Vitória
Parte 4
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Parte 4
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I
Ricardo avançava prudentemente, por breves carreiras entre árvore e árvore, mais à maneira de um esquilo que de um gato. Fazia algum tempo que o sol tinha surgido: Já o fulgor do mar ia invadindo rapidamente o azul da Baía dos Diamantes, escura e fresca ao amanhecer. Mas a penumbra profunda retardava-se ainda sob os possantes pilares da floresta, entre os quais se ocultava o secretário.
Vigiava o bangalô do Número Um com paciência de animal, embora com uma complexidade muito humana de intenções. Era a segunda manhã que o fazia. Na primeira nada tinha conseguido. Bem... estritamente falando, não havia pressa.
Surgindo repentinamente sobre a cumeada dos montes, o sol inundou de luz a esplanada coberta de relva queimada quo se estendia diante de Ricardo e o outão do bangalô onde ele tinha os olhos fitos, deixando apenas um ponto escuro, que era a porta aberta. À direta do observador, à sua esquerda e às suas costas, surgiram manchas de ouro na sombra profunda da floresta, clareando a escuridão que reinava sob o teto irregular da folhagem.
Essa circunstância não era muito favorável aos intuitos de Ricardo. Não queria que o surpreendessem na sua paciente ocupação. Estava à espera de que a mulher — aquela mulher! — aparecesse. Só queria ver que jeito tinha ela. Possuía excelente vista, e a distância não era tão grande. Havia de distinguir-lhe muito facilmente as feições, bastando que ela saísse para a varanda: e cedo ou tarde teria de sair. Confiava em que poderia formar uma opinião sobre ela — o que sentia ser necessário, antes de se aventurar a entrar em relações com a desconhecida sem que o barão sueco soubesse. Sua teoria sobre ela era de molde a deixá-lo disposto, assim que a tivesse examinado de longe, a mostrar-se discretamente... e até a fazer um sinal. Tudo dependia do que lhe revelassem as suas feições. Não podia ser grande coisa. Ele conhecia aquela raça!
Avançando um pouco a cabeça, obteve através da folhagem de uma trepadeira ornamental um panorama dos três bangalôs, dispostos irregularmente num amplo arco de círculo. Sobre o parapeito da varanda mais distante estava estendida uma manta escura axadrezada, dando muito na vista. Ricardo distinguia até os quadrados do xadrez. Um fogo vivo de gravetos ardia no chão em frente aos degraus da varanda. À luz do sol a chama tênue e oscilante empalidecera, tornando-se quase invisível, qualquer coisa de róseo a tremer sob uma débil voluta de fumo. Viu a cabeça enfaixada de Pedro curvar-se sobre o fogo, com as madeixas de cabelo preto grotescamente espetadas para cima. Ele próprio havia amarrado aquele pano à enorme e feia cabeça do criado, depois de quebrá-la. A criatura balançava-a como um fardo, cambaleando na direção dos degraus. Ricardo discernia uma pequena frigideira de cabo comprido, seguro por uma grande pata cabeluda.
Sim, ele via tudo quanto era visível, tanto longe como perto. Excelentes olhos! Só não podiam penetrar no retângulo escuro da porta, sob o beiral baixo do bangalô. E isto era irritante. Era uma afronta. Ricardo afrontava-se facilmente. Com certeza ela não tardaria a aparecer? Por que não aparecia? Por certo o sujeito não a tinha amarrado ao pé da cama, antes de sair de casa!
Nada aparecia. Ricardo estava tão imóvel quanto os ramos folhudos das trepadeiras, pendentes como uma cortina do grosso tronco que se estendia vinte metros acima da sua cabeça. Até as suas pálpebras estavam imóveis, o que lhe dava o ar cismador de um gato deitado sobre um tapete, a contemplar as chamas da lareira. Estaria sonhando? À sua frente, em plena luz, haviam surgido uma jaqueta branca em forma de blusa, calça curta azul, duas barrigas de perna amarelas e nuas, um longo e fino rabicho...
— Aquele maldito china! — resmungou ele, pasmado.
Não se lembrava de haver desviado os olhos. Entretanto, sem ter surdido do outão direito ou do outão esquerdo da casa, sem ter caído do céu nem brotado do solo, Wang tornara-se visível bem no meio do quadro, em tamanho natural e femininamente ocupado em colher flores. Caminhando passo a passo e curvando-se muitas vezes sobre os canteiros no pé da varanda, o chinês materializado por forma tão surpreendente desapareceu da cena de modo vulgaríssimo, subindo os degraus e sumindo-se no retângulo escuro da porta.
Só então perderam os olhos de Martin Ricardo a sua fixidez atenta. Compreendeu que era hora de se mexer. Aquele ramo de flores que o chinês levara para dentro da rasa só podia ser para a mesa do almoço. Que outro destino poderia ter?
— Deixa que eu te dou flores! — rosnou ele em tom ameaçador. — Espera só!
Tendo-se demorado ainda um instante para relancear o bangalô de Mr. Jones, de onde esperava ver sair Heyst, a caminho do almoço tão afrontosamente decorado, Ricardo pôs-se em retirada. Seu impulso e seu desejo eram de investir em terreno aberto, face a face com a vítima designada, e operar ato contínuo o que ele chamava “uma boa estripadela”, imaginada com avidez e sempre precedida, de sua parte, daquela rápida curvatura do tronco que pressagiava morte certa ao adversário. Tal foi o seu impulso; e como este era, por assim dizer, constitucional, era extremamente difícil resistir quando seu sangue esquentava. Que maior provação o que ser obrigado a andar escondido, contendo-se, esquivando-se, quando o sangue fervia? O sr. secretário Ricardo começou a operar a retirada do seu posto de observação atrás de uma árvore em frente ao bangalô de Heyst, no maior cuidado para não ser visto. Isto era facilitado pelo forte declive do terreno, que descia para o mar. Sentindo através das solas dos chinelos de palha o calor do arcabouço rochoso da ilha, já aquecido pelo sol, ele mergulhou naquela baixada que o escondia da vista. Uma breve ladeira de uns seis metros o fez surgir novamente no nível superior, no ponto em que a base do pier era plantada na praia. Encostou-se a um dos altos postes que ainda sustentavam o cartaz da companhia, acima do monte de carvão abandonado. Ninguém teria adivinhado o quanto lhe fervia o sangue. Para conter-se, cruzava com força os braços sobre o peito.
Ricardo não estava afeito a tão prolongados esforços para se dominar. Sua astúcia e seus cálculos ficavam sempre à mercê da sua natureza, que era verdadeiramente selvática e que só a influência do “patrão”, o prestígio do gentleman, podiam manter em submissão. Também essa natureza tinha a sua astúcia própria, mas a provação era quase insuportável, visto o problema não comportar a solução animal e simples que consiste em rugir e saltar. Ricardo não ousava aventurar-se no terreno livre — não ousava!
— Se encontro esse desgraçado — pensava ele. — não sei o que farei. Não me fio em mim mesmo.
O que o exasperava nesse momento era a sua incapacidade de compreender Heyst. Ricardo era suficientemente humano para sofrer com a consciência das suas limitações. Não, não podia tomar o pulso a Heyst. Ser-lhe-ia extremamente fácil matá-lo — um grunhido e um salto — mas isso era proibido! Fosse como fosse, não podia ficar eternamente debaixo do fúnebre cartaz.
— Tenho de fazer alguma coisa — refletiu.
Avançou, ligeiramente estonteado pelo reprimido desejo de uma ação violenta, e saiu para o terreno aberto em frente aos bangalôs como se voltasse de uma caminhada ao pier, para olhar o bote. Envolvia-o a luz do sol, muito nítida, muito quieta e muito ardente. À sua frente ficavam as três casas. A que tinha a manta estendida na balaustrada era a mais distante; no meio, o bangalô vazio; a mais próxima, com os canteiros ao pé da varanda, continha aquela irritante mulher que, tão provocadoramente, lograva manter-se invisível. Era por esta razão que os olhos de Ricardo não largavam o bangalô. Seria, por certo, mais fácil tomar o pulso à mulher do que a Heyst. Um simples relance de olhos que lhe desse já lhe forneceria uma base, seria um passo dado •em direção à meta — seria, realmente, a entrada em ação. Ricardo não via outra possível. A qualquer momento a mulher podia surgir naquela varanda!
Não apareceu mas, como um imã oculto, continuou a exercer a sua atração. A marcha de Ricardo desviou-se na direção do bangalô. Embora os seus movimentos fossem comedidos, de tal modo o dominavam os instintos ferozes que, se houvesse encontrado Heyst, teria de satisfazer a sua necessidade de violência. Mas não viu ninguém. Wang estava nos fundos da casa, conservando o café no fogo até chegar o Número Um para a refeição matinal. Mesmo o simiesco Pedro não se achava visível. Sem dúvida acocorara-se na soleira da porta, cravando com devoção de animal os olhinhos vermelhos em Mr. Jones, que conversava com Heyst no outro bangalô — conversa de um espectro malfazejo com um homem desarmado, sob a observação de um mono.
Quase independentemente da sua vontade, Ricardo encaminhou-se para os degraus do bangalô de Heyst, dardejando rápidos olhares em todas as direções. Uma vez ali, cedendo a uma atração incoercível, subiu a escadinha com passadas furtivas e selvagens, e parou um instante sob os beirais para escutar o silêncio. Pouco depois avançou uma perna para dentro da porta — a perna pareceu estender-se automaticamente, como um membro de borracha — sentou o pé no Interior da sala, trouxe o outro rapidamente para a frente e encontrou-se dentro de casa, voltando a cabeça de um lado para o outro. Aos seus olhos, que vinham da luz ofuscante do sol, tudo pareceu escuro no primeiro momento. Suas pupilas se dilataram rapidamente, como as de um gato, e ele distinguiu uma quantidade enorme de livros. Ficou assombrado, e desconcertado também, vexado. Pretendia observar o aspecto e a natureza das coisas e esperava tirar alguma conclusão útil, um indicio sobre o caráter do homem. Mas que se podia concluir dessa multidão de livros? Não sabia o que pensar, e formulou o seu assombro com esta exclamação mental:
— Que diabo de coisa esse sujeito andou querendo botar aqui? Uma escola?
Fitou longamente o retrato do pai de Heyst, aquele severo perfil desdenhoso das vaidades deste mundo. Seus olhos lampejaram num olhar de viés aos maciços castiçais de prata, um sinal de opulência. Rondava por ali como o teria feito um gato vadio que entrasse numa casa desconhecida; porque, se Ricardo não possuía o dom milagroso de materializar-se e desaparecer, que era apanágio de Wang, sabia ser tão silencioso quanto este nos seus movimentos menos misteriosos. Notou que a porta dos fundos estava entreaberta. A todo esse tempo as suas orelhas levemente apontadas, com os tímpanos extremamente tensos, colavam-se ao silêncio que, lá fora, envolvia a absoluta quietude da casa.
Não se haviam passado dois minutos quando lhe ocorreu que o bangalô devia estar deserto. Com toda probabilidade a mulher escapara-se, e andava pelos fundos da casa. Provavelmente lhe tinham mandado que não se mostrasse. Por quê? Porque o sujeito desconfiava dos seus hóspedes. Ou seria porque desconfiava dela própria?
Ricardo refletiu que, sob um certo ponto de vista, vinha a dar mais ou menos na mesma coisa. Lembrou-se da história contada por Schomberg. Achava que fugir com um homem, somente para se livrar das atenções daquele animal idiota, não constituía prova de paixão cega. Ela era acessível.
Seus bigodes buliram. Havia alguns instantes que Ricardo olhava para uma porta fechada. Decidiu-se a espreitar o interior daquele outro quarto, onde talvez encontrasse algo mais instrutivo do que a maldita livralhada. Ao atravessar a peça dizia temerariamente de si para si:
— Se o desgraçado entrar de repente e começar a fazer encrenca, estripo-o duma vez e acabou-se!
Pegou o trinco, e a porta, desaferrolhada, acompanhou o movimento da mão. Antes de abri-la aguçou novamente o ouvido. Sentiu que em torno o silêncio era completo, sem a menor falha.
A necessidade de ser prudente exasperara-lhe os instintos de ferocidade e, como sempre acontecia em tais ocasiões ele sentiu o contato físico da faca amarrada à sua perna. Puxou a porta com uma curiosidade brutal. Ela abriu-se sem que um só gonzo rangesse, sem que a folha roçasse no assoalho, sem o mais leve ruído, e Ricardo encontrou-se de frente com um anteparo de pano azul opaco, que parecia sarja. Era uma cortina que pendia sobre a face interna da porta, Como era bastante longa e pesada, permanecera imóvel.
Uma cortina! Esse obstáculo imprevisto à sua curiosidade arrefeceu-lhe a brusquidão do ímpeto. Não afastou o pano com um gesto impaciente. Limitou-se a olhá-lo de perto, Como se fosse preciso examinar a fibra do tecido antes de lhe tocar com a mão. Nesse intervalo de hesitação pareceu-lhe perceber uma falha na perfeição de silêncio, o mais ligeiro sussurro possível, que o seu ouvido apanhou e imediatamente tornou a perder, no esforço consciente de escutar. Não! Tudo continuava quieto dentro e fora da casa; apenas a sensação de estar só o tinha abandonado.
Quando estendeu a mão para as dobras imóveis do pano, fê-lo com extrema cautela, e somente para afastar um pouco a cortina e espreitar pela fresta. Houve um instante de completa: imobilidade, após o que, sem que nenhum outro músculo do seu corpo se mexesse, a cabeça de Ricardo tornou a recuar e o seu braço descaiu devagar ao longo do corpo. Achava-se ali dentro uma mulher. Aquela mesma mulher! Sob os reflexos da luz exterior, sua figura ensombreada parecia tomar proporções singularmente grandes na outra extremidade daquele quarto comprido e estreito. Estava penteando o cabelo, de costas para a porta, com os braços nus alçados. Um deles luzia com uma alvura de pérola; o outro destacava em negro a sua forma perfeita contra o quadrado da janela aberta e será cortinas. Ali estava, trançando com os dedos os cabelos pretos, em perfeita inconsciência, exposta, indefesa... e tentadora!
Ricardo recuou um pé e comprimiu os flancos com os cotovelos. O peito lhe começou a arfar convulsivamente, como numa luta ou numa corrida. Seu corpo oscilava ligeiramente para diante e para trás. Já não se dominava: seus impulsos naturais tinham de encontrar vazão. Não era mais possível conter o salto da fera. Violar ou matar, tudo lhe era o mesmo, desde que com esse ato libertasse a alma selvagem tanto tempo encadeada. Após lançar um olhar para trás por cima do ombro — cautela que, segundo os caçadores, nenhum leão ou tigre se esquece de tomar antes de se lançar à carga — Ricardo arremeteu de cabeça baixa direito à cortina. O pano, violentamente deslocado por esse ímpeto furioso, voltou lentamente às suas dobras verticais, sem um tremor, no ar parado e quente.