Vitória
Parte 3
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Parte 3
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I
A natureza tropical compadecera-se da empresa comercial malograda. A desolação da sede da Companhia de Carvão da Zona Tropical ficara encoberta para as bandas do mar, de onde os olhos espreitadores (se alguns houvesse suficientemente interessados, quer por malícia quer por comiseração) poderiam ter avistado os ossos em decomposição daquela empresa que tão promissora tinha sido.
Heyst morava entre os ossos tão compassivamente enterrados sob as ervas altas de duas estações chuvosas. Mais que impedir, favorecia suas meditações solitárias o silêncio dos arredores, só rompido por sons tais como o distante ribombar do trovão, a chuva que fustigava a folhagem de algumas árvores enormes, o ruído do vento a agitar as folhas da floresta e das pequenas ondas a se quebrarem na praia.
A meditação é sempre (ao menos num homem branco) um exercício mais ou menos interrogativo. Heyst meditava com simplicidade sobre o mistério dos seus atos. E respondia a si mesmo com esta reflexão sincera:
— Em fim de contas, deve haver em mim muito do primitivo Adão.
Refletia também, com a impressão de descobrir um fato novo, que não é fácil suprimir esse ascendente primevo. A voz mais antiga do mundo é justamente aquela que nunca se cala. Se havia alguém capaz de impor silêncio aos seus ecos imperiosos, esse alguém seria o pai de Heyst, com a sua negação desdenhosa e inflexível de todo esforço. Mas, no parecer, não o conseguira. Havia no filho muito desse primeiro antepassado que, apenas saída do molde celeste a sua forma de barro, pusera-se a estudar e a nomear os animais do paraíso que tão cedo viria a perder.
A ação: o primeiro pensamento, ou talvez o primeiro impulso, surgido na terra! O anzol farpado, tendo por isca a ilusão do progresso, para arrancar ao caos tenebroso as gerações inumeráveis!
— E eu, o filho de meu pai, também fui fisgado como o mais idiota de todos os peixes! — dizia Heyst de si para si.
Sofria. Magoava-o o espetáculo da sua própria vida, que devera ser uma obra-prima de isolamento. Nunca esquecia a última noite passada com o pai. Revi a o rosto fino, a grande cabeleira branca, a tez de marfim. Sobre uma mesinha, ao lado do sofá, havia um candelabro de cinco ramos. Tinham conversado largo tempo. Os ruídos da rua haviam-se apagado um a um, até que enfim as casas de Londres, sob o luar, começaram a assumir o aspecto de túmulos, os túmulos de um cemitério de esperanças, esquecido e desprezado.
Ele tinha escutado o velho, e ao cabo de um silêncio perguntara (pois naquele tempo era bem moço ainda):
— Não há nada para nos orientar?
Seu pai sentia-se, inesperadamente, disposto à afabilidade naquela noite em que a lua singrava um céu sem nuvens por cima das sombras enfarruscadas da cidade.
— Ainda crês em alguma coisa, então? — disse ele numa voz clara que ultimamente vinha perdendo o vigor. — Talvez ainda acredites na carne e no sangue? Um desprezo total e uniforme porá termo a isso também. Mas já que ainda não chegaste até lá, aconselho-te a cultivar essa forma de desprezo que se chama piedade. E talvez a menos difícil. Nunca esqueças, entretanto, que tu és tão digno de lástima como os demais, porem jamais esperes piedade para ti mesmo.
— Que se deve fazer, então? — suspirou o moço, considerando o pai rígido no sofá de encosto alto.
— Observar calado. — Foram estas as últimas palavras daquele homem que passara a vida inteira a soprar uma trombeta aterradora que enchera de ruínas o céu e a terra, enquanto a humanidade seguia o seu caminho sem dar por isso.
Nessa mesma noite morreu ele na sua cama, tão serenamente que o foram encontrar na posição em que costumava dormir, deitado sobre o lado, uma mão sob o rosto e os joelhos ligeiramente dobrados. Nem sequer havia estirado as pernas.
O filho sepultou o destruidor de sistemas, de esperanças, de crenças, que se calara para sempre. Notou que a morte desse amargo detrator da vida não perturbara a torrente da vida, na qual homens e mulheres passam compactos como grãos de poeira, revoluteando e se entrechocando como bonecos de cortiça, chumbados o bastante para que mantenham sua orgulhosa postura vertical.
Depois do enterro Heyst foi se sentar sozinho no gabinete, ao lusco-fusco, e a sua meditação tomou a forma de uma visão nítida da torrente, dos bonecos que esbarravam Uns nos outros, oscilavam, rodopiavam doidamente, impelidos para a frente por uma força irresistível, e não davam sinal de haver notado que uma voz, na margem, se calara de súbito... Sim. Umas poucas notas necrológicas, quase todas Insignificantes e algumas delas grosseiramente injuriosas. O filho leu tudo com melancólico desprendimento.
— Este ódio e este furor vêm do medo — pensou — e também da vaidade ferida. Os bonecos soltam os seus gritinhos ao passar. Suponho que eu também devia odiá-lo...
Percebeu que os seus olhos estavam unidos. Não era porque se tratasse de seu pai. Para ele isto era uma simples questão de ouvir dizer, incapaz, em si mesma, de provocar tal emoção. Não! Era porque o tivera tanto tempo diante dos olhos que lhe sentia muito a falta. O morto o retivera consigo na margem. E agora Heyst sentia agudamente o fato de ter ficado só à beira da torrente. Por orgulho, resolveu não entrar nela.
Algumas lágrimas lentas lhe rolaram pelas faces. Nos aposentos da casa, que se enchiam de sombras, parecia pairar um fantasma melancólico e inquieto, procurando em vão se expressar. O moço levantou-se com a singular impressão de ceder o lugar a um ser impalpável que reclamasse a posse da casa, saiu e fechou a porta à chave. Quinze dias depois iniciou as suas viagens, levando o propósito de “observar calado”.
Heyst pai deixara algum dinheiro e certa quantidade de objetos, como fossem livros, mesas, cadeiras e quadros, que poderiam queixar-se de cruel abandono após tantos anos de devotado serviço, pois as coisas também têm uma alma. Heyst (o nosso Heyst) pensava neles muitas vezes, via-os mudos e repreensivos, envoltos nas suas mortalhas e encerrados naquela remota casa de Londres, entre os ruídos distantes da rua, e por vezes gozando um pouco de sol, quando a zeladora erguia os estores e abria as janelas, em cumprimento das suas recomendações. Era como se, na sua concepção de um mundo indigno de ser tocado, e que talvez não tivesse bastante substância para que se pudesse abarcá-lo com as mãos, esses objetos familiares da sua meninice e juventude, ligados à memória de um velho, fossem as únicas realidades, as únicas coisas dotadas de existência absoluta. Nunca quis mandar vendê-los, ou mesmo retirar dos lugares que ocupavam na última vez que os vira. Quando lhe avisaram de Londres que o contrato de aluguel expirara e a casa, com algumas outras iguaizinhas a ela, ia ser demolida, sentiu uma estranha angústia.
Já então enveredara pela ampla estrada das inconsistências humanas. Era no tempo da Companhia. Escreveu dando ordem para que algumas daquelas coisas lhe fossem enviadas para Samburan, tal como teria feito uma pessoa crédula comum. E as coisas vieram, arrancadas ao seu longo repouso: livros em quantidade, algumas cadeiras e mesas, o retrato a óleo do pai, que surpreendeu Heyst pelo seu ar de mocidade, pois as suas recordações pintavam-no como um homem muito mais velho; uma porção de miudezas, como castiçais, tinteiros, e estatuetas do gabinete do pai, que o surpreenderam por parecer tão pequenas e tão usadas.
Ao desencaixotá-las na varanda, cuja sombra era assediada pelo sol terrível, o administrador da Companhia de Carvão da Zona Tropical teve com certeza diante dessas relíquias a sensação de um apóstata arrependido. Manuseava-as com ternura. Foi, talvez, a presença delas que o prendeu à ilha quando se lhe abriram os olhos à inutilidade da sua apostasia. Fosse qual fosse a razão decisiva, Heyst permanecera naquele lugar, de onde um outro qualquer se teria retirado satisfeito. O excelente Davidson descobrira o fato sem compreender a razão e sentira um interesse bem humano pela singular existência de Heyst, conquanto a sua inata delicadeza não lhe permitisse invadir a solidão do outro. Não podia adivinhar que Heyst, sozinho na ilha, não se sentia nem mais nem menos solitário do que em qualquer outro lugar, deserto ou populoso. A preocupação de Davidson era, se assim nos podemos expressar, de que aquele espírito viesse a morrer à míngua; mas Heyst era um espírito que renunciara a todo alimento, exterior, nutrindo-se orgulhosamente do seu próprio desprezo pelos pastos vulgares e grosseiros que a natureza oferece aos apetites comuns dos homens.
O corpo de Heyst tão pouco corria perigo de morrer de fome, segundo afirmara Schomberg com tanta confiança. Ao se iniciarem as operações da companhia a ilha fora provida de mantimentos, com uma abundância superior às necessidades. Heyst não tinha por que recear a fome, e a sua própria solidão não era absoluta. Entre os numerosos trabalhadores chineses importados, um ao menos permanecera em Samburan, solitário e estranho, como uma andorinha deixada atrás na migração da sua tribo.
Wang não era um cule comum. Já tinha sido criado de brancos. O ajuste entre ele e Heyst consistira na troca de algumas palavras, no dia em que a última turma de mineiros chineses deixava Samburan. Heyst, debruçado sobre o parapeito da varanda, via-os embarcar, na aparência tão calmo como se nunca se houvesse apartado da doutrina de que este mundo não é, para os sábios, mais que um espetáculo divertido. Wang surgiu no cunhal da casa e, parando em baixo, ergueu a cara amarela e fina.
— Tudo acabado? — perguntou.
Heyst, na varanda, meneou de leve a cabeça olhando na direção do pier. Uma multidão de homens vestidos de azul, em que se destacavam as caras e as pernas amarelas, era metida às pressas nos escaleres do paquete surto ao longe, como um navio pintado sobre um mar pintado, tudo em cores cruas, sem sombras, sem sentimento, com precisão brutal.
— É bom você apressar-se, se não quer que o deixem aqui.
Mas o chinês não se moveu.
— Mim fica — disse.
Heyst pôs os olhos nele pela primeira vez.
— Você quer ficar?
— Sim.
— O que você fazia? Qual era seu trabalho aqui?
— Selvia mesa.
— Quer ficar como meu criado? — perguntou Heyst surpreendido.
Inesperadamente, o chinês fez uma cara de súplica e disse, ao cabo de uma pausa regular:
— Pode faz.
— Não precisa ficar — disse Heyst, — a não ser que queira. Eu pretendo continuar aqui... talvez ainda por muito tempo. Não tenho autoridade para obrigá-lo a ir embora se você deseja ficar, mas não vejo razão para isso.
— Alanjei mulhé — respondeu Wang friamente. E afastou-se, voltando as costas para o pier e o mundo inteiro, representado pelo paquete que esperava os escaleres.
Pouco depois Heyst veio a saber que Wang tinha persuadido uma mulher da povoação dos alfuros, situada na praia ocidental da ilha, além das montanhas centrais, a vir viver com ele num ponto distante da clareira. Era um caso curioso, porquanto os alfuros, atemorizados com aquela invasão súbita de chineses, tinham abatido algumas árvores para bloquear o caminho que atravessava as montanhas, nunca se aventurando no outro lado. Os cules, em conjunto, olhando com desconfiança a manifesta pacatez desse inofensivo povo de pescadores, respeitaram a fronteira sem tentar atravessar a ilha. Wang fora uma brilhante exceção. Devia ser dotado de alguma fascinação incomum, imperceptível para Heyst, ou então seria extraordinariamente persuasivo. OS serviços prestados pela mulher a Heyst limitavam-se ao fato de prender Wang à ilha com os seus encantos, que ficaram ignorados pelo homem branco, pois ela em ocasião alguma se aproximou das casas. O casal vivia na orla da floresta, e às vezes se podia ver a mulher olhando na direção do bangalô, com a mão em pala sobre os olhos. Mesmo de longe parecia uma criatura tímida e selvagem, e Heyst, não querendo por à prova os seus nervos primitivos, evitava escrupulosamente, em suas caminhadas, de passar por aquele lado da clareira.
No dia (ou melhor, na primeira noite) seguinte ao início de da sua vida de ermitão, ele ouviu vagamente uns sons festivos que vinham daquelas bandas. Ganhando coragem com a partida dos estrangeiros invasores, alguns nativos, amigos e parentes da mulher, aventuraram-se além das montanhas para assistir a uma espécie de boda. Fora Wang que os convidara. Mas foi essa a única ocasião em que um som mais forte que o zumbido dos insetos perturbou o silêncio profundo da clareira. Os indígenas nunca mais foram convidados. Ademais de saber viver de acordo com as convenções sociais, Wang tinha sólidas ideias pessoais quanto à organização da existência doméstica. Passado algum tempo, Heyst reparou que o chinês se apoderara de todas as chaves. Qualquer chave que ficasse à vista desaparecia após a passagem de Wang. Posteriormente algumas delas — as que não pertenciam aos depósitos de mantimentos ou aos bangalôs desocupados, e que não se podiam considerar propriedade comum dessa comunidade composta de duas pessoas — foram devolvidas a Heyst, atadas em molho com um barbante. Encontrou-as uma manhã sobre a mesa, junto ao seu prato. A ausência das chaves não lhe causara transtorno, pois nunca fechava as gavetas ou as malas. Heyst nada disse. Wang, tão pouco. Talvez fosse taciturno de seu natural, talvez o influenciasse o gênio da localidade, que era indubitavelmente o do silêncio. Até o dia em que Heyst e Morrison tinham desembarcado na Baía do Diamante Negro e lhe deram este nome, aquela parte de Samburan raríssimas vezes ouvira o som da voz humana. Era fácil ser taciturno na companhia de Heyst, que mergulhara num abismo de meditação sobre os seus livros, e dali não saía enquanto a sombra de Wang, obscurecendo a página, e o som da sua voz baixa e áspera pronunciando a palavra malaia makan, não o forçassem a subir para comer.
Na sua província natal da China talvez houvesse sido Wang uma pessoa alegre, cheia de vida e de sensibilidade agressiva. Mas em Samburan encerrava-se numa estolidez misteriosa e não parecia melindrar-se por lhe não dirigirem senão uma palavra que outra, as quais não chegavam, em média, a somar meia dúzia por dia. Aliás, não dava mais do que recebia. É de supor que, se isto lhe era pesado, cobrava-se com a esposa. Voltava sempre para junto dela ao anoitecer, desaparecendo subitamente do bangalô como uma espécie de fantasma diurno movido por mecânica e dotado de um rabicho e uma jaqueta branca. Pouco depois, cedendo à paixão dominante dos chineses, foi visto a desmoitar a terra em roda da sua choça, com um alvião de mineiro, entre os grossos tocos de árvores derribadas. Descobriu então uma pá enferrujada mas ainda prestativa. num dos depósitos vazios, e é de crer que a sua horta prosperasse maravilhosamente — se bem que nada se pudesse ver, pois ele se dera ao trabalho de demolir um dos barracões da companhia para fazer, com as tábuas, uma cerca alta e muito cerrada em redor do seu terreno, como se o cultivo de legumes fosse um invento patenteado ou um mistério sagrado e terrível, cuja guarda estivesse confiada à sua raça.
Heyst, acompanhando de longe os progressos hortícolas de Wang e as suas precauções (era só o que havia para ver) divertia-se ao pensar que ele constituía, em sua pessoa, todo o mercado para essa produção. O chinês encontrara nos depósitos vários pacotes de sementes, e cedera ao impulso irresistível de lançá-las na terra. Faria o amo pagar as verduras que plantava para satisfazer o seu instinto. E, contemplando silenciosamente o silencioso chinês que atendia com firmeza e vagar aos seus afazeres no bangalô, Heyst invejava-lhe essa obediência aos seus instintos, a poderosa simplicidade de propósitos que fazia parecer quase automática a sua existência, na misteriosa precisão dos pormenores.