Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 5 de 40

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Vitória

Capítulo IV

Alguns de nós, dos que estávamos bastante interessados, fomos pedir pormenores a Davidson. Não eram muitos. Disse-nos ele que tinha costeado propositalmente o norte de Samburan, pois queria ver o que se passava ali. A princípio lhe pareceu que aquela parte da ilha fora completamente abandonada. Era o que ele esperava. Dali a pouco, por cima da densa massa de vegetação que Samburan apresenta à vista, divisou a ponta de um mastro sem bandeira. Depois, ao atravessar a ligeira enseada que fora oficialmente conhecida como a Baía do Diamante Negro, avistou pela luneta a figura branca no pier do carvão. Só podia ser Heyst.

— Fiquei certo de que ele queria ser embarcado, de sorte que entrei com o vapor. Ele não fez sinal nenhum. Contudo, arreei um escaler. Não pude ver outro ser vivo em parte alguma. Sim, Heyst tinha um livro na mão. Estava exatamente como sempre o vimos: muito limpo, sapatos brancos, capacete de cortiça. Explicou-me que sempre gostara da solidão. Era a primeira vez que ouvia isso, disse-lhe eu. Limitou-se a sorrir. Que mais podia eu dizer? Ele não é um homem com quem se possa conversar familiarmente. Tem um certo modo... A gente não se atreve.

“— Mas com que fim? Você pretende ficar de dono da mina? — perguntei-lhe.

“— Mais ou menos — responde ele. — Estou de guarda.

“— Mas tudo isto está mais morto que Júlio César — digo. — De fato, você não tem mais nada que guardar, Heyst.

“— Oh, eu briguei com os fatos — diz ele levando bruscamente a mão ao capacete com uma daquelas suas breves mesuras”.

Assim despedido, Davidson voltou para bordo e fez-se ao mar. Enquanto se afastava observou, da coberta, Heyst que caminhava para a praia ao longo do pier. Penetrou nas ervas altas e sumiu-se — menos a copa do capacete de cortiça, que parecia boiar num mar verde. Depois também Isso desapareceu, como se se tivesse afundado nos sorvedouros vivos da vegetação tropical, que é mais ciosa das conquistas humanas que o próprio oceano, e que se ia cerrando sobre os Últimos vestígios da Companhia de Carvão da Zona Tropical — A. Heyst, administrador no Oriente.

Davidson, um homem bom e simples à sua maneira, ficou singularmente comovido. Deve ser notado que ele sabia muito pouco de Heyst. Era um daqueles a quem mais fortemente desconcertava a perfeita cortesia de atitude e intonação de Heyst. Ele também era um homem de sentimentos finos, suponho, embora, naturalmente, não tivesse mais polidez que o resto de nós. Éramos uma gente de trato fácil, com padrões todos nossos — não piores, ouso dizer, que os dos outros; mas a polidez não era um deles. À delicadeza de Davidson foi bastante ativa para alterar a rota do vapor que ele comandava. Em vez de passar pelo sul de Samburan, criou o hábito de usar a passagem da costa norte, a uma milha do pier.

— Pode nos ver se quiser — disse Davidson. E, em segunda reflexão: — Escutem, ele não considerará isso uma intrusão?

Nós o tranquilizamos sobre este ponto de pragmática. O mar era aberto a todos.

O pequeno desvio alongava mais ou menos em dez milhas a viagem circular de Davidson, mas como o trajeto media seiscentas milhas isso não fazia grande diferença.

— Já comuniquei ao meu armador — disse o consciencioso comandante do Sissie.

O seu armador tinha uma cara de limão murcho. Era baixinho e encarquilhado — circunstancia estranha, pois em geral os chineses, à medida que vão prosperando, crescem em largura e altura. Trabalhar para uma firma chinesa não é tão mau. Uma vez convencidos da honradez de um empregado, a sua confiança não tem limites. Nada do que se faz está mal. De sorte que o velho chinês de Davidson grasnou apressadamente:

— Muito bem, muito bem, muito bem. Faça o que quiser, capitão.

E o assunto ficou resolvido; não de todo, entretanto. De quando em quando o chinês perguntava pelo homem branco. Ainda estava lá, hein?

— Nunca o vejo — tinha Davidson de confessar ao seu armador, que o considerava silenciosamente através dos óculos redondos, com aros de chifre, muitíssimo grandes para a sua carinha de velho. — Nunca o vejo.

A. mim dizia ocasionalmente:

— Não tenho dúvida de que ele está lá. Escondido. Isso é muito desagradável. — Davidson estava um tanto vexado com Heyst. — É esquisito, de todas as pessoas com quem falo ninguém pergunta por ele, a não ser esse meu chinês... e Schomberg — acrescentava depois de um momento.

Sim, Schomberg, naturalmente. Interrogava toda a gente sobre todas as coisas, para depois dar à informação o caráter mas escandaloso que a sua imaginação podia conceber. De tempos em tempos abeirava-se da gente, porejando malícia pelos olhos empapuçados e pestanejantes, pelos grossos beiços, até pela barba castanha.

Boa noite, senhores. Não lhes falta nada? So! Muito bem! Pois me dizem que o mato na Baía do Diamante Negro sufocou até os barracões. É fato. Ele é agora um ermitão em plena selva. Mas que será que esse administrador arranja para comer lá? Não posso entender.

Às vezes um desconhecido perguntava, com natural curiosidade:

— Quem? Que administrador?

— Oh, um tal sueco respondia Schomberg com a ênfase sinistra de quem dissesse “um tal bandido”. — Muito conhecido por aqui. Fez-se ermitão por vergonha. É o que faz o diabo quando o desmascaram.

Ermitão. Era este o último dos rótulos mais ou menos espirituosos aplicados a Heyst durante as suas peregrinações sem rumo nessa seção da zona tropical, onde o inane farfalhar da língua de Schomberg nos molestava o ouvido.

Mas Heyst não parecia ser um anacoreta por temperamento. A vista do seu semelhante não lhe era invencivelmente odiosa. Assim devemos pensar, já que, por esta ou aquela razão, ele deixou o seu retiro durante algum tempo. Talvez fosse apenas para procurar as suas cartas na casa Tesman. Não sei. Ninguém sabe. Mas esta reaparição mostra que o seu afastamento do mundo não era completo. E toda atitude incompleta traz consigo perturbações. Axel Heyst não se devia ter preocupado com as cartas — ou o que quer que o fez voltar após um ano e meio de residência em Samburan. Mas era inútil. Ele não tinha vocação para eremita! Era este, ao que parece, o seu mal.

Seja como for, tornou subitamente a aparecer no mundo, peito amplo, fronte escalvada, longos bigodes, maneiras polidas e tudo — o Heyst completo, até os olhos bondosos e sumidos em que pairava ainda a sombra da morte de Morrison. Naturalmente, fora Davidson que o trouxera da sua ilha esquecida. Não havia outro meio de sair de lá, salvo algum barco indígena que passasse, uma probabilidade muito remota e insatisfatória para ser aguardada. Sim, veio com Davidson, a quem declarou espontaneamente que era apenas por pouco tempo — alguns dias, nada mais. Tencionava voltar para Samburan.

Como Davidson exprimisse o seu horror e incredulidade em face de semelhante loucura, Heyst explicou-lhe que ao ser formada a companhia mandara vir da Europa os seus poucos pertences.

Para Davidson, como para qualquer de nós, a ideia de Heyst, o errante, o desprendido Heyst, possuir coisas com que guarnecer uma casa era surpreendentemente nova, parecia uma fantasia grotesca. Como um pássaro que fosse proprietário de bens de raiz.

— Pertences? Você quer dizer mesas, cadeiras? — perguntou Davidson, sem dissimular o assombro.

Era isto que Heyst queria dizer.

— O meu pobre pai morreu em Londres. Ficou tudo guardado — explicou.

— Todos esses anos? — exclamou Davidson, pensando no tempo que todos nós víamos Heyst esvoaçar de árvore para árvore naquela selva.

— Ainda mais — respondeu Heyst, que compreendera muito bem.

— Isto parecia implicar que ele andara vagueando já antes de o conhecermos. Por que regiões? Desde quando? Mistério! Talvez o pássaro nunca houvesse possuído um ninho.

— Saí cedo da escola — observou ele uma ocasião a Davidson, durante a viagem. — Era na Inglaterra. Uma escola excelente. Não fui um aluno brilhante.

Tais eram as confissões de Heyst. Nem um de nós (provavelmente com exceção de Morrison, que estava morto) jamais soubera tanta coisa sobre a sua vida. Quer parecer que a existência de eremita tem o dom de soltar a língua à gente, não é mesmo?

Durante aquela memorável travessia do Sissie, que durou uns dois dias, ele fez espontaneamente outras alusões — pois não se lhes poderia chamar informações — à sua vida. E Davidson interessou-se, não porque os pormenores fossem emocionantes, mas devido à curiosidade inata pelo próximo, que é um dos traços da natureza humana. Também a existência de Davidson, levando e trazendo o Sissie através do Mar de Java, era bem monótona e, em certo sentido, solitária. Jamais tinha a bordo qualquer espécie de companhia. Passageiros indígenas de coberta, naturalmente, havia de sobra; mas nunca um homem branco. Assim, a presença de Heyst durante aqueles dois dias deve ter sido um presente do céu. Davidson contou-nos depois tudo que soubera. Heyst lhe disse que seu pai tinha escrito muitos livros. Era um filósofo.

— Parece-me que ele era também um tanto excêntrico — comentava Davidson. — Pelo jeito, tinha brigado com a sua gente na Suécia. Exatamente como se esperava que fosse O pai de Heyst. Ele mesmo não é um pouco excêntrico? Disse-me que assim que o pai morreu atirou-se ao mundo por sua conta, e andou por aí tudo até topar com esse famoso negócio do carvão. É bem o filho de tal pai, não é verdade?

No mais, Heyst foi cortês como sempre. Quis pagar a passagem, mas como Davidson recusasse terminantemente, deu-lhe um cordial aperto de mão, fez uma daquelas suas reverências palacianas e declarou-se comovido com o amistoso procedimento do capitão.

— Não me refiro a essa ninharia que você não quer aceitar — acrescentou dando uma sacudidela à mão de Davidson. — O que me toca é a sua humanidade. — Outra sacudidela. — Creia-me, eu tenho profunda consciência das suas atenções. — Sacudidela final. Tudo isto significava que Heyst dera a justa interpretação ao aparecimento periódico do Sissie à vista do seu eremitério.

— Ele é um genuíno cavalheiro — nos disse Davidson. — Fiquei triste às deveras quando desembarcou.

Perguntamos-lhe onde tinha deixado Heyst.

— Ora, em Surabaya. Onde podia ser?

Os Tesman tinham o seu escritório principal em Surabaya. Havia de longa data uma ligação entre Heyst e eles. Essa incongruência de um cenobita com procuradores não nos surpreendia, nem sequer o absurdo de um proscrito esquecido, administrador de uma companhia arruinada, morta e desaparecida, ter negócios a tratar. Ao falar em Surabaya tínhamos por certo, naturalmente, que ele se hospedaria em casa de um dos Tesman. Um de nós até desejou saber que espécie de acolhimento lhe dariam, pois era sabido que Julius Tesman guardava um ressentimento excessivo pelo fiasco da Companhia de Carvão da Zona Tropical. Mas Davidson esclareceu-nos. Não era nada disso. Heyst fora para o hotel de Schomberg, desembarcando na própria lancha do hotel. Não que Schomberg se dignasse de mandar a sua lancha para recolher passageiros de um simples mercante como o Sissie. Mas a embarcação fora encontrar um paquete de cabotagem, e tinha sido chamada. Era Schomberg em pessoa quem ia ao leme.

— Queria que vissem os olhos arregalados de Schomberg quando Heyst lhe saltou na lancha com a sua velha mala! — disse Davidson. — Fingiu que não o conhecia... pelo menos no princípio. Eu não fui com eles. Não ficamos no porto mais que um par de horas. Descarregamos dois mil cocos e zarpamos. Combinei de ir buscá-lo na minha próxima viagem, dentro de vinte dias.