Vitória
Capítulo IV
Heyst, que estava sentado à mesa com o queixo, grudado ao peito, ergueu a cabeça ao ouvir o ligeiro sussurro do vestido de Lena. Surpreendeu-o a palidez mortal das suas faces, algo de exânime nos olhos que o consideravam de modo estranho, como se não o reconhecessem. Mas Lena respondeu às suas perguntas em tom tranquilizador, afirmando que não tinha nada, absolutamente nada. Sentira uma tontura ao levantar. Depois do banho, dera-lhe até uma fraqueza. Fora preciso sentar-se e esperar que aquilo passasse. Era isto o que a tinha feito atrasar-se na toilette.
— Nem me penteei. Não queria fazer-te esperar mais — disse ela.
Heyst não quis insistir nas perguntas sobre a sua saúde, visto que ela não parecia inquietar-se com a indisposição. Embora não houvesse penteado o cabelo, passara-lhe a escova e prendera-o atrás com uma fita. Com a testa descoberta afigurava-se muito jovem, quase uma menina — uma criança devorada de ansiedade, roída por alguma preocupação secreta.
O que surpreendeu Heyst foi o fato de não aparecer Wang. O chinês materializava-se sempre no momento preciso de servir a mesa, nem um segundo mais tarde ou mais cedo. Desta vez não se verificava o milagre costumeiro. Que significava isto? Heyst deu um grito, coisa que não gostava de fazer. A resposta veio logo, de fora:
— Ada tuan!
Apoiada sobre o cotovelo, com os olhos no prato, Lena parecia não ter ouvido nada. Quando Wang entrou com a bandeja os seus olhos estreitos, inclinados para dentro pela saliência dos malares, não deixaram um só instante de observá-la furtivamente. Nenhum dos dois lhe prestou a menor atenção, e ele retirou-se sem lhes ouvir trocar uma única palavra. Foi para a varanda dos fundos e pôs-se de cócoras. Seu espírito de chinês, muito lúcido mas de curto alcance, era moldado pela simples razão das coisas, tal como ela lhe aparecia à luz do seu simples instinto de conservação, sem a interferência de ideias românticas de honra ou delicadezas de consciência. Suas mãos amarelas, levemente entrecruzadas, pendiam-lhe molemente entre os joelhos. Os túmulos dos antepassados de Wang estavam muito longe; perdera os pais, seu irmão mais velho era soldado no yamen de algum mandarim, lá por Formosa. Ninguém, naquelas redondezas, tinha direito à sua veneração ou à sua obediência. Havia anos que vagava sem descanso, sempre a trabalhar. O único laço que o prendia ao mundo era a mulher alfuro, em troca da qual cedera uma parte considerável dos seus haveres acumulados com grande fadiga. Em boa consciência, não tinha deveres senão para consigo mesmo.
À luta atrás da cortina agourava mal para o Número Um, a quem o chinês não tinha afeição nem antipatia. A ocorrência assustara-o bastante para fazê-lo demorar-se com a cafeteira até ser chamado pelo Número Um. Wang entrou cheio de curiosidade. A mulher branca tinha realmente a aparência de quem estivera a lutar com um espírito, que conseguira tirar-lhe metade do sangue antes de a soltar. Quanto ao homem, havia muito tempo que Wang o considerava como de certo modo enfeitiçado. Agora, porem, estava perdido. O chinês ouviu as vozes dos dois na sala. Heyst insistia com a moça para que fosse deitar-se de novo. Estava extremamente preocupado. Ela não comera nada.
— É o melhor que tens a fazer. Realmente, devi as deitar-te!
Lena não lhe dava ouvidos. De quando em quando sacudia a cabeça num gesto negativo, como se nada lhe pudesse fazer bem. Mas Heyst teimava. Ela viu a admiração que começava a transparecer nos seus olhos, e subitamente cedeu.
— Talvez seja mesmo bom.
Não queria despertar-lhe o assombro, que passaria logo à suspeita. Ele não devia suspeitar!
Junto com a consciência do seu amor por esse homem, já tinha nascido nela uma inata desconfiança ante a masculinidade, dessa sedutora força aliada a uma esquivança delicada e absurda ante a crua necessidade dos fatos, que jamais atemorizou uma mulher digna deste nome. Não tinha plano algum, mas com o espírito um pouco apaziguado pelo próprio esforço de manter, no interesse dele, a compostura exterior, compreendeu que o seu procedimento havia garantido, em todo caso, um breve período de tréguas. Talvez pela semelhança de suas origens miseráveis, entre escórias humanos, compreendia perfeitamente a Ricardo. Ele se conservaria algum tempo sossegado. Nesta certeza, que momentaneamente tranquilizava os seus temores, fez-se sentir a fadiga do seu corpo, tanto mais acabrunhadora por provir do inesperado do esforço que tivera de dispender, mais que da nua intensidade. Tentaria vencer essa fadiga, por simples instinto de resistência, se não fossem os rogos e ordens alternados de Heyst. Ante essa insistência eminentemente masculina ela sentiu a feminina necessidade de ceder, a doçura da capitulação.
— Farei tudo o que desejar — disse.
Ao se levantar, notou surpresa a onda de fraqueza lânguida que a invadira, abraçando-a e envolvendo-a como água tépida, e fazendo em seus ouvidos o som do mar quebrando na areia.
— Preciso de sua ajuda — acrescentou logo.
Heyst passou o braço pela cintura dela (o que nada tinha de novo), e ela sentiu uma satisfação especial em ser assim amparada. Abandonou todo o peso do corpo àquela pressão envolvente e protetora, enquanto um frêmito a percorria toda à ideia súbita de que era ela quem teria de protegê-lo, defender um homem forte o bastante para erguê-la do chão, como naquele mesmo instante ele fazia com os dois braços. Foi exatamente o que Heyst fez assim que transpuseram a porta do quarto. Achou mais rápido e mais simples carregá-la na última parte do trajeto. Estava, na verdade, ansioso demais para sentir o peso dela. Ergueu-a bem alto e depositou-a na cama, como quem deita uma criança de lado num berço. Sentou-se depois na beira, ocultando sua ansiedade sob um sorriso que não encontrou resposta na imobilidade sonhadora dos olhos dela. Mas Lena procurou sua mão, agarrou-a com avidez, e, enquanto a apertava com todas as forças que lhe restavam, o sono colheu-a do súbito, irresistivelmente, como costuma assaltar uma criança deitada num berço, com os lábios postos para uma palavra serena de carinho que ela não teve tempo de pronunciar.
Pairava sobre Samburan o silêncio esbraseado de sempre.
— Que novo mistério será este? — murmurou Heyst de si para si, contemplando-lhe a modorra profunda.
Tão profundo era esse sono encantado, que procurando, pouco depois, abrir-lhe os dedos suavemente para desprender a sua mão, ele conseguiu fazê-lo sem provocar na adormecida o mais ligeiro movimento.
— A explicação há de ser muito simples, sem dúvida — pensou enquanto se retirava para a sala, pé ante pé.
Tirou distraidamente um livro do alto da estante e sentou-se para ler. Mesmo depois de abri-lo sobre os joelhos, porém, e de fitar as páginas durante algum tempo, não saberia dizer de que tratava.
Seus olhos imóveis não largavam aquelas linhas cerradas e paralelas. Só recobrou o domínio completo das suas faculdades quando, ao alçar os olhos sem nenhum motivo especial, viu Wang que se postara imóvel no outro lado da mesa.
— Ah, sim — disse ele, como quem se lembra repentinamente de um compromisso esquecido e pouco agradável.
Depois de esperar um pouco, fez um esforço e perguntou com relutante curiosidade ao silencioso Wang o que lhe queria dizer. Pressentia que o caso do revólver desaparecido acabaria por vir à baila, mas os sons guturais emitidos pelo chinês não tinham relação com esse delicado assunto. Ele só falava em xícaras, pires, pratos, facas e garfos. Tudo isso fora guardado em seu lugar, nos armários que se achavam na varanda dos fundos, perfeitamente limpo, “tudo dileito”. Heyst admirou-se destes escrúpulos num homem que se dispunha a abandoná-lo; pois não se surpreendeu quando ouviu Wang concluir o seu relatório com estas palavras:
— Mim vai embola.
— Oh, você vai embora? —disse Heyst, reclinando-se na cadeira com o livro nos joelhos.
— Sim. Mim não gosta. Um homem, dois homem, três homem... não pode faz! Mim vai embola.
— Que foi que o assustou assim? — perguntou Heyst, em cujo espírito lampejou a esperança de obter algum esclarecimento dessa criatura tão diferente dele, e cujos contatos com o mundo eram simples e diretos, coisa de que o seu espírito era incapaz. — Por quê? — prosseguiu. — Você está Acostumado com os brancos. Conhece-os bem.
— Sim. Mim sabe — confirmou Wang com expressão inescrutável. — Mim sabe bastante.
Tudo que ele conhecia, na realidade, era a sua decisão, Resolvera fugir, com a mulher alfuro, das relações imprevisíveis que iam estabelecer-se entre aqueles brancos. Pedro fora o primeiro a despertar as suspeitas e o temor de Wang. O chinês tinha visto selvagens. Remontara, na comitiva de um mascate chinês, um ou dois rios de Bornéu até o país dos daiaques. Também estivera no interior de Mindanau, onde Axkte gente que vive nas árvores — selvagens, verdadeiros animais. Mas um animal peludo como Pedro, com as suas grandes presas e os seus grunhidos ferozes, ficava completamente fora da sua concepção de um ser humano. A impressão profunda que lhe deixara o colombiano fora o primeiro incentivo para roubar o revólver. As reflexões gerais sobre a situação e a insegurança do Número Um vieram depois, quando ele já se havia apossado da arma e da caixa de cartuchos que estavam na gaveta da mesa, na sala.
— Então você sabe bastante a respeito dos brancos — continuou Heyst em tom levemente brincalhão, após refletir silenciosamente por algum tempo e convencer-se de que seria impossível reaver o revólver, quer pela persuasão quer pelo emprego da força. — Você fala assim, mas tem medo desses brancos que estão aí!
— Mim não tem medo — protestou Wang em voz rouca, empinando a cabeça, gesto que retesou os músculos da sua garganta e lhe deu uma aparência mais ansiosa que nunca. — Mim não gosta — acrescentou em tom mais tranquilo. — Mim muito doente.
Levou a mão ao estômago.
— Isso — disse Heyst, sereno e positivo — é uma linda mentira. É assim que um homem fala? E além do mais você roubou o meu revólver!
Resolvera subitamente falar na arma, porque esta franqueza não poderia tornar a situação pior do que já era. Nem um instante supôs que Wang tivesse o revólver consigo. Depois de ponderar sobre o assunto, chegara à conclusão de que o chinês nunca tencionara fazer uso da arma contra ele. Após um ligeiro sobressalto (pois a acusação direta o havia colhido de improviso) Wang abriu violentamente os panos da sua jaqueta, numa demonstração convulsiva de indignação.
— Mim não tem! Pode vê! — exclamou com uma cólera fingida.
Deu uma palmada enérgica no peito nu. Pôs à mostra as próprias costelas, que a virtude ultrajada fazia arquejar. Seu ventre liso rebojava de indignação. Sacudiu a larga calça azul em volta das pernas amarelas. Heyst observava-o tranquilamente.
— Eu não disse que você o tinha consigo — tornou ele sem altear a voz. — Mas o revólver desapareceu do lugar onde eu o tinha guardado.
— Mim não sabe levólvel — replicou Wang, obstinado.
O livro que jazia aberto sobre os joelhos de Heyst escorregou de repente para o chão, e ele fez um movimento brusco para apanhá-lo. Wang, a quem a mesa impedia de ver a razão desse movimento, tomou-o por um sintoma ameaçador e deu um salto para trás. Quando Heyst ergueu os olhos o chinês já estava à porta, com o rosto voltado para dentro, sem medo mas em guarda.
— Que foi? — perguntou Heyst.
Wang sacudiu significativamente a cabeça raspada para a cortina que tapava a porta da alcova.
— Mim não gosta — repetiu.
— Que diabo quer você dizer? — perguntou Heyst, presa de autêntico assombro. — Não gosta de quê?
Wang apontou para as dobras imóveis do pano um dedo comprido, de um amarelo citrino.
— Dois — disse ele.
— Dois o quê? Não compreendo,
— Se sinhô sabe, sinhô não gosta disso. Mim sabe bastante. Mim vai embola.
Heyst tinha-se levantado da cadeira, mas Wang conservou-se por algum tempo ainda no mesmo lugar, à porta. Seus olhos amêndoa dos emprestavam-lhe ao rosto uma expressão de melancolia suave e sentimental. Os músculos da sua garganta moveram-se perceptivelmente quando ele disse um “adeus” distinto e gutural, desaparecendo logo após da vista do Número Um.
O afastamento do chinês modificava a situação. Heyst refletiu sobre o que seria preferível fazer em face desse fato. Hesitou longo tempo; afinal, encolhendo os ombros com expressão fatigada, caiu para a varanda, desceu os degraus e prosseguiu com passos firmes e semblante pensativo na direção do bangalô dos seus hóspedes. Queria fazer-lhes uma participação importante. Não tinha outro objetivo — e menos que tudo o de lhes dar um choque visitando-os de surpresa Entretanto, como o agreste criado não se achava de sentinela, quis a sorte que Heyst fosse surpreender Mr. Jones e seu secretário com o seu súbito aparecimento à porta. A conversa dos dois devia ser muito interessante, para que não houvessem sentido a aproximação do visitante. Heyst os viu separarem-se bruscamente no quarto escuro — pois traziam os postigos sempre fechados por causa do calor. Foi Mr. Jones quem falou:
— Ah, cá está o senhor de novo! Entre, entre!
Tirando o chapéu à porta, Heyst entrou no quarto.