Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 32 de 40

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Vitória

Capítulo VI

Quis a sorte que Ricardo estivesse tomando ar, sozinho, na varanda da antiga contadoria. Farejou logo uma novidade e desceu a escuda correndo para ir ao encontro daquela figura de urso que se aproximava a trote. Os grunhidos profundos que lançava, embora tivessem apenas uma remota semelhança com a língua espanhola, ou mesmo com qualquer linguagem humana, eram, pela longa prática, perfeitamente inteligíveis ao secretário de Mr. Jones. Ricardo estava um tanto surpreendido. Imaginara que a mulher se conservaria oculta às vistas. Tinham, ao que parecia, aberto mão dessa política. Não suspeitava dela. Como poderia suspeitar? Considerava-a com serenidade.

Procurava afastar do espírito a imagem dela, afim de poder utilizar suas faculdades com um pouco dessa calma que requeria a natureza complexa da situação, tanto em seu interesse pessoal como na qualidade de fiel acompanhador de Mr. Jones, cavalheiro.

Concentrou as ideias. Era uma mudança de tática, obra talvez de Heyst. Sendo assim, que poderia significar? O sujeito tinha voltas! Ou então seria inspiração dela, e neste caso... hum! muito bem! Com certeza era. Ela havia de saber o que estava fazendo.

Diante dele, Pedro balançava o corpo para os lados, erguendo os pés alternativamente — sua atitude habitual de expectação. Os olhinhos vermelhos, perdidos entre o pelame da cara, estavam imóveis. Ricardo fitou-os com desprezo estudado e disse numa voz áspera e colérica:

— Mulher! Está claro que há uma mulher. Não precisamos de ti para saber disso!

Deu um empurrão ao monstro.

— Vamos, toca! Mexe-te! Vai preparar o jantar! Para que lado foram eles, hein?

Pedro indicou a direção estendendo o enorme braço peludo, e foi-se com as suas pernas tortas. Ricardo avançou alguns passos e pôde ainda enxergar, por cima duns arbustos, dois capacetes brancos que se moviam lado a lado na clareira. Desapareceram. Agora que lograra impedir Pedro de informar o patrão da existência de uma mulher na ilha, podia entregar-se a cogitações sobre os movimentos daqueles, dois. Sua atitude perante Mr. Jones passara por uma modificação de que ele próprio ainda não tinha plena consciência.

Nessa manhã, antes do almoço e após a sua fuga do bangalô de Heyst, completada de tão inspiradora maneira pela reconquista do chinelo, Ricardo dirigira-se para a casa em que estavam alojados, a cambalear enquanto corria, com a cabeça dando voltas. Ia extremamente agitado com visões promissoras e extraordinárias. Parou para se dar compostura antes de fazer face ao patrão. Ao entrar no quarto encontrou Mr. Jones sentado na cama de campanha, qual um alfaiate na sua esteira, com as pernas cruzadas e o longo dorso encostado à parede,

— Olhe, meu chefe! O senhor não vai me dizer agora que está enfastiado, hein?

Enfastiado? Não! Onde diabo esteve você todo este tempo?

— Observando... vigiando... farejando. Que mais podia ser? Sabia que o senhor tinha companhia. Conversou bastante, patrão?

— Conversei sim — grunhiu Mr. Jones.

— Mas não mostrou as castas, patrão?

— Não. Desejei que você estivesse aqui. Você passa toda a manha vadiando por aí e volta para cá esbaforido. Que foi que aconteceu?

— Não andei perdendo o meu tempo — disse Ricardo,

Não aconteceu nada. Talvez... talvez me tenha apressado um pouco.

Ainda estava arquejante, com efeito. Apenas, não era a corrida que o deixava assim, mas o tumulto de pensamentos e sensações longo tempo reprimidos, e que a aventura da manhã tinha libertado. Já se iam tornando quase uma angústia. Ricardo esquecia-se de si mesmo num labirinto de possibilidades, ameaçadoras umas, inspiradoras outras.

— Então conversaram muito? — perguntou de novo, para ganhar tempo.

— Vá para o diabo! Será que o sol lhe torrou os miolos? Por que me encara você como um basilisco?

— Perdão, meu senhor. Não sabia que o estava encarando — desculpou-se Ricardo de bom humor. — Este sol bem pode atravessar um crânio mais grosso do que o meu. É um braseiro. Puxa! Por quem é que o senhor me toma... por uma salamandra?

— Você devia ter ficado aqui.

— O animal deu sinais de querer encrencar? — indagou Ricardo rapidamente, com uma candura autêntica. — Isso não nos conviria, patrão. O senhor deve tratá-lo com macieza, ao menos por um ou dois dias. Tenho um plano. Palpita-me que descobrirei muita coisa nesses dois dias.

— Realmente? De que maneira?

— Ora... observando — respondeu Ricardo devagar.

Mr. Jones soltou um grunhido.

— Isso não é nenhuma novidade. Observando, hein? Por que não reza um pouco, também?

— Ah, ah, ah,! Esta é boa! —exclamou Ricardo, considerando Mr. Jones com um olhar sério.

O patrão abandonou o assunto, com indolência.

— Sim, você tem pelo menos um ou dois dias garantidos.

Ricardo recobrou a tranquilidade. Seus olhos luziam voluptuosamente.

— Ainda havemos de dar solução a isto, e com limpeza, sem dificuldades, se o senhor tiver confiança em mim.

— Estou confiando em você, não há dúvida — disse Mr. Jones. — Aliás, o interesse também é seu.

E, efetivamente, a afirmação de Ricardo era assaz verídica. Tinha, agora, fé absoluta no sucesso. Mas não podia dizer ao seu chefe que arranjara cúmplices no campo inimigo. Falar-lhe na mulher seria desastroso. Só o diabo sabia o que faria Mr. Jones se tivesse notícia da existência de uma mulher na ilha. E como poderia começar a informá-lo? Não havia jeito de lhe confessar o seu recente atentado.

— Havemos de levar isto a cabo, patrão — disse ele com uma alegria perfeitamente simulada. Sentia crescer no seu coração uns ímpetos de júbilo terrível, ardentes como chamas atiçadas.

— Temos de fazê-lo — concluiu Mr. Jones. — Esta, Ricardo, não é igual às nossas outras tentativas. Considero-a com um sentimento especial. É uma coisa diferente, uma espécie de prova das nossas capacidades.

As maneiras do patrão impressionaram Ricardo. Era a primeira vez que se podia descobrir nele um sinal de paixão. Também a palavra “prova” se afigurou ao secretário, não sabia bem por que, particularmente significativa. Foi a última palavra pronunciada entre os dois naquela manhã. Logo depois Ricardo saiu para fora. Era impossível ficar parado. Não lhe permitia um sentimento de euforia, em que uma doçura extraordinária se mesclava a um feroz triunfo. Esse sentimento também não o deixava pensar. Esteve até a tarde caminhando de um lado para outro na varanda, e olhando para o bangalô a cada volta que dava. A casa parecia desabitada. Uma ou duas vezes ele estacou para considerar o seu chinelo esquerdo. Em cada uma dessas ocasiões teve um riso gutural e bem audível. Seu desassossego foi crescendo, até que chegou a lhe fazer medo. Segurou o parapeito da varanda e imobilizou-se, sorrindo não aos seus pensamentos, más por causa da intensa sensação de vida que lhe estuava no interior. Abandonava-se a essa sensação descuidosamente, com temeridade mesmo. Pouco lhe importavam os outros, amigos ou inimigos. Nesse momento Mr. Jones chamou-o pelo nome, lá dentro. Uma sombra toldou a fisionomia do secretário.

— Já vai, patrão — respondeu. Mas levou ainda um momento para se decidir a entrar.

Encontrou o patrão em pé. Mr. Jones estava cansado da cama, e não havia necessidade de permanecer deitado. A figura esguia, que deslizava pelo quarto, parou.

— Estive pensando numa coisa que você me sugeriu, Martin. Na ocasião o alvitre não me pareceu prático, mas refletindo bem parece-me que propor uma partida de cartas é uma maneira tão boa como outra qualquer de dar a entender a ele que chegou a hora de desembuchar. É menos... como direi?... menos vulgar. Ele me entenderá. Dá-se assim uma boa aparência ao negócio... que em si mesmo é brutal, Martin, brutal.

— Quer poupar-lhe os sentimentos? — escarneceu o secretário, em tom tão acre que Mr. Jones ficou realmente surpreendido.

— Como, se a ideia foi sua mesmo, que demônio!

— Eu não digo o contrário — retrucou Ricardo, de mau modo. — Mas já estou farto de andar de rastos. Não! Não! Descubramos onde está a presa e passemos a faca no sujeito. Não merece mais que isso.

Com as suas paixões assim despertadas, uma sede de sangue aliara-se nele à sede de ternura... sim, de ternura! Uma espécie de sensação ansiosa e dissolvente lhe invadia o coração e o amolecia, ao pensamento daquela mulher — uma mulher da sua classe. Ao mesmo tempo, o ciúme começara a roer-lhe as entranhas com a intrusão da imagem de Heyst no seu antegozo ardente da felicidade.

— A sua ferocidade é positivamente revoltante, Martin — disse Mr. Jones, com desdém. — Você nem sequer compreende a minha intenção. Quero divertir-me um pouco com ele. Faça ideia da atmosfera em que se desenrolará à partida... O sujeito com as cartas na mão... que mortal ironia! Oh, eu hei de apreciar isso imensamente. Sim, que ele perca o seu dinheiro em lugar de ser forçado a entregá-lo. Você, naturalmente, preferiria matá-lo logo, mas eu quero gozar essa pilhéria refinada. Como ele vai ficar enfurecido e humilhado! Estou prometendo a mim mesmo alguns momentos deliciosos, que passarei a observá-lo enquanto jogar.

— Sim, mas suponha que ele comece de repente a armar baralho! Não há de gostar da brincadeira.

— Quero que você esteja presente — observou Mr. Jones em tom calmo.

— Bem, desde que eu tenha permissão de saqueá-lo e de estripá-lo quando julgar chegada a hora, desejo-lhe bom proveito do seu pequeno divertimento, meu senhor. Eu não o estragarei.