Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 19 de 40

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Vitória

Capítulo III

Nessa manha, como nas outras muitas que se haviam passado desde a sua volta com a moça para Samburan, Heyst saiu para a varanda e debruçou-se no parapeito abrindo amplamente os cotovelos, numa cômoda atitude de proprietário. A cadeia de montes que atravessava o centro da ilha ocultava ao bangalô o nascer do sol, quer fosse resplendente ou nublado, ameaçador ou sereno. Os habitantes daquela parte eram assim impedidos de prever desde cedo o aspecto do novo dia. Este saltava para eles em toda a sua plenitude quando a sombra imensa se retirava e o sol, galgando as montanhas, dardejava-lhes os seus raios secos e ardentes, como o olho devorador de um inimigo. Mas Heyst, outrora o Número Um da localidade, quando esta fervilhava de gente, gozava a. frescura matinal que se prolongava, o dilúculo suave e demorado, o apagado fantasma da noite que se fora, a fragrância da sua alma escura e orvalha da, presa um instante ainda entre a grande fogueira do céu e o intenso resplendor do mar.

Era-lhe, naturalmente, difícil obstar a que o seu pensamento se espraiasse sobre as consequências desta sua última traição ao papel de espectador indiferente. Guardara, todavia, da sua destroçada filosofia o suficiente para não lhe deixar perguntar conscientemente a si mesmo como iria terminar aquilo. Mas, ao mesmo tempo, não deixava de ser ainda um espectador, por temperamento, pela força do hábito e da vontade — um espectador um pouco menos ingênuo, talvez, mas (segundo descobriu com certa surpresa) sem muito mais clarividência que o comum dos homens. Ao exemplo de nós outros, os que agimos, ele só podia dizer a si mesmo, com uma gravidade algo afetada:

— Veremos!

Este espírito de dúvida sombria só se insinuava nele quando se encontrava só. Tais momentos, no correr do dia, eram raros agora, e Heyst os via chegar com desagrado. Nessa manha não teve tempo para ficar inquieto. Alma veio ter com ele muito antes que o sol, surgindo acima das montanhas de Samburan, dissipasse a sombra fresca da manha e apagasse os vestígios que o sereno da noite deixara no teto sob o qual os dois moravam havia já três meses. Ela saiu para fora como fazia todas as manhãs. Heyst ouviu-lhe os passos leves na sala grande — a sala onde dispusera as coisas vindas de Londres, e que agora tinha três paredes forradas de livros até meia altura. Acima das estantes, a delicada esteira unia-se ao forro de calicó, muito esticado. Na sombria frescura da peça só se via brilhar a moldura dourada do retrato de Heyst pai, assinado por um artista famoso, o solitário no centro de uma parede.

Heyst não se virou.

— Sabes em que estava pensando? — perguntou.

— Não — disse ela. Sua voz denunciava sempre uma ligeira ansiedade, como se nunca soubesse ao certo como iriam terminar suas conversas com ele. Encostou-se ao parapeito, junto ao companheiro.

— Não — repetiu. — Em quê?

Ficou esperando. E depois, mais relutante que tímida, perguntou: — Estavas pensando em mim?

— Queria saber quando sairias — volveu Heyst, ainda sem olhar para a moça, a quem, após vários ensaios com combinações de letras e sílabas, dera o nome de Lena.

Ela redarguiu, depois de uma pausa:

— Eu não estava muito longe.

— Ao que parece, não estavas bastante perto quanto eu o desejaria.

— Se precisavas de mim, podias chamar-me — disse ela. — Não demorei tanto assim a me pentear.

— Ao que parece, demoraste demais para o meu desejo.

— Bem, em todo caso pensavas em mim. Estou contente. Sabes, me parece, não sei por que razão, que se deixasses de pensar em mim eu não existiria neste mundo!

Heyst virou-se e olhou para ela. Sempre dizia coisas que o surpreendiam. O vago sorriso que ela tinha nos lábios desfez-se quando se viu assim examinada.

— O que é isso? — perguntou ele. — Uma censura?

— Uma censura? Mas como isso seria possível? — tornou ela, na defensiva.

— Então o que queria dizer? — insistiu Heyst.

— Simplesmente o que disse — nada mais. Por que é injusto?

— Ah, agora, sim, é uma censura!

Ela corou até a raiz dos cabelos.

— É como se quisesse se convencer de que sou mal-agradecida — murmurou. — Serei mesmo? Logo vai me deixar até com medo de abrir a boca. Acabo por acreditar que não presto.

Sua cabeça pendeu um pouco sobre o peito. Ele considerou-lhe a testa lisa e baixa, as faces levemente coradas e os lábios vermelhos entreabertos, deixando ver os dentes brilhantes.

— E então não prestarei mesmo — ajuntou ela, cheia de convicção. — Nem resta dúvida! Só posso ser aquilo que você acredita que eu sou.

Ele fez um ligeiro movimento. Lena pôs a mão no braço dele, sem erguer a cabeça, e prosseguiu, imóvel mas em voz animada:

— Isso mesmo. Não podia ser de outra forma, com uma mulher como eu e um homem como você. Estamos sozinhos aqui, e eu nem sei que lugar é este.

— Um ponto conhecidíssimo do globo — disse Heyst com suavidade. — Devem ter sido distribuídos pelo menos cinquenta mil prospectos na ocasião... cento e cinquenta mil, com mais probabilidade. Foi o meu amigo que se encarregou disso, e ele tinha fé robusta e ideias largas. De nós dois, o verdadeiro crente era ele. Cento e cinquenta mil, com toda certeza.

— O que quer dizer? — perguntou ela em voz baixa.

— Que defeito posso encontrar em você? — continuou Heyst. — Ser amável, boa, gentil... e bonita?

Fez-se um silêncio. Então ela:

— É bom que tenha essa opinião de mim, pois aqui não há ninguém para pensar bem ou mal de nós.

O raro timbre da sua voz dava um valor especial ao que dizia. Heyst percebia ser mais física do que moral a emoção indefinível que lhe despertavam certas intonações dessa voz. Todas as vezes que ela lhe falava parecia abandonar-lhe um pouco de si mesma — qualquer coisa extremamente sutil e inexprimível, a que ele era sensível em alto grau, e de que sentiria amargamente a falta se a moça o deixasse. Enquanto Heyst a mirava nos olhou ela ergueu no ar o antebraço nu, fazendo descer a manga, e conservou-o alçado até que ele o notou e pousou o grande bigode bronzeado na alvura da pele. Voltaram então para dentro.

Ato contínuo Wang apareceu na frente e, pondo-se de cócoras, começou a remexer com modos misteriosos numas plantas ao pé da varanda. Quanto Heyst e a moça tornaram a sair, o chinês afastara-se segundo sua maneira própria, mais como se desaparecesse da existência que da vista, um processo de evaporação mais que de movimento. Eles desceram os degraus, olhando um para o outro, e logo atravessaram o terreno limpo. Mas não haviam andado dez metros quando, sem nenhum movimento ou som perceptíveis, Wang se materializou na sala vazia. O chinês ficou imóvel, com os olhos examinando as paredes, como que em busca de algum sinal, alguma inscrição; explorando o assoalho como se procurasse um alçapão ou uma moeda que houvessem deixado cair. Depois inclinou a cabeça de lado, levemente, diante do perfil do pai de Heyst que empunhava uma pena sobre uma folha branca de papel, em cima de uma mesa coberta com um pano vermelho. E avançando silenciosamente, começou a tirar a louça do breakfast.

Embora o fizesse devagar, a precisão infalível dos seus gestos e a absoluta falta de ruído com que executou a operação davam a esta um aspecto de prestidigitação. Executado o número, Wang desapareceu da cena para se materializar logo depois na frente da casa. Materializou-se afastando-se dela, sem nenhuma intenção visível ou conjecturável; mas ao cabo de uns dez passos parou, descreveu meia volta e fez viseira com a mão sobre os olhos. O sol topetava com o espigão das montanhas cinzentas. Fora-se a grande sombra matinal, e muito longe, sob a luz devoradora, Wang ainda pôde avistar o Número Um e a mulher, dois longínquos pontos brancos sobre a linha sombria da floresta. Um momento depois sumiam. Com um mínimo de movimentos, Wang sumiu também da clareira inundada de sol.

Heyst e Lena penetraram na escura senda da floresta que atravessava a ilha e que, próximo ao seu ponto mais alto, estava bloqueada pelas árvores derribadas. Mas não tencionavam ir até lá. Depois de seguir a senda por algum tempo, deixaram-na num sítio em que a floresta não tinha ervas, e as árvores, engalanadas de parasitas, se erguiam isoladas umas das outras, no meio daquele crepúsculo que era criação sua. Aqui e além, viam-se grandes manchas de luz no solo. Eles caminhavam, silenciosos em meio à grande quietude, respirando aquela calma, aquela solidão infinita, o repouso de uma modorra sem sonhos. No limite extremo da vegetação, surdiram entre umas rochas. E, numa depressão da encosta abrupta, formando uma espécie de plataforma pequena, viraram-se e olharam daquela altura para o mar, solitário, com a cor ofuscada pela luz do sol, o horizonte envolto numa névoa de calor, uma simples tremularão imaterial na pálida e cegadora infinidade, a que se sobrepunha o resplendor mais intenso do céu.

— Isto me deixa tonta — murmurou a moça, cerrando os olhos e pousando-lhe a mão no ombro.

Heyst, que olhava fixamente para o lado de leste, exclamou:

— Vela à vista!

Houve um momento de silêncio.

— Deve estar muito longe — continuou ele. — Não creio que possas ver. Alguma embarcação indígena que se dirige para as Molucas, provavelmente. Vem, não devemos ficar aqui.

Com o braço em volta da sua cintura fê-la descer um pouco, e instalaram-se na sombra. Ela sentou-se no chão e ele um pouco mais abaixo, reclinando-se aos seus pés.

— Não gostas de olhar o mar aqui de cima? — perguntou volvido algum tempo.

Ela abanou a cabeça. Tinha horror àquele espaço vazio. Mas limitou-se a repetir:

— Deixa-me tonta.

— Vasto demais?

— Solitário demais. Chega a me causar angústia — acrescentou em voz baixa, como a confessar um segredo.

— Receio — disse Heyst — que terias razão se me censurasses por causa dessas sensações. Mas que querias que eu fizesse?

Falava em tom de gracejo, mas os seus olhos, postou no rosto dela, estavam sérios. Lena protestou.

— Não me sinto sozinha contigo... absolutamente. Foi só quando subimos àquela pedra e vi tanta água e tanta luz...

— Então nunca mais voltaremos aqui — atalhou ele.

Lena ficou algum tempo calada, devolvendo-lhe o olhar até que ele desviou o seu.

— Tem-se a impressão de que tudo que existe foi tragado pela água — disse ela.

— Lembra a história do dilúvio — murmurou o homem, estendido aos seus pés e olhando para estes. — Isso te faz medo?

— Teria medo se me deixassem aqui sozinha. Quando digo eu quero dizer nós, naturalmente.

— Sim?... — Heyst permaneceu algum tempo calado.

— A visão dum mundo destruído — devaneou em voz alta. — Tu o lamentarias?

— Lamentaria as pessoas felizes que existem nele — tornou Lena simplesmente.

O olhar de Heyst subiu-lhe pelo corpo e alcançou o seu rosto, onde lhe pareceu que surpreendia o clarão velado da inteligência, como se vislumbra o sol entre as nuvens.

— Pois eu julgaria que eles, ainda mais que os outros, mereciam parabéns. Não achas?

— Sim... compreendo o que queres dizer. Mas passaram-se quarenta dias antes de se acabar tudo.

— Pareces conhecer todos os pormenores da história.

Heyst falara simplesmente por dizer alguma coisa, de preferência a contemplá-la em silêncio. Lena não estava olhando para ele.

— A escola dominical. — murmurou. — Frequentei-a regularmente, desde os oito até os onze anos. Morávamos no norte de Londres, perto da Kingsland Road. Não eram maus tempos. Papai ganhava bem. A dona da casa costumava mandar-me para a rua de tarde, com as filhas dela. Era uma boa mulher. O marido trabalhava no correio — distribuidor de cartas ou coisa parecida. Um homem tão calmo! Costumava sair de casa às vezes, depois da ceia, com certeza para fazer plantão. Mas um dia brigaram e acabou-se a pensão. Lembro-me que chorei quando tivemos de arrumar as malas às pressas e procurar outra casa. Entretanto, nunca fiquei sabendo o que houve...

— O dilúvio — murmurou Heyst em tom distraído.

Sentia intensamente a personalidade dela, como se este fosse o primeiro momento de lazer que encontrava para estudá-la, desde que tinham vindo juntos para a ilha. O timbre peculiar da voz de Lena, com as modulações que lhe imprimiam a audácia ou a tristeza, teriam comunicado interesse à mais vã garrulice. Lena, porém, não era tagarela. Era antes calada, tinha o dom de ficar imóvel, quieta e tesa, como quando descansava no tablado dos concertos, entre duas peças musicais, os pés cruzados, as mãos repousando no regaço. Mas na intimidade da sua existência comum os olhos dela, cinzentos e destemidos, incutiam-lhe a sensação de algo inexplicável que dormitasse no íntimo da mulher: estupidez ou inspiração, fraqueza ou força — ou simplesmente um vazio abismal, que se esquivava até nos momentos de completo abandono.

Durante largo trecho, decorrido em silêncio, ela não olhou para ele. E de repente, como se a palavra “dilúvio” não lhe houvesse saído do espírito, perguntou alçando os olhos para o céu sem nuvens:

— Nunca chove aqui?

— Há uma quadra do ano em que chove quase todos os dias — respondeu Heyst, surpreendido. — Também há trovoadas. Certa ocasião tivemos uma chuva de lama.

— Chuva de lama?

— Aí o nosso vizinho estava vomitando cinzas. De vez em quando limpa dessa maneira a sua garganta incandescente. Na mesma ocasião houve uma trovoada. Foi o diabo. Mas em geral o nosso vizinho comporta-se bem. Contenta-se com fumegar sossegadamente, como naquele dia em que te mostrei a fumaça no céu, do convés da escuna. É um vulcão indolente e bonachão.

— Uma vez vi uma montanha que fumegava assim — disse ela olhando fito para a haste esguia de um feto arborescente, uns quatro metros à sua frente. — Foi pouco depois do sairmos da Inglaterra... alguns dias depois. Enjoei tanto no começo que perdi a conta dos dias. Uma montanha que fumegava... não me lembro como a chamavam.

— O Vesúvio, talvez — sugeriu Heyst.

— Era esse o nome.

— Eu também o vi, há anos... há séculos — disse Heyst.

— Em viagem para cá?

— Não, muito antes de pensar sequer em vir para esta parte do mundo. Ainda era menino.

Ela virou-se e considerou-o atentamente, como procurando descobrir algum vestígio dessa meninice na fisionomia madura do homem de longo e basto bigode, e cujo cabelo começava a rarear no alto da cabeça. Heyst suportou o seu exame franco com um sorriso brincalhão, ocultando o efeito profundo que lhe produziam aqueles velados olhos cinzentos — se era no seu coração ou nos seus nervos, se era de caráter sensual ou espiritual, de ternura ou de irritação, não o saberia dizer.

— Então, princesa de Samburan — disse afinal, — encontrei graça aos teus olhos?

Ela pareceu acordar, e sacudiu a cabeça.

— Estava pensando — murmurou em voz muito baixa.

— O pensamento, a ação... tudo ciladas! Se começares a pensar sentir-te-ás desgraçada.

— Não estava pensando em mim mesma — disse ela, com uma simplicidade que deixou Heyst um tanto desconcertado.

— Nos lábios dum moralista, isto pareceria uma exprobação — disse ele, meio a sério. — Mas não te suspeitarei de ser moralista. Há muito que os moralistas e eu não nos damos bem.

Ela escutara com expressão atenta.

— Ouvi dizer que não tinhas amigos — disse. — Felizmente, não há ninguém para te censurar o que fizeste. Gosto de ver que não sou estorvo para ninguém.

Heyst quis falar, porém ela não lhe deu tempo. Continuou, sem notar o seu gesto:

— O que eu perguntava a mim mesma era isto: por que estás aqui?

Heyst reclinou-se novamente, apoiado sobre o cotovelo.— Se com isso queres dizer: “por que estamos nós aqui”... bem, tu sabes a razão.

Os olhos de Lena pousaram-se nele.

— Não, não é isso. Eu queria dizer antes... todo esse tempo, antes de me encontrares e adivinhar logo que eu estava aflita, sem ter a quem recorrer. Sabes mesmo como a minha situação era desesperada.

Morreu-lhe a voz a estas últimas palavras, como se fosse terminar aí. Mas havia na atitude de Heyst, sentado aos seus pés e olhando firmemente para ela, a clara indicação de que esperava alguma coisa mais, e Lena continuou, depois de uma breve aspiração:

— Desesperada, mesmo. Eu te disse que já tinha sido importunada por indivíduos mal-intencionados. Isso me fazia sofrer, perturbava-me... dava-me raiva, também. Mas, ah! que ódio eu tinha daquele homem!

“Aquele homem” era o flórido Schomberg, de porte militar, benfeitor dos brancos (“boa comida em boa companhia”) — vítima de uma paixão serôdia. A moça estremeceu. A harmonia característica do seu rosto decompôs-se, por assim dizer, um instante. Heyst ficara surpreendido.

— Para que pensar nisso agora?

— É porque dessa vez estava encurralada, Não foi como das outras. Era pior, muito pior. Eu fazia votos para que o medo me matasse... entretanto, só agora começo a compreender o horrível que aquilo podia vir a ser. Sim, só agora, depois que...

Heyst se mexeu.

— Desde que viemos para cá — concluiu.

Abateu-se a agitação de Lena, e o seu rosto afogueado retornou gradualmente à cor normal.

— Sim — disse ela em tom tranquilo; mas ao mesmo tempo lhe deitava um olhar furtivo de admiração apaixonada. Depois o seu semblante tornou uma expressão melancólica, todos os seus músculos se relaxaram imperceptivelmente.

— Mas tu terias voltado para cá de qualquer forma? — perguntou.

— Sim. Estava só à espera de Davidson. Sim, ia voltar para cá, para estas ruínas... para a companhia de Wang, que talvez não esperasse tomar a me ver. É impossível adivinhar o que pensa esse chinês ou o como ele considera a gente.

— Não fales nele. Esse homem me põe nervosa. Fala-me em ti.

— Em mim? Vejo que ainda te ocupas com o mistério da minha existência nesta ilha. Mas nada tem de misteriosa. Em primeiro lugar, o homem com a pena de pato na mão, naquela tabuleta que tantas vezes contemplas, é o responsável pela minha existência. Também é responsável pelo que ela é, ou antes foi. Foi um grande homem, ao seu modo. Da sua vida não sei muita coisa. Suponho que tivesse começado como os outros: tomava as palavras bonitas por moeda legítima e sonante, e os nobres ideais por notas de curso. Era um grande mestre tanto numas como noutros, seja dito de passagem. Depois veio a descobrir... como te explicarei isto? Supõe que o mundo fosse uma fábrica, com toda a humanidade por operários. Pois ele descobriu que os salários eram maus, que os homens eram pagos com dinheiro falso.

— Compreendo! — disse a moça devagar.

— Sim?

Heyst, que parecia falar para si mesmo, ergueu os olhos com curiosidade.

— A descoberta não era nova, mas meu pai concentrou sobre ela toda a sua capacidade de sarcasmo, que era tremenda. Devia ter esfarelado este globo. Ignoro quantos espíritos ele convenceu. Mas o meu espírito era então muito jovem, e suponho que a mocidade pode ser facilmente seduzida... mesmo por uma negação. Meu pai era inexorável, e no entanto não lhe faltava piedade. Dominou-me sem dificuldade, o que um homem sem coração não conseguiria fazer. Até com os tolos ele não era inteiramente desapiedado. Sabia indignar-se, mas era demasiado grande para a chacota e o escárnio. O que ele dizia não se destinava nem podia destinar-se à multidão; e eu sentia-me lisonjeado por me ver entre os eleitos. Os outros liam os seus livros, mas eu lhe ouvi a palavra viva. Era irresistível. Era como se aquele espírito me tomasse como confidente, me admitisse no segredo do seu desespero sublime. Enganava-me, não resta dúvida. Há um pouco de meu pai em todo homem que viva bastante para isso. Mas eles não dizem nada. Não podem dizer. Não saberiam exprimir-se, ou talvez não quereriam falar se pudessem. O homem, neste mundo, é um acidente imprevisto que não admite um exame muito profundo. No entanto, esse homem morreu serenamente, como uma criança que adormece. Mas eu, que o tinha ouvido, já não podia descer com a minha alma à rua e ali lutar confundido com a turba. Saí a vaguear pelo mundo, como um espectador independente... se é que tal coisa é possível.

Por largo espaço de tempo os olhos cinzentos da moça lhe haviam observado a fisionomia. Compreendera que, embora lhe dirigisse a palavra, Heyst estava na realidade falando para si mesmo. Ele ergueu a vista, apercebeu-se da sua presença, por assim dizer, e interrompeu o seu monólogo, falando em voz baixa e mudando de tom.

— Tudo isto não te explica por que vim ter aqui. Por que seria, realmente? É como investigar mistérios inescrutáveis que não merecem estudo. Um homem deixa-se levar. Os mais bem sucedidos foram arrastados para o sucesso. Não pretendo afirmar-te que isto aqui seja um sucesso. Não me acreditarias se te dissesse. Não o é, mas tão pouco é o fracasso e a ruína que parece. Tudo isso nada prova, salvo que há no meu caráter alguma fraqueza oculta... e mesmo isso não é bem certo.

Olhou-a fixamente, e com uma expressão tão grave nos olhos que ela se sentiu na obrigação de lhe sorrir levemente, visto como não compreendia o sentido das suas palavras. Seu sorriso refletiu-se, ainda mais tênue, nos lábios dele.

— Isso não te adianta muito ao inquérito — continuou Heyst. — Para dizer a verdade, é impossível responder à tua pergunta; mas os fatos têm certo valor positivo, e vou relatar-te um fato. Certo dia encontrei um homem encurralado. Emprego esta palavra porque ela exprime de modo exato a situação do homem, e porque tu mesma à usaste ainda há pouco. Sabes o que isso significa?

— Que estás dizendo? — murmurou ela, assombrada.

— Um homem!

Heyst riu-se do seu olhar pasmado.

— Não, não! Quero dizer, encurralado a seu modo.

— Eu sabia muito bem que não podia ser nada de semelhante ao que me aconteceu — observou ela a meia voz.

— Não te aborrecerei com a história. Tratava-se de uma dificuldade de alfândega, por muito singular que isso te pareça. Ele preferiria que o matassem logo, isto é, que lhe mandassem a alma para um outro mundo, a ser esbulhado neste das suas posses — bem insignificantes posses! Vi que ele acreditava num outro mundo porque ao se ver encurralado, como já te disse, caiu de joelhos e rezou. Que pensas disto?

Heyst fez uma pausa. Ela considerou-o com expressão séria.

— Não troçaste dele por isso? — perguntou.

Heyst fez um brusco movimento de protesto.

— Minha boa menina, eu não sou um canalha — exclamou. E, voltando ao seu tom habitual: — Nem sequer me foi necessário esconder um sorriso. De certo modo, não me pareceu caso para sorrir. Não, não era cômico; era antes patético. Ele representava tão bem todas as passadas vítimas da Grande Farsa! Mas é só pela tolice que se move o mundo, de modo que a tolice é, no fundo, uma coisa respeitável. Aliás, ele era o que se chama um bom homem. Não digo isto somente porque tinha rezado. Não! Era na verdade um homem honesto, completamente inadaptado a este mundo, um fracasso, um bom homem encurralado — um espetáculo para os deuses, pois nenhuma pessoa normal gosta de contemplar gente dessa espécie.

Pareceu acudir-lhe uma ideia e virou-se para encarar na moça.

— E tu, que também te viste encurralada... pensaste em orar?

Nem os olhos dela, nem uma só das suas feições, se moveram. Apenas deixou cair estas palavras:

— Eu não sou o que se chama uma boa moça.

— Parece uma evasiva — disse Heyst após breve silêncio. — Pois o bom rapaz rezou, e depois de lhe ouvir confessar que o tinha feito senti a comicidade da situação. Não, não me interpretes mal... não estou aludindo a esse ato em particular, claro. E a própria ideia desse apelo à Eternidade, ao Infinito e à Onipotência para que inutilizassem os planos de dois miseráveis mestiços portugueses, não me provocou ao riso. Do ponto de vista do suplicante, o perigo que se devia conjurar era uma espécie de fim do inundo, ou coisa pior. Não! O que me cativou a fantasia foi O fato de eu, Axel Heyst, a mais desprendida criatura deste cativeiro terreno, o mais perfeito vagabundo da terra, um homem a passear indiferente no meio do tumulto mundano — que eu me achasse lá para intervir na questão como agente da Providência. Eu, o descrente universal, que tudo desdenhava...

— Estás dando-te ares — interrompeu ela na sua voz sedutora, com uma inflexão cariciosa.

— Não. Eu sou assim mesmo, ou de nascença ou por educação, ou ambas as coisas. Não é em vão que sou filho de meu pai, daquele homem do retrato. Tenho tudo dele, tudo menos o gênio. E tenho ainda menos qualidades do que julgava, pois até o desprezo me vai abandonando com o correr do tempo. Nunca me diverti tanto como com aquele episódio em que fui chamado a desempenhar tão incrível papel. Por um momento gozei imensamente esse papel. Eu o tirei da dificuldade, sabes?

— Salvaste um homem por brincadeira... é isso o que queres dizer? Simplesmente por brincadeira?

— Por que esse tom de suspeita? — repreendeu Heyst. — Creio que o espetáculo daquela angústia me foi desagradável. O que chamas de brincadeira veio depois, quando comecei a perceber que era para ele Uma prova incarnada, viva e ambulante, da eficácia da oração. Isso me fascinava um pouco... e depois, como poderia discutir com ele? Contra provas desse gênero não há argumentos, e além disso eu teria o ar de reclamar todo o mérito para mim. A sua gratidão já era, em si, positivamente aterradora. Situação engraçada, hein? O fastio veio depois, quando fui viver com ele no seu navio. Eu tinha, num momento de inadvertência, criado esse laço em que me vi apanhado. Não sei defini-lo precisamente. A gente fica de certo modo presa às pessoas a quem presta um serviço. Mas isso será amizade? Não sei bem o que era. Só sei que quem forma um laço está perdido. O germe da corrupção entrou-lhe na alma.

Heyst falara num tom leve de voz, com aquele sabor de gracejo que temperava tudo quanto ele dizia e parecia formar a própria essência dos seus pensamentos. A mulher que havia encontrado e de que tomara posse, a cuja presença ainda não se habituara e com quem ainda não sabia como viver — esse ser humano tão próximo, e contudo tão pouco conhecido, dava-lhe um sentimento da sua própria realidade tal como não experimentara igual em toda a sua vida.