Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 40 de 40

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Vitória

Capítulo XIV

 

— Sim, Excelência, — disse Davidson com a sua voz plácida, — houve mais mortos nessa história... mais brancos mortos, isto é... do que em muita batalha da última guerra de Achém.

Davidson falava a uma Excelência, pois aquilo que, nas conversações, era denominado “o mistério de Samburan” causara tamanha sensação no Arquipélago que até nas esferas elevadas havia ansiedade por obter informes de primeira mão. Um alto funcionário do governo, em sua visita circular de inspeção, marcara audiência ao capitão de navio.

— Conhecia bem ao falecido barão Heyst?

— A dizer verdade, ninguém por aqui se pode gabar de tê-lo conhecido bem. Era um tipo esquisito. Duvido mesmo que ele percebesse até que ponto o era. Mas toda a gente sabia que eu o andava vigiando — como amigo, já se vê. E foi assim que recebi um aviso que me fez virar de bordo no meio da viagem e voltar a Samburan, onde, pesa-me dizer, cheguei demasiado tarde.

Sem se alongar muito, Davidson explicou à autoridade atenta como uma mulher, a esposa de certo hoteleiro chamado Schomberg, surpreendera dois batoteiros de má fama a indagar do seu marido a posição exata da ilha. Tinha ouvido apenas umas poucas palavras relativas ao vulcão vizinho, mas foi o bastante para despertar suas suspeitas — “que, acrescentou Davidson, ela me comunicou, Excelência. Infelizmente, muito bem fundadas eram essas suspeitas!”

— Ela deu prova de sagacidade — observou o grande homem.

— Essa mulher é muito mais sagaz do que se pensa — tornou Davidson.

Absteve-se, porém, de revelar à Excelência a verdadeira causa que tinha aguçado o espírito da sra. Schomberg. A pobre mulher tinha um terror mortal de que trouxessem a moça novamente para perto do seu apaixonado Wilhelm. Davidson disse apenas que a agitação da hoteleira o havia impressionado, mas confessou que enquanto voltava começara a duvidar que os seus temores tivessem algum fundamento.

— Dei em cheio numa dessas estúpidas tempestades que se formam com frequência em redor do vulcão — narrava ele. — Tive de procurar às apalpadelas o rumo da Baía dos Diamantes, com uma vagareza de tartaruga. Não creio que alguém, mesmo que estivesse à minha espera, me tivesse ouvido lançar a âncora.

Reconheceu que devia ter ido à terra imediatamente. Mas a ilha estava completamente às escuras e em absoluto silêncio. Ele sentia vergonha da sua impulsividade. Que papel de tolo faria, acordando um homem alta noite só para perguntar se tudo ia bem! Além disso, por motivo da presença da moça, receava que Heyst considerasse sua visita uma injustificável intrusão.

O primeiro sinal que tivera do drama fora o encontro de um grande bote de brancos a vogar desmastreado, tendo dentro o cadáver de um homem extremamente peludo. O bote viera bater na proa do seu navio. Dirigira-se então sem mais delongas para a praia — sozinho, claro, pois assim o mandava a delicadeza.

— Cheguei a tempo de ver morrer a pobre moça, conforme contei a V. Excia. Não lhe direi o que passei com ele depois. Esteve-me falando. Seu pai parece ter sido um malucão que virou as ideias dele quando era moço. Era um camarada esquisito. A bem dizer, as últimas palavras que ele me disse, quando saímos para a varanda, foram estas:

“— Ah, Davidson, infeliz do homem cujo coração não aprendeu, enquanto moço, a esperar, a amar e a confiar na vida!

“Enquanto estávamos ali, pouco antes de eu o deixar, — pois ele dissera que queria ficar algum tempo só com a morta — ouvimos uma voz rosnar perto das ervas altas que há junto da praia:

“— É o senhor, patrão?

“— Sim, sou eu.

“— Papagaio! Julguei que o desgraçado tivesse dado cabo da sua pele. Ele já começou a fazer baderna, e quase me mandou para o outro mundo. Tenho andado escondido por aqui desde então, à procura do senhor.

“— Pois bem, aqui estou — gritou de repente a outra voz. E ouvimos um tiro.

— Desta vez ele não errou o alvo — disse-me Heyst com amargura, E foi para dentro.

“Eu voltei para bordo, como ele me tinha pedido com insistência que fizesse. Mais tarde, pelas cinco da manha, alguns dos meus grumetes indígenas vieram chamar-me correndo, a berrar que havia um incêndio na ilha. Fui logo para lá, naturalmente. O bangalô principal estava em chamas. O calor nos fez recuar. As duas outras casas pegaram fogo uma depois da outra, como montes de gravetos secos. Até a tarde não nos foi possível ir além da base do pier ”.

Davidson suspirou placidamente.

— O senhor tem certeza, suponho, de que o barão Heyst morreu?

— Ele... é cinzas, Excelência — diese Davidson, com a voz um tanto dificultada pela asma, — ele e a moça. Creio que não pôde suportar os pensamentos que lhe vieram diante do cadáver dela... e o fogo purifica tudo. Àquele chinês de quem falei a V. Excia. ajudou-me a procurar no dia seguinte, quando as brasas esfriaram um pouco. Descobrimos o suficiente para ter certeza. O chinês não é mau sujeito. Contou-me que tinha seguido Heyst e a moça na floresta, por piedade, e também em parte por curiosidade. Ficou observando a casa até que viu Heyst sair depois de jantar, e Ricardo voltar só. Enquanto andava ali às escondidas, lembrou-se de ir cortar as amarras do bote, temendo que aqueles bandidos rodeassem a ilha pelo mar e fossem bombardear a aldeia com seus revólveres e Winchesters. Considerava-os uns demônios capazes de tudo. Assim, avançou pelo pier silenciosamente, e quando desceu ao bote para soltá-lo, aquele homem cabeludo que, ao que parece, estava dormindo ali dentro, pulou em pé rosnando e Wang matou-o com um tiro. Depois empurrou o bote para a baía, o mais longe que pôde, e foi embora dali.

Houve uma pausa, ao fim da qual Davidson continuou, com os mesmos modos tranquilos:

— Que o céu tome conta do que foi purificado. O vento e a chuva se encarregarão das cinzas. A carcaça daquele ajudante, secretário, ou qualquer que seja o nome que o imundo rufião dava a si mesmo, deixei-a onde estava, para que rebentasse e apodrecesse ao sol. Seu chefe tinha lhe metido uma bala bem no meio do coração. Depois, ao que parece, esse Jones foi ao pier procurar o bote e o homem peludo. Imagino que ele tenha caído na água por acidente... ou talvez não fosse acidente. O bote e o homem tinham levado sumiço, e o sacripanta viu-se sozinho, perdido, apanhado numa armadilha. Quem há de saber? A água é muito clara naquele sítio, e eu o vi todo encolhido no fundo, entre dois barrotes, como um monte de ossos dentro de um saco de seda azul, e só a cabeça e os pés apontando para fora. Wang é que ficou contente quando nós o descobrimos! Estavam acabados os perigos, disse ele. E foi imediatamente ao outro lado da colina para trazer a sua mulher alfuro de volta, à cabana.

Davidson tirou o lenço do bolso para enxugar o suor da testa.

— Então, Excelência, fui embora. Não havia nada que fazer lá.

— Evidentemente — concordou S. Excia.

Davidson, pensativo, parecia considerar o assunto. Finalmente, murmurou com plácida tristeza:

— Nada!

Edição da

LIVRARIA DO GLOBO

Porto Alegre

 

VITÓRIA

 

COLEÇÃO NOBEL 42

 

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