Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 37 de 40

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Vitória

Capítulo XI

Duas velas ardiam sobre a escrivaninha alta. Mr. Jones, enfaixado num roupão de seda azul, velho mas suntuoso, mantinha os cotovelos colados ao corpo e as mãos mergulhadas nos bolsos extraordinariamente fundos da vestimenta. Esse traje acentuava os seus traços emaciados. Ele se assemelhava a uma estaca pintada e encostada à escrivaninha, com uma cabeça ressequida e cheia de distinção duvidosa cravada na ponta. Ricardo deixara-se ficar à porta. Indiferente, na aparência, ao que se passava, estava na realidade fazendo tempo. Em dado momento, entre dois relâmpagos, desapareceu da moldura da porta como se se tivesse evaporado no ar exterior. Esse sumiço foi imediatamente notado por Mr. Jones, que abandonou a sua negligente imobilidade e deu alguns passos com o fim de se colocar entre Heyst e a porta.

— O ar está horrivelmente abafado — observou ele.

Heyst, que ficara no meio do quarto, tinha-se decidido pela franqueza.

— Não nos encontramos para falar do tempo. Esta manhã o senhor me disse uma frase um tanto enigmática a seu respeito: “eu sou aquele que é”. Que significa isso?

Sem olhar para Heyst, Mr. Jones continuou os seus movimentos distraídos até alcançar a posição visada. Encostou então os ombros ruidosamente à parede, próximo à porta, e ergueu a cabeça. Na emoção daquele momento decisivo o seu rosto desfigurado tornara-se reluzente de suor. As gotas de perspiração lhe escorriam pelas faces cavas e quase cegavam os olhos espectrais nas suas cavernas ósseas.

— Isso significa que eu sou homem que deve ser levado em conta. Não! Alto! Não leve a mão ao bolso!

Sua voz assumira um inesperado timbre agudo e selvagem. Heyst sentiu um tremor, e seguiu-se um momento de expectativa, durante o qual a voz de baixo do trovão rosnou ao longe e a porta, à direita de Mr. Jones, fulgurou com uma luz azulada. Finalmente Heyst sacudiu os ombros, e até olhou para a sua mão. Não a levou ao bolso, contudo. Mr. Jones, pregado à parede, viu-o levantar as duas mãos para as pontas dos bigodes horizontais e respondeu à interrogação que lia no seu olhar firme.

— Uma medida de prudência — disse ele no seu tom cavo natural, e com uma sinistra compostura das feições. — Um homem de vida livre como o senhor deve por certo ter compreendido isso. Embora o senhor seja uma pessoa muito comentada, Mr. Heyst... pelo que me foi dado entender, prefere empregar as armas sutis da inteligência... não posso expor-me ao risco de vê-lo recorrer a... mm... método e mais grosseiros. Não sou bastante destituído de escrúpulos para rivalizar com o senhor no uso da inteligência, mas garanto, Mr. Heyst, que no outro terreno o senhor não pode competir comigo. Neste momento tenho-o sob a mira do meu revólver. E estou mirando desde que entrou neste quarto. Sim... aqui no meu bolso.

Durante esta arenga, Heyst olhou tranquilamente por cima do ombro, recuou um passo e sentou-se na beira da cama de campanha. Apoiando um cotovelo sobre o joelho, aninhou o rosto na palma da mão e pareceu refletir sobre o que iria dizer. Mr. Jones, plantado contra a parede, esperava visivelmente uma manifestação qualquer por parte do outro. Como não viesse nada, resolveu tomar a iniciativa de falar. Hesitava, porém. Embora achando que o passo mais difícil já fora dado, dizia consigo que cada fase da conversação requeria grandes cautelas, para que o homem, na expressão de Ricardo, não começasse a “encrencar ” — o que seria altamente nefasto. Voltou a uma frase já dita antes:

— Eu sou um homem com quem se deve contar.

O outro continuou com os olhos cravados no chão, como se estivesse só no quarto. Houve um silêncio.

— Ouviu, então, falar em mim? — disse Heyst afinal, erguendo os olhos.

— Se ouvi! Estivemos hospedados no hotel de Schomberg.

— Schom... — ecoou Heyst.

— Que foi, Mr. Heyst?

— Nada. Náuseas — tornou Heyst resignadamente. E voltou à sua atitude de silêncio meditativo. — Que ajuste de contas é esse em que falou? — perguntou ao cabo de algum tempo, no tom mais calmo possível. — Eu não o conheço.

— É evidente que nós pertencemos à mesma... esfera social — começou Mr. Jones com lânguida ironia. No íntimo, mantinha uma vigilância extrema. — Alguma coisa fez com que o senhor fosse segregado... a originalidade das suas ideias, talvez. Ou dos seus gostos.

Mr. Jones teve um de seus fúnebres sorrisos. Em repouso, as suas feições tinham um curioso aspecto de austeridade exausta e maligna; mas quando ele sorria toda a sua máscara assumia uma expressão desagradavelmente infantil. A trovoada continua recrudesceu lá fora, encheu o quarto de sons retumbantes e esvaiu-se em silencio.

— O senhor não está aceitando a situação como deve — observou Mr. Jones. Foi isto o que ele disse, mas na realidade o negócio lhe parecia marchar de maneira perfeitamente satisfatória. O homem, pensava, não tinha ânimo para lutar. E prosseguiu em voz alta: — Vamos! Não pode esperar em sair-se bem de tudo. E um homem com experiência do mundo.

— E o senhor? — interrompeu-o Heyst inesperadamente, — Como é que define a si mesmo?

— Eu, meu caro senhor? Em certo sentido eu sou... sim, sou o próprio mundo que lhe vem fazer uma visita. Em outro sentido, sou um proscrito... quase um foragido. Se prefere um ponto de vista menos material, sou uma espécie de destino... o castigo que aguarda a ocasião oportuna.

— Prouvera aos céus que fosse um bandido vulgar! — disse Heyst, erguendo para Mr. Jones os olhos serenos. — Ao menos seria possível falar claro e esperar um tratamento humano da sua parte. Mas deste modo...

— Eu detesto violências e ferocidades de qualquer sorte, quase tanto como o senhor — declarou Mr. Jones, encostado à parede com um ar muito lânguido, mas falando em voz bem alta. — Pode perguntar a Martin se não é assim. A nossa era, Mr. Heyst, é uma era de brandura. E, também, uma era sem preconceitos. Ouvi dizer que o senhor, de acordo com o espírito dos tempos, está isento deles. Não deve chocar-se se eu lhe disser claramente que nós viemos em busca do seu dinheiro... ou antes, eu vim, se prefere tomar-me como único responsável. Pedro, está visto, ignora esse intuito tão completamente como o ignoraria qualquer outro animal. Ricardo pertence à categoria dos sequazes fiéis... absolutamente identificado com todas as minhas ideias, desejos, e até caprichos.

Mr. Jones retirou a mão esquerda do bolso, puxou um lenço de outra algibeira e começou a enxugar o suor da testa, do pescoço, e do queixo. A excitação de que estava presa tornava-lhe visível a respiração. Metido naquele roupão comprido, tinha o ar de um convalescente que houvesse abusado imprudentemente de suas forças. Heyst, ancho de espáduas e robusto, observava da cama a operação, muito calmo, com as mãos descansando nos joelhos.

— E por falar nisso — perguntou ele, — onde está agora esse seu auxiliar? Arrombando a minha escrivaninha?

— Isso seria brutal. Entretanto, a brutalidade é uma das condições da vida — disse o patrão de Ricardo com levíssimo tom de chiste. — E possível, mas pouco provável. Martin é um tanto brutal, mas o senhor não o é, Mr. Heyst. Para dizer a verdade, não sei exatamente onde ele está. De algum tempo para cá tem andado um tanto misterioso, mas confio nele. Não, não se levante, sr Heyst!

Sua fisionomia espectral tinha uma indescritível expressão de malevolência.

Heyst, que se movera um pouco, surpreendeu-se com a intimação.

— Não pretendia levantar-me — disse ele.

— Tenha a bondade de ficar sentado — insistiu Mr. Jones em voz lânguida, mas com um brilho muito decidido nas órbitas escuras.

— Se o senhor fosse mais observador — disse Heyst com tranquilo desprezo, — teria percebido, antes de eu estar cinco minutos neste quarto, que não trago comigo arma de espécie alguma.

— E possível, mas faça o favor de estar quieto com as mãos. Estão muito bem onde estão. Considero muito importante este negócio para me arriscar.

— Importante? Muito importante? — repetiu Heyst, com autêntica surpresa. — Santo Deus! Muito pouco existe aqui daquilo que procura... muito pouco de qualquer coisa.

— É natural que o senhor diga isso, mas não foi o que nos contaram — retorquiu Mr. Jones em voz rápida, fazendo uma careta tão hedionda que era impossível considerá-la voluntária.

O semblante de Heyst fizera-se muito sombrio. Franziu as sobrancelhas.

— Que foi que lhe contaram? — perguntou.

— Muita coisa Mr. Heyst... muita coisa. — Mr. Jones estava tentando recobrar as suas maneiras de lânguida superioridade. — Ouvimos falar, por exemplo, num certo sr. Morrison, outrora seu sócio.

Heyst não pôde reprimir um ligeiro movimento.

— Ahá! — disse Mr. Jones, com uma espécie de alegria fúnebre pintada no rosto.

Os trovões abafados pareciam ecos de um canhoneio longínquo, além do horizonte, e os dois homens tinham o ar de estarem a escutá-lo num silêncio carrancudo.

“Esta calúnia diabólica ainda acabará por me tirar literalmente a vida”, refletiu Heyst.

De súbito, desatou a rir. Mr. Jones escutava-o, portentoso e espectral.

— Ria à vontade. Eu, que fui escorraçado da sociedade por pessoas altamente morais, não vejo nada de cômico nessa história. Mas aqui estamos os dois, e o senhor terá de pagar agora o preço do seu divertimento, Mr. Heyst.

— Andaram contando uma porção de feias mentiras a vocês — observou Heyst. — Afirmo isso sob minha palavra.

— É natural que o senhor fale assim... muito natural. A verdade é que eu não ouvi muita coisa. A rigor, quem ouviu foi Martin. Ele é quem colhe informações e o que for preciso. O senhor supõe que eu falaria mais do que o estritamente necessário com aquele animal de Schomberg? Foi a Martin que ele fez confidências.

— A estupidez daquela criatura é tão enorme que chega a ser formidável — disse Heyst, como se falasse para si mesmo.

Seus pensamentos volveram-se involuntariamente para a moça, a vaguear na floresta, sozinha e aterrada. Tornaria a vê-la? A esta reflexão esteve a ponto de perder o domínio próprio. O que o retemperou um pouco foi a ideia de que, se ela havia seguido as suas instruções, esses homens não poderiam encontrá-la. Ignoravam que a ilha tinha habitantes; e uma vez que se houvessem desembaraçado dele seria muito grande a sua pressa de fugir para perderem tempo em procura de uma mulher desaparecida.

Tudo isso passou com rapidez de relâmpago pela mente de Heyst, como sói acontecer nos momentos de perigo. Ele olhou com expressão inquiridora para Mr. Jones que, é bem de ver, nem um só instante tirara os olhos da sua vítima em perspectiva. E Heyst formou a convicção de que esse renegado das altas esferas era um patife absolutamente empedernido e sem piedade.

A voz de Mr. Jones causou-lhe um sobressalto.

— Seria inútil, por exemplo, dizer-me que o chinês fugiu com o seu dinheiro. Um homem que vive sozinho numa ilha, com um chinês, tem o cuidado de esconder propriedades desse gênero, tão bem que o próprio diabo...

— Certamente — murmurou Heyst.

Mr. Jones tomou a esponjar, com a mão esquerda, o osso frontal, o espigado pescoço, a mandíbula aguçada, o descarnado queixo. Novamente lhe falhou a voz, e o seu aspecto tornou-se ainda mais horrivelmente malévolo, como o de um cadáver perverso e desapiedado.

— Entendo o que quer dizer — exclamou ele, — mas não deve confiar demasiado no seu engenho. O senhor não dá a impressão de ser uma pessoa muito engenhosa, Mr. Heyst. Eu tão pouco o sou. Os meus talentos são para outras coisas. Mas Martin...

— Que neste momento está ocupado em saquear minha escrivaninha — interpôs Heyst.

— Não creio. Ia dizer que Martin é muito mais sagaz do que um chinês. Não crê na superioridade racial, Mr. Heyst? Eu creio firmemente. Martin é afiadíssimo em descobrir segredos como o seu, por exemplo.

— Segredos como o meu! — repetiu Heyst com amargura. — Pois eu lhe desejo bom proveito do que descobrir!

— É muita gentileza sua — observou Mr. Jones. Estava começando a ficar ansioso pela volta de Martin. Homem de indomável sangue frio à mesa de jogo, destemido nos conflitos súbitos, percebera que essa tarefa de gênero especial punha à prova os seus nervos.

— Não se mexa de onde está! — gritou com rudeza.

— Já lhe disse que não estou armado — redarguiu Heyst, cruzando os braços no peito.

— Estou mesmo inclinado a acreditar nisso — confessou Mr. Jones com seriedade. — Coisa estranha! — refletiu em voz alta, com as cavernas dos olhos voltados para Heyst. E vivamente: — Mas a minha tenção é conservá-lo neste quarto. Não me provoque com algum movimento imprudente, ou vai fazer com que eu lhe esfacele o joelho, ou coisa parecida, com uma bala. — Passou a língua sobre os lábios, que estavam ressequidos e escuros, ao passo que a sua testa brilhava de suor. — Não sei se não seria melhor fazer isso duma vez!

— Quem se demora a pensar está perdido — disse Heyst com grave zombaria.

Mr. Jones não prestou ouvido à observação. Tinha o ar de confabular consigo mesmo.

— Fisicamente, não sou homem para enfrentá-lo — disse ele devagar, com o negro olhar cravado no homem que estava sentado na ponta da cama. — O senhor poderia saltar...

— Está procurando meter medo a si mesmo? — perguntou Heyst abruptamente. — Parece não ter suficiente coragem para a sua profissão. Por que não faz isso de uma vez?

Mr. Jones, violentamente ofendido, rosnou como um esqueleto furioso.

— Por muito estranho que isso lhe possa parecer, é em razão da minha origem, das minhas tradições, minhas relações de mocidade e outras bagatelas do mesmo jaez. Não são todos que conseguem despir-se dos preconceitos de um cavalheiro com a facilidade com o que o senhor o fez, sr. Heyst. Mas não se preocupe com a minha coragem. Se o senhor saltasse para mim, receberia na trajetória do seu pulo alguma coisa que o tomaria perfeitamente inofensivo quando pousasse pé em terra. Não, não nos interprete mal, sr. Heyst. Nós somos... mm... bandidos competentes, e viemos em busca do fruto das suas atividades de... mm... vigarista feliz. São os métodos deste mundo... engolir e vomitar!

Inclinou fatigadamente a cabeça sobre o ombro esquerdo. Sua vitalidade parecia exausta. As próprias pálpebras encovadas baixaram dentro das órbitas ossudas. Só as suas sobrancelhas finas, primorosamente desenhadas a lápis, um pouco franzidas, indicavam a vontade e o poder de fazer mal, uma invencível e mortal perversidade.

— Frutos! Vigarista! — repetiu Heyst sem calor, quase sem desprezo. — Estão se dando um trabalho infinito, o senhor e o seu fiel lacaio, para quebrar uma noz vazia. Aqui não há fruto algum, como imagina. Há algumas libras, que serão suas se as quiser. E já que chamou a si mesmo de bandido...

— Sim! — tornou Mr. Jones em voz arrastada. — Antes isso que ser vigarista. Pelo menos faz-se guerra franca!

— Muito bem! Apenas, deixe-me dizer-lhe nunca houve no mundo dois bandidos mais logrados... nunca!

Heyst pronunciou estas palavras com tal energia que Mr. Jones, inteiriçando-se, pareceu ficar mais delgado e mais alto dentro do seu roupão de um azul metálico contra a alvura da parede caiada.

— Ludibriados por um estalajadeiro imbecil e velhaco! — prosseguiu Heyst. — Persuadidos como duas crianças com promessas de doces!

— Eu não falei com aquele animal repugnante — resmungou Mr. Jones de cara fechada; — mas ele convenceu Martin, que não e nenhum idiota.

— Creio que o seu Martin estava muito desejoso de se deixar convencer — disse Heyst, com o tom cortês tão conhecido nas ilhas. — Não quero perturbar-lhe a tocante fé no seu... no seu auxiliar, Mr. Jones, mas ele deve ser o bandido mais crédulo do mundo. Que supõe o senhor? Se essa história das minhas riquezas tivesse algo de verdadeiro, julga que Schomberg lhe teria comunicado por puro altruísmo? Esses são os métodos do mundo, Mr. Jones?

Por um momento, o patrão de Ricardo deixou pender o queixo. Mas tornou a cerrá-lo como um estalo de desprezo e disse com espectral intensidade:

— Aquele animal é poltrão! Estava amedrontado e queria livrar-se de nós, se o deseja saber, sr. Heyst. Não sei se o incentivo material era tão grande assim, mas eu andava cheio de tédio e resolvemos aceitar a indicação. Não me arrependo disso. Tenho passado toda a minha vida em busca de novas impressões, e o senhor me saiu uma pessoa inteiramente fora do comum. Martin, naturalmente, está interessado nos resultados materiais. Ele é simples... fiel... e duma admirável agudeza.

— Ah, sim! Ele está no rastro... — Heyst falava agora com uma zombaria polida e soturna — mas não o suficiente para que convenha meter-me uma bala sem mais delongas. Não lhe indicou Schomberg também o lugar preciso onde eu escondia o fruto das minhas rapinas? Pf! Ignora então que ele seria capaz de lhe dizer qualquer coisa, verdadeira ou falsa, e por um motivo muito claro? Vingança! ódio cego... o repulsivo idiota!

Mr. Jones não parecia muito emocionado. À sua mão direita, o retângulo da porta acendia-se continuamente com os relâmpagos distantes, e o intérmino retumbar do trovão prosseguia, irritante, como o rosnar de algum gigante tartamudo e presunçoso.

Heyst dominou a sua imensa repugnância de aludir àquela cuja imagem, encolhida de medo na floresta, lhe estava constantemente diante dos olhos, com todo o patético e toda a força do seu apelo, para ele augusta, lamentável e quase santa. Foi com precipitação e em tom embaraçado que acrescentou:

— Se não fosse essa moça que ele perseguia com a sua paixão insensata e odiosa, e que veio lançar-se nos meus braços solicitando a minha proteção, esse indivíduo nunca teria... Mas o senhor bem gabe disso!

— Eu não sei tal! — estrugiu Mr. Jones com assombrosa veemência. — Aquele hoteleiro quis falar-me numa garota que lhe tinha fugido, mas eu repliquei que não queria ouvir essas malditas histórias de mulheres. O caso tinha alguma relação com o senhor, então?

Heyst contemplava este rompante com serenidade. Depois perdeu um pouco da sua paciência.

— Que espécie de comédia é esta? O senhor quererá dizer que ignorava que eu tinha... que a moça estava aqui?

Percebia-se que os olhos de Mr. Jones se haviam tornado fixos nas profundezas das suas cavernas negras, pelo reflexo das escleróticas que se imobilizara. Todo o seu corpo parecia ter-se congelado.

— Ouça aqui! Ouça aqui! — gritou ele duas vezes, em tom agudo. Era inconfundível o seu espanto, a sua chocada incredulidade... qualquer coisa como uma repugnância mesclada de terror.

Heyst também sentia repugnância, mas em outro sentido. Também ele estava incrédulo. Arrependia-se de ter falado na moça. Mas o mal estava feito. Sua repulsão cedera ao calor da discussão com o absurdo bandido.

— Será possível que o senhor não estivesse ao par de um fato tão significativo? — indagou ele. — Da única verdade no meio dessas tolas mentiras pelas quais se deixaram enganar tão facilmente?

— Não sabia, não! — bradou Mr. Jones. — Mas Martin sabia! — acrescentou num ligeiro murmúrio; e foi tudo que o ouvido de Heyst conseguiu apanhar.

— Eu a conservei escondida o mais tempo que pude disse este. — Talvez que com a sua educação, as suas tradições, etcétera, o senhor compreenda a minha razão para fazer isso.

— Ele sabia. Sabia antes de virmos para cá! — gemia Mr. Jones em voz cava. — Desde o começo sabia da existência dessa mulher!

Apoiado de costas contra a parede, deixara de vigiar Heyst. Tinha a aparência de um homem que vê escancarar-se um abismo aos seus pés.

Se eu quiser matá-lo, é este o momento azado, pensou Heyst. Não se mexeu, porém.

Um instante depois Mr. Jones ergueu a cabeça com um movimento brusco, os olhos a fuzilar de fúria sardônica.

— Pelo sim, pelo não, meto-lhe uma bala no couro, ermitão mulherengo, homem da lua que não pode viver sem... Não, não será a você que eu matarei. Será o outro femeeiro... o pelintra reles, amoroso embusteiro e fingido! E ele se barbeou... barbeou-se diante do meu nariz! Hei de matá-lo!

“O homem perdeu o juízo”, pensou Heyst, surpreendido com o furor repentino do espectro.

Sentia-se mais em perigo, mais próximo da morte que em qualquer momento desde que entrara no quarto. Um bandido louco é uma combinação mortal. Ele não sabia, nem podia saber, que Mr. Jones tinha o pensamento bastante veloz para ver já extinto o seu império sobre o pensar e o sentir do excelente secretário, para pressentir a iminente defecção de Ricardo. Uma mulher tinha intervindo! Uma mulher, uma garota que possuía aparentemente o dom de despertar a repugnante loucura dos homens. Já em dois casos dera provas desse seu poder: com o bestial estalajadeiro e com esse homem de bigodes, em quem Mr. Jones, com a destra mortífera a contrair-se dentro do bolso, fitava uns olhos arregalados, mais de repulsa que de cólera. O próprio objetivo da expedição perdera-se de vista nessa sensação repentina e avassaladora de completa insegurança. E isto enfurecia extremamente a Mr. Jones, mas não contra o homem dos bigodes. E assim, enquanto dizia consigo que não tinha talvez dois minutos de vida, Heyst ouviu-se interpelar sem nenhuma afetação de lânguida insolência, mas com um ímpeto de resolução febril:

— Escute aqui! Vamos fazer uma trégua! — disse Mr. Jones.

Heyst estava por demais descoroçoado para poder sorrir.

— Estive-lhe fazendo guerra, por acaso? — perguntou com voz fatigada. — Como pode esperar que eu empreste algum sentido às suas palavras? O senhor parece ser um bandido mórbido e destituído de senso. Nós não falamos a mesma língua. Se eu lhe dissesse por que motivo estou aqui a conversar com o senhor, não me daria crédito porque não me poderia compreender. Não é certamente por amor a vida, sentimento de que me divorciei há muito tempo... não de todo, talvez. Mas se receia pela sua, repito-lhe que ela nunca correu perigo da minha parte. Estou desarmado.

Mr. Jones mordia o lábio inferior, imerso em profunda meditação. Só no fim do discurso de Heyst foi que ele olhou para este.

— Desarmado, hein? — E numa explosão violenta: — Estou-lhe dizendo que um cavalheiro não pode competir com o rebanho comum! E somos obrigados a nos utilizar deles. Desarmado, hein? E suponho que essa criatura seja das mais vulgares. O senhor não podia tê-la tirado de um salão. Se bem que no fundo elas sejam todas iguais... Desarmado! É uma lástima. Eu corro muito mais perigo do que o senhor... ou muito me engano. Mas não... eu — conheço o meu homem!

Perdeu aquele ar de vacuidade mental e desfez-se em exclamações agudas. Para Heyst, essas ejaculações pareceram mais doidas que qualquer coisa ouvida antes.

— No rastro! Na pista! — gritava o homem, esquecendo-se ao ponto de executar uma dança selvagem no meio do quarto.

Heyst olhava, fascinado por esse esqueleto envolto num roupão de cores alegres, movendo-se aos arrancos como um títere grotesco acionado por fios invisíveis. O boneco aquietou-se repentinamente.

— Eu devia ter farejado mouro na costa! Sempre previ esse perigo. — Passou de súbito ao tom confidencial, fixando um olhar sepulcral em Heyst. — E contudo, aqui me vê ludibriado por esse sujeito, como o maior dos idiotas. Sempre andei à espreita de uma influência bestial dessa sorte, e contudo aqui estou, colhido no laço! Ele barbeou-se na minha frente e eu não adivinhei!

O riso agudo, sucedendo-se ao tom baixo de confidência, tinha um tão convincente caráter de demência que Heyst se levantou como que movido por mola. Mr. Jones recuou dois passos, mas sem revelar inquietação...

— É claro como a luz do dia! — disse ele em voz de lamento. E se calou.

Atrás dele o retângulo da porta fulgurou com uma luz lívida, e um ruído semelhante ao de uma batalha naval além do horizonte encheu a pausa palpitante. Mr. Jones inclinou a cabeça sobre o ombro. Sua disposição de espírito mudara por completo.

— Que me diz o sr. homem desarmado? Devemos ir averiguar o que está detendo por tanto tempo o meu leal Martin? Ele me pediu para prender o senhor com uma conversa amigável enquanto continuava a estudar a pista. Ah, ah, ah!

— Sem dúvida, está vasculhando a minha casa — disse Heyst.

Estava atônito. Parecia-lhe que tudo aquilo era um sonho incompreensível, ou talvez uma brincadeira complicada do outro mundo, armada por esse espectro de vistoso roupão.

Mr. Jones olhou para ele com um horrível sorriso cadavérico de inescrutável zombaria, e apontou para a porta. Heyst saiu na frente. Tinha a sensibilidade tão embotada que já não lhe importava o momento em que fosse alvejado pelas costas.

— Como o ar está pesado! — disse a voz de Mr. Jones ao seu lado. — Esta estúpida tempestade me irrita os nervos. Receberia com satisfação um pouco de chuva, embora fosse desagradável molhar-me. Por outro lado, esta trovoada exasperante tem a vantagem de ocultar a nossa aproximação. O relâmpago é que é inconveniente. Ah, a sua casa está completamente iluminada! O meu hábil Martin está devastando a sua provisão de velas. Ele pertence à classe dos sem-cerimônia, que são também destituídos de afetividade, de lealdade e assim por diante.

— Deixei as velas acesas — disse Heyst — para lhe poupar trabalho.

— O senhor esperava realmente que ele iria à sua casa? — inquiriu Mr. Jones com sincero interesse.

— Tinha uma forte suspeita disso. Creio mesmo que ele está lá agora.

— E isso não lhe importa?

— Não!

— Não lhe importa? — Mr. Jones parou, assombrado.

— O senhor é um homem extraordinário — disse ele suspeitosamente. E seguiu adiante, roçando cotovelos com Heyst.

No peito deste morava um profundo silêncio, o silêncio completo das faculdades não utilizadas. Nesse momento, com um simples encontrão de ombro em Mr. Jones poderia atirá-lo ao chão e, em dois ou três saltos, colocar-se fora do alcance do seu revólver. Mas nem sequer pensou nisto. Sua própria vontade parecia morta de fadiga. Caminhava automaticamente, a cabeça baixa, como um cativo enfeitiçado pelo poder maligno de um esqueleto que houvesse fugido da sepultura em traje de mascarada. Mr. Jones encarregava-se de lhe dirigir os passos. Descreveram uma grande volta. Os ecos do trovão distante pareciam persegui-los nos calcanhares.

— A propósito — disse Mr. Jones, como se não pudesse refrear a sua curiosidade, — o senhor não se sente ansioso por essa... uf!... essa fascinante criatura a quem deve o prazer que lhe possa causar a nossa visita?

— Eu a pus em lugar seguro — disse Heyst. — Tomei essa precaução.

Mr. Jones pousou-lhe uma mão no braço.

— Sim? Pois olhe! É a isso que chama pô-la em lugar seguro?

Heyst ergueu os olhos. À luz dos relâmpagos a desolada clareira, à sua esquerda, revelava-se e tornava a desaparecer nas trevas, e com ela as formas fugidias de coisas distantes, pálidas e extraterrenas. Mas no retângulo brilhante da porta ele viu a moça... a mulher que suspirava por ver uma vez mais — como que entronizada, com as mãos nos braços da cadeira. Estava de preto, o rosto branco, a cabeça sonhadoramente inclinada sobre o peito. Heyst só a via dos joelhos para cima. Ele a via ali, na sala, bem viva e cheia de sombria realidade. Não era uma visão ilusória. Ela não estava na floresta, mas ali! Estava sentada na cadeira, aparentemente sem forças mas também sem receio, curvando-se ternamente.

— O senhor é capaz de compreender o poder dessas criaturas? — cochichou-lhe ao ouvido o hálito ardente de Mr. Jones. — Pode haver espetáculo mais repugnante? Isso é suficiente para tomar detestável a terra inteira. Ela parece ter encontrado o eleito da sua alma. Chegue-se mais perto. Se eu tiver de matá-lo no final, pode ser que ao menos morra curado.

Heyst obedeceu à pressão de um cano de revólver nas suas costas. Se bem que o sentisse distintamente, não sentia o solo sob os seus pés. Encaminharam-se para a escada e, sem que ele tivesse consciência de a estar subindo, galgaram lentamente os degraus, um por um. A dúvida introduzira-se no seu espírito, uma dúvida de espécie nova, sem forma e hedionda. Parecia espalhar-se por todo o seu corpo, invadir-lhe os membros e alojar-se nas suas entranhas. Estacou subitamente, pensando que o homem que experimentava tal sentimento não tinha o direito de viver — ou talvez já tivesse cessado de existir.

Todas as coisas, o bangalô, a floresta, a clareira, tremiam continuamente. A terra e o próprio céu sacudiam sem cessar, e a única coisa imóvel nesse universo presa de convulsões era o interior da sala iluminada, onde a mulher de preto estava sentada à luz das oito velas. Estas lançavam em torno dela um brilho intolerável que feria a vista de Heyst, parecia requeimar-lhe o próprio cérebro com uma radiação de calor infernal. Seus olhos encandeados levaram algum tempo a distinguir Ricardo, que estava sentado no assoalho a pequena distância, com as costas parcialmente voltadas para a porta. Seu perfil alçado revelava o arroubo absorto da sua contemplação.

A ossuda garra de Mr. Jones segurou Heyst, fazendo-o recuar um pouco. Entre os ribombos do trovão, que cresciam e só acalmavam, ele cochichou-lhe sarcástico ao ouvido: “Estava visto!”

Uma grande vergonha baixou sobre Heyst: uma vergonha de culpado, absurda e endoidecedora. Mr. Jones arrastou-o ainda mais para trás na escuridão da varanda.

— Isto é sério — disse ele, destilando o seu sepulcral veneno no ouvido de Heyst. — Muitas vezes tive de fechar os olhos a essas bagatelas. Mas desta vez é sério. Ele encontrou enfim a sua companheira espiritual. Almas de lodo, obscenas e astutas! E corpos de lama, corpos formados da lama das sarjetas! Digo-lhe que nós não podemos competir com essa vil gentalha. Até eu por pouco não fui apanhado na armadilha. Ele me pediu que segurasse o senhor até lhe ouvir o sinal. Não é ao senhor que terei de matar, mas a ele. Depois disto, não poderia tê-lo cinco minutos perto de mim!

Deu uma leve sacudida ao braço de Heyst.

— Se o senhor não se tivesse referido a essa criatura, estaríamos ambos mortos antes de amanhecer. Ele o apunhalaria quando o senhor descesse a escada ao sair do meu bangalô, e depois entraria para me cravar a mesma faca nas costelas. Esse homem não tem preconceitos. Quanto mais vil a origem, maior a liberdade dessas almas simples!

Tomou uma respiração cautelosa e um pouco sibilante, e acrescentou num murmúrio agitado:

— Eu leio claramente os pensamentos dele. Quase me pegou dormindo com suas artimanhas.

Esticou o pescoço afim de olhar para dentro da sala, pela ombreira da porta. Heyst deu também um passo à frente, sob o leve impulso daquela mão esguia e ossuda que lhe apertava o braço.

— Veja! — farfalhou-lhe ao ouvido num tênue fio de voz, com espectral camaradagem, o esqueleto do bandido louco. — Veja o simples Acis beijando as sandálias da ninfa, a caminho dos seus lábios, enquanto a flauta ameaçadora de Polifemo já soa bem perto... Se ele pudesse ouvi-la! Abaixe-se um pouco.