Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 13 de 40

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Vitória

Capítulo V

Três semanas depois, tendo guardado a caixa do dinheiro no cofre de ferro que ocupava um canto da alcova, Schomberg virou-se para a esposa, mas sem exatamente olhar para ela, e disse:

— Preciso livrar-me daqueles dois. Isto não dá certo!

Fora esta, desde o começo, a opinião da sra. Schomberg. Mas havia muitos anos que lhe tinham ensinado a guardar suas opiniões para si. Sentada, em camisão de dormir, à luz de uma vela única, teve o cuidado de não emitir o menor som, pois sabia por experiência que mesmo concordando provocaria a ira do marido. Seguia com os olhos a figura de Schomberg, que, de pijama, caminhava desassossegado pelo quarto.

Ele não voltava sequer os olhos na sua direção, A sra. Schomberg, no seu traje de noite, parecia o objeto mais sem, atrativos do mundo: mesquinha, insignificante, murcha, prostrada, velha, E o contraste com a forma feminina que lhe morava no espirito tornava ofensiva ao seu senso estético a aparência da esposa,

Schomberg caminhava praguejando e bufando, com o fim de remontar a sua coragem.

Diabos me levem se eu não devia ir agora mesmo ao quarto dele e mandá-los retirar, ele e o tal de secretário, amanhã cedo. Não me importam as rodas de baralho, mas fazer da minha table d’hôte um chamariz... chega a me ferver o sangue! Ele veio para cá porque algum velhaco em Manila lhe disse que eu tinha mesa comum.

Dizia estas coisas, não para Informar a sra. Schomberg, mas pensando simplesmente em voz alta e tratando de se enfurecer ate ganhar ânimo para enfrentar “Mr. Jones-simplesmente”.

— Trapaceiro descarado, impostor, caloteiro! prosseguiu. — Estou quase resolvido a...

Estava fora de si, à maneira teutônica, que é sombria e penada, tão diversa da fúria viva e pitoresca da raça latina. E embora os seus olhos vagueassem indecisos, as suas feições intumescidas e coléricas despertaram na infeliz a quem ele havia tiranizado durante anos um temor pela sua preciosa carcaça, pois a pobre criatura não tinha outra coisa a que se agarrar neste mundo. Conhecia-o bem, mas não o conhecia a fundo. A última coisa que uma mulher consentirá em descobrir no homem a quem ama, ou do qual depende, é a falta de coragem, Tímida no seu canto, aventurou-se a dizer com ansiedade:

— Tem cuidado, Wilhelm! Lembra-te das facas e revolveres que eles têm nas malas.

À guisa de agradecimento por esta solícita advertência ele proferiu uma praga horrível na direção da mulher encolhida. Naquele pobre traje de dormir, e descalça, lembrava uma penitente da Idade Média a quem estivessem reprovando seus pecados em termos blasfematórios. Aquelas armas mortais não saíam da cabeça de Schomberg. Não as tinha visto pessoalmente. O seu papel, dez dias após a chegada dos hospedes, fora vaguear pela varanda com ares másculos e negligentes — montando guarda — enquanto a sra. Schomberg, munida de um molho de chaves sortidas, os dentes lívidos a bater como castanholas e os olhos protuberantes completamente idiotizados de terror, “passava revista” à bagagem dos estranhos hóspedes. Fora o seu terrível Wilhelm que insistira nisto.

— Eu fico de sentinela, já te disse. Darei um assobio quando os vir voltar. Tu não sabes assobiar. E se ele te pilhasse em flagrante e te pusesse fora do quarto a cachações não te machucaria muito. Mas não é capaz de tocar numa mulher. Que esperança! Ele mesmo me disse. Animal pedante! Preciso descobrir mais alguma coisa desta história. Vai! Vai agora! Acelerado, marche!

Era uma terrível incumbência. Não obstante, ela foi, pois tinha muito mais medo de Schomberg que das possíveis consequências do ato. Seu maior receio era que nenhuma das chaves servisse. Que decepção para Wilhelm! Verificou, contudo, que tinham deixado as malas abertas. Mas não foi longa a pesquisa. Tinha medo de armas de fogo, e em geral de todas as armas, não propriamente por covardia mas, como sucede com algumas mulheres, quase por superstição, por um horror abstrato à violência e ao crime. Tornou a sair para a varanda muito antes que Wilhelm tivesse ocasião de soltar o seu assobio. Sendo o medo instintivo e imotivado o mais difícil de vencer, não houve nada que a fizesse tornar ao quarto, nem rugidos ameaçadores nem silvos ferozes, nem mesmo um ou dois cutucões nas costelas.

— Fêmea estúpida! — resmungou o hoteleiro, perturbado pela ideia daquele arsenal num dos seus quartos. Não se tratava de um sentimento abstrato; nele, era constitucional. — Desaparece da minha vista! — rosnou. — Vai vestir-te para o almoço!

Ficando só, Schomberg refletira. Que diabo significava aquilo? O trabalho do seu cérebro era lento e espasmódico. Mas de súbito viu luz.

— Por Deus, são bandidos! — pensou.

Nesse instante avistou “Mr. Jones” e seu secretário, que usava o nome ambíguo de Ricardo. Vinham entrando no recinto do hotel, de volta do porto, onde tinham ido tratar de algum negócio. O esguio Mr. Jones abria regularmente as longas pernas, como um compasso, e o outro caminhava-lhe ao lado, a passos vivos. A convicção firmou-se no espírito de Schomberg. Eram efetivamente dois bandidos, não restava a menor dúvida. Mas, como o seu terror era apenas uma sensação de ordem geral, teve tempo de assumir os seus ares mais severos de tenente da reserva muito antes de lhe haverem, os dois homens chegado ao pé.

— Bom dia, cavalheiros.

A civilidade irônica da resposta confirmou-o na sua convicção. A maneira como Mr. Jones voltava para a gente os seus olhos encovados, como um espectro indiferente, e o modo como o outro repuxava os lábios quando lhe falavam, mostrando os dentes e sem olhar para o interlocutor — eis aí provas suficientes para decidir a questão. Bandidos! Passaram pela sala de bilhar, misteriosos e inescrutáveis, dirigindo-se para o seu quarto nos fundos da casa, onde os esperavam as suas malas violadas.

— A campainha do almoço vai tocar dentro de cinco minutos, cavalheiros — gritou-lhes Schomberg, exagerando a masculinidade da voz.

Pusera-se num estado de agitação intensa. Esperava vê-los voltar furiosos e maltratá-lo com odiosa sem-cerimônia. Bandidos! Contudo, não voltaram; nada de novo haviam notado nas malas. Schomberg recobrou a compostura e disse consigo que tinha de se livrar desse incubo logo que fosse possível. Não haviam de querer ficar muito tempo. Não era esta a cidade — a colônia — mais indicada para aventureiros criminosos. Schomberg recuava diante da ação. Temia toda espécie de desordem (“baderna”, conforme sua expressão) no seu hotel. Essas coisas prejudicavam o negocio. Está visto que às vezes tinha de haver “baderna”. Mas fora relativamente fácil agatanhar pelas costelas o frágil Zangiacomo — cujos ossos não eram maiores que os duma galinha — erguê-lo no ar, jogá-lo ao chão e cair em cima dele. O desgraçado jazera sem movimento, sepultado sob as suas barbas roxas.

Subitamente, recordando o motivo daquela “baderna”, Schomberg gemeu dolorosamente como se lhe tivessem encostado um carvão ardente à boca do estômago, e abandonou-se ao desespero. Ah, se tivesse aquela garota consigo, havia de ser o senhor, resoluto, destemido: lutaria com vinte bandidos, não faria caso de ninguém! A posse da sra. Schomberg. em contraposição, não era estímulo para o exercício das virtudes viris. Ao invés de não fazer caso de ninguém, não fazia caso de nada. A vida era uma farsa sem sentido; não ia arriscar-se a levar uma bala nos pulmões ou no fígado só para conservar sua integridade moral. Não tinha graça, com o demônio!

Nesse estado de decomposição moral Schomberg, mestre que era na arte do hoteleiro, e cioso de não dar motivo para críticas às potestades que regem esse ramo de atividade humana, deixou que os acontecimentos seguissem o seu curso natural — conquanto percebesse muito bem para onde tendia esse curso. A coisa começou com uma partida ou duas após o jantar (por bebida, aparentemente) com algum freguês que se demorasse no hotel, numa das mesinhas encostadas à parede da sala de bilhar. Schomberg compreendeu logo a significação daquilo. Era isso o que eles eram! Caminhando desassossegado de um lado para o outro (já tinha entrado então no seu período de silêncio soturno), deitava olhares de esguelha à mesa dos jogadores. Mas não dizia nada. Não valia a pena armar contenda com homens tão arrogantes. Mesmo quando começou a aparecer dinheiro nessas partidas de sobremesa, que atraíam um número cada vez maior de pessoas, absteve-se de tocar no assunto. Não desejava chamar indevidamente a atenção de “Mr. Jones-simplesmente” e do equívoco Ricardo sobre a sua pessoa. Uma noite, contudo, depois que as salas públicas do hotel ficaram vazias, Schomberg fez uma tentativa para atacar o problema por vias indiretas.

Num canto distante, o garçom chinês fatigado cochilava de cócoras, encostado à parede. A sra. Schomberg tinha desaparecido, como costumava fazer entre as dez e as onze horas. Schomberg passeava devagar, da sala para a varanda e vice-versa, pensativo, esperando que os dois hóspedes se recolhessem. Mas de repente chegou-se para eles, militarmente, o peito saliente, a voz brusca e marcial.

— Uma noite quente, senhores.

Mr. Jones, ociosamente refestelado numa cadeira, ergueu os olhos. Ricardo, igualmente ocioso porém mais teso, ficou impassível.

— Não querem tomar um cálice comigo antes se de se recolherem? — continuou. Schomberg, sentando-se junto da mesinha.

— Aceito — disse Mr. Jones com indolência.

Ricardo mostrou os dentes num largo sorriso, rápido, estranho. Schomberg sentiu dolorosamente a dificuldade do entrar em contato com aqueles homens, ambos tão sossegados, tão senhores de si, de tão ameaçadora sem-cerimônia. Mandou o chinês trazer a bebida. Seu intuito era descobrir quanto tempo os hóspedes tencionavam ficar no hotel. Ricardo não se mostrava muito disposto a palestrar, mas Mr. Jones parecia bastante comunicativo naquela noite. Sua voz casava-se, de certo modo, com os seus olhos encovados. Era cava sem ser em absoluto lúgubre. Parecia distante, desinteressada, como se ele falasse do fundo de um poço. Schomberg soube que teria a honra de hospedar os dois cavalheiros pelo espaço de um mês ainda, no mínimo. Não pôde ocultar a sua consternação ante esta notícia.

— Que é isto? Você não gosta de ter gente em casa?

— perguntou Mr. Jones em voz lânguida. — Eu teria suposto que nada podia ser mais agradável a um hoteleiro.

Alçou as sobrancelhas finas e primorosamente desenhadas a craião. Schomberg murmurou umas frases indistintas em que declarava enfadonha a localidade, e de pouco interesse para viajantes... não acontecia absolutamente nada... sossegado demais. Mas, por todo resultado, obteve a resposta de que o sossego também tinha o seu encanto às vezes, e até o tédio era bem-vindo, para variar um pouco.

— Não tivemos tempo de nos enfastiar nestes últimos três anos — ajuntou Mr. Jones fixando um olhar tenebroso em Schomberg, a quem convidou para tomar um segundo trago, desta vez à sua custa, e recomendou que não se inquietasse com coisas que não compreendia, e principalmente não fosse inospitaleiro, o que não se coadunava com a sua profissão.

— Coisas que não compreendo — resmungou Schomberg. — Ah, mas eu compreendo perfeitamente. Eu...

— Você está assustado — atalhou Mr. Jones. — Que há, afinal?

— Não quero escândalos na minha casa, aí está.

Schomberg tratava de enfrentar a situação com bravura, mas aquela mirada fixa e sombria o deixava nervoso. Quando desviou os olhos contrafeito viu o sorriso careteante de Ricardo, que punha à mostra uma porção de dentes, embora o homem parecesse a todas essas absorto nos seus pensamentos.

— E demais — prosseguiu Mr. Jones no mesmo tom distante, — você não tem saída senão se conformar. Aqui estamos, e aqui ficamos. Pretende pôr-nos na rua? Reconheço que a coisa é possível, mas não havia de fazê-lo sem perigo para a sua integridade física... sem grande perigo. Acho que podemos prometer-lhe isto, não é, Martin?

O secretário contraiu os lábios e ergueu os olhos ardentes para Schomberg, como se estivesse ansioso por saltar sobre ele com unhas e dentes.

Schomberg conseguiu, arrancar do peito uma profunda risada.

— Ah! Ah! Ah!

— Com ar fatigado, Mr. Jones cerrou os olhos, como se a luz lhe fizesse mal, e por um instante se pareceu de maneira notável com um cadáver. Isto já era bastante assustador; mas quando ele tornou a abri-los, a prova de nervos foi ainda pior para Schomberg. A espectral intensidade daquele olhar fito no hoteleiro e (o que era positivamente aterrador), sem nenhuma expressão definida, pareceu dissolver o último resquício de resolução no seu peito. Você não julga decerto que está tratando com gente comum, hein? — inquiriu Mr. Jones naquele tom sem vida, que parecia implicar uma espécie de ameaça vinda de além-túmulo.

— Ele é um cavalheiro — testificou Martin Ricardo estalando subitamente os beiços, após o que o seu bigode mexeu-se por si mesmo de um modo singular, que tinha muito de felino.

— Oh, eu não me referia a isso — tornou Mr. Jones enquanto Schomberg, mudo e pesadamente plantado na sua cadeira, olhava de um para o outro, inclinando um pouco o busto para a frente. — Está claro que sou um cavalheiro; mas Ricardo dá demasiada importância a essas prerrogativas sociais. O que quero dizer, por exemplo, é que ele, tranquilo e inofensivo como o vê aí, não faria o menor escrúpulo do atear fogo ao seu hotel. Esta casa de madeira arderia como uma caixa de fósforos. Reflita nisso! Não havia de favorecer muito os seus negócios, hein?... não importa o que nos viesse a acontecer.

— Ora, ora, meus senhores — admoestou Schomberg num murmúrio. — Isto são falas doidas.

— E você está acostumado a lidar com gente cordata, não é? Mas nós não somos cordatos. Uma ocasião mantivemos toda uma cidade furiosa encurralada durante dois dias, o acabamos por ir embora com a presa. Foi na Venezuela. Pergunte aí ao Martin. Ele lhe contará.

Instintivamente Schomberg olhou para Ricardo, que se contentou em passar a ponta da língua pelos beiços com uma espécie de gozo selvagem, mas não só dispôs a falar.

— Bem, talvez a história seja um tanto comprida — reconheceu Mr. Jones depois de um breve silêncio.

— Eu é que não tenho desejo nenhum de ouvir essa história — disse Schomberg. — Isto não é a Venezuela. Os senhores não podiam escapar assim tão facilmente. Mas tudo isso é conversa fiada, e da pior espécie. Quer dizer então que seria capaz de cometer um crime por causa de meia dúzia de florins Que o senhor e o outro... (considerando suspicazmente Ricardo, como quem olha para um animal estranho) e o outro cavalheiro ganham numa noite? Os meus fregueses não são uns ricaços que tragam os bolsos recheados de dinheiro. Admira-me que se deem tanto trabalho e se arrisquem tanto por tão pouca coisa.

Mr. Jones contestou o argumento de Schomberg declarando que se devia fazer alguma coisa para matar o tempo. Matar o tempo não era crime. Quanto ao mais, sentindo-se de veia comunicativa, Mr. Jones disse languidamente, e em voz indiferente, como que saída de uma sepultura, que só acreditava em si mesmo, como se o mundo fosse ainda uma selva imensa e sem lei. Martin era outro que tinha o mesmo pensar... por motivos pessoais.

Tudo isto ora confirmado por Ricardo com sorrisos breves e inumanos. Schomberg baixou os olhos, pois a vista dos dois homens o intimidava. Mas ia perdendo a paciência.

— Eu percebi desde logo, naturalmente, que os senhores eram dois tipos arrojados... qualquer coisa no gênero do que acaba de contar. Mas, e se eu lhes dissesse que sou quase tão arrojado como os senhores? “Esse Schomberg leva boa vida com o seu hotel”, é o que pensam por aí. Entretanto, se formos a isso, pouco se me daria que me estripar sem ou que metessem fogo nesta caranguejola. Aí está!

Ouviu-se um ligeiro assobio. Procedia de Ricardo, e era irrisório. Schomberg, respirando com força, pôs os olhos no chão. Na verdade, nada lhe importava. Mr. Jones, languidamente estirado na cadeira, continuava céptico. Fez um muxoxo.

— Você tem um negócio regular. É um homem sossegado. Tem... (uma pausa e depois, em tom de repugnância); — Tem uma esposa.

Schomberg bateu irado com o pé no chão e proferiu rindo uma praga.

— Para que me vêm lembrar essa peste? — gritou. — Quem me dera que a levassem consigo para o inferno! Eu não lhes correria atrás.

Este rompante inesperado teve singular efeito sobre Mr. Jones, que recuou horrorizado, arrastando consigo a cadeira, como se Schomberg lhe houvesse atirado uma víbora ao rosto.

— Que diabo de asneira é esta? — resmungou em voz rouca. — Que quer você dizer? Como se atreve?

Ricardo riu audivelmente.

— Digo-lhes que estou por conta — repetiu Schomberg. — Pouco me importa o que venha a acontecer-me!

— Bem, então — começou Mr. Jones em tom serenamente ameaçador, como se as palavras comuns de uso diário tivessem para o seu espírito algum outro sentido mortal, — então por que essa atitude desagradável e ridícula conosco? Se, como diz, nada lhe importa, podia dar-nos a chave desse seu barração onde tocam música, para jogarmos mais à vontade. Banca pequena: uma dúzia de velas mais ou menos. Os seus fregueses haviam de apreciar imenso, a julgar pelo modo como os vi apostar na partida de écarté que joguei com aquele homem louro, com cara de menino... como se chama ele? O que lhes faz falta é um jogo de banca, com paradas modestas. Além disso, temo que aí o Martin leve a mal se você se apuser; mas naturalmente não o fará. Pense no consumo de bebidas!

Schomberg ergueu afinal os olhos e enfrentou as duas chamas nas negras cavernas que se abriam sob as sobrancelhas satânicas de Mr. Jones, e que se fixavam nele com expressão impenetrável. Estremeceu, como se naquelas grutas se ocultassem horrores ainda mais tétricos do que o crime, e disse indicando Ricardo com um aceno de cabeça:

— Calculo que ele não hesitaria em me passar a faca, se contasse com a sua ajuda! Antes eu tivesse metido a minha lancha a pique é fosse ao fundo com ela, do que abordar o vapor em que vieram os dois! Bem, enfim havia já semanas que eu andava no inferno, e os senhores não fazem grande diferença. Vou ceder-lhes o salão de concertos... e para o diabo as consequências! Mas que dizem do boy que trabalha de noite? Se ele vir correr dinheiro vai dar com a língua nos dentes, e toda a cidade ficará logo sabendo.

Os lábios de Mr. Jones encresparam-se num sorriso sinistro.

— Ah, percebo que você não quer fazer sensação. Muito bem. É assim que se faz. Não se inquiete com isso. Toque todos os chins para a cama bem cedo, o nós traremos Pedro para cá todas as noites. Ele não tem boa figura para garçom, mas sempre serve para carregar as bandejas enquanto você fica aqui sentado das nove às onze, despachando as bebidas e metendo dinheiro na gaveta.

— Serão três agora — pensou o infeliz Schomberg.

Mas em todo caso Pedro era um simples bruto escorreito, embora perigoso. Nada havia nele de misterioso, de sobre natural, nada que sugerisse um gato do mato, furtivo e decidido, ou um espectro insolente saído do Hades e revestido de pele e ossos e um poder sutil de aterrorizar. Pedro, com as suas presas, a sua barba emaranhada e a esquisita mirada dos seus olhinhos de urso era, em confronto, deliciosamente natural. Além disso, Schomberg já não tinha como se opor.

— Está bem — consentiu ele lamentavelmente. — Mas saibam os senhores que se tivessem aparecido aqui há três meses... menos de três meses... teriam encontrado um homem muito diferente daquele que lhes fala agora. É a verdade. Que me dizem a isto?

— Não sei bem o que pensar. Quer me parecer que é mentira. Provavelmente você não era menos cordato há três meses do que hoje. Nasceu cordato, como a maioria das pessoas neste mundo.

Mr. Jones levantou-se espectralmente da cadeira, e Ricardo imitou-o, rosnando e estirando os membros. Schomberg, profundamente absorto nos seus pensamentos, continuou como se falasse a si mesmo:

— Havia lá uma orquestra... dezoito mulheres.

Mr. Jones soltou uma exclamação consternada e correu os olhos ao derredor de si como se as paredes da sala, e a casa inteira, estivessem contaminadas da peste. Ficou então muito irado, e amaldiçoou Schomberg violentamente por se atrever a tocar em tais assuntos. A surpresa do hoteleiro pregou-o à sua cadeira. Contemplava pasmado a cólera de Mr. Jones, que nada tinha de espectral mas não era por isso mais compreensível.

— Que é que há? — gaguejou ele. — Que assunto? Não me ouviu dizer que se tratava de uma orquestra? Não há mal nenhum nisso. Sim, entre elas havia uma garota... — O olhar de Schomberg tornou-se fixo. Juntou as mãos diante do peito, com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. — Que garota! Cordato, eu? Por ela, seria capaz de quebrar tudo aqui a pontapés. E ela, naturalmente... eu estou no vigor dos anos... Depois veio um sujeito e a enfeitiçou... Um vagabundo, um bruto refalsado, mentiroso, velhaco, sorrateiro, sem escrúpulos. Ah!

Seus dedos entrelaçados estalaram quando ele separou as mãos num gesto violento, atirou os braços para a frente e descansou a testa sobre eles, abandonando-se à sua fúria arrebatada. Os outros dois olhavam-lhe para as costas convulsos: Mr. Jones, mais calmo, com desprezo e uma espécie de medo, Ricardo com a expressão de um gato que contempla uma posta de peixe na dispensa, fora do seu alcance. Schomberg atirou o tronco para trás. Tinha os olhos secos, mas o seu pomo de Adão subia e descia como se ele tragasse soluços.

— Não admira que façam de mim gato-sapato. Não Imaginam... Deixem-me ao menos contar os meus aborrecimentos...

— Não quero saber dos seus malditos aborrecimentos — atalhou Mr. Jones, na sua voz mais positiva e sem vida.

Tinha estendido uma mão para lhe impor silêncio. Schomberg ficou boquiaberto, e ele retirou-se da sala com suas longas e extraordinárias passadas. Ricardo seguiu-lhe nos calcanhares; mas olhou para trás e mostrou os dentes a Schomberg.