toda ação é forçosamente nociva. É diabólica, e eis a razão por que o mundo na sua totalidade é mau. Mas já renunciei! Nunca mais bulirei com um dedo. Acreditava antes que a observação dos fatos era o melhor modo de enganar o tempo que nos é concedido, bom ou mau grado nosso; mas já renunciei à observação também.
Imaginem o pobre, o simples Davidson a ouvir este discurso ao pé de um pier abandonado e em ruínas, encaixado numa selva tropical. Jamais ouvira alguém falar assim, e muito menos Heyst, cuja palestra era concisa e cortês, com um leve timbre galhofeiro na cultivada intonação da voz.
— Enlouqueceu — pensou Davidson lá consigo.
Mas, considerando a fisionomia que tinha à sua frente no alto do pier, teve de afastar a ideia de uma loucura comum. Aquelas falas, entanto, eram inusitadas. Lembrou-se então (a surpresa lhe fizera esquecer) que Heyst tinha agora uma moça em sua companhia. Era esta, provavelmente, a causa do singular discurso. Davidson repeliu a ideia absurda e, como desejava dar uma prova de amizade e não tinha mais que dizer, perguntou:
— Você não está com falta de mantimentos ou coisa parecida?
Heyst sorriu e abanou a cabeça.
— Não, não. Nada disso. Não nos falta nada aqui. Em todo caso, agradeço-lhe. Se tomei a liberdade de o fazer parar, não foi por nenhuma dificuldade quanto a mim e... minha companheira. A pessoa em que pensava quando resolvi invocar o seu auxílio era a sra. Schomberg.
— Eu falei com ela — interpôs Davidson.
— Ah, você falou? Sim, eu confiava em que ela arranjaria um meio de...
— Mas não me informou muita coisa — atalhou Davidson, que não era avesso a saber algo mais.
— Hum... sim. Mas aquele meu bilhete? Então? Ela teve ocasião de lho entregar? Muito bem, ótimo. É uma mulher de mais recursos do que parece.
— Isso acontece muitas vezes com as mulheres — observou Davidson. À estranheza que o dominava, simplesmente porque o seu interlocutor havia raptado uma mulher, ia-se dissipando com o correr dos minutos. — Há muita coisa, inesperada nas mulheres — generalizou com um fim didático que pareceu não surtir efeito, pois Heyst continuou, tocando num objeto de pano que trazia no braço:
— Este é o chale da sra. Schomberg. Tecido indiano, creio — ajuntou olhando para o pano.
— Não tem grande valor — disse Davidson, com verdade.
— Muito provavelmente. A questão é que ele pertence à esposa de Schomberg. Aquele Schomberg parece ser um rufião sem escrúpulos... não acha?
Davidson sorriu ligeiramente.
— Já nos acostumamos com ele por aqui — disse à maneira de escusa para essa tolerância criminosa e universal com tão notório flagelo. — Eu não o qualificaria assim. Só o conheço como hoteleiro.
— Eu é que não o conhecia sequer como tal... pelo menos até o dia em que você fez o obséquio de levar-me a Surabaya. Fui hospedar-me lá por economia. O Netherlands House é muito dispendioso, e é praxe os hóspedes levarem os seus criados consigo. Uma complicação.
— Claro, claro — protestou Davidson apressadamente. Depois de um curto silêncio Heyst voltou ao assunto do chalé. Queria devolvê-lo à sra. Schomberg. Disse que podia ser muito embaraçoso para ela não ter o chalé para mostrar quando lho pedissem. Esta ideia o trazia preocupado. A sra. Schomberg tinha terror do marido, Pelos modos, não lhe faltava razão para isso.
Davidson também, o tinha notado. Isto não a impedia, observou, de enganá-lo, de certo modo, no interesse de um desconhecido.
— Oh! Você sabe! — tornou Heyst. — Sim, ela me... ela nos ajudou.
— Assim me disse. Tive uma verdadeira palestra com ela — informou-lhe Davidson. — Imagine uma pessoa qualquer conversando com á sra. Schomberg! Se eu contasse aos rapazes, não me acreditavam. Como foi que você conseguiu conquistá-la, Heyst? Como foi que teve essa lembrança? Se ela parece estúpida demais para entender a linguagem humana, e medrosa demais para enxotar uma galinha! Oh, as mulheres, as mulheres! Ninguém sabe de que são capazes as mais sossegadas.
— Estava empenhada em defender a sua posição na vida — disse Heyst. — É um propósito muito digno.
— Ah, sim? Eu tinha certa desconfiança de que fosse isso — admitiu Davidson.
Relatou então a Heyst as violentas ocorrências que se seguiram ao descobrimento da sua fuga. A atenção cortês de Heyst tomou um matiz sombrio, mas ele não manifestou surpresa e não fez comentários. Terminada a narrativa de Davidson, estendeu-lhe o chalé, e o outro prometeu fazer o possível para devolvê-lo em segredo à sra. Schomberg. Heyst exprimiu a sua gratidão em poucas palavras, realçadas pela sua consumada polidez. Davidson preparou-se para partir. Os dois homens não se olhavam. De súbito disse Heyst:
— Você compreende que se tratava de uma perseguição odiosa, não é verdade? Eu me apercebi disso, e...
Era um ponto de vista que o simpatizante Davidson sabia apreciar.
— O que você diz não me surpreende — respondeu placidamente. — Bastante odiosa, não duvido. E você, naturalmente... como não é casado... podia intervir. Bem, bem!
Sentou-se no banco de popa, e já havia apanhado a corda de leme quando Heyst observou repentinamente:
— O mondo é um cão traiçoeiro. Se lhe damos ensejo, morde-nos. Mas creio que aqui poderemos desafiar impunemente o destino.
Ao contar-me tudo isto, Davidson só tinha este comentário:
— Esquisita maneira de desafiar o destino: tomando uma mulher a reboque!