Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 10 de 40

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Vitória

Capítulo II

 

 

Foi assim que a história começou. Como veio a terminar do modo que sabemos, não é tão fácil expô-lo com precisão. É bem claro que Heyst não via com indiferença, não digo a moça, mas o destino desta. Ele era ainda o mesmo homem que se atirara em socorro de Morrison em transes de ir ao fundo, conhecendo-o apenas de vista e pelas bisbilhotices habituais do Arquipélago. Mas este mergulho era de gênero totalmente diverso, e tinha visos de conduzir a uma ligação de espécie bem diferente.

Refletiu ele? Provavelmente. Era bastante refletido. Mas se o fez, foi com escasso conhecimento de causa, pois não há indícios de que ele se tenha recolhido dentro de si alguma vez no tempo que decorreu entre aquela noite e a manhã da fuga. Na verdade, Heyst não era homem de muitas pousas na ação. Esses sonhadores que devaneiam contemplando a agitação universal são terríveis quando se apossa deles O desejo de agir. Carregam de cabeça baixa contra um muro, com uma pasmosa serenidade que só a imaginação indisciplinada lhes pode dar.

Não era tolo. Creio que sabia (ou pelo menos pressentia) aonde aquilo o levaria. Mas sua completa inexperiência lhe conferia a audácia necessária. A voz da moça era encantadora quando lhe falava no seu miserável passado, com uma espécie de cinismo inconsciente que é companheiro inseparável das sórdidas condições da pobreza. Ou porque Heyst fosse muito humano, ou porque a voz dela possuía todas as modulações do patético, do bom humor e da coragem, não foi repulsa que a narração lhe despertou, mas um sentimento de imensa tristeza.

Noutra noite, durante o intervalo do concerto, à moça contou sua existência a Heyst. Era quase uma filha das ruas. O pai tocava em orquestras de teatrinhos. A mãe fugira quando ela era ainda pequena, e as proprietárias de diversas casas pobres de pensão tinham zelado, a intervalos, pela sua infância abandonada. Jamais chegou positivamente a passar fome ou a andar esfarrapada, mas toda a sua vida decorrera sob o signo da pobreza. Fora seu pai quem lhe ensinara a tocar violino. Ao que ela dizia, embriagava-se às vezes, mas sem encontrar nisso prazer, e tão somente porque não podia esquecer a esposa desertora. Depois que ele sofreu um ataque de paralisia, despenhando-se fragorosamente da galeria de orquestra de um music-hall, durante a execução de um trecho, a menina ingressou na companhia de Zangiacomo. Ele se achava agora num asilo para doentes incuráveis.

— E aqui estou — concluiu a moça — sem ninguém para me chorar se eu der um mergulho na primeira ocasião que encontre a jeito.

Heyst lhe disse que ela poderia fazer melhor, se é que se tratava apenas de deixar este mundo. A moça considerou-o com particular atenção e um olhar perplexo que lhe dava ao semblante um ar de inocência.

Foi isto durante um dos “intervalos” do concerto. Dessa vez ela descera ao salão sem que para tanto fosse preciso beliscá-la a horrível mulher de Zangiacomo. É difícil supor que a houvessem seduzido a testa de pensador e o longo bigode arruivado do seu novo amigo. Novo não é o termo próprio. Nunca tivera um amigo; e a sensação dessa amizade que lhe vinha ao encontro era emocionante já pelo que tinha de inédita. Ademais, qualquer homem que não se parecesse com Schomberg afigurava-se, por esta mesma razão, atraente. Ela tinha medo do hoteleiro, que durante o dia, aproveitando-se da circunstância de estar a moça hospedada no corpo do hotel e não no Pavilhão com as demais artistas, rondava-a, calado, faminto, majestoso nas suas barbaças, assediando-a por vezes em cantos retirados e corredores vazios com murmúrios misteriosos pelas costas. Esses murmúrios, não obstante o seu sentido claro, pareciam-lhe de algum modo horrivelmente insanos.

As maneiras tranquilas e polidas de Heyst davam-lhe, por contraste, um deleito especial e enchiam-na de admiração. Jamais tinha visto coisa semelhante. Talvez houvesse em sua vida encontrado a bondade, mas nunca a simples cortesia. Interessava-lhe como uma experiência inédita, pouco compreensível mas positivamente agradável.

— Digo-lhe que não posso com eles — repetia, às vezes estouvadamente, mas em geral abanando a cabeça com desânimo pressago.

Não tinha, naturalmente, dinheiro nenhum. Aterrava-a a grande quantidade de “negros” naquelas regiões, Não fazia, na verdade, uma ideia definida do ponto da superfície do globo onde se encontrava. A orquestra passava geralmente do vapor para um hotel, e ali ficava encerrada até a hora de embarcar em outro vapor. A moça não guardava na memória os nomes que ouvia.

Como é mesmo que se chama este lugar? — costumava perguntar a Heyst.

— Surabaya — dizia ele distintamente, observando o desalento que esta palavra peregrina fazia assomar aos seus olhos, fixos no rosto do interlocutor.

Heyst não podia evitar a compaixão. Aconselhou-lhe que recorresse ao cônsul, mas era a consciência que ditava este alvitre, e não convicção Ela nunca tinha ouvido falar nesse bicho e ignorava a sua utilidade. Um cônsul! Que era isso? Quem era ele? Que podia fazer? Quando soube que talvez se pudesse convencer o cônsul a mandá-la para a sua terra, ficou cabisbaixa.

— Que farei eu quando chegar lá? — murmurou com uma intonação tão justa, um acento tão penetrante (o encanto da sua voz não desaparecia nem ao cochichar), que Heyst teve a impressão de ver a ilusão da fraternidade humana esvaecer-se ante a verdade nua daquela existência, deixando-os ambos face a face no meio de um deserto moral mais resseco do que as areias do Saara, sem sombra que repousasse, sem água que refrescasse.

Ela avançou o busto levemente por cima da mesinha, a mesma diante da qual se haviam sentado na primeira vez que se falaram. E, sem recordar outra coisa senão as pedras das ruas que conhecera na sua infância, na angústia das impressões incoerentes, confusas, rudimentares das suas viagens que lhe infundiam um vago terror ante o mundo, disse em voz rápida como a dos desesperados:

— Faça o senhor qualquer coisa! É um cavalheiro. Não fui eu que o procurei, não é mesmo? Não fui eu que comecei. Foi o senhor que se aproximou de mim e me falou, quando eu estava parada ali. Para que me veio falar? Bem, isso não me importa, mas o senhor tem de fazer alguma coisa!

Sua atitude era ao mesmo tempo impetuosa e súplice — clamorosa, em suma, conquanto sua voz não passasse de um murmúrio. Era bastante clamorosa para chamar a atenção. Heyst riu alto, propositadamente. A moça quase sufocou de indignação diante dessa insensibilidade brutal.

— Que significavam então as suas palavras quando me pediu que “ordenasse”? — perguntou em voz sibilante. A firmeza dos olhos de Heyst, que não sorriam, e um “está bem” tranquilo e terminante, restituíram-lhe a calma.

— Não sou bastante rico para pagar o seu resgate — prosseguiu ele, com uma extraordinária careta de desprendimento, — mesmo que isso fosse possível. Mas sempre posso roubá-la.

Ela considerou-o com um olhar profundo, como se estas palavras tivessem um sentido encoberto e muito complicado.

— Afaste-se agora — disse ele em voz rápida, — e trate de sorrir.

Ela obedeceu com inesperada presteza. E, como possuía duas belas fieiras de dentes alvos, o efeito desse sorriso maquinal de encomenda foi prazenteiro, radiante. Heyst pasmou. Não admira, pensou ele, que as mulheres possam enganar tão bem os homens. A faculdade lhes era inerente; pareciam ter sido criadas com uma aptidão especial. Este sorriso, por exemplo, ele lhe conhecia perfeitamente a origem; e contudo lhe comunicava uma sensação de calor, uma espécie de ardor vital muito novo para a sua experiência.

Ela fora ter com as outras “damas da orquestra”. Dirigiram-se arrebanhadas para a plataforma, impelidas com truculência pela altaneira cara-metade de Zangiacomo, que tinha o ar de reprimir com dificuldade o desejo de lhes ferretoar as costas. Zangiacomo marchava na retaguarda, com a sua barbaça tingida a balouçar, a sua curta jaqueta branca, e um aspecto de concentração sorrateira que lhe davam a cabeça baixa e os olhos inquietos, muito chegados. Subiu os degraus por último, virou-se para o salão exibindo a barba roxa, e bateu com o arco para chamar a atenção. Heyst encolheu-se, antecipando a horrível bulha que estourou imediatamente, infrene e medonha. A um lado da plataforma a pianista, mostrando o perfil cruel, a cabeça inclinada para trás, martelava as teclas sem olhar para a música.

Heyst não pôde suportar a balbúrdia mais que pelo espaço de um minuto. Saiu, com o cérebro causticado pelo ritmo de uma música de dança mais ou menos húngara. As florestas habitadas pelos canibais da Nova Guiné, cena das suas mais emocionantes aventuras até então, eram silenciosas. E esta aventura, não talvez na sua realização mas pela sua natureza, requeria ainda mais coragem que todos os perigos já arrostados por ele. Caminhando entre as lanternas de papel suspensas das árvores, recordou com saudade a escuridão e a quietude morta das florestas ao fundo tia Baía de Geelvink, que é talvez, de todos os sítios da terra que têm vista para o mar, o mais selvagem, o mais mortalmente perigoso. Oprimido por estes pensamentos, buscou a escuridão e a paz do seu quarto. Não eram, porém, completas. Os sons distantes do concerto lhe chegavam ao ouvido, fracos na verdade mas ainda importunos. Não se sentia, tão pouco, muito seguro ali: pois o sentimento de segurança não depende das circunstâncias exteriores mas da nossa convicção íntima. Não procurou dormir; nem sequer desabotoou a túnica. Sentou-se numa cadeira e pôs-se a cismar. Acostumara-se, na solidão e no silêncio, a pensar com clareza, às vezes até profundamente, contemplando a vida sem a lisonjeira ilusão óptica da esperança que nunca morre, das falácias convencionais com que cada um engana a si mesmo, de uma felicidade que jamais deixamos de esperar. Mas nessa noite estava perturbado. Ligeiro véu começava a empanar-lhe a visão mental: uma ternura que despertava, ainda indistinta e confusa, por aquela desconhecida.

Pouco a pouco se fizera em torno dele o silêncio. O concerto terminara. O público tinha-se retirado. O salão de concertos estava às escuras, e até no Pavilhão, onde as componentes da orquestra dormiam após fazer tanto ruído, não se via uma só luz. De súbito, Heyst sentiu uma inquietação que lhe invadia todos os membros. Como não havia maneira de fugir a essa reação provocada pela longa imobilidade, satisfê-la saindo de mansinho para a varanda escura e daí para o outão da casa, entre as sombras negras sob as árvores, onde as lanternas de papel apagadas balouçavam suavemente os seus globos que semelhavam frutas murchas.

Esteve largo trecho a caminhar de um lado para outro, tal um fantasma pensativo no seu traje de brim branco, revolvendo no cérebro pensamentos completamente novos, perturbadores e sedutores: acostumava o espírito à contemplação do seu desígnio afim de que, encarado com firmeza, este lhe parecesse judicioso e louvável. O ofício da razão é justificar os desejos obscuros que são o móbil da nossa conduta — impulsos, paixões, preconceitos, anseios doidos, e também os nossos temores.

Sentia que se havia comprometido por uma promessa temerária a uma ação prenhe de consequências incalculáveis. Perguntava consigo se a moça compreendera o seu propósito. Quem o poderia saber? Assaltavam-no dúvidas de toda sorte. Levantando os olhos do chão, avistou uma forma alvacenta que flutuava no meio das árvores. Logo desapareceu; mas não podia haver engano. Vexou-se de ter sido surpreendido a vaguear assim altas horas da noite. Quem seria? Não lhe ocorreu que também à moça podia a excitação ter roubado o sono. Avançou com prudência e divisou novamente a branca e espectral aparição. Logo se desvaneceram todas as suas dúvidas quanto ao estado de espírito da moça, pois a sentiu agarrar-se-lhe, à maneira dos suplicantes em todo o mundo. Murmurava coisas tão incoerentes que ele não pôde entender nada; Isto, porém, não obstava a que me sentisse profundamente comovido. Não tinha ilusões sobre ela, mas a plenitude do coração vencia o cepticismo.

— Acalme-se, acalme-se — murmurou-lhe ao ouvido, devolvendo o seu abraço, primeiro maquinalmente, e depois com uma simpatia cada vez maior pela sua humana aflição. Os arquejos daquele peito, o tremor de todo aquele corpo que cingia nos braços parecia penetrar nele, contagiar-lhe até o coração. Enquanto a moça se aquietava nos seus braços crescia a agitação dele, como se o mundo contivesse uma quantidade fixa de emoção violenta. A própria noite parecia mais muda, e mais perfeita a imobilidade das formas negras e indefinidas que o rodeavam.

— Tudo correrá bem — disse em tom convicto, procurando tranquilizá-la. Como lhe falara ao ouvido, foi preciso estreitá-la ainda mais contra si.

Ou as palavras, ou a ação, produziram excelente efeito. Heyst ouviu um leve suspiro confortado. Ela falou com calma e ardor.

— Oh, eu sabia que tudo correria bem desde a primeira vez que você me falou! Sim, é verdade, compreendi isso logo que se aproximou de mim naquela noite. Sabia que tudo se resolveria, bastando para isso que você o quisesse. Mas, naturalmente, ignorava qual era a sua intenção. “Ordene”, foi o que você disse. Esquisito, um homem como você dizer uma coisa assim! Falava sério? Não estava caçoando comigo?

Ele protestou que fora toda a vida um homem sério.

— Acredito — disse ela ardentemente. Esta declaração o tocou. — É o jeito que você tem de falar como se se estivesse divertindo com a gente — continuou ela. — Mas eu não me enganei. Percebi que estava furioso com aquela tarasca. E é perspicaz também. Farejou logo alguma coisa. Viu na minha cara, hein? Não tenho uma cara antipática, não é mesmo? Você nunca há de se arrepender. Olhe, ainda não tenho vinte anos. Estou-lhe dizendo a verdade, e não posso ser tão feia, porque... Vou-lhe ser franca: eu já tenho sido perseguida e importunada por sujeitos como este. Não sei o que eles querem de mim...

Falava com precipitação. Sufocou. Por fim exclamou em tom de desespero:

— O que será? Que é que eu tenho?

Heyst havia retirado subitamente os braços, recuando um pouco.

— Será culpa minha? Nem olho para eles, garanto-lhe. Nunca! Acaso olhei para você? Diga-me. Foi você que começou.

Na verdade, Heyst recuara à ideia de uma competição com sujeitos desconhecidos, com o hoteleiro Schomberg. A vaporosa figura branca vacilava lamentavelmente na escuridão, diante dele. Envergonhou-se de ser tão exigente.

— Receio que nos tenham visto — murmurou. — Pareceu-me avistar alguém atrás de você, no caminho entre a casa e o macegal.

Não avistara ninguém. Era uma piedosa mentira. Sua compaixão era tão genuína como o tinha sido o seu recuo, e, no juízo de Heyst, mais nobre.

Ela não voltou a cabeça. Seu alívio era evidente.

— Seria aquele animal? — sussurrou, referindo-se naturalmente a Schomberg. — Está ficando muito ousado comigo. O que se poderia esperar? Ainda esta noite, depois do jantar, ele... Mas eu me escapuli. Você não se incomoda, não é? Oh, eu me sinto capaz de enfrentá-lo sozinha, agora que sei que você se interessa por mim. Uma moça sempre tem forças para lutar. Não me acredita? Apenas, não é fácil defender-se sozinha quando não se tem nada nem ninguém para nos apoiar. Não há nada mais só neste mundo que uma moça obrigada a tomar conta de si mesma. Quando deixei meu pobre pai naquele asilo (era no campo, perto duma aldeia) vi-me na estrada com sete xelins e três pence na minha velha bolsa, e mais a passagem de volta. Caminhei uma milha e tomei o trem...

Acabou-se-lhe a voz, e ficou um momento calada.

Não me enjeite agora — prosseguiu. — Se você não me quisesse, que faria eu? Continuaria a viver, sem dúvida, porque teria medo de me matar; mas da sua parte isso seria mil vezes pior do que matar uma pessoa. Disse-me que sempre viveu só, que nunca teve sequer um cachorro. Pois bem, eu não prejudicarei ninguém se for viver com você, nem mesmo um cachorro. Que outra intenção podia ter você quando chegou tão perto de mim e me olhou nos olhos?

— Nos olhos? Foi mesmo? — murmurou ele imóvel diante da moça, na escuridão profunda. — Tão perto assim?

Ela teve um acesso de cólera e desespero. Refreava, porém a voz.

— Já esqueceu, então? Que é que você esperava? Eu me conheço, mas em todo caso não sou uma moça a quem os homens virem as costas... e você deve sabê-lo, só se é diferente dos outros. Oh, perdão! Você é diferente mesmo. Não se parece com nenhum dos homens com quem falei até hoje. Não faz caso de mim? Não vê...?

Ele a via, branca e espectral, estender-lhe os braços nas trevas da noite como um fantasma implora dor. Tomou-lhe as mãos e emocionou-se, quase surpreendido, ao senti-las tão cálidas, tão concretas, tão firmes, tão vivas entre as suas. Puxou-a para si, e ela reclinou-lhe a cabeça no ombro soltando um profundo suspiro.

— Estou morta de cansaço — murmurou, num queixume.

Heyst tornou a apertá-la nos braços, e apenas pelos movimentos convulsivos do seu corpo percebeu que ela estava soluçando sem ruído. Amparando-a, deixou-se submergir no grande silêncio da noite. Ao cabo de algum tempo ela serenou, e pôs-se a chorar do mansinho. E de repente, como se despertasse:

— Não viu mais essa pessoa que pensava estar-nos espiando? — perguntou.

Este sussurro vivo e ardente fê-lo estremecer. Respondeu que com toda probabilidade se enganara.

— Se era mesmo alguém — refletiu ela em voz alta, — só podia ser aquela mulher... a mulher do hoteleiro.

— A sra. Schomberg? — tornou Heyst surpreendido.

— Sim. É outra que não pode dormir de noite. Por quê? Então você não vê? Porque sabe o que acontece, claro. Aquele animal nem se dá ao trabalho de esconder o que faz. Se ao menos ela tivesse um pouquinho de coragem! Sabe também como isso me revolta, mas tem medo até de olhar para a cara dele, quanto mais de falar. Ele mandaria enforcá-la.

Heyst manteve-se algum tempo calado. Uma disputa em público com o hoteleiro era coisa em que nem convinha pensar. A ideia causava-lhe horror. Falando em suaves murmúrios, tratou de convencer a moça de que, na presente situação, não lhe permitiriam provavelmente retirar-se da companhia. Ela escutou esta explicação com ansiedade, estreitando de tempos em tempos a sua mão, que procurara no escuro e de que se apossara.

— Como lhe disse, não sou bastante rico para pagar o seu resgate, e vou raptá-la logo que encontrar um meio de sair de Java. Nesse meio tempo, o sermos vistos juntos de noite seria fatal ao nosso plano. Não nos devemos denunciar. Seria melhor que nos separássemos imediatamente. Creio que há pouco me enganei; mas, se como você diz a pobre sra. Schomberg não pode dormir de noite, precisamos ter mais cuidado. Ela iria contar ao sujeito.

A moça desprendera-se do seu frouxo abraço enquanto ele falava, e estava agora à sua frente, segurando-lhe ainda a mão com firmeza.

— Oh, não — disse, em tom de perfeita segurança. — Estou-lhe dizendo que ela não se atreve a falar ao homem. Além disso, não é tão tola como parece. Não seria capaz de nos trair. Nessa é que ela não caía. Há de nos ajudar, isso sim, se tiver a coragem de fazer alguma coisa.

— Você parece ver a situação com muita clareza — disse Heyst. E em paga do elogio recebeu um beijo cálido e demorado.

Verificou então que separar-se dela não era tão fácil como supusera.

— Palavra — disse antes de se despedirem, — nem sei ainda como você se chama.

— Não? Eles me chamam de Alma, não sei por que. Que nome estúpido! De Madalena, também. Mas isso não importa; você pode chamar-me pelo nome que quiser. Sim, dê-me um nome. Pense num que lhe agrade... alguma coisa nova. Como eu desejaria esquecer tudo que aconteceu até como a gente esquece um sonho e até o medo que ele lhe causou! Havia de fazer um esforço.

— Sim? — murmurou ele. — Mas isso não é proibido. Segundo ouvi dizer, as mulheres esquecem facilmente qualquer fato passado que as diminua aos seus próprios olhos.

— Era nos seus olhos que eu pensava, pois tenho certeza de que nunca tinha desejado esquecer coisa alguma, até aquela noite em que você caminhou para mim e me devassou a alma com os olhos. Eu sei que não valho grande coisa; mas também sei ser leal a um homem. Cuidei de meu pai desde que tive entendimento. Ele não era má pessoa. Agora que não lhe posso mais valer de nada, gostaria de esquecer tudo isso e começar uma vida nova. Mas isso não são assuntos em que eu lhe possa falar. Em que lhe poderei falar, meu Deus?

— Não lhe dê cuidado — volveu Heyst. — A sua voz é suficiente. Estou enamorado dela, o que diz não importa!

Ela ficou algum tempo calada, como se estas serenas palavras lhe houvessem tirado o fôlego.

— Oh! Queria perguntar-lhe...

Heyst lembrou-se de que ela ignorava provavelmente o seu nome, e ficou à espera que o perguntasse agora. Mas depois de breve hesitação a moça continuou:

— Por que foi que me mandou sorrir esta noite lá na sala de concerto?... Lembra-se?

— Pareceu-me que nos estavam observando. Um sorriso é a melhor máscara que se pode imaginar. Schomberg estava a duas mesas da nossa, bebendo com uns holandeses, uns empregados de escritório. Não resta dúvida de que nos vigiava... a você, pelo menos. Foi por isso que lhe pedi para sorrir.

— Ah, por isso. Nunca me passou pela ideia.

— E que bem, que você o fez... e prontamente, como se tivesse compreendido a minha intenção.

— Prontamente! — repetiu ela. — Ah, eu sorri de muito boa vontade naquela hora. Essa é que e a verdade. Havia anos, posso garantir-lhe, que não me sentia tão disposta a sorrir. Não tenho tido muitas ocasiões de sorrir na minha vida, creia. Especialmente nestes últimos tempos.

— Mas você sorri com um modo encantador... fascinante mesmo.

Fez uma pausa. Ela esperou mais, imóvel, com a imobilidade da suprema delícia, desejando prolongar a sensação.

— Fiquei maravilhado — acrescentou ele. — Aquilo me veio direito ao coração, como se você tivesse sorrido para me agradar. A minha impressão foi de nunca ter visto alguém sorrir até hoje. Fiquei pensando nisso depois que nos separamos. Estava nervoso.

— Pois o meu sorriso fez tudo isso? — disse ela numa voz insegura, doce e incrédula.

— Se você não tivesse sorrido daquela maneira, talvez eu não saísse aqui fora esta noite — volveu Heyst no seu tom joco-sério. — Foi o seu triunfo.

Sentiu os lábios dela tocar de leve nos seus, e imediatamente a moça se afastou. Seu vestido alvejou ao longe, e depois pareceu ser engolido pela densa escuridão da casa. Heyst esperou um pouco antes de seguir pelo mesmo caminho. Dobrou o cunhal, subiu os degraus da varanda e entrou no seu quarto, onde se deitou finalmente — não para dormir, mas para recordar tudo que os dois se tinham dito.

— Aquilo do sorriso é a pura verdade — pensou, Não mentira à moça neste ponto. E a voz também. Quanto ao resto... o que tinha de ser seria.

Uma grande onda de calor envolveu-o. Virou-se sobre as costas, estendeu os braços em cruz sobre a cama larga e dura, e ficou quieto, de olhos abertos sob o mosquiteiro, até que a luz da manhã lhe entrou no quarto, clareou rapidamente e fez-se inflexível soalheira. Então se levantou, caminhou para um espelhinho pendurado à parede e encarou atentamente na sua própria imagem. Não era nenhum impulso de vaidade que o levava a examinar-se assim. O seu novo estado de espírito lhe dava uma grande sensação de estranheza, e não podia resistir à suspeita de que a sua aparência exterior houvesse mudado durante a noite. O que viu no espelho, entretanto, foi o mesmo homem de sempre. Foi uma espécie de decepção, uma diminuição da sua experiência recente. Sorriu então da sua própria ingenuidade; pois, tendo já passado dos trinta e cinco anos, devia saber que na maioria dos casos o corpo é a máscara imutável da alma, e que a própria morte o demuda pouco, até ser ele posto onde ninguém o pode ver, e onde suas transformações deixam de ter importância, quer para os nossos amigos quer para os nossos inimigos.

Heyst não tinha consciência de possuir nem uns nem outros. A própria essência da sua vida era ser uma realização solitária, consumada não pelo retiro cenobítico, no silêncio e na imobilidade, mas por um sistema de peregrinações sem fim, pelo desprendimento de um espírito que perdura entre cenas mutáveis. Nesse programa via o meio de passar pela vida sem dor e quase sem uma única preocupação — invulnerável porque intangível.