Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 28 de 40

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Vitória

Capítulo II

O relógio de parede, que outrora media as horas de meditação filosófica, não podia ter percorrido mais de cinco minutos depois disso quando Wang se materializou dentro da sala de jantar. O que o trazia ali era o zelo pelo almoço já atrasado, mas os seus olhos se fixaram logo sobre a cortina imóvel. Era atrás dela que tinha localizado os estranhos rumores de luta que enchiam a sala vazia. Os olhos oblíquos da sua raça não podiam arredondar-se de espanto; mas ficaram parados completamente parados, e a apreensão distendeu imediatamente o seu rosto amarelo e impassível, sob o intenso esforço de temerosa atenção. Impulsos contraditórios combatiam-se no seu corpo, plantado na esteira. Foi mesmo ao ponto de estender a mão para a cortina mas, embora não lhe pudesse tocar, não deu o necessário passo à frente.

Prosseguia a luta misteriosa, com ruídos confusos de pês nus no assoalho, num pugilato mudo, sem que nenhum som humano, gemido, murmúrio, bufido ou exclamação, atravessasse a cortina. Uma cadeira tombou, sem grande bulha, como se apenas lhe tivessem roçado, e logo depois se ouviu leve tinido metálico da banheira de latão. Afinal, o silêncio palpitante, como de dois adversários travados num mortal corpo a corpo, terminou pelo baque surdo e pesado de um corpo macio jogado contra a repartição interna de tábuas. Pareceu abalar todo o bangalô. Já então, caminhando de costas, a garganta constrita, os olhos cheios de excitação e medo, o braço estendido ainda a apontar para a cortina, Wang desaparecera pela porta dos fundos. Uma vez lá fora, deu volta correndo ao cunhal da casa e surdiu inocentemente entre os dois bangalôs. Ali se deixou ficar, vagueando desocupado pela clareira, à visita de quem quer que saísse de uma das duas casas: um chinês a espairecer por ali, muito senhor de si, não levando na mente, talvez, nada mais que um almoço por servir.

Foi nessa hora que Wang resolveu cortar todos os laços que o uniam ao Número Um, um homem não só desarmado mas já meio vencido. Até aquela manhã tivera dúvidas quanto a essa decisão, mas a luta que acabava de ouvir terminara com as suas hesitações. O Número Um era um homem perdido, uma dessas criaturas a quem é nefasto socorrer. Enquanto caminhava pela clareira com ar indiferente, Wang admirava-se de não ouvir som algum no interior da casa. Era bem possível que a mulher branca tivesse estado a lutar lá dentro com um espírito mau, que naturalmente acabara por matá-la. Nenhuma coisa visível saía da casa, que ele observava com o canto dos olhos oblíquos. Ali fora, reinavam imperturbados o sol e o silêncio.

Mas dentro da casa, o silêncio da grande sala não pareceria perfeito a um ouvido aguçado. Cortava-o um sussurro vindo de trás da cortina, tão fraco que mal se lhe poderia chamar o fantasma de um cochicho.

Apalpando a garganta com cuidado e carinho, Ricardo murmurou em tom de admiração:

— Você tem dedos de aço. Papagaio! Tem força como um gigante!

Felizmente para Lena, estava enrolando as duas grossas tranças em volta da cabeça por ocasião do repentino assalto de Ricardo, e não tivera tempo de baixar os braços. Esta circunstância, que os livrou de ser imprensados contra os flancos, lhe deu maior facilidade para resistir. O ímpeto do homem quase a fizera tombar. Também por sorte sua, achava-se tão perto da parede que, embora fosse jogada contra esta, o choque não foi assaz forte para lhe tirar todo o fôlego. Auxiliou, pelo contrário, seu primeiro esforço instintivo para rechaçar o assaltante.

Após o primeiro sobressalto de surpresa, muito violento para que ela pudesse gritar, não duvidou um só instante da natureza do perigo. Defendeu-se com plena e nítida consciência, animada pela força do instinto que é a verdadeira fonte de toda grande demonstração de energia, e com uma resolução que mal se teria esperado de uma mulher que, encostada à parede num corredor sombrio pelo rubicundo e balbuciante Schomberg, tremera de vergonha, repugnância e medo; que se acovardara, aterrada, diante de meras palavras odiosamente babujadas por um homem que nunca lhe pusera a pata no corpo.

O assalto deste novo inimigo era um ato de violência simples e direto, e não aquela conspiração sorrateira e viscosa para escravizá-la, que a enchera de asco e, na sua solidão, lhe fizera sentir a incapacidade de lutar contra os seus opressores. Não se achava mais só no mundo. Resistiu sem um segundo de vacilação, porque já não lhe faltava apoio moral, porque era um ser humano que representava alguma coisa, porque já não se defendia apenas por amor a si mesma, e também por causa da fé que nela despontara — a fé no homem que o destino lhe deparara, ou talvez no céu que de tão maravilhosa maneira o tinha posto no seu caminho.

O seu modo de defesa consistiu principalmente em apertar com força desesperada e mortal a garganta de Ricardo, até que sentiu afrouxar de súbito o terrível abraço em que, estúpida e ineficazmente, ele tentava prendê-la. Vendo isso, Lena, com um esforço supremo dos braços e do joelho erguido, arrojou-o contra o tabique. Como o cofre de cedro lhe ficava atrás, Ricardo, com um baque que ressoou cavamente por todo o bangalô, caiu sentado em cima dele, meio estrangulado e exausto, não tanto pelo esforço como pelas emoções da luta.

Ela também titubeou sob a reação do esforço empregado, cambaleou para trás e sentou-se na beira da cama. Sem fôlego, mas calma e imperturbada, pôs-se a reajustar sob os braços o sarong de Celebes, estampado em cores parda e amarela, e cuja ponta se desprendera durante a luta. Depois, cruzando com força os braços sobre o peito, inclinou o tronco para a frente sobre as pernas cruzadas, resoluta e destemida.

Ricardo, também curvado para a frente, despojado da sua força nervosa, descoroçoado como um animal de presa que errou o salto, fazia face aos grandes olhos cinzentos dela que o consideravam, bem abertos, observadores, misteriosos sob os arcos escuros de suas impávidas sobrancelhas. Entre os rostos de ambos não mediavam nem trinta centímetros. Ele cessou de apalpar a garganta dolorida e deixou as palmas das mãos cair pesadamente sobre os joelhos. Não era para os ombros nus da mulher, nem para os seus robustos braços, que olhava: olhava para o chão. Tinha perdido uma das chinelas de palha. Uma cadeira, que tinha um vestido branco em cima, tombara ao chão. Esses objetos, com os salpicos de água provenientes de uma esponja de banho, eram os únicos vestígios da luta.

Antes de falar Ricardo engoliu duas vezes, como para certificar-se do estado da sua garganta.

— Está certo. Não tinha nenhuma intenção de te fazer mal... embora eu não seja de brinquedo quando me decido a isso.

Ergueu a perna do pijama para mostrar a faca presa pela correia. Ela olhou para a arma sem mover a cabeça, e murmurou, com amargura e desprezo:

— Ah, sim... com isso cravado no peito. Só mesmo assim.

Ele abanou a cabeça com um sorriso envergonhado.

— Escuta! Já sosseguei. Palavra! Não preciso te explicar por que... tu sabes como são essas coisas. E agora também estou compreendendo que esse não era o jeito de lidar contigo.

Ela não respondeu. O seu olhar sereno, dirigido de baixo para cima, tinha uma tristeza paciente que o perturbou como a proximidade de um grande abismo. Acrescentou em tom de dúvida:

— Não vais armar berreiro por causa desta asneira que eu fiz?

Ela sacudiu a cabeça, muito de leve.

— Caramba! És maravilhosa — murmurou Ricardo sinceramente, e mais tranquilizado do que ele próprio imaginava.

Se ela tivesse tentado fugir teria, claro, cravado a faca nas costas para por termo aos seus gritos. Mas então estaria o caldo entornado, o negócio absolutamente perdido, e o furor do patrão — especialmente quando este conhecesse a causa, — não teria limites. Uma mulher que não faz alarido após um atentado dessa espécie perdoa tacitamente a ofensa. Ricardo não tinha pequenas vaidades. Mas evidentemente, se ela deixava a coisa passar assim em branca nuvem, era porque não o achava tão repugnante. Ficara lisonjeado. A mulher, tão pouco, parecia ter medo dele. Já sentia quase uma ternura por ela, por essa bonita e animosa garota que não pensara em fugir dele aos gritos.

— Ainda seremos amigos. Não penses que eu desisti de ti. Amigos, e muitos amigos! — murmurou Ricardo cheio de confiança. — Caramba! Tu não tens nada de frouxa. Nem eu tão pouco. Não levarás muito tempo a convencer-te disso.

Não podia saber que ela não fugira apenas porque naquela manhã, cedendo à sua crescente inquietação com a presença dos incompreensíveis visitantes, Heyst lhe confessara que era o seu revólver o objeto que estivera procurando na noite passada; o revólver desaparecera, e ele estava desarmado e indefeso. Lena mal tinha compreendido a significação desse fato. Agora compreendia melhor. O esforço com que ela se dominava, a sua serenidade, impressionaram Ricardo. De repente, a moça falou:

— O que vieram buscar aqui?

Ele conservou os olhos baixos. As mãos pousadas nos joelhos, a cabeça pendida, algo de meditativo, na sua atitude, faziam pensar numa alma simples alquebrada, na fadiga de uma luta moral e não física. Respondeu claramente à pergunta direta da mulher, como se estivesse cansado demais para dissimular:

— A bolada.

Lena não conhecia a palavra. O ardor velado dos seus olhos cinzentos, sob as sobrancelhas negras, não abandonou o rosto de Ricardo.

— Bolada? — murmurou ela calmamente. — O que é isso?

— Ora, a bolada, a presa, o que esse moço passou tantos anos roubando por aí tudo... os tubos. Não sabes? Isto!

Sem alçar os olhos, fez o gesto de contar dinheiro na palma da mão. Ela baixou levemente os seus para observar A pequena pantomima. Logo, porém, tornou a cravá-los no rosto do homem. E então, num tênue murmúrio, perguntou, ocultando a sua apreensão e a sua perplexidade:

— Como sabem da vida dele? O que têm com ela?

— Tudo — foi a concisa resposta de Ricardo, emitida num ligeiro cochicho enfático. Disse consigo que essa garota era, na verdade, a sua maior esperança. Da impressão de violência, ainda não apagada, ia nascendo esse sentimento que não permite a um homem olhar com indiferença uma mulher que já uma vez teve nos braços — embora contra a vontade dela — e ainda mais se ela lhe perdoou o ultraje. Isso se transforma numa espécie de vínculo. Sentia a necessidade positiva de confiar nela — um sutil traço masculino, essa necessidade quase física de confiança, que pode coexistir com a mais brutal desconfiança.

— É um jogo de agarra... entendes? — prosseguiu, dando ao seu murmúrio uma nova inflexão de intimidade. Olhava-a agora em face. — Foi aquele hoteleiro gordo, aquela lesma covarde, o Schomberg, que nos pôs no rastro.

Tão forte é a impressão da desdita impotente e perseguida, que a mulher que sem hesitar levara de vencida uma agressão selvagem não pôde reprimir de todo um estremecimento, ao mero som deste nome abominado.

Ricardo pôs-se a falar mais rápido e em tom de confidência:

— Ele quer se desforrar do seu companheiro... de vocês dois, para falar verdade. Foi o que me disse. Estava louco por ti. Seria capaz de entregar tudo que tinha nessas mãos, que por pouco não me estrangularam. Mas tu não pudeste, hein? Não houve jeito... hein?

Ricardo fez uma pausa, e terminou:

— De modo que, em vez de... preferiu morar com um cavalheiro?

Notou um leve movimento da cabeça de Lena e acrescentou rapidamente:

— Eu também... de preferência a ser um escravo pago. Mas é que não se pode confiar nesses estrangeiros. Ele não te merece, Um homem capaz de roubar do seu melhor camarada!

Ela ergueu a cabeça. Ricardo continuou cochichando às pressas, satisfeito com os progressos que fazia:

— Sim. Eu conheço esse sujeito por dentro e por fora. E assim, podes fazer uma ideia do modo como ele tratará uma mulher, depois de passado algum tempo!

Ignorava que estava infundindo terror no coração da sua ouvinte. Mas os olhos de Lena continuaram fixos nele, observando-o imóveis, como que sonolentos, sob a fronte alva. Começava a compreender. As palavras daquele homem tinham para ela um sentido preciso e terrível, que ele passou a esclarecer melhor com os seus murmúrios convictos.

— Tu e eu fomos feitos para nos compreendermos. Imagino que tivemos a mesma origem e a mesma educação. Tu não és conformada. Eu, da mesma forma! Foste atirada para o meio deste mundo podre de hipócritas. Eu, da mesma forma!

O silêncio, o aterrorizado silêncio da mulher, tinha aos seus olhos um ar de atenção fascinada. De repente, perguntou:

— Onde está?

Ela fez um esforço para falar:

— Onde está o quê?

Ricardo respondeu num tom de confidência excitada.

— A bolada... a presa, os tubos. Isto é um jogo de agarra. Temos de carregar tudo. Mas o trabalho não é fácil, e precisamos da tua ajuda. Fala! Ele guardou a coisa dentro de casa?

Como frequentemente acontece às mulheres, o próprio terror da ameaça entrevista aguçou as faculdades de Lena. Fez um sinal negativo de cabeça.

— Não.

— Tens certeza?

— Toda a certeza.

— Ah! É o que eu pensava. O teu cavalheiro confia em ti?

Ela tornou a sacudir a cabeça.

— Hipócrita safado — disse ele com energia, e acrescentou: — E é dos mansos, não é?

— É melhor você verificar por si mesmo — respondeu ela.

— Podes fiar-te em mim. Não quero morrer antes de ficarmos amigos.

Isto foi dito com um estranho ar de galanteria felina. E, sondando o terreno:

— Mas se quisesses, podias fazer com que ele confiasse em ti, hein?

— Confiar em mim? — disse ela, num tom que raiava pelo desespero, mas que ele tomou por derrisão.

— Passa para o nosso lado — insistiu. — Dá um pontapé nessa maldita hipocrisia. Quem sabe se, mesmo sem a confiança, dele, já conseguiste descobrir alguma coisa, hein?

— Talvez — disse ela. Tinha a impressão de que seus lábios iam gelando rapidamente.

Ricardo considerou-lhe então o rosto sereno com certo respeito. Aquela serenidade, aquela economia de palavras, chegavam mesmo a impressioná-lo. Com seu instinto feminino, ela notou o efeito que tinha produzido, a vantagem de saber as coisas e guardá-las para si. Até aqui, tudo isso fora conseguido sem a intervenção da sua vontade. Mas assim animada, vendo apontarem-lhe o caminho da duplicidade que é o refúgio dos fracos, fez um esforço heroico e contraiu num sorriso os lábios rígidos e gelados.

A duplicidade, refúgio dos fracos e dos covardes — e também dos desarmados! Nada, senão a duplicidade, poderia impedir que uma catástrofe cruel destruísse o sonho encantado da sua existência. O homem sentado à sua frente afigurava-se-lhe uma presença inevitável, companheira de toda a sua vida. Era o mal do mundo corporificado. Ela não teve vergonha da sua duplicidade. Com a coragem franca das mulheres, assim que viu essa saída enveredou por ela sem reservas, apenas com uma dúvida: a dúvida sobre as suas próprias forças. A situação apavorava-a; mas já a sua feminilidade despertada, compreendendo que amava Heyst fosse qual fosse o seu sentimento para com ela, e sentindo que ela própria atraíra sobre ele aquela ameaça, enfrentava o perigo com o desejo ardente de defender o que era propriedade sua.