Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 38 de 40

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Vitória

Capítulo XII

Ao voltar ao bangalô, rápido como se tivesse asas nos pés, Ricardo encontrara Lena à sua espera. Estava vestida de preto; e logo a sua exultante leveza cedeu o passo a uma paciência respeitosa e trêmula ante o rosto pálido dela, ante a sua postura imóvel e repousada, maravilhosa para quem, como ele, lhe conhecia a força dos músculos e o espirito indomável. Ela tinha vindo para a sala depois de partir Heyst, e sentara-se sob o retrato, afim de esperar pela volta do homem de violência e de morte. Enquanto erguia a cortina sentia a angústia de desobedecer assim ao seu amor, angústia temperada por um sentimento que já conhecia, um suave banho de penetrante doçura. Não obedecia automaticamente a uma sugestão momentânea; guiavam-na influências mais refletidas, mais vagas e mais potentes. Retirava energia, não da sua vontade mas de uma força externa e de mais alto valor. Não contava com coisa alguma definida; nada havia calculado. Apenas conhecia o seu propósito de capturar a morte... a morte selvagem, súbita e irresponsável, rondando o homem que era seu senhor; a morte materializada numa faca pronta a cravar-se-lhe no coração. Fora, sem dúvida, um pecado atirar-se aos braços dele. Com essa inspiração que nos vem por vezes do alto, por fortuna ou por desgraça da nossa comum mediocridade, ela compreendia que fora para ele apenas uma escolha sincera e ardente da curiosidade e da compaixão... uma coisa passageira. Não o conhecia. Se ele a abandonasse, desaparecendo, não pronunciaria uma palavra de censura, não lhe guardaria rancor, pois havia de levar consigo a impressão de uma coisa extremamente rara e preciosa: os abraços dele tornados propriedade sua pelo denodo de lhe salvar a vida.

Tudo em que pensava — a essência dos seus tremores, das ondas de calor e dos arrepios de frio — era a maneira como havia de se apoderar daquela faca, objetivação e símbolo da morte rondadora. Agitava-lhe as mãos um tremor de impaciência por agarrar a terrível arma, entrevista uma única vez e inesquecível.

O instintivo avançar dessas mãos fez Ricardo estacar entre a porta e a cadeira em que ela estava sentada, com a pronta obediência de um homem conquistado e que pode aguardar tranquilamente a sua oportunidade. O feliz efeito do seu gesto desconcertou-a. Escutou os terríveis transportes elogiosos do homem e suas declarações de amor, ainda mais assustadoras. Pôde mesmo fitá-lo nos olhos, oblíquos e fugidios, a expelir selvagens faíscas de desejo,

— Não! — dizia ele, após o ardente jorro de palavras em que as mais ferozes frases de amor se mesclavam aos acentos de súplica de um namorado. — Não suporto mais isto! Não desconfies de mim. Sou moderado na minha linguagem. Vê como estão calmas as batidas do meu coração. Dez vezes julguei hoje, quando te via — a ti, a ti! — diante dos meus olhos, que ele me ia rebentar as costelas ou pular-me à garganta. Ele cansou-se de tanto bater à espera desta noite, deste mesmo minuto. E agora não pode mais. Vê como está sossegado!

Deu um passo à frente, porém ela ergueu a clara voz em tom de comando:

— Não chegue mais perto!

Ricardo parou com um sorriso de adoração imbecil nos lábios, com a obediência deleitada de quem podia a qualquer momento agarrá-la e atirá-la ao chão.

— Ah, se eu te houvesse segurado pelo pescoço esta manhã e feito o que queria contigo, nunca ficaria sabendo o quanto vales. Mas agora te conheço. És uma maravilha! E eu também, cá ao meu jeito. Tenho audácia, e tenho cabeça também. Nós nos teríamos perdido muitas vezes, se não fosse eu. Sou eu que faço os planos, sou eu que conspiro pelo meu chefe. Um cavalheiro... pf! Estou farto dele. E tu do teu, hein? Ah, tu, tu!

Tremia por todo o corpo. Arrulhou uma série de nomes carinhosos, ternos e obscenos. Terminou perguntando abruptamente:

— Por que não me falas?

— O meu papel é escutar — disse ela, dando-lhe um sorriso inescrutável, com um rubor nas faces e os lábios frios como gelo.

— Mas vais responder, não é?

— Sim.

— Os olhos de Lena dilataram-se como se ela tomasse interesse subitamente. Onde está essa presa? Sabes?

— Não! Ainda não.

— Mas há dinheiro escondido por aí, dinheiro que recompense o nosso trabalho?

— Sim, creio que há. Mas quem sabe? — ajuntou ela depois de uma pausa.

— E quem se importa com isso? — retrucou ele estouvadamente. — Estou farto de rastejar. Tu é que és o meu tesouro. Foi a ti que descobri, no lugar onde um cavalheiro te havia enterrado para apodreceres debaixo das suas malditas carícias!

Olhou para atrás e em torno de si procurando uma cadeira, depois voltou para ela os seus olhos perturbados e o seu sorriso apagado.

— Estou morto de cansaço — disse, sentando-se no chão. — Comecei a me sentir cansado esta manhã, desde que vim cá e me pus a conversar contigo... tão cansado como se tivesse derramado o meu sangue nestas tábuas para que tu molhasses nele os teus pezinhos brancos.

Impassível, Lena sacudiu a cabeça pensativa para ele. Todas as suas faculdades permaneciam femininamente concentradas no objeto do seu desejo — a faca — enquanto o homem continuava a balbuciar coisas loucas aos seus pés, adulador e selvagem, quase doido de júbilo. Mas ele também se mantinha firme no seu propósito.

— Por ti! oh, por ti desperdiçarei dinheiro e vidas... todas elas, menos a minha! Do que precisas é dum homem, de um amo que te deixe por-lhe o pé no pescoço, e não desse fujão que se cansaria de ti dentro de um ano, e tu dele. E depois? Tu não és de índole conformada; nem eu, tão pouco. Eu vivo para mim mesmo, e tu também viverás para ti, e não para um barão sueco. Eles se servem das pessoas da nossa espécie. Um cavalheiro é melhor do que um patrão, mas o que nós precisamos é de formar uma sociedade de camaradas, contra todos os hipócritas. Vamos correr o mundo inteiro, tu e eu, livres e sinceros os dois. Tu não és um pássaro de gaiola. Vamos correr aventura juntos, porque nós somos daqueles que não têm pátria! Nascemos errantes!

Ela o escutava com a máxima atenção, como se qualquer palavra inesperada pudesse dar-lhe um pretexto para se apoderar da terrível faca e desarmar o crime personificado, que estava ali aos seus pés suplicando amor. Tornou a sacudir a cabeça pensativamente, fazendo acender-se uma faísca naqueles olhos amarelos que, cheios de adoração, lhe devoravam o rosto. Quando ele se acercou um pouco mais, Lena não experimentou nenhum recuo íntimo. Tinha de ser assim. Aceitava tudo que contribuísse para por ao alcance da sua mão a faca daquele homem. Ele passou a falar em tom mais confidencial.

— Nós nos encontramos, e chegou a hora deles — principiou, mirando-a nos olhos. — Terei de liquidar a minha sociedade com o meu cavalheiro. Onde estamos nós dois, não há lugar para ele. Pois se ele me mataria como a um cão! Mas não te inquietes! Isto resolverá o assunto, e esta noite mesmo!

Bateu na perna dobrada, abaixo do joelho, e admirou-se, lisonjeado, ao ver o rosto dela iluminar-se e inclinar-se para ele, ávido e expectante, os lábios puerilmente entreabertos, rubros no rosto pálido e frementes sob a respiração acelerada.

— Ó maravilha, ó milagre, ó felicidade e alegria dum homem... uma mulher num milhão! Não, a única no mundo! Encontraste em mim o teu homem — murmurou em voz trêmula. — Escuta! Eles estão conversando pela última vez, porque eu darei cabo do teu cavalheiro também, por volta da meia-noite!

Logo que passou a sensação de constrição no peito e lhe foi possível falar, ela murmurou sem o menor tremor:

— Eu não teria tanta pressa... com ele.

A pausa e o tom, tudo isso tinha a aparência de um conselho bem meditado.

— Boa e atilada garota! — riu ele em voz baixa, com uma estranha alegria felina traduzida pelo movimento ondulatório dos seus ombros e pelos olhos oblíquos que pestanejavam cintilantes. — Ainda estás pensando nessa bolada. Hás de fazer uma boa parceira, ora se não! E que chamariz! Papagaio!

Abandonou-se um momento ao seu entusiasmo, mas não tardou a ensombrecer-se-lhe o rosto.

— Não! Nada de tréguas. Por quem é que tu me tomas, por um espantalho? Só chapéu e roupas e nenhum sentimento cá dentro, nenhum miolo para imaginar as coisas? Não! — prosseguiu com violência. — Nunca mais na vida entrará ele no teu quarto... nem uma vez mais!

Houve um silêncio. Ele ficara sombrio, atormentado pelo ciúme, e não olhava mais para ela. Lena aprumou-se na cadeira e devagar, pouco a pouco, foi-se inclinando cada vez mais para ele, como se estivesse pronta a cair-lhe nos braços. Ricardo ergueu os olhos afinal, pondo termo, sem o saber, a esse movimento descendente.

— Escuta! Tu, que tens coragem para lutar com um homem braço a braço, não poderias... hein?... não poderias espetar um com uma faca como a minha?

Ela arredondou muito os olhos e dirigiu-lhe um sorriso adoidado.

— Como poderei saber? — murmurou, numa voz enfeitiçadora. — Deixas que eu a veja?

Sem tirar os olhos do rosto dela Ricardo sacou a faca, uma lâmina de dois gumes, curta, larga e cruel, com cabo de osso. Só então baixou os olhos para a arma.

— Uma boa amiga. Pega-a e sente-lhe o peso — sugeriu.

No momento em que Lena se curvou para receber a faca das suas mãos — passou-lhe pelos olhos misteriosos uma centelha de fogo — um clarão vermelho na névoa branca que envolvia os impulsos e os anseios da sua alma. Conseguira! Tinha nas mãos o próprio ferrão da morte, o veneno da víbora no seu paraíso, extraído, inofensivo em seu poder... e a cabeça do réptil quase debaixo do seu calcanhar. . Ricardo, estendido sobre as esteiras do assoalho, — chegava-se de rastos cada vez mais perto da cadeira em que ela estava sentada.

Lena tinha todas as suas faculdades ocupadas em encontrar uma maneira de conservar em sua posse aquela arma que lhe parecia concentrar em si todos os perigos e ameaças desta terra submetida ao império da morte. Lena disse com um riso baixo, que ele não soube interpretar:

— Eu não julgava que você me confiaria isto!

— Por que não?

— De medo que eu o apunhalasse de repente.

— Por quê? Pelo que aconteceu esta manhã? Oh, não! Não me guardas rancor por isso. Já me perdoaste. Tu me salvaste, e também me venceste. E, de qualquer modo, para que serviria isso?

— E mesmo, para nada — respondeu ela.

Sentia no seu íntimo que não saberia como fazê-lo, e, se houvesse luta, deixaria cair a adaga e lutaria com as suas mãos.

— Escuta. Quando nós andarmos juntos pelo mundo, tu me chamarás sempre de marido. Estás ouvindo?

— Sim — disse ela, cobrando vigor para o encontro, sob qualquer forma que se apresentasse.

A faca jazia no seu regaço. Deixou-a entre as dobras do vestido e pousou os braços, com os dedos entrelaçados, sobre os joelhos, que apertava desesperadamente um contra o outro. Escondera afinal o terrível objeto. Sentiu todo o corpo molhado de suor.

— Eu não vou te esconder como esse cavalheiro é inútil, pernóstico e escarninho. Serás a minha companheira e o meu orgulho. Isso não é melhor do que ficar apodrecendo numa ilha para gozo de um cavalheiro até que ele te dê fora?

— Serei tudo que quiser — disse ela.

Na sua embriaguez ele se aproximava mais e mais a cada palavra que ela pronunciava, a cada movimento que ela fazia.

— Me dê seu pé — suplicou num murmúrio tímido, com plena consciência do seu poder.

Qualquer coisa! Qualquer coisa para conservar a morte inativa e desarmada, enquanto lhe voltava a força aos membros e até que ela pudesse resolver o que faria. A própria facilidade do seu sucesso lhe abalara a fortaleza. Avançou um pouco o pé sob a fimbria da saia, e o homem atirou-se a ele, sofregamente. Lena não o percebeu sequer. Lembrara-se da floresta, para onde lhe tinham dito que fugisse. Sim, a floresta: para lá devia levar a terrível presa, o ferrão da morte vencida. Segurando-lhe os tornozelos, Ricardo comprimiu vezes e mais vezes os lábios contra o peito do seu pé, murmurando palavras anelantes que semelhavam soluços, emitindo pequenos ruídos que pareciam sons de pesar e aflição. Sem que nenhum dos dois o ouvisse, o trovão rosnava ao longe com modulações coléricas da sua voz formidável, enquanto o mundo, lá fora, estremecia sem cessar em volta da grande quietude da sala, onde o perfil emoldurado do pai de Heyst tinha os olhos severamente fitos no espaço.

Súbito, Ricardo sentiu-se repelido pelo pé que ele cobria de beijos, repelido com um golpe tão violento no côncavo da sua garganta que o fez aprumar-se imediatamente sobre os joelhos. Leu a ameaça no olhar petrificado da moça, e no próprio momento de saltar em pé ouviu, destacando-se entre as vozes ameaçadoras da tempestade, o breve estampido de um tiro que o deixou meio atordoado, à maneira de uma pancada. Voltou a cabeça, que lhe ardia, e viu Heyst de pé na abertura da porta. Perpassou-lhe o espírito a ideia de que o desgraçado começara a “armar baderna”. Durante uma fracção de segundo os seus olhos aflitos procuraram a arma por todo o assoalho. Não a encontrou.

— Espete-o você! — gritou em voz rouca à moça, arremessando-se para a porta dos fundos.

Enquanto obedecia deste modo ao instinto de conservação, a razão lhe dizia que não poderia alcançar a porta com vida. A porta, todavia, abriu-se com estrondo sob o seu furioso embate, e imediatamente ele a fechou atrás de si. Ali, com os ombros encostados a ela, agarrado com ambas as mãos ao trinco, atordoado e só na noite cheia de estremecimentos e de rosnidos ameaçadores, tentou recobrar o domínio de si mesmo. Perguntava consigo se lhe teriam atirado mais de uma vez. Tinha o pescoço úmido do sangue que lhe escorria da cabeça. Apalpando por cima da orelha, certificou-se de que era uma ferida superficial, mas o choque da surpresa o desfibrara momentaneamente.

Que diabo estava fazendo o patrão, para deixar aquele desgraçado assim à solta? Ou... estaria o patrão morto, por acaso?

O silêncio da gala impressionava-o. Não podia pensar em voltar.

— Mas ela sabe se cuidar — murmurou.

A mulher ficara com a sua faca. Era ela agora que tinha a morte nas mãos, enquanto ele se achava desarmado, imprestável de momento. Afastou-se furtivamente da porta, com o regatinho tépido a escorrer-lhe pelo pescoço, para averiguar o que acontecera ao patrão e munir-se de uma arma de fogo no arsenal das malas.