Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 31 de 40

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Vitória

Capítulo V

Lena acordou de repente e correu os olhos pela alcova sem erguer a cabeça do travesseiro. Estava só. Levantou-se apressadamente, como para contrabalançar com a ação enérgica dos membros o horrível desfalecimento que sentia no coração, Mas esta sensação foi momentânea. Senhora de si pelo orgulho, pelo amor e pela necessidade, e também pela vaidade que uma mulher põe no sacrifício de si mesma, recebeu com um olhar claro e um sorriso a Heyst, que voltava do bangalô dos estranhos.

O sorriso foi retribuído por Heyst. Notando, porém, que ele evitava o seu olhar, Lena compôs os lábios e baixou os olhos. Por essa mesma razão apressou-se a lhe falar num tom de indiferença que assumiu sem esforço, como se desde a manhã daquele dia se houvesse tornado perita em simulações.

— Estiveste lá de novo?

— Estive. Achei que... Mas é melhor saberes primeiro que perdemos "Wang definitivamente.

Ela repetiu: “Definitivamente?” como se não tivesse compreendido.

— Para bem ou para mal... não saberia dizer-te qual dos dois. Ele despediu-se e foi embora.

— Mas já esperavas por isso, não é verdade?

Heyst sentou-se no lado oposto da mesa.

— Sim. Esperava por isso desde que descobri que ele tinha anexado o meu revólver, Ele afirma que não o tirou. Isso é natural. Um chinês não acredita em confessar, sob quaisquer circunstâncias. Negar todas as acusações é um princípio de sabedoria. Mas não esperava que eu lhe desse crédito. No fim ele foi um tanto enigmático, Lena. Surpreendeu-me.

Heyst fez uma pausa. A moça parecia absorta nos seus pensamentos.

— Ele me surpreendeu — repetiu Heyst. Lena notou a ansiedade da sua voz e voltou levemente a cabeça para olhá-lo por cima da mesa.

— Deve ter sido coisa importante para surpreender-te, a ti — disse ela. No fundo dos seus lábios entreabertos, como uma romã madura, luziram os dentes brancos.

— Foi uma simples palavra... e alguns gestos. Ele estava fazendo bastante ruído. Admira-me que não tenhas acordado. Que sono pesado tens! Escuta, estás te sentindo bem agora?

— Fresca como uma flor — disse ela, presenteando-o com outro lampejo profundo dos dentes alvos. — Não ouvi ruído algum, felizmente. Assusta-me o modo que esse homem tem de falar, com aquela voz áspera. Não gosto desses estrangeiros.

— Foi logo antes de ele sair... de fugir, devia dizer. Sacudiu a cabeça e apontou para a cortina do nosso quarto. Sabia que tu estavas aí, naturalmente. Parecia estar pensando, procurando dar a entender que tu... bem, que corrias um perigo especial. Conheces seu modo de falar.

Ela não respondeu, não emitiu um som. Apenas, a cor sumiu de seu rosto.

— Pois é — continuou Heyst. — Parecia que ele estava procurando avisar-me. Deve ter sido isso. Imaginaria ele que eu me esqueci da tua existência? Só disse uma palavra: “dois”. Sim “dois”... e também que ele não gostava disso.

— Que significa isso? — murmurou ela.

— Nós bem sabemos o que significa a palavra “dois”, não é verdade, Lena? Somos dois. Nunca houve dois mais solitários e mais segregados do mundo, minha querida! Talvez Wang quisesse lembrar-me que ele também tinha uma mulher de quem cuidar. Por que estás tão pálida, Lena?

— Estou pálida? — perguntou ela em tom negligente.

— Estás — confirmou Heyst, que sentia verdadeira ansiedade.

— Pois de medo não é — protestou ela, sem mentir.

Sentia, realmente, uma espécie de horror que a deixava em plena posse de todas as suas faculdades. Era, talvez, mais difícil de suportar por essa razão, mas não lhe paralisava as forças.

Heyst sorriu-lhe por seu turno.

— Francamente, não sei se há razão para ter medo.

— Queria dizer que não tenho receio por mim mesma.

— Creio que és muito corajosa — disse ele. A cor voltara às faces de Lena, e Heyst continuou: — Eu sou tão rebelde às impressões exteriores que não posso afirmar o mesmo de mim. Não reajo com suficiente precisão. — E, mudando de tom: — Sabes que fui falar com esses homens esta manhã cedo?

— Sei. Toma cuidado!

— Quisera saber como se toma cuidado! Tive uma longa conversa com... mas não creio que os tenhas visto. Um deles é um homem comprido, duma magreza fantástica, e parece estar doente. Não me admiraria que estivesse, com efeito. Faz questão de frisar esse fato, com certos modos misteriosos. Suponho que ele tenha sofrido de febres tropicais, mas não tanto como procura fazer crer. É o que certa gente chama um gentleman. Pareceu disposto a me narrar as suas aventuras (coisa que eu não lhe pedi), mas afinal observou que a história era muito comprida e seria melhor deixá-la para outra ocasião.

“— O senhor deve ter vontade de saber quem sou? — perguntou-me.

"Respondi que deixava isso com a sua consciência, num tom que, falando-se entre cavalheiros, não podia deixar dúvidas no seu espírito. Ele ergueu-se sobre o cotovelo (estava deitado na cama de campanha) e disse:

“— Eu sou aquele que é...”

Lena parecia não estar escutando, mas quando Heyst parou de falar ela voltou a cabeça rapidamente para o seu lado. Ele tomou isso por um gesto de interrogação. Enganava-se, porém. As impressões de Lena estavam envoltas numa nuvem indistinta, ao passo que todas as suas energias se concentravam na luta que ela queria para si, numa grande exaltação do amor e do sacrifício, que é a sublime faculdade das mulheres. Toda a luta para si, e que nada restasse para ele, nem mesmo a ciência do que ela estava fazendo, se tal fosse possível. Desejaria encerrá-lo à chave, mediante algum estratagema. Se conhecesse um meio de fazê-lo dormir dias consecutivos, empregaria sem hesitar encantamentos e filtros. Ele lhe parecia demasiado nobre para tais contatos, e insuficientemente aparelhado. Este último sentimento não tinha relação alguma com a circunstância material do roubo do revólver. Ela não podia avaliar toda a importância dês te fato.

Observando-lhe os olhos fixos e como que privados da vista (pois a concentração no seu propósito roubava-lhe toda expressão aos olhos), Heyst imaginou que isto fosse efeito de um grande esforço mental.

— É inútil perguntar-me o que ele queria dizer, Lena. Eu não sei, nem lhe perguntei. Esse cavalheiro, como já te disse, parece amigo de mistificações. Como eu nada respondia, ele tornou a reclinar a cabeça no rolo de cobertores que usa como travesseiro. Simula um estado de grande fraqueza, mas desconfio que é perfeitamente capaz de saltar em pé, se achar necessário. Disse-me que, tendo sido segregado do meio social a que pertencia por não querer conformar-se a certas convenções, tornou-se um rebelde e agora circula pela terra em todos os sentidos. Como eu não estivesse desejoso de ouvir essas tolices, respondi-lhe que já tinha ouvido uma história semelhante a respeito de outra pessoa. O sorriso desse homem é na verdade horripilante. Confessou que eu era bem diverso da espécie de homem que ele esperava encontrar. Depois acrescentou:

“— Quanto. a mim, não sou mais feio do que o cavalheiro em que está pensando, e não sou mais nem menos resoluto do que ele.”

Heyst considerou Lena, por cima da mesa. Apoiada nos cotovelos, ela moveu num gesto de compreensão a cabeça, que segurava com as duas mãos.

— Nada podia ser mais claro, hein? — disse Heyst com expressão sombria. — A não ser que ele entendesse com isso fazer uma boa pilhéria. Com efeito, soltou uma grande risada quando terminou de falar. Eu é que não o imitei!

— Antes o tivesses feito — murmurou Lena.

— Não o imitei. Nem me lembrou isso. Não sou bom diplomata. Talvez fosse mais prudente, porque creio, francamente, que ele foi longe demais e estava procurando desfazer a impressão com a sua hilaridade afetada. Contudo, pensando bem, a diplomacia sem força que a sustente não é mais que um esteio podre. E, mesmo que tivesse pensado nisso, ignoro se o poderia fazer. Sinceramente, não sei. Seria contra a minha natureza. Poderia mesmo fazê-lo? Tenho vivido demasiado dentro de mim mesmo a contemplar meras sombras e reflexos da vida. Enganar um homem numa questão que se pode resolver mais depressa matando-o, quando estamos desarmados, impotentes, sem mesmo o recurso de fugir... não! Isso sim é que me parece demasiado degradante. E no entanto, tenho-te aqui comigo. Sou responsável pela tua existência. Que me dizes, Lena? Seria eu capaz de te atirar aos leões para salvar a minha dignidade?

Ela levantou-se, contornou rapidamente a mesa, sentou-se de leve nos joelhos de Heyst, passando-lhe um braço em volta do pescoço, e cochichou-lhe ao ouvido:

— Podes fazer, se quiseres. Talvez eu só consentisse em te deixar dessa maneira. Por uma coisa assim. Ainda que fosse apenas pelo teu dedo mindinho.

Beijou-o ligeiramente nos lábios e afastou-se, sem lhe dar tempo para retê-la. Voltou para a sua cadeira e tornou a apoiar os cotovelos na mesa. Custava a crer que ela tivesse saído do seu lugar. Seu corpo, que nos joelhos dele não pesara mais que uma pluma, o abraço ao pescoço, o sussurro ao ouvido, o beijo nos lábios, semelhavam as sensações insubstanciais de um sonho que invadissem as realidades da vigília, uma espécie de miragem encantadora na aridez nua dos seus pensamentos. Heyst hesitou em falar, até que ela perguntou com vivacidade:

— Bem, e daí?

Heyst sentiu um tremor.

— Pois é. Não o imitei. Deixei-o rir sozinho. Todo ele sacudia, como um esqueleto jovial, debaixo do seu cobertor de algodão — creio que estava escondendo um revólver que tinha na mão direita. Não o vi, mas tenho a impressão distinta de que a arma estava ali, debaixo da coberta. Como durante algum tempo ele não olhou para mim, pois conservava os olhos fitos em certa parte do quarto, voltei a cabeça e vi um espécie de criatura selvagem e peluda que eles trouxeram consigo, de cócoras no canto da parede atrás de mim. Não estava ali quando entrei. Não gostei do ver aquele monstro montando guarda às minhas costas. Se não estivesse tão à mercê desses homens, teria certamente mudado de posição. No ponto a que as coisas vieram parar, tomar uma atitude defensiva seria pura fraqueza. Fiquei, portanto, onde estava. O cavalheiro que estava deitado na cama disse que me podia asseverar uma coisa: que a sua presença aqui não era mais repreensível do que a minha.

“— Nós perseguimos os mesmos fins — afirmou ele, — mas talvez eu o faça de maneira mais franca que o senhor... com mais simplicidade.

“Foi o que ele disse — prosseguiu Heyst depois de olhar para Lena, numa espécie de silêncio interrogativo. — Perguntei-lhe se antes de vir dar à ilha já sabia que eu vivia aqui, mas ele só me respondeu com um sorriso sinistro. Achei então que era preferível não insistir, Lena.”

Sobre a testa lisa de Lena sempre parecia repousar um raio de luz. Seus cabelos soltos, repartidos no meio, cobriam as mãos que lhe sustentavam a cabeça. Ela parecia enfeitiçada pelo interesse da narrativa. A pausa de Heyst não foi longa. Tratou de continuar o seu relato com bastante serenidade, começando desta vez por um pequeno comentário. -

— Ele iria mentir com descaro... e eu detesto ouvir mentiras. Deixam-me constrangido. É evidente que eu não me adapto às realidades deste mundo. Mas não queria que ele pensasse que eu aceitava com demasiado conformismo a sua presença. Disse, portanto, que as suas idas e vindas na terra não me diziam respeito, naturalmente, salvo a curiosidade natural de saber quando ele julgaria conveniente reiniciá-las.

“Pediu-me que considerasse o estado em que se achava. Se eu estivesse completamente só aqui, como eles pensam que estou, teria rido do homem. Mas, como não estou só... Escuta, Lena, tens toda certeza de que não te mostraste em nenhum lugar onde pudesses ser vista?”

— Toda certeza — respondeu ela prontamente.

— Compreendes, Lena, que se te peço para te conservares absolutamente invisível, é porque eles não devem olhar para ti, nem falar em ti. Minha pobre Lena! Não posso fugir a esse sentimento. Tu o compreendes?

Ela moveu de leve a cabeça, num gesto que não era afirmativo nem negativo.

— Os outros terão de me ver, mais dia menos dia — respondeu.

— O que eu desejaria saber é quanto tempo ainda poderás conservar-te invisível! — murmurou Heyst, pensativo. E, debruçando-se sobre a mesa: — Deixa-me contar o resto. Perguntei-lhe à queima-roupa o que queria comigo. Ele deu sinais de extrema repugnância em falar no assunto. Disse que não era tão urgente assim. O seu secretário, que na realidade é seu sócio, não se achava presente, pois tinha descido ao pier para dar uma olhadela ao bote. Finalmente, o sujeito propôs adiar até depois de amanhã certa comunicação que tinha para me fazer. Concordei, mas também lhe disse que não tinha a menor ansiedade de ouvi-la. Não via em que me podiam interessar os seus negócios.

“— Ah, sr. Heyst — disse ele, — o senhor e eu temos muito mais coisas em comum do que imagina.”

Inesperadamente, Heyst bateu com o punho na mesa.

— Era um remoque, tenho certeza!

Pareceu envergonhar-se do seu ímpeto e sorriu levemente para os olhos imóveis da moça.

— Que podia eu fazer, ainda que tivesse os bolsos cheios de revólveres?

Ela fez um gesto de compreensão, e murmurou:

— Matar é um pecado, sem dúvida alguma.

— Retirei-me — continuou Heyst. — Deixei-o lá, deitado sobre o lado e com os olhos fechados. Ao entrar aqui, encontrei-te com ar de doente. Que era aquilo, Lena? Que susto me deste! Depois, enquanto descansavas, tive a conversa com Wang. Estavas dormindo tranquilamente. Sentei-me aqui na sala para considerar todas essas coisas com calma, tratar de penetrar no seu sentido íntimo e nas suas relações externas. Estes dois dias que temos diante de nós me pareceram uma espécie de trégua. Quanto mais pensava, mais sentia que isso tinha ficado tacitamente entendido entre Mr. Jones e eu. A vantagem era nossa, se alguma coisa pode trazer vantagem a pessoas tão completamente indefesas como nós. Wang tinha ido embora. Ele, pelo menos definira-se, mas como eu não sabia o que ele poderia entender de fazer, achei conveniente avisar essa gente de que já não era responsável pelo chinês. Não desejava que o sr. Wang fizesse alguma coisa capaz de precipitar a ação dos outros contra nós. Compreendes este ponto de vista?

Ela fez um sinal afirmativo. Toda a sua alma banhava-se na ardente resolução, numa fé exaltada em si mesma — na contemplação do maravilhoso enseje que tinha de conquistar a certeza, a eternidade do amor desse homem.

— Nunca vi dois homens mais agitados com uma notícia do que Jones e o seu secretário — dizia Heyst, — pois o outro já tinha voltado para o bangalô. Não sentiram a minha aproximação; Eu lhes pedi desculpa por ser importuno.

“— Absolutamente, absolutamente! — respondeu Jones.

“O secretário recuou para um canto e ficou a me observar como um gato desconfiado. A verdade é que os dois estavam visivelmente em guarda.

“— Vim — disse-lhe eu — para informá-los de que o meu criado desertou... foi embora.

“A princípio eles se entreolharam como se não tivessem compreendido. Mas logo tomaram um ar inquieto.

“— Quer dizer que o seu chim levantou voo? — disse Ricardo, saindo do seu canto. — Assim de repente? Por que fez ele isso?

“Respondi que um chinês sempre tem uma razão simples e definida para tudo que faz, mas não é tão fácil obrigá-lo a confessar essa razão. Tudo que ele me tinha dito era que “não gostava”.

“Ao ouvir isto, os dois pareceram extremamente perturbados. Queriam saber de que era que ele não gostava.

“— Do aspecto do senhor e dos seus companheiros — disse eu a Jones.

“— Asneira! — exclamou ele. E imediatamente Ricardo, o mais baixo, intrometeu-se na conversa.

“— Ele lhe disse isso? Por quem tomava o senhor, por uma criança? Ou o senhor pensa que nós somos bebês? Sem intenção de ofender, bem entendido. Aposto como o senhor vai dizer-nos agora que achou falta de alguma coisa.

“— Eu não lhes queria contar isso — disse eu, — mas o fato é que é verdade.

“Ele bateu na coxa.

— Já previa isto. Que lhe parece esta peça, patrão?

“Jones fez-lhe um sinal qualquer, e aquele seu extraordinário parceiro com cara de gato propôs ajudar-me, com o criado dos dois, a pegar o chim vivo ou morto.

“Respondi que o meu objetivo não era obter auxílio. Não tencionava dar caça ao chinês. Fora lá apenas para preveni-los de que ele estava armado, e realmente não se conformava com a presença dos três na ilha. Queria dar-lhes a entender que eu não era responsável por qualquer coisa que acontecesse.

— Quer então dizer-nos — perguntou Ricardo — que há um chinês louco, à solta com um revólver de seis tiros nesta ilha, e que o senhor não se importa com isso?

“O estranho é que eles não pareciam acreditar na minha história. Não cessavam de trocar olhares significativos. Ricardo chegou perto do patrão furtivamente, os dois confabularam e depois aconteceu uma coisa que eu não esperava. É mesmo um pouco embaraçoso.

“Como eu não queria aceitar o auxílio deles para pegar o chim e reaver minha propriedade, podiam ao menos me emprestar o criado. Quem disse isso foi Jones, e Ricardo apoiou.

— Sim, sim... que o nosso Pedro cozinhe para todos nós aqui. Ele não é tão mau quanto parece. E é o que ele vai fazer!

“Saiu para a varanda e chamou Pedro com um assobio estridente. Depois de ouvir o grunhido do bruto em resposta, Ricardo voltou correndo.

“— Sim, sr. Heyst. É um excelente arranjo, sr. Heyst. Basta que o senhor lhe dê instruções para fazer todo o serviço costumeiro da casa, entende?

“Lena, confesso que me pegaram completamente desprevenido. Não esperava semelhante coisa. Nem sei mesmo o que esperava. Estou tão inquieto por você por não poder me livrar desses velhacos infernais... E dois meses atrás não me importaria com eles. Teria desafiado sua velhacaria assim como zombei de todas as outras intrusões da vida. Mas agora tenho você! Você entrou na minha vida, e...”

Heyst respirou fundo. A moça deu-lhe um rápido olhar, com os olhos bem abertos.

— Ah! É nisso que está pensando... que me tem!

Era impossível ler os pensamentos velados pelos seus firmes olhos cinzentos, penetrar o sentido dos seus silêncios, das suas palavras, e até dos seus amplexos. Heyst costumava sair de entro os seus braços com uma sensação de logro.

— Se não a tenho comigo, se não está aqui, então onde você está? — exclamou ele. — Você me compreende perfeitamente!

Lena sacudiu um pouco a cabeça. Seus lábios rubros, que ele estava contemplando agora, seus lábios tão fascinantes como a voz que deles brotava, pronunciaram estas palavras:

— Estou ouvindo o que diz, mas o que significa?

— Significa que eu poderia mentir, e talvez até me rebaixar por você.

— Não! Não! Nunca faça isso — disse ela precipitadamente, enquanto os seus olhos tomavam um brilho súbito. — Ia me odiar depois!

— Odiar? — Repetiu Heyst, que reassumira os modos polidos. — Não! Não precisa considerar os extremos do improvável... por enquanto. Mas confesso que eu... como direi?... que eu dissimulei. Primeiro dissimulei minha consternação com o resultado imprevisto da minha diplomacia idiota. Compreende, minha querida menina?

Era evidente que ela não compreendia a palavra. Heyst mostrou o seu sorriso brincalhão, que contrastava de modo estranho com o todo da sua expressão aflita. Suas têmporas pareciam ter-se afundado, e o rosto afigurava-se mais fino.

— Uma declaração diplomática, Lena, e uma declaração em que tudo é verdadeiro, menos o sentimento que parece inspirá-la. Nunca fui diplomata nas minhas relações com a humanidade... não por consideração com os sentimentos dos outros, mas para poupar os meus. A diplomacia não se casa bem com o desprezo consistente. Eu dava pouco pela vida e ainda menos pela morte.

— Não fales assim!

— Dissimulei o meu intenso desejo de agarrar pelo gasnete aqueles velhacos sem paradeiro — prosseguiu ele. — Só tenho duas mãos (quem me dera ter cem para te defender!), e as gargantas eram três. Já então, o tal Pedro estava também no quarto. Se me visse às voltas com as gargantas dos seus patrões, teria saltado à minha como um cão feroz ou qualquer outro bruto selvagem e fiel. Não tive dificuldade em dissimular o meu desejo de empregar o argumento desesperado, vulgar e estúpido da luta. Repliquei que não necessitava realmente de um criado. Repugnava-me privá-los dos serviços do seu homem. Mas eles não me quiseram escutar. Estavam decididos.

“— Vamos mandá-lo imediatamente — disse Ricardo, — para começar a preparar o jantar para todos. Espero que o senhor não se incomode por eu ir comer em sua mesa no bangalô. Quanto ao jantar do patrão, manda-se para cá.

“Tudo que eu podia fazer era ficar calado ou armar uma contenda, provocar alguma manifestarão dos intuitos tenebrosos desses homens, aos quais não temos meios de resistir. Naturalmente, poderás continuar invisível esta noite; mas com esse bruto atroz a rondar pelos fundos da casa o dia inteiro, quanto tempo ainda poderemos ocultar a tua presença a esses homens?

Sentia-se no silêncio de Heyst a sua tortura. A cabeça da moça, sustentada pelas mãos Que mergulhavam nos bastos cabelos, conservava uma imobilidade perfeita.

— Tens certeza de que não foste vista até agora? — perguntou ele de repente. .

A cabeça imóvel falou.

— Como posso ter certeza? Disseste-me para me esconder, e assim fiz. Não te perguntei a razão disso. Julguei que não querias que soubessem que tinhas contigo uma moça como eu.

— O que! Por vergonha? — exclamou Heyst.

— Talvez não seja direito... para ti, quero dizer. Será direito?

Heyst ergueu as mãos ao alto, repreensivo e cortês.

— Considero isso tão direito que não posso tolerar que te contemplem olhos sem simpatia ou respeito. Desde o começo me desagradaram esses sujeitos, e desconfiei deles. Então não compreendeste?

— Sim, eu me escondi — disse ela.

Fez-se um silêncio entre ambos. Afinal Heyst moveu-se um pouco.

— Tudo isso é agora de muito pouca importância — disse suspirando. — Trata-se de coisa infinitamente pior que simples olhares e pensamentos, por mais baixos e desprezíveis que sejam. Como te disse, respondi com o silêncio aos alvitres de Ricardo. Quando eu me ia retirando ele disse:

“— Se o senhor tem ai por acaso a chave daquela sua dispensa, sr. Heyst, pode até me entregar, que eu a darei, ao nosso Pedro.

“Eu tinha a chave comigo, e a estendi ao homem sem dizer uma palavra. A peluda criatura, que nesse momento estava à porta, apanhou no ar a chave que Ricardo lhe atirou, com mais destreza do que o teria feito um macaco adestrado. Retirei-me então. Enquanto falava com eles não cessava de pensar em ti com ansiedade. Deixara-te a dormir aqui, sozinha e, ao que parecia, doente”.

Heyst interrompeu-se, voltando a cabeça como quem escuta. Ouvira um ligeiro ruído de gravetos que estavam quebrando nos fundos. Levantou-se e atravessou a sala para ir olhar pela porta traseira.

— E aí está a criatura — disse voltando para a mesa.

— Aí está ele, tratando já do fogo. Ah, minha querida Lena!

Ela o tinha seguido com os olhos. Observou-o enquanto saía cautelosamente para a varanda da frente. Heyst baixou com movimentos furtivos dois estores que havia entre as colunas, e ficou ali muito quieto, como que interessado em alguma coisa lá fora. Entrementes, Lena também se erguera para dar uma espreitadela aos fundos da casa. Heyst, olhando por cima do ombro, a viu voltar para a sua cadeira. Fez-lhe um sinal e ela prosseguiu, atravessando a sombria sala, luminosa e pura no seu vestido branco, os cabelos soltos e com um certo ar de sonâmbula nos seus calmos movimentos, na mão estendida, nos olhos cinzentos a brilhar na penumbra, dando a impressão de que não enxergavam. Ele nunca lhe tinha visto semelhante expressão no rosto. Havia nela devaneio, uma atenção intensa, e uma espécie de severidade. Detida à porta pelo braço estendido do amigo, pareceu acordar, corou ligeiramente — e esse rubor, ao desaparecer, levou consigo a estranha transfiguração. Com um gesto corajoso ela jogou para trás a pesada cabeleira. A luz batia-lhe na testa. Suas narinas delicadas fremiam. Heyst agarrou-lhe o braço e murmurou em voz excitada:

— Passa para cá, depressa! Ficarás escondida atrás dos estores. Mas cuidado com o vão da escada. Eles estão aí fora... refiro-me aos outros dois. Convém que os vejas antes que...

Ela teve um movimento de recuo, apenas perceptível, e depois ficou imóvel. Heyst soltou seu o braço.

— Sim, talvez seja melhor — disse Lena com uma resolução estranha, e foi postar-se junto dele na varanda.

Um de cada lado do estore, espreitaram entre a borda da tela e a coluna da varanda engrinaldada de trepadeiras. Um grande calor subia do chão ferido pelo sol, numa eterna onda ascendente, que parecia provir de algum depósito secreto no seio ardente da terra, pois o céu já ia refrescando e o sol declinara o bastante para que as sombras de Mr. Jones e seu auxiliar se projetassem lado a lado sobre o bangalô — uma infinitamente esguia, curta e ancha a outra.

Os dois forasteiros estavam parados e olhavam. Para manter a ficção da sua enfermidade, Mr. Jones, o gentleman, apoiava-se ao braço de Ricardo, o secretário. A copa do chapéu deste dava pelos ombros do seu patrão.

— Você os vê? — cochichou Heyst ao ouvido da moça. — Ei-los, os emissários do mundo exterior. Aí os tem: a inteligência maligna e a selvageria instintiva de braço dado. A força bruta, está lá nos fundos. Três embaixadores muito aptos, talvez... mas o que diz da recepção? Se eu estivesse armado, seria capaz de meter uma bala nesses dois, onde estão? Seria capaz?

Sem mexer a cabeça, a moça procurou a mão de Heyst, apertou-a e não a soltou mais. Ele continuou, brincalhão e amargo:

— Não sei. Não acredito. Há em mim qualquer coisa que me impõe a insensata obrigação de evitar a própria ideia de matar. Nunca apertei um gatilho e nunca levantei a mão para um homem, nem mesmo em legítima defesa.

Sentindo-a apertar de repente sua mão com mais força, ficou calada.

— Estão se mexendo — murmurou Lena.

— Pensarão em vir aqui? — perguntou Heyst com ansiedade.

— Não, não vêm para este lado,

Houve outra pausa.

— Vão voltando para a casa deles — informou Lena finalmente.

Depois de os ter observado ainda um pouco, soltou a mão de Heyst e afastou-se do estore. Ele a seguiu para dentro da sala.

— Já os viu. Imagine o que foi para mim vê-los em terra ao anoitecer, fantasmas do mar... aparições, quimeras! Mas não se dissipam. Isto é o pior de tudo... eles continuam! Não têm o direito de existir — mas existem. Devia me enfurecer. Mas já estou a tal ponto refinado que todos os sentimentos instintivos me abandonaram — a cólera, a indignação, o próprio desprezo. Só resta a repugnância. E depois que me contou aquela abominável calúnia, ela se tornou imensa... ao ponto de se estender a mim mesmo.

Tirou os olhos do chão e pousou-os nela.

— Mas, por sorte, tenho você. E se Wang não tivesse levado aquele miserável revólver... Sim, Lena, aqui estamos nós dois!

Ela pousou ambas as mãos nos seus ombros e olhou-o no fundo dos olhos. Heyst retribuiu esse olhar penetrante, cujo sentido se lhe esquivava. Não pôde devassar o véu cinzento daqueles olhos, mas a tristeza da voz de Lena o emocionou profundamente.

— Não está me censurando? — perguntou ela devagar.

— Censurar? Que palavra para ser pronunciada entre nós dois! Só poderia censurar a mim mesmo... mas ao falar em Wang tive uma ideia. Tenho estado... não exatamente me aviltando, não exatamente mentindo, mas dissimulando. Quanto a você, se esconde para me ser agradável, mas se esconde. Tudo isso é muito honroso. Por que não experimentamos também suplicar? Uma nobre arte! Sim, Lena, devemos sair juntos. Eu não poderia deixá-la só, e tenho... sim, tenho que falar com Wang. Vamos procurar esse homem, que sabe o que quer e sabe obter o que quer. Vamos sem demora!

— Espere que eu penteie o cabelo — disse ela, concordando imediatamente, e desapareceu atrás da cortina.

Quando esta tornou a cair Lena virou os olhos para trás com uma expressão de infinita ternura por ele — por esse homem que ela não esperava compreender jamais, e a quem receava nunca poder satisfazer; como se a sua paixão fosse de uma qualidade irremediavelmente baixa, incapaz de apaziguar algum desejo delicado e sublimado da alma superior de seu companheiro. Dentro de dois minutos tornou a aparecer. Saíram da casa pela porta dos fundos e passaram a um metro do estarrecido Pedro, sem mesmo olhar para o seu lado. O criado endireitou o corpo, que estava curvado sobre um fogo de gravetos, equilibrou-se desajeitadamente e descobriu as enormes presas num assombro boquiaberto. Subitamente, partiu rolando nas pernas tortas para participar aos seus amos o espantoso descobrimento de uma mulher.