Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 22 de 40

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Vitória

Capítulo VI

Heyst ficou assombrado. Olhando em redor de si, como a tomar a sala por testemunha desse despropósito, avistou Wang que se materializara na abertura da porta. A intrusão não podia ser mais surpreendente, tendo em vista a estrita regularidade com que o chinês se fazia visível. Primeiramente Heyst sentiu vontade de rir. Este retruque prático ao que acabara de afirmar, que nada lhes poderia perturbar a solidão, aliviou a tensão dos seus nervos. Sentia-se, além disso, um pouco vexado. O chinês guardava silêncio completo.

— Que é que você quer? — perguntou Heyst com rispidez.

— Bote no mar — disse Wang.

— Onde? Que quer você dizer? Um navio perdido nos estreitos?

Certa mudança sutil nas maneiras de Wang indicava que ele estava sem fôlego. Mas não arquejava, e sua voz era firme.

— Não... bote de remo.

Foi Heyst quem se surpreendeu e ergueu a voz.

— Malaios, hein?

Wang fez um leve aceno negativo com a cabeça.

— Estás ouvindo, Lena? — gritou Heyst. — Wang diz que há um bote à vista... perto, ao que parece. Onde está o bote, Wang?

— Dobrando o cabo — disse Wang, passando inesperadamente a falar malaio, em voz forte. — Homens brancos... três.

— Tão perto assim? — exclamou Heyst saindo para a varanda seguido de Wang, — Homens brancos? Impossível!

As sombras já se iam alongando sobre a clareira, O sol baixara muito, e um clarão rubro banhava a terra preta queimada, em frente do bangalô, avançando oblíquo pelo chão, entre os altos troncos retos, como mastros, das árvores que se elevavam a trinta metros ou mais, sem um só ramo. A erva crescida não deixava ver o pier. Ao longe, para a direita, avistava-se a cabana de Wang, ou antes o seu escuro teto de esteiras, acima da cerca de bambus que ocultava a vida privada da mulher alfuro. O chinês lançou um olhar rápido naquela direção. Após deter-se um momento na varanda, Heyst deu um passo para dentro da sala.

— Parecem ser homens brancos, Lena. Que estás fazendo?

— Estou lavando um pouco os olhos — disse a voz da moça, vinda do quarto interior.

— Ah, sim; está bem!

— Precisas de mim?

— Não. É melhor... Vou até o pier. Sim, é melhor que fiques. Que coisa extraordinária!

Ninguém poderia compreender tão bem como ele o quanto aquilo era extraordinário. Ia com a cabeça cheia de exclamações enquanto seus pés o levavam na direção do pier. Seguia os trilhos, escoltado por Wang.

— Onde estava você quando avistou o bote? -— perguntou voltando a cabeça por cima do ombro.

Wang explicou em malaio que tinha ido buscar carvão no monte junto à base do pier, quando, erguendo por acaso os olhos do chão, vira a embarcação; um bote de brancos, não uma canoa. Tinha boa vista. Enxergara o barco, com os homens remando. Neste ponto Wang fez um gesto especial diante dos olhos, como se o espetáculo os tivesse ferido. Voltara imediatamente a correr, para dar a notícia.

— Não haverá engano, hein? — disse Heyst continuando a caminhar. Na orla exterior do matagal estacou. Wang fez alto atrás dele, conservando-se entre as ervas até que a voz áspera do Número Um o chamou para fora. Obedeceu.

— Onde está esse bote? — perguntou Heyst com energia. — Diga-me: onde está ele?

Entre a ponta e o pier não se via absolutamente nada. Toda a Baía dos Diamantes era uma massa de sombra purpurina, lustrosa e vazia, enquanto ao largo o mar alto se estendia azul e opaco sob o sol. O olhar de Heyst varreu todo o horizonte até encontrar, ao longe, o cone escuro do vulcão com a sua tênue pluma de fumaça que engrossava e desaparecia perpetuamente, sem alterar a sua forma na ardente transparência da tarde.

— Esse camarada andou sonhando — resmungou ele de si para si.

Olhou fito para o chinês. Wang parecia petrificado. De repente, como se recebesse um choque, teve um arranco, atirou o braço apontando o dedo, e emitiu uns ruídos guturais para dizer que ali, ali, ali, tinha visto um bote.

Era estranhíssimo. Heyst pensou em alguma alucinação. Achava muito pouco provável; mas que um bote com três homens tivesse ido ao fundo entre a ponta e o pier, de um instante para outro, como uma pedra, sem deixar sequer um remo a boiar, era coisa ainda mais incrível. A hipótese de um bote fantasma teria mais visos de razão.

— Que diabo de coisa! — murmurou Heyst.

O mistério impressionava-o desagradavelmente. Ocorreu-lhe então uma explicação simples. Avançou às pressas pelo pier. O bote, se algum bote por ali passara afastando-se depois, poderia ser avistado da ponta do grande desembarcadouro,

Não se via nada. Heyst deixou os olhos vagar a esmo pela superfície do mar. Tão absorto estava na sua perplexidade que um som cavo, como de alguma coisa aos trambolhões dentro de um bote, com um entrechocar de remos e mastaréus, não conseguiu despertar-lhe a atenção no primeiro momento. Quando percebeu o significado daquilo não teve dificuldade em localizar o som. Vinha de baixo, de sob o pier!

Voltou correndo, e ao fim de uns doze metros parou e olhou para baixo. Deparou-se-lhe à vista a popa de um bote grande, que em sua maior parte lhe ficava oculto pelas tábuas do pier. Viu o dorso magro de um homem atirado sobre o timão, numa estranha e incômoda postura de pesar e abatimento. Outro homem, logo abaixo de Heyst, estava estatelado de costas, de um tolete ao outro, a metade do corpo para fora do banco traseiro, a cabeça mais baixa que os pés. Este segundo homem lançou para cima um olhar feroz e fez força para se levantar, mas parecia estar muito embriagado para consegui-lo. Na parte visível do bote se achava também uma mala de couro chata, sobre a qual se encolhiam, inertes, as compridas pernas do primeiro homem. Uma grande bilha de barro, desarrolhada, rolou debaixo do ébrio sobre os tábuas do fundo.

Heyst nunca experimentara tão grande assombro em sua vida. Contemplava, mudo, a estranha equipagem do bote. Ao primeiro olhar convencera-se de que esses homens não eram marinheiros. Vestiam o traje de linho branco próprio da civilização tropical. Mas Heyst não encontrava uma razão plausível para o fato de aparecerem eles ali, num bote. Isto não podia ter relação alguma com a civilização dos trópicos. Mais se parecia com um desses mitos correntes na Polinésia, mitos que falam em homens espantosos, de raça estranha, que às vezes vêm dar a uma ilha, deuses ou demônios, trazendo o bem ou o mal à população inocente — dádivas de coisas desconhecidas, de palavras nunca ouvidas.

Heyst reparou num capacete de cortiça que boiava junto a quilha do bote. Evidentemente, caíra da cabeça do homem atirado sobre o timão, com o crânio escuro e ossudo à mostra. Também um remo fora arrojado à água, provavelmente pelo bêbado, que ainda se debatia no meio dos bancos. Já então Heyst considerava a visita, não com surpresa, mas com a atenção concentrada que exige um problema difícil. Com um pé pousado no barrote longitudinal do pier, apoiando o braço ao joelho erguido, tomava inventário da cena. O bêbado caiu do banco, estatelou-se, e inopinadamente se põe em pé. Titubeou, tonto, abrindo os braços, e proferiu um “Olá!” rouco, em voz fraca e como que em sonhos. O seu rosto voltado para cima estava entumescido, vermelho, com a pele descarnada no nariz e nas faces. Seu olhar fixo era tresloucado. Heyst notou umas manchas de sangue seco que cobriam a frente do seu casaco branco sujo e também uma das mangas.

— Que é isso? Está ferido?

O outro baixou as olhos, cambaleou (tinha um pé dentro de um grande chapéu de cortiça) e, recobrando o equilíbrio, emitiu à maneira de riso um som aflitivo e discordante.

— O sangue... não é meu. A sede, isso é que é. Exausto, é o que é. Liquidado. Venha de beber, homem! Dê-nos água!

A sede vibrava no próprio tom das suas palavras, em que se alternavam um regougar entrecortado e um débil sonido gutural que mal alcançava o ouvido de Heyst. O homem do bote ergueu os braços pedindo que os ajudassem a subir para o pier, e sussurrou:

— Fiz força. Estou muito fraco, Levei um tombo.

Wang vinha vindo devagar pelo pier, atento, firmando a vista.

— Volte correndo e traga cá uma alavanca. Há uma no chão, perto do monte de carvão — gritou-lhe Heyst.

O homem que se pusera em pé no bote deixou-se cair sentado no banco. Um riso espasmódico e horrível brotou dos seus lábios túmidos.

— Alavanca? Para quê? — murmurou ele. E a cabeça descaiu-lhe lastimosamente sobre o peito.

Nesse meio tempo Heyst, como se tivesse esquecido o bote, pusera-se à bater com o pé numa grande torneira de latão que sobressaía das pranchas. Afim de prover os navios que vinham em busca de carvão e podiam também necessitar aguada, canalizara-se um regato no interior da ilha, e um cano de ferro trazia a água ao longo pier, até quase o ponto exato em que o bote dos desconhecidos viera dar entre os pilares. Terminava ali por uma ponta curva. Mas a torneira estava apertadíssima.

— Depressa! — bradou Heyst ao chinês, que vinha correndo com a alavanca na mão.

Arrebatou-a e, tomando o barrote longitudinal como ponto de apoio, virou a torneira com um poderoso impulso.

— Tomara que este cano não esteja entupido! — murmurou ansiosamente, de si para si.

Não estava, mas deu apenas um fio d’água, que logo se fez ouvir, quebrando-se na borda do bote e escorrendo em parte pelo costado. O som foi saudado com um grito inarticulado de selvagem alegria. Heyst ajoelhou no barrote e olhou para baixo. O homem que lhe tinha falado já abrira a boca sob o veio líquido e brilhante. A água escorria-lhe sobre os olhos e o nariz, gorgolejava pela garganta abaixo, alagava-lhe o queixo. Mas de súbito a obstrução que havia no cano cedeu, e um grosso jorro feriu-lhe o rosto. Num instante ficou, com os ombros encharcados, as abas do casaco empapadas. Todo ele gotejava. A água entrava-lhe nos bolsos, descia pelas pernas, metia-se pelos sapatos. Mas tinha segurado a ponta do cano com ambas as mãos e bebia, respingava, sufocava e bufava como um nadador. De súbito se fez ouvir um rugido surdo e estranho, Um ser pelado e escuro surdiu debaixo do pier num arremesso violento. Uma cabeça desgrenhada, com o ímpeto de uma bala de canhão, colheu o sedento pela ilharga e o fez soltar o cano, arrojando-o para a popa de todo o comprimento do meu corpo. O outro foi cair sobre as pernas dobradas do homem do timão, que a comoção no bote arrancara ao seu acabrunhamento, e que se sentara, calado, rígido, lembrando um cadáver. Seus olhos não eram mais que duas manchas negras e seus dentes brilhavam num sorriso de caveira entre os lábios retraídos, finos como folhas de pergaminho enegrecido que se houvessem colado às gengivas.

Os olhos de Heyst passaram deste personagem à criatura que tinha substituído o primeiro homem na extremidade do cano. Enormes patas escuras seguraram-no com ânsia selvagem. A cabeça enorme e hirsuta inclinou-se para trás, e no rosto coberto por uma grenha de pelos úmidos escancarou-se de través uma boca cheia de presas. A água encheu-a, transbordou às golfadas, escorreu pelas mandíbulas e pela garganta hirsuta, empapou o pelame escuro do enorme peito, coberto apenas por uma camisa de xadrez rasgada e arquejando convulsivamente sob a ação dos músculos maciços, que pareciam lavrados em mogno vermelho.

Tão logo o segundo homem recobrou o fôlego, que o Irresistível embate lhe fizera perder, ouviu-se na popa uma sucessão de pragas insensatas, proferidas em agudos gritos. Dobrando o cotovelo num ângulo rígido, o homem do timão levou a mão ao bolso de trás.

— Não atire, patrão! — berrou o segundo homem. — Espere! Deixe ver esse timão. Eu o ensino a comportar-se diante dum caballero!

Martin Ricardo floreou o pesado braço do timão, saltou para a frente com surpreendente vigor e descarregou o madeiro na cabeça de Pedro com um estrondo que ressoou por todos os ecos da Baía do Diamante Negro. Um fio escarlate mugiu no meio dos cabelos emaranhados; veios vermelhos tingiram a água que escorria por toda a cara do bruto, e o sangue pingou-lhe da cabeça em gotas rosadas. Mas ele não largou o cano, e só a um segundo golpe furioso suas patas cabeludas se abriram e o corpo, que se estorcia, aluiu molemente. Antes que tocasse nas tábuas do fundo, um tremendo pontapé que Ricardo lhe aplicou às costelas arremessou-o para a proa, fora da vista, e dali veio um baque pesado, um estardalhaço de vergas e um grunhido lastimoso. Ricardo curvou-se para olhar embaixo do pier.

— Ah, cão! Isto é para te mostrar teu lugar, bruto, selvagem, assassino! Renegado, ladrão de igreja! Na próxima vez te abro a carcaça da cabeça aos pés, comedor de carniça! Esclavo!

Recuou um pouco e se aprumou.

— Estava brincando — observou a Heyst, cujos olhos firmes o fitavam de cima. Correu depressa para a popa.

— Venha, patrão. É a sua vez. Eu não devia ter bebido primeiro. Esqueci, palavra! Mas sei que um cavalheiro como o senhor vai relevar isso. — Ricardo estendia a mão enquanto se desculpava. — Deixe que eu o ajude, patrão.

Mr. Jones ergueu devagar todo o seu corpo esguio, vacilou cambaleou e segurou o ombro de -Ricardo. O secretário conduziu-o ao cano, de onde borbotava um jacto claro de água, brilhando luminoso contra o fundo dos barrotes escuros e o crepúsculo que reinava sob o pier.

— Agarre, patrão — aconselhou Ricardo com solicitude. — Pronto?

Deu um passo atrás e, enquanto Mr. Jones se regalava com a abundância de água, dirigiu a Heyst uma espécie de discurso justificatório, cujo tom, refletindo os seus sentimentos, participava do ronrom e do bufo felino. Haviam remado trinta horas, explicou ele, e passado quarenta horas sem água. Apenas na noite anterior tinham lambido o orvalho dos toletes.

Ricardo não contou a Heyst como isso acontecera. Naquele momento não tinha nenhuma explicação preparada para o homem do pier, que ele adivinhava muito mais intrigado com a presença dos estranhos que com a situação dos mesmos.