Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 15 de 40

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Vitória

Capítulo VII

— Um ladrão vulgar!

Schomberg mordeu a língua tarde demais, e acordou de todo vendo Ricardo retrair os lábios numa careta felina. Mas o companheiro de “Mr. Jones-simplesmente” não modificou a sua atitude confortável e palreira.

— Sebo! E se ele quisesse recuperar o seu dinheiro, como faz qualquer vendeiro, taverneiro ou escrevinhador? Faça-se ideia, um mequetrefe como você dando opiniões sobre um cavalheiro! Um cavalheiro não se pode aquilatar assim levianamente. Até eu mesmo, às vezes, não consigo entendê-lo. Por exemplo, aquela noite, ele não fez mais que acenar-me com o dedo. O capitão, surpreendido, fez ponto na sua tagarelice imbecil.

“— Hein? O que é isso? — perguntou ele.

“O que era aquilo! Era ele que escapava de ir para o outro mundo, nem mais nem menos!

— Oh, nada, nada — diz o meu cavalheiro. — O senhor tem absoluta razão. Um tronco... um simples tronco...

“Ah, ah! Salvo da morte, sem exagero, porque se tivesse continuado ainda muito tempo a. discutir estupidamente seria preciso desembaraçar-nos dele. Eu mal podia conter-me, pensando nos minutos preciosos que estávamos perdendo. Seja como for, o seu anjo da guarda inspirou-lhe a ideia de fechar o bico e voltar para a cama. Eu estava maluco por causa do tempo perdido.

“— Por que o senhor não me deixou sentar-lhe uma paulada na caixa da asneira? — perguntei.

.— Nada de ferocidades, nada de ferocidades — diz ele, levantando o dedo para mim com toda a calma.

“Não se pode saber como procede um cavalheiro num caso desses. Eles não perdem o sangue frio. Seria má educação. Você nunca há de ver um cavalheiro perder a calma... pelo menos na frente dos outros. À ferocidade tão pouco é de bom gosto... isto eu acabei por aprender, com outras coisas mais. Estou tão bem treinado que você não poderia adivinhar pela minha cara se eu tivesse a intenção de estripá-lo agora mesmo — e, claro, posso fazê-lo num abrir e fechar de olhos. Carrego uma faca na perna da calça.”

— Não! — exclamou Schomberg incrédulo.

Com a rapidez do relâmpago, o sr. Ricardo deixou a postura indolente, curvou-se e pôs a arma à mostra com um puxão na perna esquerda da calça. Schomberg vislumbrou-a um segundo, presa por uma correia ao membro cabeludo. O sr. Ricardo, erguendo-se num salto, bateu com o pé para fazer descer novamente a perna da calça e voltou à sua atitude descuidada, apoiando um cotovelo à mesa.

— O sistema é muito mais cômodo do que lhe parece — continuou ele, fitando com expressão abstrata os olhos arregalados de Schomberg. — Suponha que durante uma partida surja um pequeno desentendimento. Você se abaixa para apanhar uma carta que caiu no chão, e quando se levanta de novo está com a faca na mão, pronto para cortar, ou então enfiada na manga à espera da primeira oportunidade. Ou então mete-se em baixo da mesa, quando vê que vai correr bala. Você não faz ideia do estrago que pode fazer um sujeito com uma faca embaixo duma mesa, nos atravessados de maus bofes que querem encrencar, antes que eles percebam do que se trata e deem sebo às canelas... aqueles que têm tempo para isso, bem entendido.

O róseo das faces de Schomberg, na raiz da sua barba castanha, empalideceu visivelmente. Ricardo teve um risinho gutural.

Mas nada de ferocidades, nada de ferocidades! Os cavalheiros é que sabem. De que serve enfurecer-se um homem? E nada de fugir às contingências, tão pouco. Um cavalheiro nunca faz isso. O que eu aprendo nunca mais esqueço, Ah! Nós temos jogado nas planícies, com aqueles malditos vaqueiros, nas fazendas; jogo limpo, note bem... e uma vez sim outra não eles acabam armando briga para nos tomar os nossos ganhos. Temos jogado nas montanhas, nos Vales e na praia, e em alto-mar... quase sempre jogo limpo. Em geral não dá mau resultado. Começamos na Nicarágua, depois de deixar e escuna e a tal expedição idiota. No cofre do capitão havia cento e vinte e sete libras e alguns dólares mexicanos. Não era lá coisa para se quebrar a cabeça dum homem, devo confessar; mas que o capitão escapou pela tangente, o próprio patrão não podia negá-lo.

“— O senhor quer dar-me a entender que lhe importa alguma coisa o haver uma vida a mais ou a menos neste mundo? — perguntei-lhe algumas horas depois de termos deixado a escuna.

“— Claro que não — responde ele.

“— Então por que não me deixou fazer aquilo?

“— Há um modo correto de fazer as coisas. Você terá de aprender isto. Deve-se também evitar todo esforço inútil... quando não for senão a bem da estética.

“Um modo de falar próprio de um cavalheiro, não resta dúvida!

“Ao nascer do sol metemo-nos pela embocadura de um regato, afim de nos escondermos no caso que os caçadores de tesouro se lembrassem de caçar também a nós. E que me apertem o gasnete se não o fizeram! Vimos a escuna ao largo, velejando para sotavento, sem dúvida alguma com dez pares de binóculos a varrer o mar por todos os lados. Aconselhei ao patrão que lhes desse tempo para se porem a andar novamente, antes de cairmos para o limpo. E assim ficamos uns dez dias à beira do regato, perfeitamente a gosto. No sétimo dia tivemos de matar um homem, o irmão desse Pedro que anda conosco. Eram, de fato, caçadores de jacarés. Fomos morar na cabana deles, Nem o patrão nem eu sabíamos hablar español muito bem naquela época. Areia seca, boa sombra, ótimas redes, peixe fresco, jogo animado, tudo como se queria. O patrão pagou-lhes alguns dólares de entrada; mas era o mesmo que morar com um par de macacos selvagens. Pouco depois reparamos que eles conversavam muito. Tinham bispado a caixa do dinheiro, as maletas de couro e a minha mala — linda presa! Deviam ter estado a dizer um ao outro:

“— Não é provável que alguém venha algum dia procurar esses dois homens, que parecem ter caído da lua. Vamos degolá-los.

“Ora se não! Claro como água. Não me era preciso espiar um deles, a quem vi afiar um enorme facão atrás dumas macegas, olhando ao mesmo tempo para os lados com aqueles olhos de fera, para saber o que estavam preparando. Pedro estava junto do irmão, experimentando o fio de outro facão. Julgavam-nos na outra margem do rio, a vigiar a escuna, como costumávamos fazer durante o dia. Não que esperássemos avistar a escuna, mas sempre era bom ter certeza; além disso, não fazia tanto calor fora do mato, no sopro da brisa. A verdade é que o patrão estava lá, confortavelmente deitado em cima dum cobertor, num lugar de onde podia observar o largo, mas eu tinha vindo à cabana buscar um naco de fumo na minha mala. Ainda não me tinha desfeito desse costume, e só me sentia contente quando tinha nas bochechas um naco do tamanho de um punho de criança.”

A esta comparação canibalística Schomberg murmurou em voz fraca, com engulho: “Acabe com isso!” Ricardo aprumou-se na cadeira e olhou com satisfação as suas pernas estendidas.

— Em geral tenho a pisada bastante leve — prosseguiu.

— Acho até que seria capaz de botar uma pitada de sal na cauda dum pardal. Seja como for, eles não me ouviram. Espreitei os dois brutos, escuros e cabeludos, a menos de dez metros de distância. Toda a sua roupa consistia em calça branca de brim arregaçada até a coxa. Não se diziam uma palavra. Antônio estava de cócoras sobre as grossas barrigas das pernas, ocupado a amolar a faca numa pedra chata; Pedro, encostado a uma árvore pequena, passava o polegar no gume do seu facão. Retirei-me mais silenciosamente que um rato, pode crer.

“Naquela hora não disse nada ao patrão. Estava apoiado sobre o cotovelo, em cima do cobertor, e não parecia disposto a ouvir nada. Ele é assim: tão gentil às vezes que se diria ser capaz de comer na mão da gente, e outras vezes tratando a gente com a maior dureza — mas sempre calmo. Um cavalheiro perfeito, digo-lhe. Não o importunei então; mas o que não podia era esquecer aqueles dois sujeitos, tão ocupados com as suas facas. Naquela ocasião só possuíamos um revólver entre os dois, a arma de seis tiros do patrão, mas que só tinha cinco câmaras carregadas. Não tínhamos outros cartuchos. Ele esquecera a caixa numa gaveta, no seu camarote. Situação delicada! Eu só levava comigo uma velha navalha, que para nada serviria num conflito sério.

“À noite sentamos os quatro em volta de uma pequena fogueira, diante do barracão onde dormíamos, comendo peixe assado em folhas de bananeira, e, em lugar de pão, inhames assados: o passadio de costume. O patrão e eu estávamos de um lado e aquelas duas gracinhas do outro, com as pernas cruzadas, rosnando de vez em quando um para o outro umas coisas que mal pareciam língua de gente, com os olhos cravados no chão. Havia três dias que eles não nos olhavam direito. Daí a pouco comecei a falar ao patrão, com calma, exatamente como lhe estou falando agora, com um jeito descuidado, e contei-lhe o que tinha visto. Ele continuou a cortar pedaços de peixe e a comê-los com toda a pachorra. É um gosto tratar com um cavalheiro. Não olhou nem uma só vez para os dois sujeitos.

“— E agora — disse eu, bocejando para despistar, — teremos de montar guarda de noite, por turnos, e trazer os olhos abertos o dia inteiro, também, para que eles não nos saltem em cima quando menos esperarmos.

“— Isto é perfeitamente insuportável — diz o patrão. — E você sem arma de espécie alguma!

u— Pretendo andar sempre junto do senhor, daqui por diante, se isso não o incomoda — digo eu.

“Ele não fez mais que um ligeiro sinal com a cabeça, limpou os dedos na folha de bananeira, levou a mão atrás como para se por em pé, sacou o revólver de baixo do casaco e meteu uma bala bem no coração do sr. Antônio. Está vendo o que é lidar com um cavalheiro? Nada de trapalhada, e tudo feito sem hesitação. Mas ele bem podia ter-me piscado o olho, ou coisa parecida. Dei um pulo de quase um metro de altura. Medo não é bem a palavra! Não sabia sequer quem tinha atirado. O silêncio era tão grande que o estampido me pareceu o barulho mais forte que já ouvi na minha vida. O digno Antônio caiu para a frente — sempre caem para a frente, na direção do tiro; você já deve ter reparado nisso. Pois é, caiu para a frente, por cima das cinzas, e todo aquele cabelo que tinha na cara e na cabeça pegou fogo como pólvora. Devido à graxa, imagino: eles viviam raspando o sebo daqueles couros de jacaré...

— Escute — exclamou Schomberg com violência, como se tentasse romper umas peias invisíveis, — você quer dizer que tudo isso aconteceu, mesmo?

— Não — respondeu Ricardo tranquilamente. — Estou inventando tudo enquanto falo, só para entretê-lo nesta tarde tão quente. De modo que ele caiu com as ventas nas brasas, e o belo Pedro e eu saltamos em pé ao mesmo tempo, como dois diabinhos de caixa de surpresa. O bruto faz menção de raspar-se, olhando por cima do ombro, e eu, mal sabendo o que fazia, salto-lhe para as costas. Tive a presença de espírito de segurá-lo logo pelo pescoço, e por sinal foi a custo que pude juntar os dedos das duas mãos. Você já viu o pescoço do menino, hein? Duro como ferro, garanto-lhe! Fomos os dois ao chão. Ao ver isso, o patrão meteu o revólver no bolso.

“— Amarre as pernas dele, patrão — berrei eu. — Estou tentando esganá-lo.

“Havia por ali uma porção de cordas de embira. Dei um último apertão ao homem e levantei-me.

“— Eu podia ter acertado uma bala em você — diz o patrão, muito preocupado.

“— Mas está satisfeito por ter poupado um cartucho, patrão — respondo eu.

“Isso graças ao meu pulo. Seria um desastre deixar o homem escapar assim no escuro, para depois nos andar rondando entre as ervas, talvez, com a espingarda de pederneira, toda enferrujada, que eles tinham. O patrão reconheceu que a ideia do pulo tinha sido boa.

“— Mas não está morto — disse ele, curvando-se sobre o homem.

“Seria o mesmo que querer estrangular um boi. Amarramos depressa os cotovelos dele nas costas e, antes que ele voltasse a si, nós o arrastamos para baixo de uma árvore pequena, sentamos o homem e o amarramos à árvore, não pela cintura mas pelo pescoço: umas vinte voltas de corda em volta da garganta e da árvore, rematadas com um nó duplo, debaixo da orelha. Em seguida fomos atender o digno Antônio, cuja cara assava nas brasas, exalando forte cheiro. Nós o levamos rolando para o regato, e deixamos o resto por conta dos jacarés.

“Eu estava cansado. Aquela pequena refrega me tinha tirado as forças que era um horror. O patrão não ficou com um fio de cabelo fora do lugar. É aí que um cavalheiro leva vantagem sobre a gente. Não se excita. Nenhum cavalheiro se excita jamais... ou, pelo menos, é muito raro que isso aconteça. Adormeci num instante e deixei-o fumando junto da fogueira que eu tinha feito, com a sua manta de viagem em roda das pernas, tão calmo como se estivesse num vagão de primeira classe. Apenas trocamos umas dez palavras depois que tudo acabou, e desde aquele dia nunca mais tornamos a falar no assunto. Eu julgaria que ele tinha esquecido, se não houvesse aludido a isso no outro dia, quando falava com você... a propósito de Pedro, bem sabe.

“O que ele lhe disse o surpreendeu, não foi? É por isso que lhe estou contando como ele veio a nos acompanhar, como uma espécie de cão... muito mais útil que um cão, todavia. Já o viu trotando por aí com as bandejas? Pois esse homem é capaz de derrubar um boi com um murro, e com a mesma destreza, a uma ordem do patrão. E como gosta dele! Mais que qualquer cão gosta de um homem, palavra!”

Schomberg enfunou o peito.

— Ah, isto é uma das coisas de que queria falar com Mr. Jones — disse ele. — É desagradável andar esse sujeito ai pela casa tão cedo. Fica sentado horas inteiras na escada dos fundos, assustando essa gente, e o serviço do hotel sofre com isso. Os chineses...

Ricardo meneou a cabeça afirmativamente e ergueu a mão.

— A primeira vez que eu o vi, era capaz de assustar um urso, quanto mais um chinês. Agora. está relativamente civilizado. Pois naquela manhã, a primeira coisa que vi quando abri os olhos foi ele, sentado junto da árvore a que estava amarrado pelo pescoço. Piscava os olhos. Passamos o dia observando o mar, e chegamos à avistar a escuna que velejava para barlavento, sinal que tinham desistido de nos procurar. Bom! Na outra manhã, quando o dia clareou, espreitei o nosso Pedro. Não estava mais piscando. Revirava os olhos, que num instante apareciam completamente brancos e logo depois pretos, e deixava pender um metro de língua. Estar assim estreitamente amarrado pelo pescoço era coisa capaz de domar o próprio diabo... com o tempo... com o tempo, note bem! Não sei mesmo se um autêntico cavalheiro teria ânimo para ficar firme até o fim. Daí a pouco fomos tratar de aprontar o bote. Eu estava ocupado em armar o mastro, quando o patrão observou:

“— Parece-me que ele quer dizer alguma coisa.

“Havia já algum tempo que eu o ouvia regougar, mas não queria prestar atenção. Quando o patrão falou deixei o bote e caminhei para ele, levando um pouco d’água. Tinha os olhos vermelhos... vermelhos, pretos e quase saltados para fora da cabeça. Bebeu toda a água que lhe dei, mas o que tinha para dizer era pouca coisa. Voltei para junto do patrão.

“— Quer que lhe metamos uma bala na cabeça antes de irmos embora — disse eu. O patrão não ficou nada contente.

“— Ah, nem se deve pensar nisso — respondeu.

“Tinha vazão. Só restavam quatro balas, e tínhamos noventa milhas de costa perigosa que percorrer, antes de alcançarmos um lugar onde fosse possível comprar balas de revólver.

— Em todo caso — digo eu, — ele pede por favor que o matemos de um modo qualquer.

“E continuei a armar o mastro do bote. Não me apetecia a ideia de esfaquear um homem amarrado de mãos e pés, e além do mais, atado pelo pescoço. Já então eu tinha uma faca, a faca do digno Antônio. E é esta mesma faca que trago aqui.”

Ricardo deu uma palmada sonora na perna.

— A primeira presa que fiz no meu novo gênero de vida — prosseguiu com áspera jovialidade. — O truque de carregá-la na perna, vim a aprendê-lo depois. Naquele dia levava-a atravessada na cinta. Não, o serviço não era muito do meu gosto; mas quando a gente trabalha para um cavalheiro, um autêntico cavalheiro, pode-se ficar certo de que ele saberá adivinhar os nossos sentimentos. De repente diz o patrão:

“— Isso até pode ser considerado como seu direito — percebe-se aí o cavalheiro a falar, hein? — mas que acha você de o levarmos conosco no bote?

“E o patrão começou a alegar que o miserável nos seria útil na viagem porque conhecia a costa. Podíamos desembaraçar-nos dele antes de chegarmos ao primeiro lugar um pouco civilizado. Não foi preciso muita conversa para me convencer. Saí de dentro do bote.

“— Está hem, mas o homem se deixará governar, patrão?

“— Oh, sim. Está domado. Vá soltá-lo. Eu assumo a responsabilidade.

“— Perfeitamente, patrão.

“Ele me viu aproximar caminhando depressa, com a faca do irmão... Eu nem pensava no aspecto que a coisa podia ter para ele, você sabe... pois caramba, quase morreu! Arregalou os olhos como um novilho louco de medo e começou a suar e a retorcer-se todo que era uma coisa mesmo de pasmar. Fiquei tão surpreendido que parei para olhá-lo. As gotas de suor caíam-lhe pelas sobrancelhas, corriam pela barba, pingavam da ponta do nariz... e ele estertorava. Então lembrou-me que o homem não podia ler no meu pensamento. Fosse por favor ou fosse seu direito, chegada a hora não queria morrer, pelo menos daquele jeito. Quando o rodeei para alcançar o nó ele soltou uma espécie de mugido em voz baixa. Com certeza pensou que eu ia apunhalá-lo pelas costas. Cortei todas as voltas de uma só passada, e ele caiu de lado no chão e pôs-se a espernear. Como me ri! Não sei o que havia de engraçado naquilo, mas eu chegava a dar urros! O meu riso e os corcovos do sujeito dificultaram o serviço. Logo que passou a dormência dos membros ele correu para o banco de areia, onde o patrão tinha ficado, aproximou-se dele de gatinhas e abraçou-lhe as pernas. Que gratidão, hein? Via-se que o perdão da vida lhe convinha perfeitamente. O patrão desprendeu as pernas com brandura e murmurou para mim:

“— Vamos largar. Meta-o no bote.

“Não foi difícil — continuou Ricardo depois de considerar Schomberg um instante com olhar fixo. — Ele entrou no bote de muito boa vontade, e... aqui está conosco. Deixar-se-ia cortar em picadinho (e sorrindo, note bem; sorrindo!) pelo patrão. Não sei se faria o mesmo por mim; mas se não chegar até lá andará perto. Fui eu que o atei e desatai, mas ele percebeu quem era que mandava. Além disso, conhece um cavalheiro. Até um cão conhece um cavalheiro... qualquer cão. São só certos estrangeiros que não conhecem; e a esses ninguém pode ensinar.”

— Então você quer dizer — perguntou Schomberg, desdenhando o que podia haver de agastador para ele na enfase dada a esta observação final, — quer dizer que abandonou um emprego seguro, com bom salário, por uma vida como essa?

— Aí está! — tornou Ricardo tranquilamente. — É justamente o que diria um homem da sua espécie. Tal é o seu conformismo! Eu acompanho um cavalheiro, e isso não é a mesma coisa que servir um patrão. Eles nos pagam salário como quem atira um osso a um cão, e ainda esperam que nós lhes fiquemos agradecidos. É pior que a escravidão. Ninguém espera que um escravo comprado com dinheiro fique agradecido. E vender o seu trabalho, o que é senão vender a si mesmo? Temos tantos dias de vida, e vendemo-los um depois do outro. Que tal? Quem me poderá pagar bastante pela minha vida? Sim! Mas eles atiram-nos o salário semanal e ainda esperam que a gente diga “obrigado!” antes de apanhá-lo.

Resmoneou algumas pragas dirigidas, pelos modos, aos patrões em geral, e de repente assanhou-se:

— Para o inferno o trabalho! Eu não sou um cachorro que caminha nas patas de trás para ganhar um osso; sou um homem que acompanha um cavalheiro, Há aí uma diferença que você nunca há de compreender, sr. Pacato.

Bocejou levemente. Schomberg, que conservava uma rigidez militar reforçada por um ligeiro franzir de cenho, deixara os seus pensamentos divagar. Estava ocupado a desenhar mentalmente a imagem de uma moça... uma moça ausente, desaparecida, que lhe haviam roubado. Começou a se enfurecer. Ali estava aquele patife a encará-lo com insolência. Se a moça não lhe tivesse sido vergonhosamente surripiada, não permitiria que ninguém lhe dirigisse olhares insolentes. Pelo sim, pelo não, sentava um murro nos olhos do biltre. Depois disso, dava um pontapé no outro sem hesitar. Via-se a fazê-lo; e, ao impulso dessa visão gloriosa, a perna e o braço direito de Schomberg moveram-se convulsivamente.

Neste momento ele saiu da sua cisma repentina para reparar alarmado na lúcida curiosidade do olhar de Ricardo.

— De modo que o senhor anda assim pelo mundo, jogando? — observou casualmente, para ocultar sua confusão. Mas o olhar de Ricardo não mudou, e ele continuou em tom vago:

— Por aqui, por aí e por toda parte. — Cobrou ânimo e perfilou os ombros. — Não é um gênero de existência muito precário? — disse em tom firme,

A palavra precário pareceu produzir efeito, pois os olhos de Ricardo perderam a sua expressão de interesse perigoso.

— Não, não é tão má assim — tornou ele com indiferença. — Sou de opinião que os homens jogarão enquanto tiverem um níquel para apostar numa carta. O jogo? O jogo é a natureza. E a própria vida, o que é? Nunca se sabe que carta vai sair. O pior de tudo é que jamais se pode dizer com exatidão que espécie de cartas temos na mão. Qual é o trunfo? Eis o problema. Percebe? Todo o homem jogará se lhe derem um ensejo, a troco de tudo e de qualquer coisa. Você também...

— Há vinte anos já que não toco numa carta — interrompeu Schomberg em tom austero.

— Pois se ganhasse a vida desse modo não seria pior do que é, vendendo bebida — detestável cerveja e péssimas aguardentes, umas peçonhas capazes de fazer um bode velho fugir aos berros se lhe empinassem um copo goela abaixo. Uf! Não posso suportar o maldito álcool. Nunca pude. Basta sentir o cheiro de conhaque num copo para ter náuseas. Sempre fui assim. Se todos fossem como eu, os fabricantes de bebidas estariam pedindo esmola. Você deve achar isto esquisito num homem, hein?

Schomberg esboçou um vago gesto de tolerância. Ricardo endireitou-se na cadeira e tornou a apoiar o cotovelo a mesa.

— Agora, devo confessar que gosto do sirop francês. Em Saigon é que eles são bons. Vejo que você tem aí. Diabos me levem se não estou ficando com a garganta seca, de tanto conversar. Venha de lá, sr. Schomberg, seja hospitaleiro, como diz o patrão.

Schomberg ergueu-se e caminhou com dignidade para o balcão. Seus passos ecoaram fortes no assoalho polido. Baixou da prateleira uma garrafa rotulada Sirop de Groseille. Os pequenos sons que fez ouvir, o retinir dos vidros, o gorgolejo do liquido, o espocar da rolha da garrafa de soda, tinham um realce sobrenatural. Voltou com um copo róseo e brilhante. O sr. Ricardo lhe havia acompanhado os movimentos com olhares oblíquos, expectantes e sonsos, como um gato que vê encher um pires de leite; e o ruído satisfeito que emitiu depois de beber podia considerar-se uma forma de ronrom felino ligeiramente modificado, gutural e suave. Produziu uma impressão desagradável em Schomberg, como um novo exemplo do que havia de inumano naqueles dois homens. E nisto residia a dificuldade de tratar com eles. Um fantasma, um gato e um macaco: eis um lindo trio com que discutir um homem, refletiu com um íntimo estremecimento. Schomberg estava escravizado, pode-se dizer, pela sua imaginação, e o seu entendimento era incapaz de reagir contra essa ideia fantasista que fazia dos seus hóspedes. Todavia, não se tratava somente das aparências. A moral de Mr. Ricardo lhe parecia semelhar-se muito com a moral dum gato. Para dizer a verdade, semelhava-se demais. Que espécie de argumento podia um simples homem apresentar a um... ou mesmo a um fantasma? Quanto ao que pudesse ser a moral dum fantasma, Schomberg não fazia a menor ideia. Qualquer coisa de horrível, sem dúvida. Não haveria nela, certamente, lugar para a compaixão. Quanto ao macaco... toda a gente sabia o que era um macaco. Não tinha piorai. Um caso perdido.

Exteriormente, contudo, depois de apanhar com os dedos grossos, um dos quais era enfeitado por um anel de ouro, o charuto que largara para preparar o refresco, Schomberg fumou com uma compostura sorumbática. Diante dele, Ricardo pestanejou descansadamente por algum tempo e acabou por fechar de todo os olhos, com a placidez de um gato caseiro a dormitar no tapete da lareira. Passado um momento tomou a arregalá-los e pareceu surpreendido de ver Schomberg ainda ali.

— Está tendo um dia bastante morto, hein? — observou. — Mas a verdade e que este raio de cidade também parece um cemitério. Nunca tinha visto uma gente tão desanimada no jogo. Às onze horas começaram a falar em ir embora. Que se passa com eles? Querem deitar cedo ou o quê?

— Imagino que os senhores não perdem nenhuma fortuna com isso — tornou Schomberg com uma expressão de sarcasmo sombrio.

— Não — reconheceu Ricardo, com uma careta que lhe esgaçou a boca de orelha a orelha, fazendo luzir subitamente os seus dentes alvos. — Mas você compreende: quando eu começo a jogar sou capaz de fazê-lo por nozes, por amendoim torrado, por qualquer bagatela. Jogaria até pelas almas deles. Mas estes holandeses não valem nada. Parece que nunca chegam a esquentar, ganhem ou percam. Experimentei-os, por sinal, dos dois modos. Que o diabo leve esses pepinos animados, esses moluscos sem sangue!

— E se acontecesse alguma coisa fora das regras, eles os meteriam na cadeia com a mesma calma, você e o seu cavalheiro lá em cima — rosnou Schomberg de mau modo.

— Realmente! — disse Ricardo devagar, medindo Schomberg com os olhos. — E quanto a você?

— Você fala muito grosso — explodiu o hoteleiro. — Fala em escumar o mundo inteiro, em fazer grandes coisas, em pegar a fortuna pelo cachaço, e agarra-se a esta miserável profissão!

— É verdade que o ofício não é muito rendoso — confessou Ricardo inesperadamente.

Schomberg estava rubro de audácia.

— Mesquinho, é como eu o qualifico — proferiu.

— Assim parece. Não lhe posso dar outro qualificativo. — Ricardo parecia desejoso de congraçar o hoteleiro. — Eu mesmo teria vergonha disso, mas você percebe, o padrão é sujeito a acessos...

Acessos! — exclamou Schomberg, em voz baixa contudo. — Não diga! Exultava intimamente, como se esta revelação atenuasse a dificuldade da situação. — Acessos! Isso é grave, não? Você devia pô-lo no hospital... um lugar delicioso.

Ricardo inclinou de leve a cabeça, com um ligeiro sorriso.

— Bastante grave. Verdadeiros acessos de preguiça, é como lhes chamo. De vez em quando ele se me afunda assim na cama, e não há nada que o faça levantar. Se você pensa que eu gosto disso está muito enganado. Em geral, consigo persuadi-lo. Sei tratar com um cavalheiro. Não sou um escravo que só pense em ganhar o seu pão. Mas quando ele diz “Martin, estou enfastiado”, então cautela! Não há nada que fazer se não calar o bico, com o demônio!

Schomberg, muito desalentado, ouvira boquiaberto.

— Qual é a causa disso? — perguntou. — Por que é ele assim? Não compreendo.

— Quanto a mim, creio que sei — disse Ricardo. — Um cavalheiro, você percebe, não e uma pessoa simples como você ou eu; e não é tão fácil de conduzir tão pouco. Se eu tivesse ao menos alguma coisa com que o empurrar!

— Empurrar? Que quer dizer com isso? — grunhiu Schomberg desesperançado.

Esta obtusidade impacientou Ricardo.

— Você não entende língua de gente? Olhe aqui! Eu não poderia mover de uma só polegada essa mesa de bilhar ainda que lhe falasse até se acabar o mundo, não é mesmo? Pois o patrão também é assim quando tem os seus acessos. Agarra tédio a tudo. Nada vale a pena, nada é bastante bom para ele, isso se vê logo. Mas se eu visse aí no chão uma barra de cabrestante, em dois tempos movia essa sua mesa de bilhar o quanto quisesse. Aí está.

Ergueu-se da cadeira sem ruído, ágil e furtivo, com curiosos movimentos laterais da cabeça e alongamentos inesperados do corpo maciço, relanceou a porta com o rabo do olho, e finalmente encostou-se à mesa, cruzando os braços confortavelmente sobre o peito, numa atitude completamente humana.

— É outra particularidade pela qual se pode conhecer um cavalheiro: as venetas. Um cavalheiro, como um vagabundo das estradas, não tem que prestar contas a ninguém. Não precisa acertar o passo com os outros. O patrão ficou assim uma vez, num miserável pueblo mexicano, no meio dumas montanhas que pareciam o fim do mundo. Passava o dia inteiro deitado num quarto escuro...

— Bêbado? — Tendo deixado escapar inadvertidamente esta palavra, Schomberg sentiu medo. Mas o dedicado secretário pareceu achar natural.

— Não, nunca dá para beber quando tem esses acessos. Ficava simplesmente estirado num colchão, enquanto um rapaz esfarrapado que ele tinha apanhado na rua sentava-se no pátio, de pernas ao léu, entre dois aloendros junto à porta do quarto, dedilhando uma guitarra e cantando tristes para ele, da manhã à noite. Tristes, você sabe: dum, dum, dum, au-hu, cru-ia!

Schomberg ergueu as mãos com desespero. Este tributo pareceu lisonjear Ricardo, cuja boca teve um esgar sombrio.

— Assim mesmo... capaz de dar cólicas a um avestruz, hein? Pois havia lá uma cozinheira que me queria bem, uma negra velha e gorda, de óculos. Eu ia esconder-me na cozinha e dar-lhe corda, para que me fizesse dulces (doces, você sabe, quase todos eles preparados com ovos e açúcar) para matar o tempo. Eu sou o mesmo que uma criança por doces. E por falar nisso, por que nunca serve um pudim na sua mesa, sr. Schomberg? Só frutas, de manhã, ao almoço e ao jantar. Que coisa enjoativa! Pensa que a gente é abelha?

Schomberg não fez caso do seu tom ofendido.

— E quanto tempo durou esse acesso, como você chama? — perguntou ansiosamente.

— Semanas, meses, anos, séculos, me parecia — volveu o sr. Ricardo com certo sentimento na voz. — De noite o patrão vinha para a sala e seringava a alma jogando com o juiz do lugar, um homenzinho pardo de suíças pretas — écarté, bem sabe, um jogo francês rápido, por tostões. O comandante, um malandro zarolho, meio índio, e eu, tínhamos de olhar o jogo em pé e apostar nas cartas deles. Era horrível!

— Horrível! — ecoou Schomberg com uma intonação teutônica e gutural de desespero. — Olhe aqui, eu vou precisar dos seus quartos.

— Claro. Há algum tempo que venho esperando por isto -— tornou Ricardo com indiferença.

— Estava louco quando lhes dei ouvido. Isto tem de acabar!

— Acho que ainda está louco — disse Ricardo, sem descruzar sequer os braços ou mudar de posição um centímetro. Abaixou a voz para ajuntar: — E se eu desconfiasse que você tivesse ido à polícia, mandava Pedro pegá-lo pela cintura e quebrar-lhe esse pescoço gordo puxando a cabeça para trás: crac! Vi-o fazer isso com um negrão metido a valente que estava floreando uma navalha na frente do patrão. Pode-se fazer. Ouve-se um ligeiro estalo, nada mais... e o homem cai no chão como um trapo mole.

Nem sequer a cabeça de Ricardo, levemente inclinada sobre o ombro esquerdo, se movera. Mas quando ele terminou, as suas iris verdoengas, que tinham estado fitas na porta, deslizaram para o canto dos olhos que ficava mais próximo de Schomberg e ali se quedaram com uma expressão modestamente voluptuosa.