Vitória
Capítulo III
Pelo espaço de quinze anos Heyst vagara, invariavelmente cortês e inacessível, e em paga era tido como “um esquisitão”. Tinha começado as suas viagens depois da morte do pai, um sueco expatriado que morrera em Londres, descontente com o seu país e indignado com o mundo inteiro, que instintivamente rejeitava a sua filosofia.
Pensador, estilista e homem de sociedade em seus tempos, Heyst pai tinha principiado por cobiçar todas as alegrias, as dos grandes e as dos humildes, as dos tolos como as dos sábios. Durante mais de sessenta anos arrastara por este atribulado planeta a mais requintada, a mais desinquieta alma que a civilização já moldou para arrastá-la à desilusão e ao arrependimento. Não se lhe podia negar certa grandeza, pois era infeliz de um modo que as almas medíocres desconhecem. Heyst não chegara a conhecer a mãe, mas guardava uma terna recordação do semblante pálido e distinto do pai. A memória lho representava geralmente envolto num amplo chambre azul, num casarão de sossegado subúrbio londrino. Após sair da escola com a idade de dezoito, vivera três anos com o velho Heyst, que então estava escrevendo o seu último livro. Nesta obra, escrita no ocaso da vida, reivindicava para a humanidade o direito de absoluta liberdade moral e intelectual, de que já não a considerava digna.
Três anos em tal companhia, nessa idade plástica e impressionável, tinham por força que incutir no rapaz uma profunda descrença da vida. Ele aprendeu a refletir, o que é um processo destrutor, em orçamento dos custos da ação. Não são os cérebros lúcidos que governam o mundo. Os grandes feitos são realizados numa espécie de nevoeiro mental ditosamente morno, que as lufadas frias e impiedosas da análise paterna tinham varrido do filho.
Deixar-me-ei vogar — resolvera Heyst.
Não dava a estas palavras um sentido apenas intelectual, sentimental ou moral. Tencionava deixar-se vogar completa e literalmente, corpo e alma, como uma folha solta se deixa levar pelos ventos, sob as árvores imóveis de uma clareira na floresta; vogar sem jamais prender-se a coisa alguma.
Será esta a minha defesa ante a vida — dissera a si mesmo, na consciência profunda de que para o filho de tal pai não havia outra alternativa digna.
Tornou-se assim um ente aparte, austeramente, por princípio, como outros se tornam pela bebida, pelo vício ou alguma fraqueza de caráter. Fê-lo deliberadamente, como outros o fazem por desespero. Tal fora, despida dos acidentes exteriores, a vida de Heyst até aquela noite perturbadora. No outro dia, quando viu a moça a quem chamavam Alma, esta achou meio de lhe deitar um olhar de franca ternura, ligeiro como o relâmpago, e que deixou uma impressão profunda, tocou-lhe no coração. Era no recinto do hotel, quase à hora do almoço, quando as executantes da orquestra voltavam para o pavilhão depois do ensaio, prática, ou que outro nome lhe dessem, no salão de concertos. Heyst, que voltava da cidade, onde verificara que encontraria dificuldades em deixar Surabaya imediatamente, ia atravessando o pátio, desapontado e aborrecido.
Misturara-se, quase sem dar por isso, ao grupo das mulheres. Sentiu um choque quando, ao sair da sua abstração, viu a garota tão perto dele, qual uma pessoa que acordasse de repente e avistasse a imagem do seu sonho feita carne e sangue. Ela não ergueu a cabeça graciosa. O seu olhar, porém, não foi nenhuma visão de sonho. Foi bem concreto, a impressão mais real (até então) da existência isolada de Heyst.
Este não correspondeu ao olhar, embora lhe parecesse impossível que o seu efeito sobre ele não fosse notado por quem o estivesse observando. E havia diversos homens na varanda, fregueses habituais da mesa de almoço, a olhar na sua direção... a olhar para as mulheres, mais exatamente. Heyst atemorizou-se, não por vergonha ou timidez, mas por escrúpulo. Ao subir para a varanda, contudo, não percebeu na fisionomia dos outros nenhum sinal de interesse ou admiração, como se todos ali fossem cegos. O próprio Schomberg, que teve de lhe dar passagem no alto da escada, continuara a palestrar com um cliente sem dar o menor sinal de perturbação.
O hoteleiro tinha, na verdade, visto Heyst falar com a moça nos intervalos. Um seu companheiro lhe chamara a atenção com uma cotovelada, e ele achara que aquilo vinha muito a propósito. Aquele palerma conservaria os outros à distância. Mais satisfeito que outra coisa, observava-os de soslaio, gozando maliciosamente a situação: uma espécie de alegria diabólica. Poucas dúvidas tinha quanto à sua fascinação pessoal e muito menos quanto ao seu poder de dominar a garota, que parecia muito ignorante para se defender e vivia pior que sozinha, pois por alguma razão incorrera na hostilidade da sra. Zangiacomo, uma mulher sem consciência. Quanto à aversão que ela lhe mostrara, na medida em que ousava fazê-lo (pois nem sempre é prudente aos desamparados ostentar a delicadeza dos seus sentimentos), Schomberg perdoava-a. levando-a à conta da tolice feminina convencional. Tinha dito a Alma, à guisa de argumento, que sem duvida era bastante sagaz para perceber que o melhor partido para ela seria por a sua confiança num homem de recursos, na flor dos anos, e que sabia guiar-se no mundo. Salvo o tremor agitado da sua voz e a extraordinária forma por que seus olhos pareciam querer saltar-lhe da cara rubicunda e hirsuta, estas falas tinham toda a aparência de conselhos calmos e desinteressados — e que, segundo o hábito dos apaixonados, passavam facilmente aos auspiciosos planos de futuro.
— Logo nos livraremos da velha — cochichava-lhe às pressas, com uma ferocidade arquejante. — Diabos a levem! Nunca me importei com ela. O clima não lhe convém. Vou mandá-la para junto da família, na Europa. E terá de ir! Eu me encarrego disso. Eins, zwei, marche! Depois vendemos este hotel e abrimos outro por aí.
Asseverava-lhe que estava pronto a fazer tudo por ela. E era verdade. Quarenta e cinco anos é para muitos homens a quadra da temeridade, como se desafiassem a dissolução e a morte, que os espreitam no vale sinistro, ao termo da inevitável descida. O encolhimento da moça, os seus olhos baixos quando era obrigada a ouvi-lo encurralada num canto de corredor vazio, tomava-os ele por sinais de submissão à força avassaladora da sua vontade. Pois todas as idades se nutrem de ilusões, afim de que os homens não renunciem muito cedo à vida e não venha assim a extinguir-se a raça humana.
E fácil imaginar a humilhação de Schomberg, a sua fúria Indignada, quando descobriu que a garota que resistira semanas inteiras aos seus assédios, aos seus rogos, aos seus protestos Veementes, fora-lhe roubada sob as barbas por “aquele sueco”, aparentemente sem grande dificuldade. Não quis acreditar. A princípio convenceu-se de que os Zangiacomo, por alguma razão incompreensível, lhe tinham pregado uma feia peça. Mas quando já não foi possível duvidar modificou sua opinião sobre Heyst. O desprezado sueco tornou-se, para Schomberg, o mais matreiro, o mais perigoso, o mais odioso patife. Não podia crer que a criatura a quem cobiçara com tanta força e tão pouco êxito era na realidade meiga, dócil aos seus próprios impulsos, e quase se oferecera a Heyst, de consciência tranquila, levada pelo desejo de segurança e pela necessidade de por a sua fé ali aonde o instinto guia a mulher ignorante. Schomberg não se conformava senão com a explicação de que ela fora enfeitiçada por alguma influência oculta, por algum sutil artifício. Sua vaidade ferida ruminava incessantemente sobre o meio que “aquele sueco” teria empregado para seduzi-la e roubá-la a um homem como ele, Schomberg — como se esse meio tivesse por força de ser extraordinário, inaudito, inconcebível. Batia ostensivamente na testa diante dos seus fregueses. Ficava sentado a refletir em silêncio, ou então extravasava-se repentinamente em declamações contra Heyst, sem medida, fito, nem prudência, com a cara túmida e uma afetação de virtude ofendida que não teria enganado um só momento o mais pueril dos moralistas — e que muito divertia os circunstantes.
Tornou-se uma recreação predileta ir ouvi-lo injuriar Heyst enquanto se tomavam refrescos gelados na varanda do seu hotel. Fazia, de certa maneira, mais sucesso que os concertos de Zangiacomo, com intervalos e tudo. Era sempre fácil provocá-lo. Qualquer um o podia fazer, bastando para isso a mais longínqua alusão. Muitas vezes ele desfiava as suas acusações sem fim na própria sala de bilhar, onde a sra. Schomberg se achava entronizada como de costume, tragando os soluços, escondendo as torturas do seu terror, da sua abjeta humilhação, sob aquele sorriso estúpido, fixo, eterno, que, dado pela natureza, era uma excelente máscara, porquanto nada — nem a própria morte, talvez — poderia lhe tomar.
Mas nada dura neste mundo, ao menos sem mudar de fisionomia. E assim, ao cabo de algumas semanas, Schomberg recobrou a calma exterior, como se a indignação se houvesse estancado dentro dele. E não foi sem tempo. Estava-se tornando maçante com a sua incapacidade de falar em outra coisa que não a imoralidade de Heyst, a maldade de Heyst, os seus enredos, as suas astúcias, as suas tramas criminosas. Schomberg já não simulava desprezá-lo. Depois do que acontecera não poderia simular, nem mesmo ante si próprio. Mas a sua indignação arrolhada fermentava venenosamente. No tempo da sua loquacidade imoderada um dos ouvintes, um homem idoso, observara certa noite:
— Se este asno continua assim acabará por ficar doido.
Não era muito errada esta opinião. Schomberg levava Heyst incrustado no cérebro. O próprio estado insatisfatório dos seus negócios, cujas perspectivas nunca foram menos promissoras desde que ele viera para o Oriente logo após a guerra franco-prussiana, atribuía-o a alguma influência sutilmente nociva de Heyst. Parecia-lhe que nunca mais seria o mesmo homem enquanto não tirasse desforra do artificioso sueco. Estava pronto a jurar que Heyst lhe arruinara a vida. À garota, que lhe fora subtraída por forma tão injusta, manhosa e vil, tê-lo-ia inspirado a começar nova vida com sucesso. Evidentemente, a sra. Schomberg, a quem ele terrificava com os seus silêncios furiosos reforçados de olhares envenenados a socapa, não lhe podia dar inspiração. Tornara-se negligente em todas as coisas, mas com uma inclinação para os expedientes temerários, como se já não lhe importasse a ruína da sua carreira de hoteleiro. Esta condição desmoralizada explicava o que Davidson observara na sua última visita ao estabelecimento de Schomberg, cerca de dois meses após a partida secreta de Heyst com a moça para a solidão de Samburan.
O Schomberg de poucos anos atrás (o Schomberg de Bangkok, por exemplo, onde começara a servir os seus famosos jantares de mesa comum) nunca teria arriscado semelhante coisa. O seu gênio era moldado para aliciar fregueses — “um branco a serviço dos brancos” — e para a invenção, elaboração e divulgação de mexericos escandalosos, com unção burrical e descarado deleite. Mas o seu espírito pervertera-se com as agonias da vaidade ferida e da paixão contrariada. E nesse estado de fraqueza moral Schomberg deixou-se corromper.