Vitória
Capítulo VI
Datavam dessa noite os fenômenos misteriosos mas significativos que casualmente haviam chamado a atenção do Capitão Davidson quando este veio, plácido mas astuto, devolver o chale indiano da sra. Schomberg. E, circunstância singular, prolongaram-se por um tempo considerável. Isto parecia indicar honestidade, ou pouca sorte, ou bem um extraordinário comedimento por parte de Mr. Jones & Cia. em suas discretas operações com o baralho.
O salão de concertos de Schomberg formava um espetáculo curioso, atravancado que estava numa das extremidades por grandes pilhas de cadeiras amontoadas em cima e em derredor do estrado da orquestra, e iluminado na outra por duas dúzias de velas dispostas em volta de uma longa mesa formada de cavaletes e coberta com um pano verde. No meio da mesa Mr. Jones, emaciado espectro transformado em banqueiro, fazia face a Ricardo, um gato de movimentos vagarosos, algo sinistro, transformado em croupier. As outras fisionomias em redor da mesa, que se contavam entre vinte e trinta, deviam parecer por contraste espécimes de humanidade ingênua e indefesa, tocantes na sua espreita dos pequenos lances de sorte, que para elas podiam na verdade ter grande importância. Não punham atenção no cabeludo Pedro, que carregava a bandeja com os modos desajeitados de um animal apanhado no mato e ao qual se houvesse ensinado a caminhar sobre as patas traseiras.
Quanto a Schomberg, mantinha-se à distância. Ficava na sala de bilhar, entregando as bebidas ao incrível Pedro, com o ar de não ver o monstro rosnador, de não saber para onde iam os copos e garrafas, de ignorar que houvesse um salão de orquestra entre as árvores, a cinquenta metros do hotel. Conformava-se à situação com um estoicismo desalentado, composto de medo e de resignação. Assim que os jogadores se retiravam (ele via os vultos escuros escoarem-se pelo portão, isolados ou em grupos), ia meter-se num lugar onde não pudesse ser visto, atrás de uma porta entrecerrada, para não encontrar os dois extraordinários hóspedes. Mas espiava pela fresta da porta as duas figuras tão dessemelhantes, quando estas passavam pela sala de bilhar o desapareciam a caminho dos seus quartos. Ouvia então batidas de portas em cima, e um silêncio profundo caía sobre a casa inteira, sobre o seu hotel expropriado, infestado por esses insolentes que tinham um arsenal completo nas suas malas. Silêncio profundo. Às vezes Schomberg deixava-se tomar pela impressão de que estava sonhando. Sacudido de tremores, cobrava ânimo e saía do seu esconderijo com movimentos cautelosos que contrastavam singularmente com a sua atitude de tenente da reserva, pela qual tratava de impor-se ao respeito do mundo.
Pesava sobre ele uma grande solidão. Apagava as luzes uma após outra e dirigia-se de mansinho para a alcova, onde o esperava a sra. Schomberg — imprestável companheira para um homem com as suas qualidades, e ademais “no vigor dos anos”. Mas ai! essa radiante madureza estiolava-se inútil. Nunca o sentia com mais intensidade do que quando, ao abrir a porta do quarto, punha os olhos naquela mulher pacientemente sentada numa cadeira, com os dedos dos pés a espiar sob a ourela do camisão, os cabelos pasmosamente raros escorrendo pela longa nuca, onde as vértebras formavam serra, e com aquele eterno sorriso amedrontado que punha à mostra um dente azulado e não exprimia coisa alguma — nem sequer medo, pois ela se acostumara ao marido.
Às vezes ele sentia a tentação de desaparafusar aquela cabeça. Imaginava-se a fazê-lo — um movimento rotativo, com uma só mão. Não o pensava a sério, naturalmente simples vazão dos seus sentimentos exasperados. Era incapaz de matar, disto tinha certeza. E, recordando de súbito as falas francas de Mr. Jones, refletia: “Suponho que eu seja com efeito demasiado cordato para isso” — em perfeita inconsciência de ter assassinado moralmente a mulher, anos atrás. Sua inteligência era muito acanhada para que pudesse ter noção de tal crime. A presença corporal da sra. Schomberg era altamente ofensiva, em virtude do contraste com uma imagem feminina bem diversa. E era inútil procurar desembaraçar-se dela. Era um hábito de muitos anos, e ele não tinha nada para por no seu lugar. Em todo caso, podia falar a essa idiota até de madrugada, se lhe aprouvesse.
Nessa noite tinha palrado diante dela sobre a sua intenção de enfrentar os dois hóspedes e, em lugar da inspiração que necessitava, não recebera mais que a advertência habitual: “Tem cuidado, Wilhelm”. Não precisava que uma fêmea imbecil lhe viesse recomendar cuidado. O de que precisava eram dois braços femininos que, cingindo-lhe o pescoço, lhe dessem a coragem suficiente para o encontro. Inspirá-lo, eis como denominava isto no seu íntimo.
Ficou muito tempo acordado. As madornas, quando vieram, foram breves e insatisfatórias. A luz matinal não lhe trouxe alegria para os olhos. Escutou sorumbático os rumores no interior da casa. Os chineses abriam de par em par as portas das salas públicas que davam para a varanda. Horrível! Mais um dia envenenado que teria de atravessar como melhor pudesse. A lembrança da sua resolução fê-lo por um momento sentir-se mal. Em primeiro lugar, as atitudes fidalgas e abandonadas de Mr. Jones o desconcertavam. Depois, o seu silêncio desdenhoso. Mr. Jones nunca falava de assuntos gerais a Schomberg, nunca descerrava os lábios senão para lhe dizer “Bom dia” — duas palavras simples que, na boca daquele homem, afiguravam-se uma zombaria ameaçadora. E, finalmente, não era um mero temor físico que ele lhe causava (pois, no tocante a isto, até um rato encurralado se defende) mas um terror supersticioso, encolhido, uma espécie de repugnância invencível a procurar conversa com um espectro malfazejo. O fato de ser ele um espectro diurno, de atitudes surpreendentemente angulosas, e estendido a maior parte do tempo sobre três cadeiras em linha, não tornava mais fácil a empresa. A luz do dia não fazia senão tornar a aparição mais fantástica, mais perturbadora e maléfica. Circunstância singular: de noite, quando ele deixava a sua muda horizontalmente, o seu aspecto extraterreno não chamava tanto a atenção. À mesa de jogo, quando o homem manuseava as cartas, esse aspecto desaparecia provavelmente. Mas Schomberg, tendo resolvido não tomar conhecimento do que se passava, à maneira do avestruz, jamais entrava no salão profanado. Nunca, tinha observado Mr. Jones no exercício da sua profissão (ou talvez fosse simples ofício?).
— Falarei com ele esta noite — disse Schomberg consigo enquanto sorvia o chá matinal, de pijama na varanda, antes que o sol nascente topetasse com as árvores do pátio. O orvalho prateado ainda recobria a relva, cintilava nas flores do canteiro central e dava uma tonalidade escura ao cascalho da alameda. — É o que vou fazer. Esta noite não me esconderei. Hei de apanhá-lo quando ele passar para o quarto com a caixa do dinheiro.
— Em fim de contas, que era o sujeito senão um aventureiro vulgar? Perigoso? sim, bastante perigoso, talvez... Schomberg sentiu uma contração espasmódica dos músculos do ventre sob o tecido fino do pijama. Mas mesmo um bandido teria pensado duas vezes, ou melhor, uma centena de vezes, antes de assassinar abertamente um cidadão inofensivo numa cidade civilizada e sob a proteção das autoridades europeias. Sacudiu os ombros. Claro! Estremeceu outra vez e voltou ao seu quarto para se vestir. Havia tomado a sua resolução e não pensaria mais nisso. Tinha, contudo, as suas dúvidas, que foram crescendo e expandindo-se com o decorrer do dia, como fazem certas plantas. Em dados momentos aumentavam-lhe a transpiração, e não o deixaram sestear. Após virar-se mais de uma dúzia de vezes na cama ele renunciou a essa ilusão de repouso, levantou-se e desceu.
Era entre três e quatro horas, o instante de paz profunda. Ás próprias flores pareciam dormitar nas suas hastes, de onde pendiam as folhas sonolentas. O mesmo ar estava imóvel, pois a brisa do mar só viria mais tarde. Os criados estavam invisíveis, desfrutando sonecas na sombra, para os fundos da casa. A sra. Schomberg, num quarto escuro de cima, com as persianas fechadas, arranjava aqueles dois compridos cachos que formavam parte tão conspícua do seu toucado da tarde. Àquela hora nenhum freguês perturbava o descanso do hotel. Schomberg, que vagueava muito só pela casa, recuou diante da porta da sala de bilhar como se tivesse visto uma cobra no seu caminho. Sozinho com as mesas de bilhar, as mesinhas nuas e uma porção de cadeiras vazias, o secretário Ricardo estava sentado junto à parede, aparentemente a executar, com extraordinária rapidez, habilidades com o seu baralho particular, que carregava sempre no bolso. Se ele não voltasse a cabeça Schomberg ter-se-ia afastado sem fazer ruído. Já que fora visto, porém, o hoteleiro preferiu entrar como a menos arriscada das alternativas. A consciência da sua íntima, abjeção ante esse homens sempre, fazia Schomberg enfunar o peito e tomar uma expressão severa. Ricardo, segurando o baralho com ambas as mãos, observou-o enquanto se aproximava.
— Deseja alguma coisa, talvez? — insinuou Schomberg na sua voz de tenente da reserva.
Ricardo abanou a cabeça sem dizer nada e pareceu ficar à espera de alguma coisa. Com ele, Schomberg trocava pelo menos vinte palavras todos os dias. Era muitíssimo mais comunicativo do que o seu patrão. Às vezes afigurava-se um ser humano comum, dentro da sua classe. Neste momento parecia disposto a mostrar-se amável. De repente espalhou dez cartas em leque, com as costas para cima, e estendendo-as bruscamente a Schomberg:
— Vamos, homem, tire uma depressa!
Schomberg ficou tão surpreendido que tirou uma carta precipitadamente, depois de estremecer por forma bem visível. Os olhos de Martin Ricardo fosforeavam na penumbra da sala, que as persianas abrigavam do calor e da luz crua dos trópicos.
— É um rei de copas que você tem aí — disse ele com um riso gutural, mostrando os dentes num lampejo momentâneo.
Schomberg olhou para a carta, admitiu que era o rei de copas e largou-a sobre a mesa.
— Nove vezes sobre dez, consigo fazer uma pessoa tirar a carta que eu quero — exultou o secretário com uma singular crispação dos lábios e um reflexo verde nos olhos alçados.
Schomberg considerou-o em silêncio. Pelo espaço de alguns segundos nenhum deles se moveu. Por fim Ricardo baixou os olhos e, abrindo as mãos, deixou o baralho cair na mesa. Schomberg se sentou. Apenas por sentir as pernas frouxas. Tinha a boca seca. Como se sentou, achou-se na obrigação de falar. Perfilou os ombros, como numa parada.
— Você é muito hábil nessas coisas — disse.
— A prática faz a perfeição — respondeu o secretário.
Sua precária amabilidade impossibilitava Schomberg de se retirar. E deste modo, em razão da sua própria timidez, o hoteleiro viu-se empenhado numa palestra que, só em pensar nela, o enchia de apreensão. Schomberg, justiça lhe seja feita, dissimulava o seu medo de forma assaz convincente. Muito serviço lhe prestava o hábito de enfunar o peito e falar em tom severo. Também no seu caso, a prática fazia a perfeição; teria provavelmente conservado essa atitude até o fim, até o derradeiro momento, o instante do Colapso total que o poria de rastos no chão. Além disso — circunstância que ainda mais agravava a sua perturbação secreta — não sabia o que dizer. Só encontrou isto:
— Suponho que tenha amor às cartas.
— Que é que você esperava? — perguntou Ricardo filosoficamente. — Podia deixar de ter? — E, com súbito ardor: — Amor às cartas? Sim, verdadeira paixão!
O efeito desta efusão era acrescido pelas pálpebras modestamente baixadas, por uma pausa cheia de reserva, como se aquilo fosse a confissão de um amor de outra espécie. Schomberg torturou o cérebro em busca de outro assunto, mas nada encontrou. Os habituais mexericos escandalosos não teriam cabimento. Esse jogador não conhecia ninguém em mil milhas à roda. Schomberg viu-se quase forçado a continuar no mesmo tópico.
— Suponho que tenha sido sempre assim... desde mocinho.
Os olhos de Ricardo continuavam postos no chão. Seus dedos brincavam distraídos com as cartas espalhadas sobre a mesa.
— Não sei se foi desde tão cedo. Comecei a jogar por fumo... a bordo, bem sabe, no castelo de proa... jogos de marinheiro. Costumávamos passar quartos de ronda inteiros a jogar, em roda de um caixote, debaixo de uma candeia de sebo. Mal tínhamos tempo para morder um naco de carne de cavalo salgada... Não comíamos nem dormíamos. Mal nos podíamos por em pé quando mudavam a ronda no convés. Aquilo é que era jogar! — Deixou o tom evocativo para informar: — Ando no mar desde menino, sabe?
Schomberg tinha mergulhado em cisma, sem contudo perder a consciência da calamidade que o ameaçava. As palavras que ouviu a seguir foram estas:
Dei-me muito bem no mar, por sinal. Cheguei a imediato. Fui imediato de uma escuna... podia-se dizer um iate... com um beliche de primeira, no Golfo do México, um desses empregos camaradas que a gente só encontra uma vez na vida. Sim, eu era imediato desse navio quando deixei O mar para segui-lo.
Ricardo espichou o queixo indicando o quarto de cima. Schomberg, com o intelecto desagradavelmente despertado por esta lembrança da existência de Mr. Jones, concluiu que este se havia retirado para o quarto de dormir. Ricardo, que o observava sob as pálpebras descidas, prosseguiu:
— Deu a sorte de sermos companheiros de bordo.
— Refere-se à Mr. Jones? Ele também é marinheiro?
Isto fez Ricardo erguer as pálpebras.
— Ele não se chama Mr. Jones, nada — disse com evidente orgulho. — Ele, marinheiro! Isto mostra a sua ignorância. Mas é assim mesmo! Um estrangeiro não pode entender. Eu sou inglês, e conheço um gentleman à primeira vista. Havia de reconhecê-lo bêbado, na sarjeta, na cadeia, na forca. Tem qualquer coisa... não é propriamente a aparência, é um... não adianta procurar explicar-lhe. Você não é inglês; se o fosse não precisaria que lho dissessem.
Uma torrente de loquacidade, de que nada fazia suspeitar, rompera os diques no interior do homem, diluíra-lhe o sangue ardente é amolentara-lhe a fibra implacável. Schomberg sentiu uma mescla de alívio e de receio, como se de repente um enorme gato bravo começasse a enroscar-se-lhe nas pernas com uma afeição inexplicável. Em tal conjuntura, nenhum homem prudente ousaria bulir. Schomberg não buliu.
Ricardo tomou uma postura negligente, encostando o cotovelo na mesa. O hoteleiro tornou a perfilar os ombros.
— Eu trabalhava naquele iate, escuna ou como quer que se chamasse, para dez cavalheiros ao mesmo tempo. Isto o surpreende, hein? Sim, dez. Pelo menos, nove deles eram cavalheiros passáveis, lá ao seu modo, e o décimo um cavalheiro consumado, e esse era...
Ricardo tornou a espetar o queixo para cima, o que dignificava: Ele! O único!
— Inconfundível! — prosseguiu. — Eu o adivinhei logo no primeiro dia. Como? Por quê? Bem pode perguntar. Eu não tinha encontrado muitos cavalheiros na minha vida. Bem, seja como for, percebi logo. Se você fosse inglês havia de...
— Que iate era esse? — interrompeu Schomberg com certa impaciência, tanta quanto lhe permitia a sua timidez, pois esta insistência sobre a questão das nacionalidades mexia com os seus nervos já bastante postos à prova. — Qual era o jogo?
— Você sempre tem alguma coisa dentro dessa cabeça! Jogo! Isso mesmo! É o que aquilo era... uma dessas tolices que os cavalheiros inventam lá entre eles, para correr aventura. Cada um deles entrou com a sua parte, você compreende, para comprarem a escuna. Foi o agente desses senhores na cidade que contratou a mim e ao capitão. O maior segredo, e tal e coisa. Imagino que ele andasse rindo-se por dentro todo aquele tempo... nem resta dúvida. Mas isso não era da nossa conta. Que jogassem fora o seu dinheiro como bem entendessem! O pior é que muito pouco vinha parar nas nossas mãos. O salário justo, nada mais. E diabos levem os salários, grandes ou pequenos, se quer a minha opinião!
Seus olhos verdoengos pestanejaram à luz fosca. O calor parecia ter aquietado todas as coisas, exceto a sua voz. Praguejou livre e abundantemente, rosnando em surdina, não se poderia dizer por que. Depois acalmou-se, não menos inexplicavelmente, e prosseguiu, como um marinheiro que desfia uma história.
— No começo eram só nove os senhores aventureiros. Depois, um ou dois dias antes da data marcada para partirmos, chegou ele. Tinha ouvido falar na coisa, não sei como. Eu diria que foi alguma mulher que lhe contou, se não o conhecesse como o conheço. Ele foge dez milhas de qualquer mulher. Não as tolera. Ou talvez tivesse sido em alguma tasca. Ou então em algum daqueles clubes de luxo de Pall Mall. Em todo caso, o agente o incluiu prontamente na transação: pagamento à vista e vinte e quatro horas para se aprontar, nem um minuto mais. Mas ele não perdeu o navio. Pois sim! Uma corrida de última hora, pode-se dizer... para um cavalheiro. Eu o vi chegar. Conhece as Docas das índias Ocidentais, hein?
Schomberg não as conhecia. Ricardo considerou-o algum tempo pensativamente e depois prosseguiu, como se não houvesse remédio para tal ignorância.
— O nosso rebocador já estava encostado. Dois desocupados vinham atrás dele, trazendo as suas coisas. Mandei o pessoal do cais segurar as nossas amarras um minuto mais. Já tínhamos recolhido a prancha, mas para ele foi uma brincadeira. Num pulo só, atirou aquelas pernas. compridas por cima da amurada e assentou pé no convés. Passaram para cima as suas malas (bonitas malas!) e ele meteu a mão no bolso da calça e jogou no cais, para os tais carregadores, todo o troco miúdo que tinha. Quando largamos, ainda estavam os dois de quatro pés pelo cais. Foi só então que ele olhou para mim — calmamente, você sabe, devagar. Não era tão magro como agora, mas notei que era mais velho do que parecia — bem mais velho. O homem pareceu tocar em alguma coisa aqui dentro. Afastei-me depressa dali. Aliás, precisavam de mim na proa. Não foi por medo. Do que teria medo? Apenas me senti tocado, tocado na fibra. Mas por Judas, se alguém me tivesse dito que nós seriamos companheiros antes do fim daquele ano... nem sei o que pensaria.
Proferiu uma porção de pragas estranhas e variadas, algumas delas comuns, outras singularmente horríveis para o ouvido de Schomberg, e todas elas simples interjeições inocentes provocadas pelas mudanças e vicissitudes da humana fortuna. Schomberg mexia-se um pouco na sua cadeira. Mas o admirador de “Mr. Jones-simplesmente” parecia ter esquecido o hoteleiro de momento. A torrente de blasfêmias ingênuas (algumas delas em mau espanhol) havia estancado e Martin Ricardo, entendido em cavalheiros, ficou mudo, com os olhos parados, como a maravilhar-se interiormente das incidências, conjunções e associações de acontecimentos que dirigem as peregrinações do homem sobre a face deste planeta.
Afinal Schomberg arriscou:
— De modo que o... esse cavalheiro lá em cima o persuadiu a deixar o seu emprego?
Ricardo teve um arranco.
— Persuadir! Não era preciso. Fez-me um sinal, e foi bastante. Já então estávamos no Golfo do México. Uma noite tínhamos lançado a âncora, perto de um banco de areia posto a seco (até hoje não sei onde era), ao largo da Colômbia ou por ali assim. Na manhã do dia seguinte íamos começar as escavações e toda a equipagem fora deitar cedo, preparando-se para trabalhar rijo com as pás. Ele chega-se a mim e, com aquele seu jeito de falar calmo e cansado (pode-se conhecer um cavalheiro por isso, quase tão bem como por outros sinais), chega-se a mim pelas costas e diz, assim mesmo, ao ouvido:
“— Então, que acha você desta caça ao tesouro?
“Eu nem voltei a cabeça. Fiquei exatamente como estava e respondi, na mesma voz baixa:
“— Se o senhor quer mesmo saber, parece-me uma rematada asneira.
“Nós tínhamos, naturalmente, conversado algumas vezes durante viagem. Meia dúzia de palavras apenas. Não duvido que ele tivesse lido na minha alma como num livro. Eu não tenho grandes qualidades, salvo que nunca fui manso, mesmo quando andava pelas ruas, dizendo piadas e pagando bebidas aos camaradas... sim, e até a estranhos. Via-os empinar um copo à minha custa, ou rebentar de riso com as minhas gracinhas... sei ser engraçado quando me dá na veneta, pode crer!”
Uma pausa para a contemplação satisfeita da sua própria generosidade e veia cômica atalhou o fluxo verbal de Ricardo. Schomberg aplicava-se a manter nos devidos limites o tamanho dos seus olhos, que ele tinha a impressão de sentir crescer nas órbitas.
— Sim, sim — apressou-se a murmurar.
— Eu olhava para eles e pensava: “Vocês, meus amigos, não sabem quem eu sou. Se soubessem...!” Com as mulheres também. Certa ocasião eu namorava uma moça. Costumava dar-lhe beijos atrás da orelha, dizendo cá comigo: “Se tu soubesses quem te está beijando, minha querida, soltavas um grito e pisavas no mundo!” Ah, Ah! Não que eu quisesse fazer mal a elas, mas sentia em mim o poder de fazê-lo. Por exemplo, aqui estamos nós sentados como amigos, e tudo vai bem. Você não se atravessa no meu caminho. Mas eu não sou seu amigo. Não me importo com você, simplesmente. Outros também falam assim; mas eu não me importo mesmo. Você para mim não tem mais importância que aquela mosca ali. Igualzinho. Posso esmagá-lo ou deixá-lo em paz. Tanto faz uma coisa como a outra.
Se verdadeira força de caráter consiste em vencer as nossas fraquezas repentinas, Schomberg mostrou possuí-la em alto grau. À menção da mosca reforçou o seu ar de dignidade como quem torna a encher, com grande dispêndio de fôlego, um balão de borracha que se esvazia. A atitude familiar e indolente de Ricardo era, na verdade, aterradora.
— Pois é — continuou ele. — Sou um tipo assim. Você não teria imaginado, hein? Não. É preciso dizer-lhe. Por isso mesmo estou-lhe dizendo, e aposto como você não me acredita de todo. Mas não pode convencer-se de que estou bêbado, por mais que me espete os olhos. Não tomei hoje mais que um copo de água gelada. Para ler na alma de um homem é preciso ter fibra de cavalheiro. Sim, senhor: ele me adivinhou. Já lhe disse que nós tínhamos tido umas ligeiras palestras a bordo, sobre um assunto e outro. E eu o observava pela claraboia, a jogar cartas no salão com os seus companheiros. Afinal, tinham que matar o tempo de uma maneira ou doutra. Ele, do mesmo modo, me pilhou uma ocasião a jogar, e foi então que eu lhe disse gostar de cartas... e também que em geral era feliz no jogo. Sim, ele Já me havia tomado o pulso. Por que não? Um cavalheiro é igual a outro homem qualquer... e alguma coisa mais.
Veio à mente de Schomberg a reflexão de que esses dois homens, na verdade, combinavam muito bem apesar da enorme diferença: duas almas idênticas sob disfarces distintos.
— Diz ele a mim — começou Ricardo de novo a palrar: — “Estou com as malas prontas. Já é tempo de nos irmos daqui, Martin.”
“Era a primeira vez que ele me chamava Martin. Respondi:
“— Fala sério, meu senhor?
“— Você acreditou que eu andasse atrás do tal tesouro, por acaso? O que eu queria era raspar-me da Inglaterra na calada. A viagem me saiu bastante cara, mas consegui o que queria.
“Dei-lhe a entender logo que na sua companhia eu estava disposto a tudo, desde uma partida de pitch and toss até o homicídio premeditado.
“— Homicídio premeditado? — replica ele, com aquela sua calma. — Que diabo de coisa é essa? Em que é que você está falando? Às vezes, com efeito, uma pessoa morre quando se atravessa no caminho da gente, mas isso é legítima defesa, entendeu?
“Respondi que entendia. Depois disse que ia descer um instante à coberta, para meter algumas das minhas coisas numa mala de marinheiro que eu tinha. Nunca fui amigo de muita bagagem. Sempre segui a teoria de ter as mãos desembaraçadas quando andava no mar. Voltei e encontrei-o a caminhar de um lado para o outro no convés, como se estivesse tomando a fresca antes de ir deitar-se, conforme fazia todas as noites.
“— Pronto?
“— Sim, senhor.
“Nem olhou para mim. Tínhamos arreado um escaler na popa, desde que lançáramos a âncora, de tarde. Ele jogou a ponta do charuto por cima da amurada.
“— Você não conseguirá trazer o capitão aqui ao convés? — perguntou.
“Era essa a ordem que eu menos esperava dele. Fiquei um instante sem língua.
— Posso tentar — disse afinal.
“— Bem, então eu vou descer. Traga-o cá para cima e segure-o aqui até eu voltar. Preste atenção! Não o deixe descer enquanto eu não vier.
“Não resisti à tentação de lhe perguntar por que me pedia para acordar um homem que dormia, quando o melhor para nós seria que toda a gente de bordo continuasse ferrada no sono até nos afastarmos da escuna. Ele riu-se um pouco e disse que eu ainda não compreendia bem o negócio.
— Tome tento — ajuntou; — não o deixe ir embora enquanto não me vir subir de novo. — E, chegando o rosto ao meu: — Segure-o aqui a todo custo.
— Quer dizer? — pergunto eu.
“— A todo custo... para ele. Empregue todos os meios possíveis e impossíveis. Não quero ser interrompido no meu serviço lá em baixo. Ele me daria muito que fazer. Escolhi você como companheiro para me poupar trabalho em várias circunstâncias. E você vai entrar em funções imediatamente.
“— Perfeitamente, meu chefe — digo eu; e ele desapareceu pela escotilha abaixo.
“Com um cavalheiro sempre se sabe a quantas se anda. Mas o serviço era delicado. O capitão para mim era mesmo que nada, tal qual o senhor neste momento, Mr. Schomberg. Pode acender um cigarro ou rebentar os miolos agora mesmo, a mim tanto se me dá que faça uma coisa como a outra, as duas, ou nenhuma. Trazer o capitão ao convés era coisa fácil. Bastava bater com o pé no tombadilho meia dúzia de vezes, em cima do seu camarote. Bati com força. Mas como, depois de o fazer subir, iria segurá-lo ali?“
— Houve alguma coisa, sr. Ricardo? — ouvi a voz dele perguntar atrás de mim.
“Lá estava o homem. E eu nem pensara ainda no que lhe diria! Assim, não me voltei. Com o luar, a noite estava mais clara do que certos dias no Mar do Norte.
“— Por que me chamou? Que é que está olhando aí, sr. Ricardo?
“Enganara-se com o fato de eu conservar as costas voltadas para ele. Não estava olhando para coisa alguma, mas o engano do homem me inspirou uma ideia.
“— Estou observando uma coisa que parece uma canoa, ali assim — disse eu muito devagar.
“O capitão ficou logo inquieto. Não que temesse os habitantes, fossem eles lá quem fossem.
“— Oh, com os demônios! — diz ele. — Que contrariedade! — Esperava que a presença da escuna ao largo da costa não seria notada tão cedo. — É o diabo, com o trabalho que temos em mão, virem estes negros observar as operações. Mas o senhor está certo de que é mesmo uma canoa?
— Pode ser um tronco boiando na água — disse eu, — mas achei que convinha o senhor ver com os seus próprios olhos. Poderá distinguir melhor do que eu.
“Os olhos do capitão não valiam os meus. Mas ele disse:
“— Certamente, certamente. Fez muito bem.
“A verdade é que eu tinha visto alguns troncos boiando ao cair do sol. Percebi logo o que eram e não pensei mais naquilo. Até aquele momento tinha-os esquecido, Não há nada de extraordinário em ver troncos boiando no mar, perto duma costa como aquela; e que me enforquem se o capitão não enxergou algum, na esteira da lua. E esquisito que a vida de um homem dependa às vezes de coisas tão insignificantes: uma simples palavra! Está você aí, por exemplo, tranquilamente sentado diante de mim, e daqui a pouco pode soltar, sem saber, alguma coisa que será a sua conta. Não que eu tenha maus sentimentos. Não tenho sentimentos de espécie alguma. Se o capitão tivesse dito “Ora sebo!” e me voltasse as costas, não chegaria a dar três passos. Mas ficou junto da amurada, olhando. Tratava-se agora de fazê-lo sair do convés quando não fosse mais preciso ali.
“— Estamos tentando descobrir se aquilo ali é uma canoa ou um tronco — diz ele a Mr. Jones.
“Mr. Jones tinha voltado, tão sem pressa e despreocupado como ao descer. Enquanto o capitão pairava sobre canoas e troncos, eu perguntei por sinais, atrás dele, se não era melhor dar-lhe uma cacetada na cabeça e jogá-lo sem ruído pela borda fora. A noite ia-se acabando, e nós tínhamos de ir. Já não podíamos adiar para a noite seguinte. Não. Não podíamos mais. E sabe por quê?”
Schomberg fez um ligeiro sinal negativo com a cabeça. Esta interrogação direta importunava-o, produzia uma dissonância naquele sossego de um grande conversador que é forçado a fazer papel de ouvinte e nele se deixa submergir, como quem vai mergulhando no sono. Ricardo tornou em tom zombeteiro:
— Não sabe por quê? Não adivinha, hein? Porque o patrão já se havia abotoado com o cofre do capitão. Compreendeu?