Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 18 de 40

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Vitória

Capítulo II

Durante a estada do patrão em Surabaya, Wang ocupara-se do terreno fronteiro ao bangalô principal. Ao sair da orla de macegas que cresciam junto à base do pier, Heyst avistou um espaço amplo e limpo, plano e escuro, onde tinham ficado apenas um ou dois restolhos chamuscados. O fogo consumira tudo desde a frente da casa até as primeiras arvores da floresta.

— Você assumiu o risco de atear fogo às ervas? — perguntou Heyst.

Wang meneou a cabeça afirmativamente. Pelo braço do homem lhe estava à frente vinha a moça chamada Alma; mas nem pelo olhar do chinês, nem pela sua expressão, se poderia adivinhar que ele tinha conhecimento deste fato.

— Ele esteve aformoseando isto aqui, e empregou o método mais prático — explicou Heyst sem olhar para a moça, cuja mão lhe descansava no antebraço. — Este chinês constitui todo o pessoal do estabelecimento, como vê. Eu lhe disse que não tinha nem um cão para me fazer companhia.

Wang afastara-se na direção do pier.

— É como os garçons daquela casa — disse ela. “Aquela casa” era o hotel de Schomberg.

— Os chineses se parecem muito uns com os outros — observou Heyst, — Ele nos será útil. Esta é a casa.

Defrontavam-se-lhes, a certa distância, os seis degraus baixos que conduziam à varanda. A moça soltou o braço de Heyst.

— Esta é a casa — repetiu ele.

Sem se mover de junto do companheiro, ela olhou fixamente para a escada, como se esta fosse uma escada nunca vista, impraticável. Heyst esperou alguns instantes, mas a moça ficou imóvel.

— Não quer entrar? — perguntou ele, sem voltar a cabeça para olhá-la. — O sol está muito forte para ficar aqui. — Tratou de vencer uma espécie de medo, de fraqueza impaciente que o assaltara, e a sua voz se fez áspera. — Seria melhor entrar —: concluiu.

Ambos se moveram então, mas ao pé dos degraus Heyst parou, enquanto a moça subia rapidamente, como se nada, agora, pudesse detê-la. Atravessou lesta a varanda, penetrou na penumbra da grande peça central, e daí para a penumbra mais densa da peça que ficava além. Parou naquela semiobscuridade em que seus olhos mal podiam distinguir a forma dos objetos, e soltou um suspiro de alívio. A impressão do sol, do mar e do céu prolongava-se no seu espírito como a lembrança de uma dolorosa provação por que passara e — que vencera afinal!

Nesse meio tempo Heyst voltara devagar na direção do pier. Mas não foi até lá. O prático, o automático Wang apossara-se de um dos vagonetes que outrora se usavam para transportar cestos de carvão ao longo dos navios ancorados junto ao pier. Surgiu empurrando-o diante de si, carregado com a mala leve de Heyst e a trouxa que continha os pertences da moça, envoltos no chale da sra. Schomberg. Heyst deu meia volta e seguiu o chinês, caminhando ao lado dos trilhos enferrujados em que o corria o vagonete. Wang fez alto em frente da casa, ergueu a mala no ombro, equilibrou-a cuidadosamente e depois apanhou a trouxa.

— Deixe essas coisas na mesa da sala grande... entendeu?

— Mim sabe — grunhiu Wang, encaminhando-se para o bangalô.

Heyst viu-o desaparecer da varanda. Só depois de tornar Wang a sair foi que ele entrou na penumbra da sala grande. Já então Wang se achava nos fundos da casa, fora do alcance da vista mas não do ouvido. O chinês distinguiu a voz, daquele que, quando havia muita gente na ilha, era em geral mencionado como o “Número Um”. Wang não podia entender as palavras, mas interessou-lhe o tom em que foram ditas.

— Onde está você? — chamou o Número Um.

Então Wang ouviu, muito mais fraca, uma voz que nunca tinha ouvido antes — uma impressão nova, que ele registou inclinando a cabeça levemente para um lado.

— Estou aqui... na sombra.

A nova voz soava remota e incerta. Wang nada mais ouviu, conquanto esperasse algum tempo, muito quieto, com o cocoruto da cabeça raspada ao nível da varanda dos fundos. Enquanto isto o seu rosto mantinha uma imobilidade inescrutável. De súbito ele se abaixou para apanhar a tampa de uma caixa de pinho para velas, que jazia no chão aos seus pés. Rachando-a com os dedos, dirigiu-se para o barracão que servia de cozinha. Acocorou-se ali e começou a fazer fogo debaixo de uma chaleira coberta de fuligem, provavelmente com o fim de preparar chá. Wang tinha algum conhecimento dos ritos e cerimônias mais superficiais da existência do homem branco, em tudo mais estranhos e enigmáticos ao seu espírito, e contendo inesperadas possibilidades de bem ou de mal que era preciso observar com cuidado e prudência.